Na planta de João Nunes Tinoco (fig. 13), datada de 1650, verifica-se que a área limitada a sul pela muralha do castelo e a Norte pela Rua da Amendoeira e pela Rua dos Lagares, não estava ainda edificada.
Um século depois, na planta de Guilherme de Menezes (fig. 14) no lado sul da Calçada de Santo André e numa parte do lado norte figuram já construções.
Todas elas foram, portanto, edificadas a partir da segunda metade do século XVII. Há, porém, uma exceção, o edifício que se encontra no extremo sul da calçada junto à Porta de Santo André, conhecido por Palácio Figueira, que já então estava representado.
Não sendo a arquitetura nobre ou palaciana o objeto primeiro deste trabalho, há que reconhecer que algumas das caraterísticas destes imóveis foram reproduzidas ou
52Marques, A. H. de Oliveira (1963, 2010), A Sociedade Medieval Portuguesa, aspectos da vida quotidiana,
Lisboa, Edição A Esfera dos Livros, p.93.
53 Henriques, Paulo (2004), Voyage d’Espagne et du Portugal du Père François de Tours, Prédicateur
Capucin, en 1699, Lisbonne avant le Tremblement de Terre – Le Panneau du musée de l’Azulejo, Paris,
Editions Chandeigne, p. 105.
“Ils ont une manière de se coucher très vilaine qui est de se coucher tout nus sans chemise, homes, femmes, filles et garçons dans une même chambre car, n’ayant point de lits, le soir ils mettrons des matelas à terre avec des linceuls autant qu’il en faudra pour le monde qu’il y a. Le matin ils mettent tous ces matelas dans une petite chambre, plient les draps, et voilà les lits faits. »
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adaptadas a residências mais modestas, mas ainda assim superiores, em área e conforto, às anteriormente referidas.
A construção do Palácio Figueira foi iniciada por D. João de Mendonça após permissão de D. João II, em 149054, para que fosse adossada à cerca Fernandina e ao postigo de Santo André. Era então prática corrente nas cidades europeias, como aconteceu em França e em Itália, em Siena por exemplo, onde grandes casas nobres implantadas junto às portas das cercas, “… se apoiavam na muralha e dispunham, para seu serviço, de uma pequena porta particular; de modo a que, nesta cerca municipal, as portas não eram todas públicas, controladas pelas autoridades e os agentes do fisco.”55
Fig. 13- Calçada de Santo André, em 165056 Fig. 14 – Calçada de Santo André em 176157
Em 1650, o palácio tinha uma planta em forma de L, e um pátio central com um poço. Como a Calçada de Santo André tem uma pendente acentuada, o pátio ficava num plano elevado em relação a essa via, mas quase de nível com a Calçada da Graça que bordejava o edifício pelo nascente. Desse mesmo lado, um troço da Cerca Fernandina ficou incorporado no edifício e, ainda em 1995, era percetível do interior do átrio, a espessa parede de pedra da muralha.
54 Furtado, Teresa (1995). Inventário do Património Arquitetónico, Concelho de Lisboa, Palácio dos Condes
da Figueira. Consultável em:
http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=2625.
Heers, Jacques (1990). La Ville au Moyen Âge. Paris, Editions Fayard, p. 212. No original : “Souvent leurs castellari s’appuyaient sur la muraille et disposaient, pour leurs services, d’une petite porte particulière ; de telle sorte que, dans cette enceinte municipale, les portes n’étaient pas toutes « publiques », contrôlées par les autorités et par les agents du fisc. ».
