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Fonte: Autor (2016)

Após a caracterização do hotel foi possível formar a figura 2 que representa o hotel enquanto organizing, apresentando suas relações, setores e ações. O ambiente fronteiriço do hotel é determinado pela estrutura material que o hotel possui, na figura representado pelo circulo tracejado em verde. As setas em amarelo correspondem às ligações que o hotel mantêm externamente. No centro da figura estão localizadas as práticas cotidianas do hotel, o qual abriga as práticas de sustentabilidade. Na figura, estão representados na cor azul com circulo tracejado. O principal motivo para utilização dos tracejados é devido ao fato de se tratar de delimitações abertas, isto é, apesar de possuírem fronteiras, podem e, até certo ponto, estão misturados com outras ações ou setores.

Figura 2 Hotel como organizing

Fonte: Elaborado pelo autor (2017)

A ideia de usar o organizing para interpretar o hotel surge para modificar o pensamento estático que é transmitido pelo termo organização. O organizing é processual, é inacabado e contínuo, se transforma e se perpetua, não se limita a fronteiras físicas, por isso o uso do tracejado na figura 2, trazendo a ideia de que há um fluxo contínuo de influenciar e ser influenciado por seu entorno (CZARNIAWSKA, 2013). Na compreensão de Schatzki (2001), as organizações são compostas por “conjunto de práticas e arranjos materiais” que por sua vez formam acontecimentos denominados de organizações. O autor não chega a usar o termo, porém, apresenta a ideia de processualidade. O caso do hotel pode ser entendido como um

organizing devido ao fato de se perceber sua interação com demais organizações e participar

de acontecimentos práticos cotidianamente fora de suas fronteiras materiais.

4.2 As práticas de gerenciamento de um hotel autodeclarado sustentável

Ao entrar no hotel, nos deparamos com um painel de LED fixado em uma estrutura de madeira que fica ligado de forma contínua. Na tela, são apresentadas algumas práticas de sustentabilidade que o hotel desenvolve. Essas práticas foram anotadas e listadas no quadro 8, que é exposto a seguir.

Quadro 8 Práticas de sustentabilidade autodeclaradas

Ações Descrições

Caminhadas A avenida em frente ao hotel é parcialmente fechada aos veículos das 5h às 8h da manhã.

Iluminação Sistema de iluminação utilizando lâmpadas LED que consomem menos energia. Lixo Recolhemos diariamente o lixo da praia de frente ao hotel.

Incentivamos a coleta seletiva do lixo com conscientização ambiental dos hospedes e visitantes

Água

Água captada da chuva é utilizada para a irrigação das plantas e lavagem das áreas sociais

Plantas da flora nativa que consomem menos água foram plantadas ou preservadas. Bicicletas Aluguel de bicicletas para hóspedes incentiva a prática de esportes

Calor

A pintura dos contêineres com tinta refletiva na cor branca reflete a luz solar e absorve menos calor

Vidros deixam passar a luz natural e filtram o colar dos raios solares

Fonte: Notas de Campo (2017)

A primeira prática se refere à caminhada, porém há certa falta de entendimento do pesquisador com relação ao envolvimento do hotel com a esse tipo de ação. O hotel informa que “a avenida em frente ao hotel é parcialmente fechada aos veículos das 5h às 8h da manhã”. A avenida em que o hotel é situado possui duas faixas de circulação de veículos, porém é uma via de mão-única, isto é, só há um sentido de fluxo de veículos, então no horário estabelecido apenas em uma faixa da avenida é permitida a circulação de veículos e a outra fica à disposição de pedestres para caminharem ou correrem, ou, ainda, pedalarem suas bicicletas. Mas a ação é da Prefeitura da cidade de João Pessoa, que faz esse tipo de intervenção em boa parte de suas vias próximas a orla marítima (no caso das praias de Tambaú e Manaíra, onde a avenida é a beira-mar, as ruas são totalmente interditadas e as rotas deslocadas para a rua subsequente). No caso do hotel, que está localizado no bairro do Bessa, por se tratar de uma avenida mais larga que as vias beira-mar, além de não se encontrar às margens da praia, é necessário apenas à interrupção de uma das faixas da via. A ação é totalmente desempenhada pela prefeitura através de seu órgão de trânsito e a relação do hotel é de apenas divulgar/informar a ação para seus hóspedes. Nesse caso, parece haver uma apropriação de uma prática da gestão pública por parte do hotel.

