Como sugere o examinado até este momento, livros (e impressos, de modo geral) são objetos complexos que reúnem em si diversos níveis de significado. Ao elegê-los como índices de determinada cultura profissional, cumpre estar atento a essas diversas possibilidades de leitura. Além de seus conteúdos textuais imediatos, livros são objetos particularmente carregados de valor simbólico. Bibliotecas ligadas a instituições de ensino, portanto, ao incluir ou não determinados conteúdos, respondem não só a demandas objetivas do ensino (de todo carregadas de escolhas com possível relevância simbólica específica à disciplina), mas também a demandas da instituição e dos profissionais por ela atendidos. Cumpre estar atento, deste modo, aos problemas levantados pela profissionalização da atividade (em momento crítico no período estudado) bem como as realidades políticas e administrativas da organização de uma instituição de ensino expressamente identificada com o então novo regime político.
O(s) projeto(s) de conteúdo desta biblioteca, especialmente aqueles produzidos pela sua administração ou pelas figuras de destaque nos debates políticos do momento (que muitas vezes confundiam-se, no caso em questão), não podem se furtar de atender em alguma medida às agendas gerais da categoria profissional ou classe política envolvidas com a escola - afinal, as escolhas intelectuais destes atores ocorrem no contexto destes fenômenos. A resposta dada a este problema, na forma de escolhas de conteúdo e formas de acesso ao acervo, entretanto, não é inequívoca. Tanto obras para o aprimoramento técnico dos professores, porta-vozes especiais da classe pela posição institucional que ocupam, quanto obras para a instrumentalização do ensino e decisões sobre as formas de acesso dos alunos ao acervo reunido, ou ainda a mera acumulação de textos consagrados (sejam eles utilizados ou não pelos alunos e professores), são respostas possíveis, ainda que reveladoras.
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Deve-se ponderar, entretanto, o quanto seria mecânico e simplista reduzir a explicação dos conteúdos ali reunidos a estas demandas ou a agência destes protagonistas, uma vez que fenômenos fortuitos referentes à materialidade do suporte desses conhecimentos - objetos cuja realidade de produção, distribuição e manutenção não podem ser negligenciados - podem ter exercido influência determinante em sua configuração final. Especialmente ao se considerar as peculiaridades de uma região periférica tanto à produção da grande ciência e arquiteturas, quanto aos centros privilegiados de produção e oferta dos impressos que compuseram tais coleções.
Deve-se ter em mente, portanto, também a dimensão material, em um sentido amplo, da circulação das idéias arquitetônicas nesse período: tanto a escassez de instituições, espaços de atuação, e infraestruturas construídas, de modo geral condicionariam aqui a circulação dessas idéias e seus profissionais, quanto as realidades de importação dos objetos impressos determinam circunstâncias de acesso grandemente distintas daquelas em que tais idéias se originaram. Livros em diferente oferta, discutidos em diferentes ambientes sob específicos códigos de manipulação e em determinados espaços físicos. Circunstâncias de leitura específicas, que não podem ser desconsideradas ao ponderar sobre a difusão desses conteúdos. Entre os projetos de conteúdo formulados pelos administradores da escola e biblioteca e as coleções que puderam constituir-se, dadas essas contingências, situa-se o objeto de estudo desta pesquisa.
Assim, apesar deste trabalho ter como objetivo final contribuir para a discussão do pensamento da disciplina no período, uma questão essencialmente de conteúdos, seria temerário proceder com um ataque direto aos livros desta biblioteca e seus textos, qualquer que fosse o recorte escolhido. As coleções de livros examinadas inserem-se em uma instituição que cumpria importantes papéis políticos, para os quais reivindicava associações importantes entre os conteúdos ensinados e a posição social e política de seus professores. Além disso, a esmagadora maioria dos livros que as compuseram foi produzida fora do país, exigindo investimentos consideráveis e articulações complexas (que incluíam até mesmo representantes no exterior) para sua obtenção. A escolha destes títulos estava permeada de consequências simbólicas e constrangimentos materiais que, portanto, não podem deixar de ser considerados, mesmo que os seus indícios sejam tênues.
