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Após três séculos de acúmulo de imagens distorcidas e de lugares-comuns sobre os indígenas americanos, os viajantes do século XIX puderam final- mente se tornar testemunhos oculares de uma realidade até então encoberta por lendas e mitos199.
Em Goiás, o primeiro contato com os índios aldeados da etnia Coiapó ou Caiapó provoca em Saint-Hilaire uma agradável impressão, pois os encontra com um “air de contentement et de gaîté qu’on ne voit jamais chez les tristes
Goyanais”200, além de louvar-lhes a beleza física:
[...] comme nation, ils se distinguent, particulièrement, par la ron- deur de leur tête, par leur figure ouverte et spirituelle, par leur haute stature, par le peu de divergence de leurs yeux et la teinte foncée de leur peau: les Coyapós sont de beaux Indiens201.
Ao discorrer sobre as diversas tribos indígenas que ocupam o país, o natura- lista explica que, àquele momento, a base para classificação seria os carac- teres exteriores202.
O encontro com os índios Coiapós, como assim os denominava, não sus- cita em Saint-Hilaire dúvidas quanto à questão de “civilizar” ou não os índios, isso não é colocado em pauta, o que ele discute, de acordo com Jeanine Potelet, é a forma de civilização203. O pensamento dos naturalis-
tas viajantes comporta o humanismo, a filantropia e o utilitarismo, mas não deixa de se voltar para as vantagens econômicas que poderiam ad- vir da “civilização” dos silvícolas, as quais são enumeradas por Potelet: “a possibilidade de usar os rios, a de abrir novas vias de comunicação do litoral com o interior e o fornecimento de mão-de-obra que são indis- pensáveis ao progresso material do país ”204.
Em sua visita à aldeia dos Coiapós, S. José de Mossâmedes, nas pro- ximidades de Vila Boa, Saint-Hilaire faria restrições quanto ao regime a que estavam submetidos os índios. O que incomodaria o naturalista seria a forma de governo, pois, ainda que seja a mesma adotada pelos jesuítas, em vez de missionários, em São José, eles seriam dirigidos por homens rudes e mal remunerados, o que provocaria nos índios desejos de fugir para as matas. Outro inconveniente que ressalta são as casas construídas pelos portugueses para abrigá-los – eles se recusariam a
nhão de modo a “civilizá-los”212, o que, na prática, pouco efeito obteve. O Di-
retório foi estendido a toda a colônia em 1758 e retirava da tutela das ordens religiosas todos os aldeamentos que deveriam se converter em vilas e luga- res e adotar a toponímia portuguesa213. Com a construção de aldeamentos
na década de 1770 na província de Goiás, a aplicação do Diretório implicava na transformação do índio em vassalo português, destinado a povoar um ter- ritório como meio de garantir a posse e a soberania, além de atuar no sistema de defesa214.
