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Os procedimentos de análise compreendem dois momentos: um voltado para a análise contextual, em que se observam os conhecimentos sobre o contexto sócio- histórico de produção e o contexto interacional, que dão suporte à compreensão do segundo momento, o da análise do MDI.

O primeiro momento tem a finalidade de identificar aspectos contextuais que determinam as razões e motivos e tomadas de decisão para a mobilização do conteúdo temático na produção do MDI. Ela contempla cinco aspectos:

- o contexto sócio-histórico, aspecto mais amplo que determina a produção, circulação e uso do MDI, tais como os aspectos institucional e organizacional da EaD;

- o suporte em que o texto é veiculado, que seria o texto impresso em formato de livro;

- o contexto linguageiro, referente aos modelos linguageiros que orientam a organização do conteúdo temático do MDI;

- o intertexto - as relações entre os textos que compõem o MDI;

- a situação de produção, relativa à situação interacional imediata, cujas marcas representacionais das professoras-autoras que exercem influência sobre a organização do MDI, são identificadas pelos seguintes parâmetros do contexto físico - emissor, receptor, local e tempo de produção; e pelo contexto social - enunciador, destinatário, lugar social e objetivos da interação, seus papéis sociais, os objetivos determinados para o MDI.

O segundo momento, destinado à análise do MDI, contempla dois níveis procedimentais, o organizacional e o enunciativo, conforme o modelo de análise de textos de Bronckart (2008a) e Bronckart e Machado (2009) (Cf. Cap. II, p 69). Vale salientar que a minha argumentação interpretativa foi fundamentada nas representações

manifestadas no MDI, bem como na interpretação das professoras-autoras sobre o seu agir nesse material.

No nível organizacional, analiso o plano global do texto, isto é, a organização do conteúdo temático, centrando-me nos tipos de discurso, de modo a identificar a organização do conteúdo temático e suas implicações no agir docente configurado nas prescrições e, ao mesmo tempo, impregnado de autonomia das professoras-autoras.

No nível enunciativo, analiso os mecanismos de responsabilização enunciativa, relacionados às marcas de pessoa, de inserção de vozes e de modalizadores do enunciado. Descrevo, na sequência, os passos das ações para a análise:

O primeiro passo para a análise do trabalho prescrito foi conhecer quais os referenciais empregados pelas colaboradoras para orientá-las no trabalho realizado. Ambas informaram que se guiaram apenas pelas ementas curriculares, embora Neder (2009), Aretio (2011) e Preti (2009) enfatizem a importância de se conhecer documentos outros para adequar o MDI às prescrições da EaD. Neder (2009, p. 25), por exemplo, ressalta a importância de se conhecer tanto o “Projeto Político-Pedagógico (PPP), quanto as suas bases epistemológicas, diretrizes, princípios e modalidade de organização curricular: disciplina, módulo, tema, projeto”; Aretio (2011) e Preti (2009), por sua vez, chamam a atenção não só para as bases teóricas, mas para os aspectos formais do tipo28: encadernação; tipo de papel e tipografia; definição do projeto gráfico, tais como formato de páginas, ilustrações etc., sobretudo, da qualidade máxima científica, desses citados, considerei apenas à qualidade científica.

O segundo passo foi conhecer a observância, pelas professoras-autoras, do trabalho prescrito relativo à organização do conteúdo temático. Para isso, descrevi os dois MDI, destacando cada item, segundo os sugeridos por Preti (2010) e Aretio (2011), tais como: objetivos, perguntas\questionamentos, atividades, resumo, leituras complementares, autoavaliação e, em especial, o emprego da linguagem.

O terceiro passo, favorecido pela descrição dos MDI, foi averiguar o trabalho realizado, inclinando o meu olhar sobre o plano geral do texto, identificando os tipos de discursos articulados ao agir docente prescritivo da EaD, de tal forma que pudesse evidenciar as representações das professoras-autoras para um saber-fazer com autonomia.

28 Apesar de Aretio atentar para essa organização formal, ela não é de todo interesse deste trabalho, pois entendo que o Layout do MDI é de responsabilidade do profissional gráfico.

O quarto passo foi destinado à análise do plano enunciativo de maneira a evidenciar representações que balizassem o agir das professoras-autoras. Assim sendo, tanto procurei evidências no próprio MDI quanto nas verbalizações advindas das entrevistas. A articulação entre as minhas interpretações e as interpretações e avaliações daquelas colaboradoras sobre as suas ações visa fornecer um quadro mais amplo sobre as implicações de responsabilização no trabalho desenvolvido. Assim, foram analisados três importantes itens que incidem sobre a enunciação daquelas professoras-autoras, são eles:

- os índices de pessoa, relacionando-os às manifestações enunciativas atribuídas à responsabilidade de dizer e, consequentemente, no fazer no MDI;

- a inserção de vozes, balizando o trabalho reconfigurado no MDI, conforme o grau de proximidade do agir na EaD, tais como as vozes do autor empírico, dos personagens e das instâncias sociais;

- as modalizações, ou unidades linguísticas, tradutoras das vozes, que têm a finalidade de construir avaliações e julgamento sobre elementos do conteúdo temático mobilizado no texto. São elas, as lógicas, deônticas e apreciativas.

Cabe esclarecer, ainda, que esses passos são orientações para as minhas interpretações, uma vez que é no conjunto desses aspectos acima mencionados que se pode compreender com mais propriedade o saber-fazer-dizer das colaboradoras desta pesquisa, o que me leva a realizar uma análise integrada da planificação textual.

Vale ressaltar, no entanto, que, de forma geral, as minhas interpretações seguem as orientações de Bronckart (2006a), Machado et al. (2009), Machado e Bronckart (2009), entre outros, que concebem o processo interpretativo do agir docente sob a perspectiva da multidimensionalidade, considerando, assim, a relação dialética do agir entre os pré- construídos e as subjetividades (Cf. Cap. II), ou de outra forma, entre a atividade e a ação. Essa relação é representada pelas dimensões (Cf. Cap I, subseção 1.4): a) motivacional, que correlaciona os fatores externos, de ordem social e coletiva, aos

motivos, razões particulares que induzem o indivíduo a realizar a tarefa; b) intencional,

que vincula as finalidades de um agir particular às de um agir coletivo para validar as suas ações; e c) a dimensão dos recursos, materiais e simbólicos, que permite observar a apropriação de ferramentas ou instrumentos disponibilizados no ambiente social para a realização do agir, bem como as capacidades, referentes aos "recursos mentais e comportamentais que se atribuem a uma pessoa particular (saberes teóricos e tácitos, valores, conceito, sentimentos)" (MEDRADO, 2011, p. 31). Tais dimensões serão

consideradas na análise do MDI e da entrevista, de modo a evidenciar as representações do agir docente no trabalho realizado e no real da atividade.

[...] para compreender melhor a atividade educacional, os objetos de análise não são as condutas diretamente observáveis, mas os textos que se desenvolvem, tanto na própria situação de trabalho quanto os que se desenvolvem em outros momentos, sobre essa atividade profissional (MACHADO et al., 2009, p. 18).

CAPÍTULO IV

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