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Esta pesquisa, assim, privilegia a caracterização dessas circunstâncias materiais, administrativas e sociais, consideradas bases inescapáveis para um exame adequado dos conteúdos destas coleções. Uma análise de tais conteúdos, considerada a vastidão das coleções da biblioteca permaneceria, de qualquer modo, inevitavelmente incompleta, dadas as possibilidades de trabalho de uma dissertação de mestrado como esta. A documentação primária selecionada, portanto, busca dar conta desta tarefa inicial: caracterizar as realidades administrativas e os conteúdos efetivamente reunidos pela biblioteca. Apoia-se na articulação de dois conjuntos principais de documentos: os acervos bibliográficos de arquitetura e engenharia da biblioteca da Escola Politécnica e os seus papéis administrativos.70
O recorte temporal adotado baliza-se pela vida institucional (e documental) da Escola Politécnica e a atuação de seus principais diretores, abrangendo desde sua fundação em 1893 até o falecimento de F. P. Ramos de Azevedo, seu segundo diretor, em 1928. Originalmente, pretendia-se situar o limite final da pesquisa no ano de 1933 devido à coincidência, neste período, da incorporação da Escola Politécnica à recém-criada Universidade de São Paulo, a descontinuidade administrativa e documental gerada por este fato e a criação de uma legislação nacional regulamentando diversos aspectos da profissão do engenheiro, arquiteto e agrônomo. Como apontou Ficher, ao exigir a titulação em escola superior como condição para o exercício dessas atividades, essa legislação modificou seu desenvolvimento assim como o de suas escolas.71 As disputas pelo mercado profissional, antes focadas (quase) em uníssono por engenheiros e arquitetos em torno da obrigatoriedade do diploma, passarão agora para a disputa por espaço entre estes, modificando sensivelmente os seus discursos.
70 Cabe observar que o acervo bibliográfico antigo da Escola Politécnica encontra-se hoje na Biblioteca Central
da EPUSP, ainda disponível para consultas e em razoável estado de conservação. Vasta coleção, um exame preliminar de seu conteúdo referente á arquitetura e engenharia foi o estopim do projeto desta pesquisa, como já registrado no relatório de qualificação. Seu exame direto, contudo, não permitiria sequer compreender a ordem com que esses volumes foram adquiridos ou mesmo a totalidade das coleções a que pertenciam originalmente, visto que desde a incorporação da Escola Politécnica à Universidade de São Paulo muitos de seus títulos foram transferidos para outras unidades da universidade ou mesmo perdidos para o tempo e uso.
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A adoção da data-limite de 1928 deve-se a duas constatações paralelas. Primeiramente, à centralidade dos professores da escola, e em particular seus diretores, na determinação dos conteúdos a serem obtidos pela escola para os seus acervos bibliográficos, revelada pelo exame da documentação administrativa. Em segundo lugar, pelo protagonismo que a literatura especializada costuma atribuir aos seus dois primeiros diretores, A. F. de Paula Souza e Ramos de Azevedo na determinação das características dos cursos da escola, e em particular do curso de arquitetura pelo último.
Do mesmo modo, considerando-se o campo da arquitetura e da engenharia civil, é a partir da década de 30 que as referências teóricas do modernismo começam a adentrar de modo sensível o ambiente profissional paulista. Se a década de 20 foi o palco de importantes eventos que introduzem esses conceitos e iniciam a sua circulação em algumas revistas especializadas e círculos interessados, é a partir da década seguinte que esse tema torna-se permanente, ainda que controverso, no pensar dessas disciplinas no país. Esse amplo debate, do qual participaria o bibliotecário (e professor notável) da Escola Politécnica a partir de 1918, Alexandre Albuquerque, e as mudanças nos currículos das escolas de arquitetura e engenharia que naturalmente o acompanhariam, redundam inevitavelmente na criação de um outro tipo de biblioteca (ao menos em seus conteúdos) que aquele produzido até então. O recorte determinado, desta maneira, concentra-se na caracterização da biblioteca de uma cultura arquitetônica (ou ao menos uma cultura escolar) conformada pela presença destes diretores e anterior à plena instalação do debate modernista.
Com a apresentação e organização desse conjunto de documentos pouco estudado, a documentação interna e acervo bibliográfico especializado em engenharia civil e arquitetura da Escola Politécnica de São Paulo entre 1893 e 1928, espera-se contribuir para a história social da engenharia e arquitetura em São Paulo pela perspectiva da circulação das idéias e conhecimentos sobre os quais as práticas de arquitetos e engenheiros constituíram-se. Do mesmo modo, espera-se contribuir para a história do pensamento da engenharia e arquitetura em São Paulo considerando os processos de importação, as diversas formas de apropriação e de reprodução dos conhecimentos dessas disciplinas.
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Os recortes bastante delimitados dos objetos de atenção deste estudo caracterizam uma escala microanalítica de pesquisa: uma biblioteca especializada e os registros de sua atividade interna. Esta perspectiva de análise é adequada para permitir a aproximação à cultura de um público leitor tão específico: arquitetos e engenheiros na região de São Paulo. Assim pode-se ope a a ligaç o do o ue o o ue suge ida po Da ton72, evitando as generalizações que estudos macroanalíticos apoiados em análises predominantemente quantitativas tendem a produzir73.
72 DARNTON, Robert. O beijo de Lamourette: mídia, cultura e revolução. São Paulo: Companhia das Letras,
1995. p.152
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Veja-se o pouco que se pode apreender sobre os universos da engenharia e engenheiros a partir das grandes categorias do estudo já citado de Gomes. GOMES, Sonia de Conti. Bibliotecas e sociedade na Primeira República. São Paulo: Pioneira, 1983.
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