3. Context of the Study area
3.2 Historical Context
Últimos abencerragens de um mundo ao mesmo tempo maravilhoso e adverso, que os descendentes se negavam a continuar (…)
(Torga, 1981 :149)
Quero o que não posso obter com palavras: o absoluto.
(Torga, 1999: 898)
O povo que emerge dos seus contos portentosos é um misto do melhor e do pior que o bicho homem até agora congeminou.
(Lisboa, 2007a: 36)
É neste micro mundo, circunscrito quase exclusivamente ao espaço da freguesia, que a população de S. Martinho encontrava, tal como os pais de Torga, o «centro físico e metafísico» (Torga, 1981: 24). E é este centro que Torga nos apresenta exaustivamente através da magia das suas palavras.
No prefácio aos Novos Contos da Montanha, o escritor diz:
Na tua ideia, o que escrevo, como por exemplo estas histórias, é para te regalar e, se possível for, comover. Mas quero que saibas que ousei partir desse regalo e dessa comoção para te responsabilizar na salvação da casa que, por arder, te deslumbra os sentidos. (Torga, 1991a: 9)
O Orfeu Rebelde, directa e indirectamente, responsabiliza muitas vezes os seus leitores. Esta, talvez, uma das razões por que muitas pessoas fogem à leitura da obra torguiana - pensam que ele somente nos exige esforço e sacrifício, e esquecem-se que também nos responsabilizava por não tirarmos mais partido do lado lúdico da vida. Em Maio de 1946, escreveu, no Diário: «No seu sentido mais profundo, a vida é bela e alegre (…) apegados como estamos à aparência de tudo, esquecemos a voz do profundo, e ouvimos deliciados o som da superfície. Temos o vício da tristeza.» (Torga, 1999: 344)
Laborinho Lúcio, no seu livro Educação, Arte e Cidadania, afirma, depois de chamar a atenção para a complexidade da educação, que «para educar uma criança é precisa toda uma aldeia!» (Lúcio, 2008: 25). E a aldeia da infância de Adolfo Rocha desempenhou exemplarmente as funções de Comunidade Educativa. Ela tinha quanto baste de pessoas (onde não faltavam muitas crianças), de actividades profissionais e de organização. Os exemplos dados por esta Comunidade Educativa ao jovem Adolfo e, mais tarde, ao escritor Miguel Torga, foram de uma diversidade e profundidade enormes e estão magistralmente descritos em muitos dos seus Contos, n’A Criação do Mundo -1º Dia, na peça de teatro Terra Firme e em muitas entradas do Diário.
Um provérbio chinês assegura-nos que «Estudar na solidão das montanhas vale menos que ficar nas encruzilhadas dos caminhos e ouvir as palavras dos Homens.» (Letria, 2001: 54). Nós acrescentaríamos: e observar os seus comportamentos.
E de tudo o que ouviu e observou, o que terá empolgado e desesperado mais Miguel Torga?
Os absolutos negativos estão nas muitas situações que levam ao suicídio (contos «Solidão», «Vinho», «Repouso» e «Milagre»), ao crime (contos «Amor», «O Cavaquinho» «O Alma Grande», «O Leproso», «O Lopo», «A Confissão» e «Teia de Aranha») e à violência extrema («A Ressurreição», «A Promessa», «A Paga», «A Revelação», «Madalena» e «Névoa»). Parece-nos que o lado «mais infinito» (Gedeão)
aparece menos vezes. A vida para lá do Marão era, na primeira metade do século passado, demasiadamente dura. (Talvez fosse essa uma das razões por que o poeta buscava desesperadamente uma compensação na poesia e na religião
descomprometida.) Repare-se no que o autor do conto «O Leproso» nos diz sobre a vida
dos montanheses:
Eram todos amigos, daquela amizade possível entre gente rude e sacrificada, sem licença para aventuras intensas do coração e do entendimento. Escravos de uma terra hostil e de uma sociedade hostil, simples e toscos instrumentos de produção nas mãos injustas da vida (…) (Torga 1991a: 67).
