O início do feminismo chamado revolucionário por Novellino (2006) ocorreu na ditadura militar, iniciada 1964, e estendeu-se até 1984. O grande marco do Feminismo
Revolucionário foi a I Conferência Nacional sobre a Mulher, com organização das Nações Unidas, realizada de 19 de junho a 2 de julho de 1975, no México, e com a participação de países latino-americanos. A partir do golpe militar até a data da Conferência, o movimento feminista no Brasil passou a resumir-se ao engajamento pela anistia política, com a criação, inclusive, do Movimento Feminino pela Anistia, além de reuniões em locais privados com a finalidade de discutir temas pertinentes da área, como sexualidade e subordinação. As Nações Unidas declararam, após a I Conferência, o início da Década da Mulher (NOVELLINO, 2006).
Em paralelo, nas décadas de 1960 e 1970, o feminismo que surge nos Estados Unidos e na Europa relaciona-se intrinsecamente com a efervescência política e cultural vivenciada por essas regiões, formando um cenário próprio para a atuação dos movimentos sociais. Dois fatos foram centrais para esses acontecimentos: a Guerra da Coréia e a Guerra do Vietnã. As guerras e os conflitos raciais trouxeram à tona nos EUA a fragilidade do mito de que a sociedade norte-americana proporcionaria um lugar para que todos alcançassem o ideal de felicidade, fazendo com que os valores da família e da moral da mulher como “rainha do lar” passassem a ser questionados (PINTO, 2003, p. 41).
Pinto (2003) aponta o ano de 1972 no que diz respeito particularmente ao feminismo, por dois eventos que falam por si sobre a história e as contradições do feminismo no Brasil: o congresso promovido pelo Conselho Nacional da Mulher, a partir do trabalho da advogada Romy Medeiros; e as reuniões de grupos de mulheres em São Paulo e no Rio de Janeiro. Romy observa a transição do chamado “feminismo comportado”, de Bertha Lutz, ao “feminismo mal comportado”, que enfrentou vários questionamentos considerados tabus. A advogada foi responsável pela criação, em 1949, do Conselho Nacional de Mulheres, com a finalidade de defender iniciativas institucionais voltadas para as mulheres. Houve um grande trabalho ao longo da década de 1950 no Congresso Nacional para a busca dos direitos para mulheres casadas, que tinham o exercício da sua cidadania controlado pelos maridos. Em 1962, foi aprovado com muita atuação, o Estatuto da Mulher Casada (Lei 4.121/62).
Este estatuto amenizou as discriminações, alterando, por exemplo, a redação do citado artigo 233 do Código Civil (que estabelecia o marido como o chefe da família com direito de representá-la legalmente), que passou a ter a seguinte redação: ‘O marido é o chefe da sociedade conjugal, função que exerce com a colaboração da mulher no interesse comum do casal e dos filhos’. A partir de 1964, marido e mulher passam a ter os mesmos impedimentos legais, necessitando do consentimento mútuo para, por exemplo, dar fiança, alienar imóveis, oferecer bens em hipoteca, dentre outros (BARSTED, 1999, p. 19-20).
A exemplo de Bertha Lutz e ao contrário de diversas feministas que a sucederam depois de 1970, Romy Medeiros teve um ótimo trânsito nas elites governamentais e até mesmo nas militares. Por ter sido várias vezes chamada pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) a fim de se explicar por seus atos ao ser encarregada de organizar um evento em 1972, Romy reuniu correspondentes internacionais no Rio de Janeiro e denunciou as ameaças que vinha sofrendo, como é possível ver no depoimento concedido por ela:
Eu não tinha a menor idéia do que estava acontecendo naquele momento, não sabia que era uma loucura organizar aquele encontro debaixo do autoritarismo que existia. Tinha (sic) pessoas da família envolvidas em política e fui muito bem recebida pelo Chagas Freitas [então governador nomeado do estado da Guanabara], que me deu todo o apoio para o encontro, que só se realizou graças às minhas relações com o governo. [...] Fui chamada ao DOPS várias vezes durante a sua preparação, e eles me diziam: ‘a senhora é uma pessoa distinta, mas anda muito mal acompanhada’. (GOLDEBERG, 1987, p. 89 apud PINTO, 2003, p. 48).