56 Pormenor da Planta de 1650, de João Nunes Tinoco.Lxi.cm-lisboa.pt, cartografia histórica, 1650-Tinoco. 57 Pormenor da Planta de 1761, de Guilherme de Menezes. Lxi.cm-lisboa.pt, cartografia histórica,1761-
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Fig.15 – Arco de Santo André e, à direita, o Palácio Figueira.58
De resto, o postigo de Santo André que era uma das portas da cidade por onde se acedia à Mouraria, fazia a ligação entre o palácio e uma outra casa, situada do outro lado da Calçada de Santo André e pertencente à mesma família, que incorporava também a muralha (fig.15) que daí seguia para o castelo. O edifício foi ampliado talvez em inícios do século XVII, com um andar nobre, e os dois volumes ligaram-se através de uma passagem sobre o arco ou porta da cidade, dele se apropriando. A face interior dos muretes dessa passagem de ligação estava revestida com lambrins de azulejos representando personagens com cabeças de animais, ditos de macacarias, e outros, azuis sobre fundo branco, com cenas infantis, representando meninos brincando às touradas usando brinquedos de pau imitando touros e cavalos, e outros ainda representando meninos numa procissão a atravessar um largo ladeado de casas com colchas nas varandas e pessoas debruçadas59. Esse terraço sobre o arco era local privilegiado para assistirem à passagem
da procissão do Senhor dos Paços da Graça, entre outras, que esses azulejos evocam. Do lado poente, os três primeiros pisos são compostos por lojas e habitações (fig. 16) todas com acesso independente por uma escada de tiro. Os vãos de janela são quadrados com molduras de cantaria boleada, mas de dimensões díspares. O quarto piso,
58 Bárcia, José Artur Leitão (1871-1945). Fotografia do AML, Arquivo Fotográfico,
PT/AMLSB/POR/053279. Cota BAR000045.
59 Estes azulejos foram retirados em 1913, quando o arco foi demolido, e colocados no interior do edifício,
no local de onde partia a passagem sobre o arco. Ainda lá estavam em 1995. Ver ficha SIPA: http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=2625.
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terceiro para a fachada sul que é a principal, é já o piso nobre de inícios de seiscentos, com acesso pelo portal de cantaria lavrada à italiana, lembrando os dos palácios-fortaleza, e o quinto piso com as suas janelas de sacada enquadradas por molduras de cantaria e encimadas por vãos de bandeira e entablamentos, tem acesso pela fachada nascente através de um portal com frontão curvo interrompido. O sexto piso é mais recente.
Fig.16 – Palácio Figueira, fachada poente.60 Fig. 17 – Palácio Figueira, Planta do 4.º piso61
Até ao quarto piso os cunhais são em cantaria esculpida em almofadas de acabamento rugoso e, acima, de aparelho liso.
No seu conjunto o edifício é ainda hoje monumental e, apesar da demolição do arco de Santo André e perda da ligação da muralha, não perdeu o caráter maciço de fortificação.
A organização do espaço interior (fig. 17) assenta numa ampla quadrícula de paredes portantes onde vão assentar os telhados de tesoura. Os compartimentos assim obtidos tinham cerca de 10m de comprimento. As subdivisões interiores, eram feitas por tabiques cuja posição poderia sempre ser alterada, colocados para rentabilização do espaço já que o número de dependentes e de criados em famílias nobres como a de D. João de Mendonça, era enorme.
As paredes de pedra são espessas, as exteriores têm, nalguns troços, mais de dois metros de espessura. No interior, os pavimentos eram em solho de tábua larga, os tetos forrados a madeira escura, e algumas portas e alizares também em madeira escura, exótica.
60 Obra 20122, Volume 2; Proc. 50980/DAG/PG/1987-Tomo 1, p. 10. A.M.L. 61 Ibidem, p.13.
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Nas salas havia lambrins de azulejos azuis e brancos e um painel assente na parte superior da parede como se de uma pintura sobre tela se tratasse, que representava a família do proprietário.
O pátio central, foi parcialmente ocupado por construções que não estão representadas na planta da cidade de 1650, designadamente um corpo a nascente sobre o qual foi construído um oratório, possivelmente já em finais do séc. XVII. A norte do pátio fica um pequeno jardim com uma árvore de fruto e vistas para a calçada de Santo André. Rua acima, do lado oposto da calçada da Graça, uma outra grande casa seiscentista, o Palácio Trofa que pertenceu aos Menezes, tem uma disposição interior semelhante. Com planta em L, apresentava na frente mais estreita a fachada principal onde se localizava o portal de entrada, face ao Convento da Graça, e a fachada mais longa virada a poente para a Calçada da Graça que, por ter uma pendente muito acentuada, permitiu a construção de cinco pisos, três dos quais em cave.