Mas, pensamos que ainda mais esclarecedoras da miséria extrema da esmagadora maioria da população da Montanha são três passagens muito sucintas de três obras do «cronista de um mundo que nem me pode ler.» (Torga, 1991a: 9)
- «Se eu andasse como estes garotos a roer leitugas pelas valetas, teria olhos para contemplar por um momento sequer aqueles cumes maravilhosos?» (Torga, 1999: 347) - «Pelas frinchas da casa o vento ia dando punhaladas traiçoeiras.» (Torga, 1987: 61) - «As otites e os panarícios rebentavam por si, ao cabo de uivos que faziam estremecer o granito das casas.» (Torga, 1970: 108)
Os exemplos de amor estão particularmente próximos de Torga com as pessoas do «solar de família», mas o contista soube observar e descrever muitas outras espantosas manifestações de afecto, que lhe permitiram escrever: «A Maria Lionça», «Jesus», «Um filho», «Fronteira», «Renovo», «O Artilheiro» e «O Senhor».
Em «Um filho», Rebel (o pastor que cheirava «a urzes» e que tinha «ar de lobo» (Torga, 1987: 72) diz, em dois contextos distintos, à sua jovem mulher (Júlia): «Nem há riqueza como a nossa, ó Júlia!» (Torga, 1987: 72, 80). E a riqueza do Rebel e da Júlia consistia em três tesouros que o autor de Cântico do Homem considerava fundamentais para que a vida seja empolgante: a montanha, com fragas, ar, neve, gado, urzes e craveiros; uma casa que, graças ao amor, ao trabalho e à higiene, pareça «O Palácio da Ilusão» (Torga, 1987: 72); e, por último, um filho (a notícia que Júlia dá ao marido, de que ia ser pai, leva-o a encher «tanto o peito de ar, que parecia que engolia o mundo.» (Torga, 1987: 75)
Em «Fronteira», terra de contrabando, o amor do guarda fiscal Robalo (recém chegado a Fronteira) pela namorada contrabandista (Isabel) e, principalmente, pelo filho de ambos, leva o Robalo a abandonar as suas convicções de zeloso guarda fiscal, passando a aderir à «lei da terra» (Torga, 1991a: 36). Neste conto, Torga, mais uma vez, reforça a sua convicção de que o rosto eterno das pessoas tem sempre ternura: «o coração dos homens, por mais duro que seja, tem sempre um ponto fraco por onde lhe entra a ternura.» (Torga, 1991a: 30).
« - Sei um ninho!» (diz o menino «Jesus», que seria, certamente, um dos muitos meninos Jesus que Torga conheceu, mas que ficaram anónimos). Este pequeno-gigante conto de «Bichos» (tem três páginas) junta magistralmente o amor materno («A Mãe bebia as palavras do filho, a beijá-lo todo com a luz da alma.»), ao contacto com a natureza (ovelha, pintassilgo, cedro) e com objectos etnográficos (roca e fuso de linho) e ao milagre do nascimento: «ao simples calor da sua boca, a casca estalara ao meio e nascera lá de dentro um pintassilgo depenadinho.» (Torga, 1995b: 81-3).
O exemplo da coragem do amor é-nos dado no conto «O Artilheiro». O Artilheiro (Carlos Pinto) era, na opinião de Guiomar, um «meio-alqueire» e ela dizia que «quando casar , há-de ser com um homem que me aqueça os pés» (Torga, 1991a: 176) . Mas o «meio-alqueire», na primeira ocasião que encontrou, com a sua paixão e «força sem dispersão, rápida, concêntrica e desfibrada» (Torga, 1991a: 178), «em vez de lhe aquecer os pés, aqueceu-lhe o corpo inteiro» (Torga, 1991a: 177). E, desta forma, a coragem do amor dos dois foi suficiente para enfrentarem as primeiras palavras que Adriano dirigiu àquele que em breve seria seu genro: «Ó meu excomungado! Meu ladrão, que te bebo o sangue!» (Torga, 1991a: 181).
O oposto desta coragem do amor encontramo-lo no conto «Destinos», de Novos Contos
da Montanha. O personagem sem nome (é referido por «ó Coiso» e «o coitado») era
«uma natureza tímida, incapaz de um acto rasgado e levado ao fim.» (Torga 1991a: 86) e desta forma nunca conseguiu manifestar à Natália o amor que lhe tinha. Depois do casamento da Natália com uma segunda opção (o João Neca) «o coitado (…) parecia viver de alma viúva.» (Torga, 1991a: 87-8).