Ainda no ano 1972, surgiram em São Paulo e no Rio de Janeiro os primeiros grupos feministas, que se inspiraram no feminismo nascido no hemisfério norte. As reuniões tinham caráter informal, privado e reflexivo – elas uniam-se devido a amizades anteriores, além de afinidades intelectuais e políticas. Houve larga divulgação do movimento feminista pelo mundo, fazendo com que fosse impossível ter idéia de quantos grupos de mulheres com esse caráter existiram nas décadas de 1970 e 1980.
A partir de 1975, o Brasil presenciou uma série de debates a respeito da condição feminina, como o seminário O Papel e o Comportamento da Mulher na Realidade Brasileira, que ocorreu na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), entre os dias 30 de junho e 6 de julho. O Seminário foi patrocinado por dois grupos feministas informais cariocas e pelas Nações Unidas. O evento deu início ao Centro da Mulher Brasileira (CMB), fundado com o propósito principal de divulgar o programa da Década da Mulher nas Nações Unidas, bem como alertar para o problema da discriminação contra as mulheres. Cerca de 50 mulheres das classes média e alta formavam o CMB, que obteve, por anos, verba do Ministério da Educação para que mantivessem uma sede no centro do Rio de Janeiro. O CMB chegou a reunir cerca de 200 filiadas entre 1975 e 1982, com a realização de seminários, boletins, assistência jurídica e psicológica. Com o surgimento de divergências de feministas do CMB, que pediam a discussão de temas mais próximos às questões de gênero, como descriminalização do aborto, surgiu o Coletivo de Mulheres (CM). Suas integrantes lançaram o Documento das Vinte e Três, com exigência de autonomia para o movimento feminista. A autonomia defendida pelo CM implicava a necessidade de independência dos partidos e organizações políticas (NOVELLINO, 2006).
O ano 1975 também é apontado como um momento inaugural do feminismo brasileiro por Pinto (2006). O movimento feminista foi, até esse ano, restrito a grupos fechados e intelectualizados, uma vez que o espaço para manifestações públicas havia sido reduzido e a repressão dominava qualquer atuação nesse sentido. Um marco significativo em 1975 foi a decisão da Organização das Nações Unidas (ONU) de defini-lo como o Ano Internacional da Mulher, tornando-se o primeiro ano da década da mulher. A mulher começou a conquistar um status diferenciado em vários âmbitos: governos autoritários, sociedades conservadoras, com projetos vistos como progressistas. Em 1975 também ocorreu a organização do Movimento Feminino pela Anistia, fundado por Terezinha Zerbini, esposa de um general atingido pela repressão do golpe militar de 1964. O movimento, que cresceu em todo o Brasil, reunia inicialmente familiares de exilados, presos ou desaparecidos (PINTO, 2003).
Depois disso, surgiu então o jornal Brasil Mulher, um veículo de comunicação do grupo feminista Sociedade Brasil Mulher. O jornal chegou a atingir a tiragem de 10 mil exemplares, com 16 edições. Um fato peculiar do movimento feminista é que suas participantes, em geral, tinham ligações com organizações de esquerda. As relações com organizações de esquerda eram conflituosas, uma vez que consideravam as questões de gênero como temas secundários. Devido à ligação das feministas com organizações de esquerda, algumas feministas foram levadas ao exílio. Formou-se então o Círculo de Mulheres Brasileiras em Paris (1975-1979). Outro jornal foi lançado quando as primeiras dessas mulheres retornaram ao Brasil, com o nome Nós Mulheres, com oito números e a finalidade de abordar a condição feminina em geral. Os jornais Brasil Mulher e o Nós Mulheres eram mantidos a partir de contribuição mensal de quantias em dinheiro dos seus sócios honorários (NOVELLINO, 2006).