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A hierarchy of all and none: apes, dwarves, and everything else in Sir Harry Johnston’s Uganda Protectorate Harry Johnston’s Uganda Protectorate

com um maltrapilho, numa reação que surpreende, por ser uma contraposição aos desígnios do Monarca. Tal reação logo é aplacada pela ordem do rei que não pode negar a si mesma. Aqui, numa referência aos contos de fadas, essa mulher, que sonha com um príncipe encantado, lindo e refinado, depara-se com um Grilo pobre e farroupilha. Não há possibilidades de transformá-lo, já que, por não ser sapo, nunca será príncipe. Sempre foi, é e será o Grilo. O próprio adivinho abre mão do casamento em prol de uma vida estabilizada no palácio. Tal fato não se deve pelo pícaro sentir-se indigno da noiva, mas pela incapacidade de estar acompanhado com alguém alheio à sua vontade e pela falta de sentimento entre os dois. À desistência, acresceram-se muitos sacos de dinheiro.

Já rico pela resolução do roubo das joias, fora presenteado com muito mais riquezas pelas duas adivinhas, a do grilo e a do cocô de cabra. Agora é um novo Grilo, amadurecido, e certo de que o mundo é dos que sabem aproveitar as oportunidades. Cônscio de que a sorte não dura para sempre, é preciso saber quando ela surge, aproveitá-la, mas também sair antes que ela o abandone, assim, João Grilo “fez a sua fortuna e assim se viu livre do rei”. (PEDROSO, 2001, p. 340). Não deve ter retornado à casa dos pais. Certamente, pegou um navio em direção ao Brasil e aportou no litoral do Nordeste, onde se encaminhou para o sertão, fazendo fama e realizando suas aldrabices, mais conhecidas por lá como peripécias, trapaças e picardias.

3.2.5 O pícaro e a luta enviesada de classes

Em João Ratão (ou Grillo)47, de Teófilo Braga, os ladrões reais são os mordomos do palácio, que comungam da mesma classe social que o adivinhão. A discussão de classes fica evidente também em O Doutor Grilo, de Câmara Cascudo. Há, neste conto, dois lados especificamente marcados, estabelecidos: de um, o povo, o pobre e o trabalhador – João Ratão e os criados do rei; e do outro, a nobreza, avara, que não possui ofício, mas detém a riqueza do país. Por sofrer privações, os pobres são corruptíveis, já que desejam fazer parte dessa nobreza que os exclui. É por isso que Ratão (ou Grillo) abandona sua tarefa em prol de uma atividade que lhe dê projeção e riqueza com maior facilidade, e os serviçais roubam o imperador. Não há, no entanto, uma luta de classes, já que o trabalho dos pobres é adentrar ao ambiente da riqueza como nobres. A partir do conto, deduz-se que todo membro das classes

populares quer ser rico, mas isso só se dará através da sorte e do misticismo, os dois juntos, pois não há mobilidade nem justiça social onde essas histórias ganham espaço e popularidade, ou seja, no seio das camadas populares.

Em O Mestre Grilo, de Alda e Paulo Soromenho, na resolução do furto, mais uma mudança em relação às outras versões: as culpadas são três criadas, mudando-se o gênero dos ladrões. Já em Doutor Grilo Médico de El-Rei, de Torrado, são dois fidalgos os meliantes, e é Danilo Grilo que, em contraposição a aqueles, sobressai-se:

– Agora, Vossa Alteza, mande chamar à sala do trono todos os seus fidalgos, um por um. Fique com o saco poisado nos joelhos e entretenha-se a brincar com os anéis, enquanto fala com eles, os que tremerem e gaguejarem diante de Vossa Majestade, são esses os ladrões. (TORRADO, 1984, p. 16).

Em audiência pública, o Rei desmascara os golpistas, numa lição de moral em que a ganância dos ricos não tem limite. Diante de toda a corte, os fidalgos são apanhados, e Grilo, exaltado. Em presença da riqueza ambiciosa, é a pobreza de Danilo Grilo que dá o exemplo de justiça e honradez:

O pícaro é o caniço que se dobra aos ventos para conseguir sobreviver: nele, o que pensa é o estômago. Ele tem a pouca dignidade daqueles que sempre têm o suficiente para comer, mas, em sua indignidade sem indignação, ele revela a pouca dignidade daquilo que pretende ser digno e superior na sociedade. (KOTHE, 2000, p. 14).