Fora da vida nas aldeias, Saint-Hilaire atribui os sofrimentos por que passa- vam os primitivos donos da terra aos aventureiros que contra eles cometiam “terríveis crueldades”215. Mas, como acredita que os índios sejam “incapazes
de governar a si próprios”216 e necessitariam de um governo dos brancos,
pondera que, de modo geral, as medidas adotadas de acordo com as prescri- ções do “Diretório dos Índios”, construindo aldeamentos e isolando os índios da sociedade, não obteriam o mesmo sucesso dos jesuítas. Porém, o clero não ficaria imune às críticas sobre a forma de civilizar os índios: viajantes, como Saint-Hilaire, remarcam a corrupção e os vícios – a luxúria, a simonia, a cupidez e a paixão do lucro, como na passagem seguinte:
Et cependant, qu’elle était belle la mission du curé de l’aldea ! Il pou- vait rendre chrétiens ces hommes-enfants si doux et si dociles, les protéger contre leur propre imprévoyance et contre les vexations de leurs surveillants, prolonger leur existence par de bons conseils, les civiliser autant qu’ils sont susceptibles de l’être, devenir pour eux une seconde providence: il faisait du sucre!217
Nessa passagem, o naturalista viajante reflete sobre a importância do traba- lho do clero, se este fosse realizado conforme a missão evangelizadora que lhe era confiada. Em uma nova crítica ao governo dos portugueses, ele per- cebe que o clero, salvo raras exceções, prefere cuidar dos próprios negócios. No momento da viagem de Saint-Hilaire a Goiás (1819), a polêmica sobre a inferioridade da natureza americana ainda estava acesa, tendo de um lado Humboldt, tentando absolver os americanos do terrível estigma, e do outro Hegel, a confirmar a tese buffoniana e depauwniana de degenerescência do continente americano. Como reflexo de seus pensamentos em relação ao ín- dio, o contato com os habitantes da terra provoca no naturalista viajante uma reação contra as teorias de inferioridade da raça americana, propaladas por Buffon e De Pauw, pois acredita que a inferioridade do índio não seria causa- da por algum determinismo biológico. No entanto, não deixa de admitir sua últimos, devido à sua imprevidência, seriam incapazes de atingir o mesmo
grau de civilização dos homens da raça caucásica. Apesar disso, acredita que se deveria inseri-los na sociedade. Seu olhar é paternalista: julga que os índios seriam eternas crianças, sempre necessitando da tutela de um adulto, sob pena de desaparecerem da face da terra206. Acredita que a tutela dos je-
suítas por dois séculos foi altamente benéfica, pois teria impedido a comuni- cação com os portugueses que os corrompiam e os oprimiam, e fez com que eles conhecessem os benefícios da “civilização” minimizando sua “inferiori- dade inata”207. Desse modo, percebe-se que, no julgamento de Saint-Hilaire,
os índios seriam naturalmente inferiores e teriam poucas condições de se integrar a uma sociedade “civilizada”, cujos valores desconheceriam.
Les Coyapós possèdent donc aussi peu que les autres Indiens les qualités nécessaires pour vivre au milieu de notre civilisation toute fondée sur l’idée de l’avenir208.
Jeanine Potelet observa que, para os viajantes, a “civilização” dos índios apresenta duas fases: uma primeira, que consiste na destruição e escraviza- ção dos índios “selvagens” e na exploração dos índios “pacificados”; e uma segunda fase que seria o abandono pela administração portuguesa a que estariam relegados os índios “semi-civilizados” ou “civilizados”. No caso da Aldeia de São José, Saint-Hilaire registra que haveria uma exceção, pois a administração pagava a uma mulata para ensinar as mulheres a fiar e a tecer, a aldeia possuia um moinho, uma maquina de descaroçar o algodão e vinte e quatros fusos209.
Saint-Hilaire vê as medidas de proteção ao índio como meio de torná-los, se- não felizes, ao menos úteis, e aqui aparece de novo a noção de utilidade tão cara ao século XIX. Para Potelet210, os europeus pensam no índio de maneira
contraditória – exploração e proteção – e, por momentos, percebem a im- possibilidade de conciliar o bem estar dos filhos da terra com uma sociedade que se percebe como civilizada e civilizadora. Essa dificuldade adviria da in- capacidade dos índios a serem civilizados ou, como coloca Saint-Hilaire, de civilizá-los “autant du moins qu’ils sont susceptibles de l’être”211.
As medidas protetoras sugeridas pelo naturalista no tratamento com os ín- dios se assemelham àquelas encontradas no “Diretório dos Índios de 1755”. Esse documento, assinado pelo Marquês de Pombal, Sebastião José de Car- valho e Mello, após a expulsão dos jesuítas, foi destinado a estabelecer leis que favorecessem o governo dos nativos na província de Grão-Pará e Mara-
trabalhar na agricultura nos moldes preconizados pela ciência europeia.