Para a rua a nascente, a Travessa das Mónicas, já ao nível do quarto piso, ficava o pátio central com um poço e um jardim, por onde se acedia aos dois últimos andares, os pisos nobres. O poço que está ligado a uma cisterna tem também acesso pelo piso inferior, em cave, através de um vão aberto na parede.
A divisão interior é semelhante à do Palácio Figueira, com os pisos inferiores e o de sobreloja, destinados a lojas e a pequenos fogos de habitação popular e os dois pisos nobres divididos por paredes portantes formando uma quadricula, que define amplas salas em “enfilade” com vãos centrais emoldurados a mármore vermelho.
Os pisos em cave são constituídos por um sistema de abóbadas em tijolo, sobrepostas e visíveis ainda no interior de alguns fogos, que tinham como função a contenção de terras do talude, e constituem as fundações do imóvel.
A fachada poente tem um embasamento revestido de pedra aparelhada em almofadas separadas por alhetas, até ao terceiro piso, o que lhe confere grandiosidade.
Estas duas grandes residências têm assim o mesmo tipo de planta em L, uma organização do espaço interior semelhante e a mesma monumentalidade, com os andares nobres separados da via pública por se encontrarem acima do quarto piso, deixando os primeiros andares destinados a fogos autónomos para aluguer a classes populares.
E cito mais uma vez Cox quando em 1701 refere que “muitas vezes, os quartos mais baixos das casas dos nobres são alugados em pequenas unidades a vendedores de bugigangas. Admiro-me que este hábito seja tão prevalente entre eles, pois não só têm mau aspeto como também enfraquece imenso os edifícios ao demolir-se tanto as paredes
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quanto uma loja exige. Há muita gente comum a viver por baixo do palácio do rei”62 e,
acrescenta também, que os nobres “vivem no andar de cima, calculo que por causa da sujidade das ruas que cheiram muito mal”. Não seria essa a única razão, mas também a larga vista sobre o Tejo que desfrutavam do terraço e das sacadas e, sobretudo, a necessidade de protegerem os elevados padrões de vida da família, dos olhares da populaça, criando uma confortável distância entre eles e o pequeno povo de Lisboa.
O Palácio Trofa era muito grande, estendia-se ao longo da Calçada da Graça ao longo de 74m e só o edifício tinha uma implantação no solo de cerca de 1000m2, mas a parte central foi destruída por um incêndio e, em 1893, foi construído um novo prédio que não restabeleceu o alinhamento dos vãos e assim quebrou a continuidade da fachada, ficando o palácio dividido em duas partes. O topo sul é rematado por um terraço ao nível do último andar, com muretes revestidos a azulejo na face interior, que culminava o atravessamento de vários salões e de onde se desfrutava de uma ampla vista sobre o rio Tejo. A vista sobre o rio era, de resto, nas grandes casas seiscentistas, muito valorizada. A Constituição Zenoniana, lei romana reconhecida pelos tribunais portugueses, estabelecia a interdição de construção de edifícios que obstruíssem a vista direta dos prédios vizinhos para o mar, determinando uma distância mínima entre eles de cem pés, cerca de 30 metros, a partir da qual a altura era livre63.
A arquitetura destas grandes casas respondia, prioritariamente, às exigências de estabilidade que as mantiveram de pé até ao presente, mas tendo sempre em linha de conta as necessidades de aparato que as distanciava das demais, jogava de forma subtil com os símbolos de riqueza e poder que ora evidenciava ora escondia.
Os fogos de aluguer situados nos andares baixos das grandes casas nobres, eram recorrentes neste período, e pode ver-se nas gravuras e nas fotografias antigas do Palácio Corte Real, do Palácio dos Condes de São Miguel, do Palácio do Marquês de Tancos e outros mais, a mesma organização das fachadas, abrindo-se no rés-do-chão os estreitos vãos de acesso às escadas de tiro por onde se acedia aos fogos de aluguer, os três pisos de vãos de janelas quadradas, no alinhamento das portas, enquadradas por largas molduras de cantaria, o todo formando um paralelepípedo em que os cunhais de pedra acentuam o caráter maciço. Encimando esse bloco e dele separado por uma faixa de pedra,
62Cox, Thomas (1701, 2007), Relação do reino de Portugal. Lisboa, Edição Coleções Biblioteca Nacional,
p.142.