O narrador do conto, ironicamente, expressa para o leitor/ouvinte o estado de depreciação moral pela qual passava o reino: “Mas aquela corte devia ser um covil de ladroagem [...]” (TORRADO, 1984, p. 17). A usura humana não tem fim. Quanto mais convivendo nesse mundo de abastança, mais envolvido nas suas falcatruas. Se já se tem dinheiro e poder, cobiça-se mais, se não o tem, ambiciona-se fazer parte desse meio.

Ainda sobre esse conto, destaca-se o título, que faz alusão ao português arcaico, simbolizando a força e a importância do rei e da Coroa para o povo lusitano. A nobreza é apresentada como um sinal de assentimento divino, El-Rei, O Rei. O uso do artigo definido corrobora para afirmar o poderio daquele que fora escolhido pelos céus para governar e não poderia ser questionado. Não há outro soberano, apenas um, o único, daí o uso do artigo El, o, ligado por um hífen ao substantivo Rei, tornado próprio. A função torna-se mais importante que o nome. Agora, já não há mais Pedro, nem João, nem Manuel, mas O Rei, aquele que

governa e decide sobre tudo e todos. O traço de união liga para sempre o homem ao seu cargo, que se fundem em um só. O título dessa versão contemporânea utiliza-se, pois, de um termo arcaico para revelar a aura causada pela monarquia em Portugal mesmo na modernidade.

Do interior para a cidade, da periferia ao palácio, João Grilo transita por todos os espaços: o formal, onde habita a burguesia, e o informal, lugar do povo. Grilo é o elemento estranho na corte, mas é aquele que liga os dois mundos. É mal visto, pré-julgado como parvo, descreditado pelos nobres, mas a sua presença é a prova inconteste do abismo econômico na sociedade. Seu chamado pelo rei comprova que ele é necessário para resolver uma pendência. Sem usar a força braçal, mas sim o intelecto, prova que está apto a fazer parte daquele sistema: tudo o que realmente deseja. Com esse intuito, “o pícaro movimenta-se livremente em meio a uma sociedade que despreza, e à qual se sobreleva por suas qualidades intelectuais.” (ROSENTHAL, 1975, p. 89).

Exceto na versão 179, de Vasconcelos, nos demais contos, o maniqueísmo aparece em maior ou menor grau. Há um embate de forças entre o bem e o mal, entre o rico e o pobre. Característica da picaresca clássica, o maniqueísmo reduz o pensamento entre duas vertentes. Na visão de João Grilo, a fidalguia é culpada por todos os seus males. Coloca-se, pois, no lugar de vítima, mas parte para a reação. A sua inserção na nobreza não é mais do que o cumprimento da justiça, pois Grilo é um ressentido por ter sido excluído das benesses que a sociedade poderia oferecer-lhe e não o faz.

O julgamento que o pícaro lusitano realiza, todavia, não é imparcial. Enquanto finge ser adivinho, descobre os ladrões do tesouro real. Ele poderia ser visto como mais um a extorquir o monarca, mas o narrador do conto picaresco, aliado do protagonista, absolve-o, transformando o fingimento de Grilo em atitude de admiração pelo leitor.

O pícaro volta-se para o riso, utilizando-o como forma de convencimento do leitor/espectador. Através do cômico, dilui o peso das suas atitudes e relativiza moral e ética em vigência. Grilo convida o leitor a rir com ele dos poderosos, insta o leitor a rir de si mesmo por sua avareza e a rir do próprio pícaro diante do inusitado das situações geradas.