On a, me disait le commandant, beaucoup de peine à les faire tra- vailler, et souvent leur apathie les réduit à souffrir de la faim. La culture des terres est un travail de prévoyance, et les Indiens n’en ont point ; leurs dispositions naturelles, qui les portent à vivre au jour le jour, presque comme les animaux, en font nécessairement des chasseurs ou des pêcheurs225.
As características apontadas acima, a imprevidência e a indolência, conforme acredita o naturalista, impediriam que os índios obtivessem o mesmo progres- so que os brancos e, desse modo, sua civilização seria sempre imperfeita226.
Jeanine Potelet observa que, sendo incapaz de ações mais concretas e es- tando de acordo com a proteção e “civilização” dos índios, Saint-Hilaire, as- sim como outros viajantes, propõe paliativos para reparar o mal que o con- tato com o europeu civilizado lhes impôs. E, como última medida, paradoxal, de salvar a raça indígena, propõe a mestiçagem, que se configura, para ele, como garantia de prosperidade e união para a nação.
Ce que je viens de raconter des divers métis voisins du Rio das Velhas prouve que, si j’ai engagé, il y a déjà lon- gtemps, l’administration brésilienne à encourager de tout son pouvoir les alliances légitimes des Indiennes avec des Africains, je ne me suis point permis de le faire sans de va- lables motifs227.
Em seu texto, o naturalista se refere aos conselhos que teria dado ao governo brasileiro para estimular a miscigenação, o que reforça seu discurso propo- sitivo e reformador.
A miscigenação também é recomendada no “Diretório dos Índios”, pois o ma- trimônio interétnico seria um meio de acabar com a distinção entre brancos e índios. Mas, diferentemente do “Diretório”, Saint-Hilaire propõe a miscige- nação entre as “raças” negra e índígena, acreditando que o resultante dessa fusão, os mestiços, poderia resistir “à la supériorité des blancs, qui serait moins en désaccord avec notre état de civilisation”228. Desse modo, sua atitu-
de parece indicar que os índios seriam um obstáculo ao avanço do processo civilizador229.
Por fim, o naturalista aponta o que consideraria uma vitória da conquista eu- ropeia, ao constatar a perda gradativa das terras dos nativos para o colono branco e o paulatino desaparecimento da cultura indígena, seja pela misci- inferioridade, atribuindo-a ao tipo de vida que levava nas selvas118. Para o
botânico, o sílvicola aparece em seu aspecto humano, diferente do europeu, mas com características que lhe investem de relações complexas incenti- vadas pelo conflito do encontro de duas civilizações em estágios diferentes, “a sua própria, que ainda não passou do estágio da colheita e a civilização tecnicista que o Branco quer lhe impor”119.
Em seu esforço para enxergar os indígenas como seres humanos e confe- rir-lhes dignidade, Saint-Hilaire faz uma crítica aos padrões de julgamen- to de Pohl, quando comenta que o colega, ao avistar os Coiapós, achou-os feios. No entanto, ele argumenta que, por serem os primeiros índios que ele via, julgou-os pelo padrão da raça caucásica220, que seria considerado por
ele o parâmetro para julgamentos estéticos. Em outra passagem, o cientista dá mostras de sua visão etnocêntrica, pois acredita que os índios vivessem eternamente o tempo presente, o que lhes impediria de se entrosar na civili- zação branca, “totalmente voltada para o futuro”221, e prevê seu futuro exter-
mínio pela “nossa raça previdente e usurpadora”222. Isso demonstra que não
se furta de também criticar os brancos. Desse modo, a imagem que ele faz dos índios é que, no estado selvagem, sua existência seria puramente animal e, em contato com os brancos e sua religião, eles poderiam desfrutar de “al- gumas das amenidades da civilização”223.
