4 Det groteske i Swamp Thing
4.5 The Garden of Earthly Delights
4.6.1 Himmel og helvete
Principalmente nas últimas duas décadas, como visto na Fase 4, mudanças graduais e per- sistentes no entendimento de como funcionam as comunidades biológicas e os ecossistemas mu- daram o Paradigma Ecológico Clássico, que via a natureza como tendendo continuamente a um equilíbrio, noção tradicional que dava suporte as teorias ecológicas então em uso, e consequen- temente as práticas relacionadas à preservação, manejo e restauração (Pickett et al., 1992). Desde então, a emergência de novas idéias e o surgimento de novos dados vêm aos poucos criando um novo paradigma, dito Contemporâneo, que enxerga a natureza e os sistemas ecológicos, de uma forma menos previsível, e caracterizados por um fluxo constante e contínuo, tomando o manejo, a preservação e a restauração desses sistemas não como a montagem de um “quebra cabeças” finito e definido, mas como a condução de processos onde o “quebra cabeça”, no nosso caso, uma flo- resta, se estrutura, articula e re-articula continuamente e que no caso da restauração é conduzido numa dada direção desejada.
Cabem aqui algumas perguntas simples e básicas:
As florestas maduras apresentam uma composição de espécies estável, característica e persistente, ou, ao contrário, elas são uma mera combinação aleatória de espécies, e con- sequentemente nas tentativas de reconstrução das comunidades vegetais não é preciso introduzir um conjunto definido espécies?
Qual é o grau efetivo de dependência entre as espécies que coexistem numa floresta? Seria toda a biodiversidade presente nas florestas ricas em espécies realmente neces- sária para o funcionamento e manutenção desses ecossistemas?
A perda de algumas espécies pode comprometer a persistência de uma floresta?
O agravamento das crises ambientais fez com que essas perguntas aparentemente de interesse apenas teórico se tornassem muito importantes, pois a opção por um ou outro ponto de vista interfere diretamente nas decisões e opções de preservação, manejo e restauração adotadas. Nessas perguntas está embutido um debate muito maior, ou seja, qual é o papel da biodiversidade no funcionamento e persistência dos ecossistemas?
Historicamente, a Ecologia de Ecossistemas apenas se ocupou com descrição de ciclos e fluxos considerando apenas grupos de espécies e não o papel de cada espécie nesses ciclos. Já a Ecologia de Comunidades centrou suas análises nas intricadas relações entre espécies e assim, até recentemente, ambas, isoladamente ou reunidas, eram incapazes de oferecer uma visão mais realista do papel individual de cada espécie nos sistemas naturais e consequentemente do efeito da perda da biodiversidade no funcionamento da natureza (Lawton & Jones, 1995).
Com a evolução das discussões, cedo se percebeu que não necessariamente o número de espécies em si, mas sim a variedade de comportamentos das espécies presentes poderia explicar certas relações entre a biodiversidade e o funcionamento dos ecossistemas, o que au- mentou na literatura a ênfase na definição e discussão sobre grupos funcionais.
Se cada espécie tem um papel fundamental no ecossistema, a perda de cada uma delas, ainda que em pequena proporção, contribuiria para a desestruturação do ecossistema, mas se ao contrário, se nem todas as espécies são efetivamente fundamentais, havendo uma re- dundância funcional entre muitas delas, dever-se-ia dar preferência à preservação daquelas que não podem ser substituídas, em projetos de restauração, à introdução daquelas espécies dispensáveis ao funcionamento do ecossistema a ser recuperado (p.ex., Grime, 1997; Walker, 1992; Baskin, 1994; Erlich & Walker, 1998).
Se a perda aleatória de algumas espécies pode ou não ser relevante, a realidade prática é que na maioria das vezes essa perda de biodiversidade, e da funcionalidade de ecossistemas naturais, resulta primeiramente da degradação, ou do desaparecimento integral de habitats e não da perda de espécies isoladas.
A discussão sobre o grau de dependência existente entre as espécies que coexistem numa floresta, e que historicamente alternou entre a idéia de uma grande dependência, ou a de uma total independência, não tem ainda uma resposta definitiva, pois existem evidências em direções opostas. Mas já se sabe que existem certos papéis que toda e qualquer espécie exerce em uma comunidade, e esses papéis estão relacionados à questão da dependência entre elas.
Cada espécie presente numa floresta, ou introduzida num projeto de restauração fornece alimentos para outras espécies, e é também uma competidora potencial com outras espécies pelos recursos disponíveis. Portanto ambos, tanto o papel trófico, quanto o papel competitivo, de cada espécie na comunidade, há tempos reconhecido, são muito importantes. O ingresso ou a perda de uma ou mais espécies pode afetar disponibilidade de alimentos para várias es- pécies, favorecendo ou desfavorecendo suas competidoras diretas ou indiretas, podendo assim afetar a estrutura da comunidade.