63 Monteiro, Cláudio (2010), Escrever Direito por Linhas Retas. Legislação e Planeamento Urbanístico
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ficava o piso nobre com as suas janelas de sacada e um último piso também ocupado pela família dos proprietários. O portal que lhe dá acesso, tem a pedra de lintel ao nível do segundo andar, reduzindo dessa forma os vãos quadrados das janelas dos fogos de aluguer, a elementos decorativos e ordenadores de um soco gigantesco, com a altura de três pisos, onde assenta o andar nobre. Com esta disposição dos elementos arquitetónicos os edifícios apresentavam um aspeto monumental, ainda acentuado pelo uso e abuso dos revestimentos em cantaria relevada.
Fig. 18 – Palácio Trofa, piso 1.
Fig. 19 – Palácio Trofa, fogos do piso 2. A galeria de acesso aos fogos está, neste levantamento, já obstruída pela demolição e reconstrução da parte central do imóvel64.
64 Planta elaborada a partir da Obra 1932; Volume 2; Processo 2508/DMPGU/OB/1994 – Tomo2; P. 183.
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Os visitantes estrangeiros reconheciam a monumentalidade do conjunto e o mesmo Cox, escreve: “...acho que devemos conceder que algumas das coisas deles são imponentes, como as casas da nobreza, que têm um aspecto magnífico e, de certeza, custaram grandes somas de dinheiro. Vi umas em que se pode entrar de carruagem por uma porta e sair por outra. “
No caso do Palácio Trofa, as lojas são constituídas por um compartimento de entrada e dois outros ao fundo (fig. 18). Na entrada há uma chaminé, o que pressupõe um fogo de habitação com cerca de 28m2, sem qualquer janela já que só tem como vão exterior o da porta da rua.
No segundo piso (fig. 19), sobrepostas às lojas, há idênticas unidades de habitação com acesso não por escada, mas antes por um longo e largo corredor, uma galeria escura, apenas iluminada por pequenas frestas que recebiam alguma luz e ventilação do pátio.
Na fachada principal do edifício, a que dava para o largo, havia duas portas, pela da direita acedia-se ao pátio e ao jardim nobre, pela da esquerda a um espaço que servia certamente de cocheira, a que se seguia a galeria de distribuição às pequenas habitações. Por ela se chegava também ao poço de onde os moradores podiam retirar a preciosa água.
A serventia por galeria não é habitual nestas casas. Esta percorria os 74 metros de comprimento da ala poente do palácio.
No troço sul, onde a pendente da calçada o permitiu, há mais um piso, pelo que foram feitas escadas de tiro, ingremes e estreitas para lhe aceder. Depois do palácio ficar truncado pelo incêndio, os fogos do corpo sul do edifício ocuparam o espaço abobadado da galeria.
No Palácio Figueira há dez fogos destinados a gente das classes populares, sem comunicação interna com os andares nobres, e que podiam ser arrendados. Cada um tinha uma planta próxima do quadrado, com uma área de cerca de cinquenta metros quadrados, dividida por dois compartimentos um dos quais interior. Os dos andares são servidos por escadas de tiro com acesso direto à rua. Mas, numa planta de levantamento de 1919 (fig. 20), verifica-se que nem todos os fogos tinham chaminés, o que leva a supor se trataria de sobrelojas65, a menos que as chaminés tenham sido demolidas ou entaipadas.
65 Num documento de 1442, “o corregedor, vereadores, procurador e homens bons da cidade de Lisboa
ordenam a proibição de se fazerem fogueiras (…) nas sobrelojas que não tenham chaminé, sob pena de pagamento de coima”. AML-AH, Chancelaria da Cidade, Livro das Posturas Antigas, doc. 26, f.6v. PT/AMLIS/AL/CMLSB/ORGM-CM/03/06
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Fig. 20 – Palácio Figueira, fogos destinados às classes populares66.
As dimensões das pequenas unidades habitacionais não estão longe das áreas das casas edificadas no Bairro Alto, a rondar os 6,5m de frente por 7,5m de profundidade.
Estes grandes edifícios são já prédios de habitação coletiva e de rendimento. Talvez alguns destes fogos tenham em algum momento alojado serviçais do palácio, mas pela separação total de acessos tal parece pouco provável.