Título Compilador Gênero

textual Prenome Sobrenome Alusão à Família Profissão Simbologia com o número 3 Casamento com a princesa Retorno ao lar História de João Grilo Consiglieri Pedroso Conto popular

João Grilo Pai e mãe Adivinhão Sim - -

João Ratão (ou Grillo) Teófilo Braga Conto popular João Ratão/ Grillo

- Carvoeiro/Adivinhão Sim Sim -

179. João Grilo Leite de Vasconcelos Conto popular

João Grilo - Adivinhão Sim - -

180. João Grilo (ou Doutor Grilo) Leite de Vasconcelos Conto popular

João Grilo Casado Adivinhão Sim Casado -

181. [João Ratão] Leite de Vasconcelos Conto popular

João Ratão - Adivinhão Sim Sim -

O Doutor Grillo Ana de Castro Osório Conto infantil

- Grillo Casado Adivinhão Sim Casado Sim

O Doutor Grilo Câmara Cascudo Conto popular - Grilo Apenas pai

Adivinhão Sim - Sim

O Adivinhão Ataíde de

Oliveira

Conto popular

- - Casado Adivinhão Sim Casado Sim

O Doutor Grilo Adolfo Coelho Conto popular - Grillo - Carvoeiro/adivinhão/ Médico Sim - - O Mestre Grilo Alda e Paulo Soromenho Conto popular

- Grilo - Sapateiro/adivinhão Sim - -

João Grilo Alda e Paulo Soromenho

Conto popular

João Grilo - Vendedor/Adivinhão Sim - -

Doutor Grilo médico de El- Rei António Torrado Conto infantil

Danilo Grilo - Carvoeiro/Adivinhão

/Médico Sim - - História do João Grilo Glória Bastos Conto infantil

João Grilo Pai e mãe Adivinhão Sim - Sim

João Grilo, João Ratão, Mestre Grilo ou Doutor Grillo, seja qual for o nome ou alcunha que tenha recebido ao longo das mais diversas versões sobre sua história, o personagem da literatura popular lusitana encarna o papel de um membro das classes populares que não possui, logicamente, dinheiro, tampouco poder ou voz altiva, resta-lhe, portanto, a sorte e um pouco de malícia ao se aventurar no mundo da adivinhação. Ciente de que os homens, pobres ou ricos, deslumbram-se com as artes do desconhecido, envereda-se pelo campo do místico, a fim de impressionar os homens deslumbrados com o dom de previsão do futuro, ou domínio do ocultismo, atividades vistas como embustes nas várias versões da história, utilizadas como meio de sobrevivência por integrantes de uma parcela da população, a qual Grilo faz parte, insatisfeita com a vida afeita de privações.

João Grilo é o exemplo, mesmo nas versões em que ele se redime, de que é possível o humilde e ingênuo vencer os ricos e maldosos. Embora seu desejo seja tornar-se um nobre, sua origem veda qualquer tentativa para que isso se efetive. Rico será pela sorte nas adivinhações, mas ele sempre será visto como alguém advindo das classes menos privilegiadas. Seu lugar nunca será entre os aristocráticos, onde até passará dias, será convidado para desvendar segredos, ou participar de festejos. Mas Grilo sempre retornará para a sua casa ou voltará para o seu lugar, que é entre os nascidos como ele, pobres, humildes, batalhadores.

É difícil julgar os atos de quem luta para viver dia após dia. Nessas situações, a moral rígida perde todo o sentido. A sobrevivência urge e é a fome quem fala mais alto. Viver o dia de hoje é a necessidade básica. A voz que fala mais alto é a clamor do desejo de viver, mesmo em meio às intempéries da vida, embora com reduzidas oportunidades.

João Ratão, que surge através da boca dos moradores do interior de Portugal, e o Doutor Grillo, o cooptado para os compêndios da literatura oral e habitante das bibliotecas nas grandes cidades lusitanas, são o mesmo. Os dois fundem-se no João Grilo, naquele que representa uma grande parcela da população que insiste em viver, apesar de tantas variáveis contrárias, persiste em estar mostrando sua voz, mesmo que ingenuamente ou sendo presenteado com uma sorte fenomenal.

Sua imagem excede o imaginário das populações indoutas e passa a habitar outros espaços, como a mídia impressa. Em 1956, nomeia um jornal destinado ao público infantil, o

João Ratão, sobre a orientação de Adolfo Simões Müller48.

É esse personagem que povoa o imaginário popular. É ele quem viaja mundo afora, adivinhando o sorriso de ouvinte e leitores, conquistando adeptos para suas histórias. É esse João Grilo, quiromante do riso, que chega ao Brasil, onde se tornará um dos malandros mais conhecidos de que se tem notícia.