Les notions de christianisme que les Coyapós reçoivent chez les Portugais, toutes faibles qu’elles sont, les élèvent réellement be- aucoup au-dessus de leurs compatriotes encore sauvages dont l’existence est purement animale; ces derniers sont plus libres peut-être, mais les autres goûtent quelques-unes des douceurs de la civilisation, leur nourriture est assurée et ils ne sont point expo- sés à toutes les intempéries des saisons. Avec des hommes tels que ceux qui civilisèrent les Indiens de la côte, les Coyapós de S. José eussent été parfaitement heureux.224
Na passagem acima, pode se perceber que ele compara a existência dos ín- dios pacificados com aqueles ainda em estado selvagem. A vida dos primei- ros seria mais amena em detrimento da perda da liberdade que representava o viver em aldeia. Pondera que o governo de homens (jesuítas) que civiliza- ram os índios da costa faria com que os Coiapós fossem felizes. Porém, essa felicidade não indicaria um estágio de civilização semelhante ao branco, que julga impossível.
Outro obstáculo que Saint-Hilaire observa nos indígenas como impeditivo para civilizá-los é a indolência que, junto à imprevidência, os impediria de
A partir de meados da década de 1990, o estigma da decadência de Goiás tem encontrado relativizações emanadas do pensamento de historiadores con- temporâneos, tais como Paulo Bertran233, Nasr Chaul234 e Ledonias Franco Gar-
cia235. Segundo Chaul, essas representações teriam tido origem no “isolamento
da província, na visão europeizante dos estrangeiros que vieram a Goiás e na ilusão daquilo que pensavam ter existido na sociedade mineradora (o fausto e a riqueza)”236. E é justamente a partir da constatação de que tal luxo e esplendor
não teriam de fato existido, que Chaul se vale para constatar que havia muito pouca diferença entre a sociedade mineradora e a fase agropecuária posterior, haja vista a primeira não haver deixado como herança marcos concretos que correspondessem aos momentos de fausto e esplendor237.
Do ciclo do ouro goiano não restaram cidades opulentas, palácios, monu- mentos, construções requintadas ou grandes melhorias urbanas, apenas uma arquitetura singela e despojada, cuja configuração urbana de traçados regulares apresentava um casario homogêneo dominado por alguns edifícios principais. Essa arquitetura continuou a ser erguida após o suposto momen- to de riquezas, sendo que grande parte das melhorias urbanas de Vila Boa, como a construção do Chafariz de Cauda e de algumas igrejas, foi executada quando a produção de ouro já declinava, mas que se justificava pelo fato de a cidade ser a capital da província. Outra constatação importante veiculada pelo historiador é a questão de a decadência existir apenas na visão dos outros enquanto que, para os trabalhadores goianos do século XIX, sua rea- lidade seria satisfatória, pois bastava para lhes suprir as necessidades bási- cas. Isso foi interpretado por Paulo Bertran como economia da abastância, que ficaria entre a economia de subsistência e a de exportação, e caracteri- zaria a passagem da mineração para a agropecuária238, enquanto que, para
Saint-Hilaire, representava a apatia e a indolência do goiano, que seriam a causa de todos os males da província.
Trata-se de um olhar que não foi construído apenas a partir da especificida- de da cultura goiana, dos seus próprios valores, mas de uma série de fatores externos que condicionaram e alimentaram a interpretação da decadência. Desse modo, representar a província como decadente e sua gente como in- dolente significaria, em um paralelo com Mary Louise Pratt, que essa neces- sitaria de uma exploração racional e, desse modo, abria-se caminho para a intervenção europeia239.
Dentre as representações criadas sobre Goiás e veiculadas por viajantes es- trangeiros e brasileiros no século XIX, Ledonias Garcia enfatiza que a mais genação com brancos ou negros, seja pelo extermínio, como já vinha aconte-
cendo desde os primórdios da colonização no século XVI:
[...] mais on a le coeur serré quand on songe qu’on ne veut pas même laisser quelques lieues à ces hommes qui furent, il y a si peu de temps encore, les maîtres de l’Amérique en- tière230.