Desde o final da Prim eira Grande Guerra a busca pelas ident idades em erge cot idianam ent e e, na est eira, concom it ant em ent e e alim ent ando est as, surgem patrim ônios nacionais ou locais, individuais ou coletivos, a cada dia. Patrim ônios que superam a noção t radicional da herança deixada por ant epassados e são colocados no cenário das const ruções sociais ( FONSECA, 2005; PRATS, 1997) . Patrim ônio, com o o caso aqui apresentado, a part ir da t am bém const ruída ou invent ada ident idade ( PRATS, 1997, p. 31) .
Nesse sentido, est es dois conceit os est ão im bricados. Mais do que num a relação óbvia, num a equação diret a ou linear,
a identidade é um recurso m etoním ico de processos de pat rim onialização. É- o na m edida em que se constitui com o um a figura retórica e sem ântica que é m obilizada para conferir um a significação que traduza um a relação obj ect iva com obj ectos ou práticas resgatados pelos processos de patrim onialização para preencher novos usos sociais. ( PEI XOTO, 2004, p. 184) .
A ident idade, nesse caso, alicerça e é alicerçada pelo pat rim ônio, num processo const rutivo afirm ador e t ransform ador das sociedades em presença.
A part ir dos conceit os apontados por SI LVA, T. ( 2000) e HALL ( 2006) , a ident idade é relacional. A ident idade é, port ant o, const ruída por processos paut ados na diferença ent re “ nós” e “ outros” , cent rada num a com plexa t eia de represent ações que “ at uam sim bolicam ent e para classificar o m undo e nossas relações no seu int erior” ( WOODWARD, 2000, p. 8) . Nessa perspect iva, a ident idade é m arcada por sím bolos present es na cultura m at erial e im at erial; na associação ent re o pert encim ent o e as coisas ut ilizadas, criadas e t ransform adas pelos diferent es agent es que buscam , em seus apelos ao passado, um a form a de est abelecer reivindicações ident it árias do m undo cont em porâneo no processo pat rim onial. I dent idade é, port ant o, um a “ condição forj ada a part ir de det erm inados elem ent os hist óricos e cult urais” ( NOVAES, 1993, p. 25) .
Em bora a busca por ant ecedent es hist óricos e m it os profanos de origem criem ident idades, é no present e que est a é criada e at ribuída de sentido. Se, para a com unidade de Bom Jesus, a origem da identidade está nos tropeiros do passado dist ant e, inspiradores da em ergência das m em órias de t ropeiros do século XX, no século XXI a identidade alim enta o patrim ônio que
serve, antes de m ais, a fins de identificação colectiva, veiculando um a consciência e um sentim ento de grupo, para os próprios e para os dem ais, erigindo, nesse processo, fronteiras diferenciadoras que perm item m anter e preservar a identidade colectiva. ( PERALTA, 2003, p. 85) .
Nesse sentido, o patrim ônio pode ser trat ado com o a autodefinição fundam ent ada no passado para “ servir o proj ect o colect ivo, sendo que esse proj ect o é definido, as m ais das vezes, por propost as de cunho ideológico em anadas das esferas polít icas” ( PERALTA, 2003, p. 86) .
A colet ividade do pat rim ônio, em seu sentido m ais am plo, esbarra no fat o de que com o const rução nunca é plenam ent e colet iva. A falácia est á na ideia de que a sociedade ( colet iva) const rói sua ident idade e escolhe seu repert ório pat rim onial. Mas quem é esse t odo, dit o colet ivo, que sem pre apont am os com o sociedade? Quem elabora o repert ório pat rim onial e define que Bom Jesus é a Terra do Tropeirism o e não de out ra coisa? Durant e o capít ulo 2 apresentei alguns agent es ( sem pre m e referindo à part e da sociedade bom - j esuense) envolvidos diret am ente na inclusão do t ropeirism o nesse repert ório e out ros que,
com o m ot ores e produt os dessa const rução, t am bém se fazem present es, com o abordarei nest e e no capít ulo seguint e.
Pois bem , são esses suj eit os e as forças polít icas e adm inist rat ivas da Prefeit ura Municipal que fizeram e fazem daquela a Terra do Tropeirism o. Esses são suj eit os que, diret am ent e ou não, ligados às esferas polít icas, det erm inam os novos pat rim ônios. O que não quer dizer que os agent es passem seus dias pensando, de form a quase que m aquiavélica, com o e qual pat rim ônio const ruir com o form a de m anipular a elaboração da Terra do Tropeirism o. Não se t rat a dist o. Mas sim da at ivação, m esm o que inconscient e, de um repert ório que responde a horizont es de expect at ivas de alguns e não de t odos, a part ir de um a ident idade lat ent e present e nas m em órias e hist órias de m uit as das fam ílias da cidade. Mas que nunca, nesse ou em out ros casos, represent ará um colet ivo em sua am plit ude prát ica, um a vez que cidades que se ident ificam com algo, sem pre são cidades de algum a ou algum as coisas, t êm em si m últ iplas out ras ident idades que não necessariam ent e est ão represent adas nos slogans t uríst icos.
Nesse sent ido, “ la ident idad es [ …] un inst rum ent o que, creando da ficción de un suj et o colect ivo, pone en m anos de quien lo ut iliza t oda la energía cont enida del círculo de act ores que define” ( SANMARTÍ N, 1993, p. 45 apud PRATS, 1997, p. 33) . O poder público e dem ais atores envolvidos, at ravés de ações educat ivas, de desenvolvim ent o t uríst ico, et c., t em , na últ im a década, divulgado ident idades e at ivado repert órios pat rim oniais que fom ent am o pert encim ent o da com unidade local e a at ração dos t urist as aos produt os culturais. Dessa form a devem os, longe da inocência, com preender que, conscient em ent e ou não, “ en el plano de la realidad social, debem os decir que, en t odo caso, no act iva quien quiere, sino quien puede” ( PRATS, 1997, p. 33) .
A escolha do repert ório leva em consideração valores, cont ext os e int eresses diversos, por vezes at é divergent es, que part em de est rat égias polít icas, de discursos que sacralizam os referent es sim bólicos. Os obj et os e passados sacralizados, ou sej a, patrim onializados, e correlat os m at eriais das ident idades, são t am bém gerados a part ir da ação de m ediadores, com o o grupo que apresentei no capít ulo 2. A pat rim onialização at ribui valores a t rabalhos e produt os de t odos os saberes e do saber fazer dos seres hum anos. É, port ant o, na at ribuição de valor, que se sit ua o pont o nodal da noção de pat rim ônio.
At ribuição de valores, com o part e essencial na const rução do pat rim ônio, apont a para o fat o das escolhas, assim com o a própria noção de pat rim ônio, serem dat adas hist oricam ent e. A const rução da Terra do Tropeirism o nos m ost ra isso. O pat rim ônio deixa de ser algo dado e definido apenas por um corpo t écnico det erm inado ( em bora t al ainda ocorra) e im plica um a const rução local, por agent es de diversos set ores, im plica ident ificar um conj unt o de códigos m ais ou m enos est abelecidos ent re diferent es at ores que, ao inst it uírem a noção de patrim ônio, fazem um a seleção das estruturas m ateriais do passado- present e a serem preservadas e represent adas em seu repert ório pat rim onial. No caso em estudo é preciso reconhecer quais são os elem entos acionados pelos agentes que t êm t ratado de prom over a Terra do Tropeirism o, bem com o o papel da construção do produt o turíst ico nesse processo.