Um novo olhar, no entanto, foi introduzido nessa discussão por Jones et al. (1997) que chamaram a atenção para o fato de que, para além dos papéis trófico e competitivo, todos organismos vivos agem no ambiente, em maior ou menor grau, como “engenheiros físicos do ecossistema”. Essa nomenclatura, a princípio estranha, informa que qualquer espécie modifica o meio em que está inserida. O sentido dessa alteração por ela produzida pode ser o de mudar o status atual do meio, ou apenas de manter o estado já existente, mas pode inclusive criar algo totalmente novo em relação ao já existente.
Um exemplo simples é o de uma árvore presente no dossel da floresta, que pela sua simples existência pode criar ou manter a sombra no chão da floresta (Montgomery & Chazdon 2002), ou pela deposição e posterior decomposição das suas folhas, mudar a fertilidade do solo (Binkely, 1995), ou ainda, pelo desenvolvimento dos seus galhos, criar novos locais antes inexistentes para ninhos de aves, ou para o crescimento de musgos e orquídeas. Sem serem interações tróficas ou competitivas, os efeitos dessa “engenharia” são, portanto, os de manter, alterar ou criar novos habitats, favorecendo ou desfavorecendo localmente a presença de outras espécies, e portanto, da biodiversidade local (Jones et al., 1997; Wright & Jones, 2006). Portanto, incluir ou retirar es- pécies não implica apenas em fornecer alimento ou alterar o jogo da competição, mas implica na possibilidade de se mudar habitats e microhabitats, inclusive criando novas condições e espaços para que antigas ou novas espécies possam se estabelecer localmente (Byers et al., 2006).
A implicação prática desse fato é que se pode deliberadamente introduzir espécies para alterar a área degradada num sentido desejado, por exemplo, colocando-se árvores cuja arqui- tetura facilite a ocupação dos seus troncos e galhos por epífitas, favorecendo dessa maneira o aumento da biodiversidade local, ou então, introduzindo-se espécies especialmente capazes de retirar das camadas mais profundas do solo certos nutrientes como nitrogênio, ou fósforo, ou cálcio, etc., que armazenados em altas concentrações nas suas folhas seriam depois depo- sitados no chão da floresta, recuperando a fertilidade da área degradada mesmo sem o uso de adubação (Fisher, 1995; Montagnini, 2001; Carnevale & Montagnini, 2002).
O efeito negativo da “engenharia” produzida por certas plantas que pode reduzir a biodiversidade de um local é de longa data conhecido em relação às plantas alelopáticas (Rice,1984; Borges et al., 1993). Por outro lado, efeitos positivos são também conhecidos no caso das plantas-berçário (nurse plants), hoje consideradas importantes ferramentas para a recuperação de alguns ecossistemas. Por exemplo, em regiões semi-áridas e áridas, algumas espécies de arbustos e árvores agem como plantas-berçário e têm grande importância para a manutenção da biodiversidade, pois nesses ambientes extremos elas criam sob suas copas microhabitats favoráveis, permitindo uma densa regeneração de plantas sob si. Dada essa im- portância, espécies-berçário deveriam ser prioritariamente introduzidas para recuperar esses ecossistemas extremos (Callaway, 1995; Withgott, 2000; Padilla & Pugnaire, 2006).
Já em relação a florestas tropicais e subtropicais, algo semelhante pode também existir. Recentemente, Gandolfi et al. (2007a) propuseram que cada espécie do dossel, devido a sua longa persistência num determinado local, poderia criar microsítios específicos sob sua copa, que funcionariam como filtros (positivos ou negativos) para as espécies que tentam regenerar sob elas. Assim, cada espécie do dossel poderia apresentar níveis variados de permeabilidade ou impermeabilidade em relação às várias espécies vegetais da floresta, podendo parcialmente
determinar a composição e estrutura da comunidade de plantas sob a projeção da sua copa. Dessa maneira a biodiversidade, atual e ou futura, de plantas da floresta poderia ser parcial- mente determinada pela comunidade atual de árvores do dossel (efeito de filtro). Na prática, se confirmada essa hipótese, ela pode ter grande importância para a restauração, pois dependen- do da composição de espécies do dossel, presentes ou plantadas numa área degradada, maior ou menor biodiversidade poderia ocorrer, dada a maior ou menor disponibilidade de microha- bitats existentes para a regeneração de diferentes espécies.