Depois do amor, o exemplo positivo que certamente se impunha com mais força a Torga era o do sentimento telúrico. São raros os Contos passados na Montanha que não possuem um riquíssimo léxico telúrico (e etnográfico). E essa profunda ligação à terra caracterizava-se por duas especificidades aparentemente antagónicas: um individualismo feroz, mas, ao mesmo tempo, um intenso socialismo fraterno (ver Torga, 1987: 192) que, entre outras manifestações, se caracterizava por uma profunda e diversificada entreajuda nas actividades agrícolas.
Torga diz-nos que quem não ficasse na sua freguesia e não se dedicasse com paixão às courelas era um proscrito. (ver Torga, 1987: 21-2). E aprofunda esta ideia em Terra
Firme quando «Tia Guilhermina» ao tentar mostrar ao marido que se ele não vendesse
uma terras para as quais havia comprador muito interessado, o filho, depois da morte dos pais poderia vendê-las. A resposta do «Tio António» é concludente: «Voltava cá a este mundo! Se o que é meu fosse parar à mão de estranhos, nem a terra me comia!» (Torga, 1977: 47)
Adolfo Rocha, que se apaixonou pelo mar em Leça (quando o viu pela primeira vez – contava 10/11 anos) não era um genuíno representante da Montanha, pois esta desprezava os seus filhos que optassem por uma actividade no alto mar. Entre uma vida no mar ou no Brasil, antes viver no noutro lado do Atlântico, porque, ao menos aí, estava-se num «chão que fazia parte da cosmogonia de Galafura.» (Torga, 1987: 21/22) Em «O Senhor» encontramos outra espantosa descrição da forma como os homens do «Reino Maravilhoso» sentiam a terra:
O engate da aiveca saltava no pé da vara, a relha mudava de direcção, e a terra abria-se noutro golpe fresco, odoroso e largo.
- Que tal está ela? – perguntava o Raboto, o último da povoação a semear. - Boa!
E as narinas do da rabiça alargavam-se numa luxúria casta, de bicho a cheirar o ninho. (Torga, 1991a: 225)
Sabedoria Popular
Na aldeia da ficção torguiana há essencialmente cinco pessoas sábias: o pai, Ti António de Terra Firme, o Caçador (do conto com o mesmo nome), o Firmo de «Homens de Vilarinho» e o senhor Botelho.
Em relação ao pai, refira-se uma passagem d’A Criação do Mundo – O sexto Dia, já citada: «Lia nos astros melhor do que eu nos livros. Movia-se no mundo na paz de quem o entendia de todas as maneiras.» (p. 30)
O Ti António é a figura central de uma obra torguiana pouco referida (Terra Firme), mas, em nossa opinião, muitíssimo valiosa para a compreensão da realidade das aldeias transmontanas da primeira metade do século XX: o significado da posse da terra, as relações de vizinhança, as classes sociais, a condição feminina, as festas comunitárias e a filosofia de algumas das suas figuras mais destacadas.
Repare-se nas sínteses «perfeitas e penetrantes» de ti António sobre assuntos capitais: - o destino: «O destino talha-o cada qual por suas mãos, conforme quer.» (p. 28)
Torga diria exactamente o mesmo num contexto erudito e em toada heróica em Poemas
Ibéricos: «Somos nós que fazemos o destino./ Chegar à Índia ou não/ É um íntimo
desígnio da vontade.» (p. 44)
- a verdade: «Somos feitos desta maneira… O que nos interessa, tem de ser verdadeiro, à força! Desde que uma pessoa queira a valer seja o que for, não há voltas a dar-lhe: lê branco onde diz preto.» (p. 68)
- a crítica e a auto-crítica: «Todos temos defeitos. E às vezes aqueles que se julgam mais limpos é que estão mais emboldregados…Não. Ninguém tem o direito de escarnecer do semelhante, seja ele quem for. E muito menos com a cara tapada…» (p. 76) (Isto é afirmado no contexto da festa do Entrudo, em que os jovens transmontanos se apresentam de máscara.)
