Nos últimos tempos, observamos na população que o processo de envelhecimento vem acompanhado, com freqüência, do medo de envelhecer. As pessoas desejam viver cada vez mais, porém, colocam algumas condições para isso e uma delas é não ficar velho, o que, infelizmente, mesmo no atual estágio de desenvolvimento científico da humanidade, ainda não é possível acontecer: envelhecer sem ficar velho. (SANTOS, 2010a).
Esse fato se deve, na verdade, a uma visão pejorativa do envelhecimento. Laranjeiras (2010) relata que são inúmeros os processos que, em conjunto, ajudam a compreender a crescente visão negativa sobre o envelhecimento e a velhice e cita a industrialização, a modificação dos modelos familiares, a desmistificação das imagens do idoso como guardião da sabedoria ancestral, dentre outros.
Esse medo, afirma Santos (2010b), se explica pela experiência do envelhecimento em uma sociedade que não se preparou para enfrentá-lo com respostas adequadas às demandas aumentadas do segmento idoso, e que, além disso, privilegia o novo e o vigor da juventude. Hareven (1995 apud LARANJEIRA, 2010) demonstra que as comparações negativas entre juventude e velhice surgiram a partir do final do século XIX, quando o envelhecimento começou a ser formalizado como um período de declínio e de obsolescência, e, a partir daí, diversos estudos surgiram em busca de determinar a relação entre envelhecimento e eficiência, comprovando, assim, o caráter limitante do envelhecimento. Observamos, portanto, que, “ao celebrar o jovem e a juventude, a sociedade mantém a idéia de rejeição à terceira idade, agravando seus aspectos negativos, como dependência, improdutividade e depressão. Há um círculo vicioso que mantém a idéia de que é melhor ser jovem”. (SANTOS, 2010b, p. 62).
Essa representação negativa e desvalorização social da velhice se refletem na qualidade de vida dos idosos. O problema é que a negação da velhice e do envelhecimento impossibilita que essa última etapa seja planejada. Na maioria das sociedades é comum a negação do processo de envelhecimento. O mundo do consumo de produtos estéticos é um exemplo muito comum. Porém, existe também um contra-movimento em que os mais jovens procuram aparentar mais idade com o intuito de serem respeitados como os de idades mais avançadas. (SANTOS 2010a; LARANJEIRA, 2010).
Podemos deduzir, portanto, que o medo do envelhecimento não está em viver mais ou apenas ter uma aparência mais velha - apesar de ser uma preocupação relevante, principalmente para as mulheres -, mas o que as pessoas rejeitam e negam para si é a visão de velhice marcada como condição de dependência, tanto física quanto mental, como uma fase vulnerável, permeada pela incapacidade funcional, fragilidade, morbidade e exclusão social. O envelhecimento com dependência resulta em limitações físicas ou cognitivas, gerando demanda de cuidados voltados para as necessidades específicas de cada idoso. (LARANJEIRA, 2010).
O que observamos hoje é que a realidade social e econômica de muitos idosos e a omissão e negligencia de inúmeras políticas públicas traz uma situação objetiva de exclusão social2 e ausência de cidadania. De fato, podemos afirmar que,seja na sociedade ou no cotidiano das pessoas,há uma organização de tal modo que os idosos não têm lugar nem papel
2 Castel (1990 apud LARANJEIRA, 2010), uma das principais referências nesta matéria, define ”exclusão
social” como a fase extrema do processo de marginalização, entendido esse como um percurso descendente, ao
na vida social. Nos casos extremos, e infelizmente não raros entre nós, essa exclusão social pode tomar a forma de total solidão e ocasionar perturbações graves nos idosos. (SANTOS, 2010a; LARANJEIRA, 2010).
Até há bem pouco tempo acreditava-se que existia uma espécie de “Golden
Age” na terceira idade, a qual coexistia com várias gerações numa família
extensa. Nessas famílias, os idosos seriam venerados e respeitados. Parece, então, que se evoluíra de um período em que os idosos desempenhavam um papel social e familiarmente útil, para um tempo em que a terceira idade passará a ser desprezada e cada vez mais voltada ao isolamento social. (WOLF; PILLEMER, 1989, apud LARANJEIRA, 2010, p765).
Hoje, todas as políticas públicas voltadas para o envelhecimento destacam a vertente “envelhecer de maneira saudável”, que significa, além de um estado de saúde física satisfatório, a necessidade, por parte dos indivíduos, de reconhecimento, respeito, segurança e saúde e sentir-se parte de uma comunidade que lhes permita expor suas experiências e ações. A ideologia do envelhecimento ativo, adotada pela OMS no final da década de 1990, designa o processo de otimização das oportunidades de vida, em termos de saúde, de participação e de desenvolvimento multidimensional da pessoa, à medida em que esta envelhece. (LARANJEIRA, 2010).
Corremos o risco de que essa promoção massiva de um envelhecimento ativo e saudável, juntamente com o medo de uma velhice limitada e dependente, possa gerar uma invisibilidade social da velhice com dependência, como se ela, além de ser repudiada, não existisse. Santos (2010a) afirma que essa é uma das formas que a sociedade encontrou para se eximir de suas responsabilidades e compromisso social.
Naturalmente que essa [invisibilidade social da velhice com dependência] foi uma postura adotada tanto pela mídia, quanto pelos profissionais e pelos próprios idosos como agentes desse processo. O que os idosos não se perceberam ao assumirem o compromisso com um modelo de envelhecimento pautado tão-somente na atividade, independência e autonomia é que baniam do contexto social todos aqueles que não se adequassem ao novo modelo. Por isso, encontramos idosos dependentes ou fragilizados e cuidadores familiares tão carentes de uma rede de suporte social mais efetiva que poderia ser viabilizada se tivéssemos políticas públicas mais adequadas às suas necessidades. (SANTOS, 2010a, p30).
Apesar de toda a visão depreciativa e desvalorizada é necessária a construção de imagens positivas sobre o envelhecimento para combater os tradicionais modelos de declínio
e de despessoalização, na busca da promoção integral da saúde, que compreende que um envelhecimento bem sucedido se constrói ao longo da vida.