Seja por favorecer preferencialmente a ciclagem de certos elementos químicos, ou, por exemplo, por garantir a reprodução cruzada obrigatória de alguma espécie, ou ainda por outra razão, o papel de cada espécie na dinâmica das florestas tem sido cada vez mais salientado. Isso faz com que se retorne à questão: a separação das espécies em grupos funcionais deve ou não ser empregada no planejamento da restauração de áreas degradadas?
o esPÉcies, GRuPos Funcionais
e o PlaneJaMento da RestauRação
Essa questão, todavia, pode ser vista de outra maneira. Mais importante do que responder se os grupos funcionais, apesar de restrições e limitações que apresentam, devem ou não ser usados, é compreender que eles colaboram com a difícil tarefa de planejar a restauração de áre- as degradadas, numa perspectiva sustentável e economicamente viável, pois colaboram com a necessidade prática de se sintetizar dados referentes a dezenas de espécies que devem ser escolhidas para serem colocadas numa mesma área. Além disso, como se viu, a capacidade de predição fornecida por esses agrupamentos permite supor certas informações sobre espécies que ainda não foram estudadas, permitindo assim manejá-las até que um maior volume de informações sobre cada espécie esteja disponível. No entanto, essas previsões não devem ser verdades absolutas e não devem substituir a busca pelas informações biológicas e ecológicas corretas, pois somente elas podem eficientemente garantir qualquer manejo.
Em resumo, se o uso de grupos funcionais pode ser positivo, a sua importância, no entan- to, não deve ser excedida, e a observação e o monitoramento de áreas em restauração pode ser uma boa oportunidade para se avaliar e corrigir certas previsões sobre as espécies e grupos.
Por exemplo, um possível critério a ser empregado na formação de grupos funcionais seria o da separação das espécies arbóreas de acordo com o padrão de trocas de folhas ao longo do ano. Dois grupos gerais poderiam assim ser formados; o das espécies perenifólias, que conti- nuamente trocam suas folhas, sem nunca ficarem sem folhas, e o das espécies decíduas, que
perdem sincronicamente suas folhas durante o ano, ficando, por maiores ou menores períodos de tempo, com copas desfolhadas.
A queda sincrônica das folhas de uma árvore decídua pode, eventualmente, ter conse- quências ecológicas importantes, seja por:
aumentar a luz disponível no sub-bosque para plântulas e juvenis; produzir danos mecânicos às plântulas estabelecidas sob essa copa; recobrir sementes presentes no chão, dificultando a sua predação; interceptar a luz que chega ao solo, influenciando assim na germinação do banco de sementes; ou
em função da decomposição dessas folhas, que poderia gerar num pulso de liberação de nutrientes (Gandolfi, 2003).
Tais possibilidades e outras, sendo distintas sob árvores perenifólias e decíduas, pode- riam diferentemente condicionar a regeneração que ocorre sob cada grupo, sendo assim um caráter a ser considerado no planejamento da restauração (Vieira e Gandolfi, 2006). Todavia, apesar das espécies decíduas formarem um grupo, cada uma delas elas pode ter polinizadores diferentes, dispersores diferentes, ter ou não alelopatia, fixar ou não nitrogênio, etc., sendo possíveis diversas combinações dessas características entre as várias espécies decíduas.
Esse exemplo simples sugere que cada espécie é única em suas peculiaridades, não ha- vendo entre elas uma redundância funcional absoluta. Portanto, o restaurador deve estar atento para o fato de que espécies de um mesmo grupo podem ter outras características eco- lógicas distintas que devam ser também consideradas na seleção das espécies que se vai plantar. Por exemplo, as Florestas Estacionais Semideciduais apresentam um grande número de espécies decíduas, uma característica que se quer manter quando se quer restaurar áreas degradadas pertencentes a essa formação. Poderia-se então separar as espécies arbóreas dis- poníveis num viveiro em perenifólias (p.x., canelas) e decíduas (p.ex., ipês, jequitibás, paineira, pau jacaré, etc.) e escolher um certo número de espécies de cada grupo para serem plantadas numa área degradada. Todavia, ele deveria escolher espécies decíduas que tenham diferen- tes tipos de polinização (p.ex., abelhas, borboletas, aves), ou de dispersão (p.ex., morcegos, roedores), etc., em vez de plantar espécies que usam todas o mesmo polinizador ou o mesmo dispersor, uma vez que a biodiversidade é um caráter a ser favorecido e uma ou outra escolha pode estar determinando a presença de um maior ou menor numero de espécies animais as- sociadas ao plantio.
O entendimento do possível papel dos grupos funcionais tem relação muito grande com a visão ecossistêmica da restauração ecológica, tema da fase a ser descrita a seguir.