- a análise psicológica: «O Entrudo… A confissão geral do povo…». E os exemplos espantosos que nos dá, levam-no à exclamação: «Entenda a gente este andamento do mundo!» (p. 75)
[E, na mesma obra (Terra Firme), a Tia Guilhermina refere-se à alegria, nos seguintes termos: «A alegria é meio alimento.» (p. 39)]
Tafona, um veterano de oitenta anos (e que já tanto nos ajudou a compreender o Torga caçador), entendia o mundo quase tão bem quanto o pai de Torga. Vivia acima das
intrigas da aldeia. Mas uma das suas mais interessantes características residia na forma despreconceituada com que encarava a sexualidade:
Infelizmente, só ele é que entendia de uma maneira assim inocente as coisas que tinham intimidade de ninho e calor de seiva. Porque a aldeia, que olhava compreensivamente as reses alevantadas, diante de uma rapariga cega de amores erguia-se como se visse um crime. (Torga, 1991a: 59)
Travassos, o melhor representante desta atitude preconceituosa da aldeia, ao tentar impedir um encontro na vinha, com «intimidade de ninho e calor de seiva», entre a Matilde e o Avelino, deparou-se com o Ti Tafona que, apontando-lhe a arma ao peito lhe disse: « Alto, e nem tugir nem mugir! Aquelas coisas querem-se na paz do Senhor…» (Torga, 1991a: 63)
Até onde terá esta postura do Caçador ajudado o autor de Odes e de Nihil Sibi a escrever:
A VÉNUS (…)
Vem, grega sabedoria dos sentidos! Sem pecado e sem vício, mostra erguidos Os instintos, a forma e a paixão!
Filha de artistas e da natureza, (Torga, 1977a: 56) e
CÂNTICO DE AMOR CARNAL (…)
Morto de amor, no espasmo, Virás depois à tona acrescentado.
O corpo, no clarão, purificado; O espírito coberto doutro manto! (Torga, 1975: 47)
Firmo, de «Homens de Vilarinho», é também um sábio. Amante da «vastidão do mundo», tem uma total compreensão pelo amor «absoluto» do padre João à freguesia e à casa/lar. Diz-lhe o padre:
«Eu, fora cá da minha freguesia, nem latim sei.». E, mais adiante: «Eu vou à Vila, ando por lá a dar as voltas precisas, e às duas por três tenho fome. Entro no Gaitas e como uma malga de tripas. Pois acredita que nem as tripas me sabem. Há lá nada como a nossa casa! (…)
Firmo calou-se. O amor daquele homem à terra era tão absoluto como o seu próprio amor à vastidão do mundo. Para quê discutir?» (Torga, 1987: 48, 54).
A escola de S. Martinho (leia-se, o mestre – senhor Botelho), apesar de possuir vários defeitos [como «A mestra palmatória» (Torga, 1986a: 7)], ensinou ao jovem Adolfo Rocha muitas coisas importantes:
- ler e escrever exemplarmente: «Quarta classe extraordinária» (Torga, 1994a: 81); - «os caminhos da pátria» (Torga, 1981: 165);
- «o alto significado da festa da árvore» : «Ó escolas, semeai!... (…) E ouvíamos a prelecção patriótica com ar compenetrado. Íamos ser em breve os obreiros do futuro, a esperança em marcha, os homens de amanhã. Tudo no acto simples de aconchegar uma raíz à terra…» (Torga, 1999: 18).
E, referindo-se à sabedoria do povo em geral, o autor dos Contas da Montanha diz: «É escusado. Por mais que leia e releia, nada consigo aprender com a sabedoria dos sábios que o povo já não tenha plasmado num rifão.» (Torga, 1999: 1563)
Já trinta e dois anos antes o escritor transmontano tinha escrito sobre os rifões em Traço
de União («Trás-os-Montes no Brasil»): Foram precisas muitas gerações, muitos
séculos de logro e de desilusão, para chegar a sínteses tão perfeitas e penetrantes», onde há sempre «densidade do conteúdo, finura de observação, perspicácia psicológica, originalidade metafórica» e não raras vezes «sarcasmo impiedoso e complacente ironia» (Torga, 1969: 62).