A segunda prática de sustentabilidade que o hotel divulga é em relação à iluminação, ou seja, é uma ação estrutural e que independe da ação humana, pois ela acontece devido a utilização de um artefato não humano. Nesse sentido, podemos ver a relação sociomaterial da prática da sustentabilidade, uma vez que a estrutura é preparada para esse fim. O elemento não humano desempenha seu papel, no caso, as lâmpadas LED consomem menos energia. De acordo com Leonardi (2012), isso é o que pode ser chamado de agência não humana, ou seja,

apesar de não haver intenção por parte dos não humanos envolvidos, ele desempenha uma função desejada pelo o humano, cabendo aos seres humanos a parte de escolha desse material, que foi planejado e ordenado para esse fim, mas que é preciso desse tipo de artefato particular para que a intencionalidade humana seja alcançada.

A terceira prática se refere ao tratamento dado ao lixo – primeiramente, é exposto à ação de coleta de lixo direto na praia, o que de fato é uma ação efetiva e totalmente desenvolvida pelo hotel. Em sua área de lazer, no espaço de uso comum, está depositada uma lixeira em formato de aquário de vidro transparente que é usada para por todo o lixo coletado diretamente na praia. Acima dessa lixeira há uma placa fixada trazendo algumas informações para os hóspedes, na tentativa de educa-los ambientalmente (ver foto 8). Essa ação, além de fazer a retirada concreta do lixo do ambiente natural da praia, também é uma forma de educar (apresentado assim, as dimensões social e política) os hóspedes se utilizando da transmissão de mensagem com o uso da lixeira transparente, mostrando que devem ter cuidado com o meio ambiente próximo ao hotel. Dentro do conceito da sustentabilidade que aqui está sendo empregado, uma das dimensões correspondentes é a ecológica. Nesse sentido, o hotel atende ao requisito de sustentabilidade proposto por Silva e Mendes (2005), salvaguardando o espaço praia e retirando de lá lixo.

Nesse contexto, surge outra dimensão da sustentabilidade, que seria o espaço (SILVA; MENDES, 2005). A localização do hotel é privilegiada, e fica em uma das melhores praias da cidade. Desse modo a responsabilidade com o espaço praia é evidenciado. Muitas vezes aparece no discurso de seus funcionários palavras do tipo “vigilância” e “policiamento”, como sendo necessários para que nada de grave aconteça no espaço de pertencimento do hotel. Nessa prática, fica mais uma vez evidenciada a relação humana com os não humanos, portanto assim sendo uma prática sociomaterial. A relação dos humanos com o meio ambiente e ação de preservação pela coleta de lixo e de comunicação através da lixeira se configura como uma espécie de teia de uma rede social que compõe uma ação do hotel e esta está inter- relacionada com as demais práticas da sustentabilidade, trazendo a ideia de textura organizacional estabelecida por Gherardi (2006), onde elementos humanos e materiais pertencem a um determinado contexto, e formam práticas que delimitam organizações.

Outra ação referente ao lixo que é divulgada é a coleta seletiva do lixo. De fato, no ambiente comum da área de lazer há um conjunto de lixeiras destinadas à separação do lixo (ver foto 8). Porém, com a observação direta de campo o que se pode constatar é que todo o lixo gerado no hotel é depositado em lixeiras que ficam a frente do hotel e que são recolhidas pelo serviço de coleta de resíduos da própria prefeitura. Isto é, de nada adiante haver coleta

seletiva se no final a destinação é a mesma. A responsabilização ambiental vai além da separação devida do lixo gerado, sendo também a destinação um fator importante.

Na tentativa de vislumbrar uma solução para a destinação correta do lixo, pode-se pensar no contato do hotel com alguma cooperativa de materiais recicláveis para que estes pudessem recolher os resíduos reaproveitáveis podendo gerar um impacto externo do hotel, ajudando uma cooperativa e promovendo uma ação social contínua para um grupo de trabalhadores, tal ação possibilitaria um maior envolvimento do hotel com as dimensões ecológica, social e política que por vezes são esquecidas no contexto das práticas do hotel.