Um pouco abaixo, na encosta da Graça, fica a Rua dos Lagares que constituía o limite norte da Mouraria. Nessa rua, mesmo de fronte das escadas do Caracol da Graça, fica o muro de um logradouro cujas casas têm frente para a Travessa dos Lagares e para um beco com o mesmo nome (ver localização na fig. 25). Tal como nos dois palácios acima descritos, as casas da Travessa dos Lagares 11-17 são também resultantes de ocupações sucessivas. Situam-se na esquina de uma travessa estreita e de um beco que remete, pela forma urbana, para os adarves mouros, formando um pequeno largo. Na planta de 1650 a rua é designada por Beco dos Captivos, e liga a antiga Rua da Oliveira hoje do Terreirinho, à Rua dos Lagares. Esta última via era, em finais do séc. XV, já exterior à Mouraria, mas separava o bairro dos mouros forros dos terrenos do seu antigo almocávar67.
“O sítio dos Lagares deu o nome a uma rua que, saindo da Calçada de Santo André, vae encostada ao monte da Graça, na direcção de Arroios ou Santa Bárbara. Estes lagares eram propriedade do Hospital de Todos-os-Santos e de Pedro Lopes do Carvalhal: - 1502. «huu chão que parte com o caminho que vem da calçada de Santo André pera os lagares dazeite que o dito espital grande de todolos santos de dereito señorio he
66 Obra 20122; Volume 1 ; Processo 10412/1ªREP/PG/1919 - Tomo 1; Página 5.
67 A Travessa do Terreirinho que é paralela à Travessa dos Lagares era, em 1650, designada por Beco dos
Almocreves mas podia bem ser uma corruptela de Almocávar, já que conduzia aos terrenos do cemitério dos mouros. Tal é referido por Luís Pastor de Macedo (1941,1968) em Lisboa de lés-a-lés, Publicações Culturais da C. M. L., volume V, p. 39.
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em ho arraualde da dita cidade ao pee da costa de Santa Maria da Graça, freguesia de Santa Justa.» (Livro 9 da Extremadura, fl. 162 v).68
- 1503. «lagar de azeite no almocovar». (Id., fl.180 v).”e mais adiante, “1510. «temda que está nas olarias que partem de hua parte com temda que foy dalle Almançor que hora he de mestre Jorge. E da outra com tenda que foy de Mafomede Roballo e por de tras cõ azinhaga que vay amte elle e ho logar (sic) de Pero Lopez do Carvalhal e per diante cõ ho almocovar que foy dos mouros». (Livro 13 da Extremadura, fl. 37 v).»69
Fig. 21 – Beco dos Lagares na planta de 1650. Fig. 22 – Beco dos Lagares em 1995.
Não se sabe ao certo se a casa da Travessa dos Lagares 11-17 era realmente a de Pero Lopez do Carvalhal, mas é inegável de que se trata de um local situado no arrabalde da mouraria onde, no início do século XVI, houve lagares de azeite e tendas de oleiros.
Exteriormente o edifício era de alvenaria de pedra, rebocada e caiada, com vãos irregulares, frestas no piso térreo e janelas de sacada no segundo piso. Na ligação da travessa ao beco há ainda um recanto formando como que um pequeno largo (fig. 21).
A base da varanda sobre o beco (fig. 22) assenta sobre duas pesadas consolas de pedra, o guarda-corpo é um gradeamento de varões de ferro forjado, sem nós, fixado na parte superior em outras duas consolas de cantaria rematadas em forma de cone invertido, para suporte de um qualquer utensílio, possivelmente candeias ou lanternas de azeite para a iluminação da rua, já que a questão da iluminação pública de Lisboa é decretada por D.
68 Azevedo, Pedro A. de, Do Areeiro à Mouraria, em O archeólogo Português, Coleção ilustrada de
materiais e notícias, edição do Museu Etnológico Português, Vol. V, 1899-1900, N.º 9-10, p. 11.
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Pedro II em 168970, ainda que logo afastada pelo Senado da Câmara que remete para o clero a incumbência de iluminação dos nichos com cruzes e oratórios, considerada