Parece-nos que Torga só algumas vezes podia acreditar na afirmação «nada consigo aprender com a sabedoria dos sábios que o povo já não tenha plasmado num rifão». Caso contrário, como explicar que até ao fim da vida fosse um insaciável leitor da literatura erudita? De qualquer forma, estas afirmações que acabámos de citar revelam bem a extraordinária importância atribuída por Torga à sabedoria popular.
Registemos outra discordância com Torga. Parece-nos incorrecto atribuir a autoria dos rifões ao povo em geral. Os rifões, em Portugal ou em qualquer outro país, foram seguramente elaborados por uma elite intelectual popular; por pessoas como o pai de Torga, o «Ti António» e o «Tafona».
Mas os sábios encontravam-se também entre os bichos. É o caso de «Bambo», que ensinou ao Tio Arruda «a ciência da vida», isto é, que «as noites» não são «escuridão apenas». O milagre dos transes da transmutação germinativa que ocorrem «no coração da noite» (Torga, 1995: 63-66) vamos também encontrar nas noites (muitas vezes repletas de insónias) de Torga, como veremos no capítulo sobre Coimbra. São estas lições de Bambo que ajudam o «Tio Arruda» (e Torga, também) a evadirem-se da prisão do «útil» e do «bom senso» e a libertarem-se «do interesse gregário que procura a mera sobrevivência». (Ferreira, 2007: 33)
E entre as plantas também há mestres. É o caso do Negrilho: «Na terra onde nasci há um só poeta./ (…) Esse poeta és tu, mestre da inquietação/Serena!» (Torga, 1999: 743) E no reino mineral há, igualmente, mestres. Veja-se o caso, já citado aquando falámos da Natureza, das fragas: «Sempre que, prestes a sucumbir ao morbo do desalento, toco uma destas fragas, todas as energias perdidas começam de novo a correr-me nas veias. É como se recebesse instantaneamente uma transfusão de seiva.» (Torga, 1999: 1145)
O estoicismo de muitas pessoas de S. Martinho é outro absoluto para o poeta admirador de Séneca. Pensamos que tal como Maria Lionça, Torga quis ter um sofrimento «levado aos confins do possível», porque não queria ficar desenraizado «do torrão nativo» (Torga, 1987: 17), pois só assim poderia dar um importante contributo para a «salvação da casa» (Torga, 1991: 9).
Maria Lionça também nos ensina que na vida, aconteça o que acontecer, há que manter a «regularidade do fio» (Torga, 1987: 21); ele está perto de nós e quase só depende de nós próprios.
Consideramos oportuno colocar, neste momento, a seguinte questão: qual seria o fio que Torga precisava de manter com enorme regularidade e que estava ao seu alcance? Parece-nos que Torga utilizava três fios, imprescindíveis para o seu equilíbrio: a medicina, a escrita e a ruralidade (tratar da sua horta e jardim, e caçar).
Outro espantoso exemplo de estoicismo que Torga encontra na Montanha é o de Felisberta, protagonista de «Renovo». Pedro, o filho, fora também apanhado pela epidemia que diariamente devorava a vida de várias pessoas da freguesia. Mas
Felisberta - «sem homem, sem filhas, sem netos, cheia de lágrimas, de dívidas, e cansada até à última fibra do coração» (Torga, 1991a: 143) – conseguiu manter viva a esperança de Pedro, que desta forma venceu a morte.
Estoicismo, também comovente, é o da protagonista do conto «O desamparo de S. Frutuoso», que nem direito a nome tinha, nem tão pouco a alcunha. Esta mulher, que «mal se poderia considerar uma pessoa humana», cegara de uma vista, e num seio «um caroço cada vez crescia mais» (Torga, 1987: 201). No início de ambas as doenças pedira protecção a S. Frutuoso, mas sempre em vão. Contudo, talvez porque acreditava «que há-de haver uma lei que nos governe» (Torga, 1987: 205), nunca desesperou e foi a única pessoa da terra com disponibilidade para proteger a imagem do santo, vítima de chuvas ininterruptas durante quatro meses.
O sofrimento para além dos «confins do possível» (Torga, 1987: 17)
Nos contos «Solidão», «Vinho», «Repouso» e «Milagre» o sofrimento é levado além «dos confins do possível».
O solitário Duro, do conto «Solidão», enforca-se, no dia de Natal, «na trave da loja onde o Luciano, bêbado, lhe secara na alma a razão de viver» (Torga, 1987: 137) com a informação de que a mulher não lhe era fiel.
O problema do alcoolismo entre os homens da Montanha foi, por razões óbvias, outra das grandes preocupações de Torga. No conto «O Vinho», o protagonista, Abel, morre/suicida-se em consequência dum incêndio que ele próprio provocou, mas sem deixar de sentir uma enorme culpa (ver Torga, 1987: 151) e «incómodo» por não estar a ser «fiel à dignidade da espécie». (Torga, 1987: 152)
O Lomba (do conto «Repouso») que, para quem soubesse olhá-lo, tinha «uma humanidade estuante, larga, generosa» (Torga, 1991a: 44), despeja «a pistola no céu da boca» depois de compreender que os adultos que conhecia, e que o temiam porque não o compreendiam, eram crianças frágeis e egocêntricas, e que havia um «garoto» de nove anos que tinha «vontade», (Torga, 1991a: 50) que sonhava e que não se deixava intimidar.
E a Raquel (do conto «O Milagre»), «Humilhada no que havia de mais profundo na sua condição de mulher» (o desejo de ser mãe) (Torga, 1991a: 162), suicida-se, lançando-se dum despenhadeiro, após anos num «íngreme calvário» psíquico «subido entre noites negras de demência e dias claros de incerteza.» (Torga, 1991a: 172) Alcançou, graças ao suicídio, a paz possível dos que sofrem para além dos «confins do possível» (Torga, 1987:17); e deixou o seu marido (Pedro), que presenciou o acto, nas mãos do destino, o qual se servira do coração de Pedro «como dum castiçal, onde fizera arder até ao fim do pavio a vela da ilusão e da esperança.» (Torga, 1991a: 169)
Mortes violentas: «Amor», «O Cavaquinho», «O Alma Grande», «A Confissão»; «O Lopo», «O Leproso», «Teia de Aranha», e «Ramiro».
Matar alguém é sempre um acto absoluto, mas os crimes nos contos «O Alma Grande», «A Confissão» e «Teia de Aranha» são absolutos com uma culpa a que poderíamos chamar de longa duração.
«Amor». A «volúpia de irresponsabilidade» (Torga, 1995b: 43) da Lídia e o amor e machismo do Verdeal e do Lúcio levam a um duplo assassínio.
«O Cavaquinho». O Ronda [«o homem mais pobre de Vilela» (Torga, 1987: 57)] prometeu ao filho (Júlio) uma prenda pelo Natal. «O rapaz ouviu-lhe a jura desconfiado. Apesar dos dez anos, já conhecia a vida. Uma prenda, se nem dinheiro havia para broa!» Mas se a recebesse teria nas mãos «não a malga de caldo habitual, mas qualquer coisa de inesperado e gratuito (…) a irrealidade da riqueza na realidade duma pobreza conhecida de lés a lés.» (Torga, 1987: 59-60). O Ronda cumpriu a promessa, mas o Júlio não chegou a receber a prenda porque o pai, no regresso da feira dos 23, foi morto e «no sítio onde caíra com a facada lá ficara, ao lado dum cavaquinho (…)» (Torga, 1987: 62).
«O Alma Grande», ao longo de vários anos considerou uma «missão sagrada» (Torga, 1991: 20) ser um «abafador». E quando não conseguiu abafar o Isaac, «Atravessou a sala cabisbaixo, longe da majestade trágica das outras vezes. Deixava atrás de si a vida, e a vida não lhe dava grandeza.» (Torga, 1991a: 22). Parece-nos oportuno referir aqui uma passagem do discurso de Torga, na Universidade de Coimbra, aquando do 1º centenário da abolição da pena de morte em Portugal. Matar, diz-nos o poeta-médico, é
«o único gesto absoluto que o homem pode fazer, e não deve nunca fazer». (Torga, 1999: 1116).
«A Confissão» fala-nos da cobardia e maldade de Reinaldo (autor dum crime atribuído