Na tradição judaico-cristã é perceptível a sacralização de lugares especiais, tornando-os espaços privilegiados de encontros com a divindade. A configuração desses lugares sagrados decorreu de uma diversidade de fatores: cultura, clima, geografia, economia, tecnologia, política, teologia, etc. Regina Machado observa que “cada grupo humano tem características próprias e, consequentemente irá produzir uma arquitetura própria, dando origem a uma variedade ilimitada de formas de organizar o espaço celebrativo” (2001, p. 14).
Não se pode pensar no cristianismo sem as suas raízes hebraicas. Os antecedentes cultuais registrados na parte da Bíblia conhecida como Velho Testamento forneceram os fundamentos históricos e teológicos para a constituição de espaços sagrados pelos cristãos ao longo dos tempos (BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA, 1999).
74Sell e Brüseke, sociólogos, adotam a seguinte definição de misticismo desenvolvida pelo filósofo Leszek Kolakowsky: “ Doutrina segundo a qual é possível, dentro de certas condições, que a alma humana, que é uma realidade diferente do corpo humano, comunique-se por meio de uma experiência (não sensível, mas análoga por suas características diretas aquela que se produz no contato o sentido humano com os objetos) com a realidade superior que conserva a primazia (no tempo ou na criação) em relação a toda outra realidade; admite-se ao mesmo tempo que esta comunicação, ligada a uma intensa afeição de amor, e também livre de toda participação das faculdade físicas do homem, constitui um bem particularmente desejado e que ela é, ao menos nas suas formas mais intensas, o bem supremo que o homem pode conquistar na sua vida terrestre” (KOLAKOWSKY apud SELL e BRÜSEKE, 2006, p. 22). Na tematização de Weber, o misticismo tem como característica o afastamento do mundo visando uma possessão contemplativa do sagrado, “É principalmente a busca de um ‘repouso’ no divino e somente nele” (1994, p. 366)
As primeiras referências a lugares sagrados na tradição judaico-cristã encontram-se no livro de Gênesis, onde se relata que os patriarcas Abraão, Isaque e Jacó construíram altares e armaram suas tendas em lugares escolhidos pela própria divindade (BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA, 1999). Mediante os registros bíblicos,
Vemos que os Patriarcas tinham necessidade de manter aberto o canal de comunicação com Deus, que se manifestava em seus sonhos. Por isso, levantavam altares e marcos em lugares especiais, para poderem continuar encontrando-se com Deus. Os altares e os marcos funcionavam como a escada no sonho de Jacó, como um eixo cósmico que ligava o céu à terra. Construindo esses altares para Deus, os patriarcas santificavam e sacralizavam o lugar onde tinham feito a experiência de Deus. (MACHADO, R, 2001, p. 15).
Para um povo nômade, a estadia em um local indicado pela divindade representava a garantia de que experimentaria segurança e obteria o necessário para a sua manutenção, além disso assegurava uma comunicação direta com Deus.
No livro do Êxodo, a divindade se manifesta tanto nas montanhas que ficavam na rota dos hebreus, libertos da escravidão no Egito, que vagavam pelo deserto sob a liderança de Moisés, como nas colunas de fogo e de nuvem que acompanhavam a marcha do povo. Dessa forma, comunicação e proteção eram garantidas ao longo da jornada (BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA, 1999).
No deserto, entretanto, a divindade decide estabelecer um novo espaço para abrigar as tábuas da lei, o sinal visível da sua aliança com o povo libertado: um santuário onde repousará a arca onde seriam guardadas as tábuas. O santuário, que podia ser montado e carregado durante a trajetória pelo deserto, recebeu o nome de “Tenda da Reunião”. No livro do Êxodo estão contidas as leis relacionadas a esse santuário: o material para sua construção, a confecção de cortinas, a armação, a arca da aliança, a mesa dos pães ofertados a Deus, o candelabro, os altares do incenso e do holocausto, o átrio, a bacia, as vestes sacerdotais e as orientações para a consagração do santuário (BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA, 1999).
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Segundo Regina Machado, “esse santuário foi construído conforme a concepção comum na época, de que o templo terrestre deveria ser imitação do templo celeste – morada da divindade. A Tenda da Reunião foi feita conforme esse modelo” (2001, p. 18. grifo da autora).
Após o período de peregrinação pelo deserto, o povo hebreu iniciou o processo de ocupação da “terra prometida” sob a liderança de líderes que ficaram conhecidos como “juízes”. Percebendo a necessidade de um rei, segundo o modelo das nações circunvizinhas, o povo escolhe um homem chamado Saul para essa função. Com o fracasso deste, o sacerdote Samuel unge a Davi para assumir o reinado.
O rei Davi conquista a cidade de Jebus e a transforma em capital do nascente reino, Jerusalém. A população aumenta. O rei constrói o seu palácio e, posteriormente, segundo o relato bíblico, recebe a incumbência divina de iniciar os preparativos para a construção de um templo.
Na visão de Eliade (1992), a concepção de templo que se desenvolve no povo de Israel é uma herança das grandes civilizações orientais, constituindo-se numa reprodução terrestre de um modelo transcendente, uma cópia do arquétipo celeste. “Os modelos do tabernáculo, de todos os utensílios sagrados e do templo foram criados por Jeová desde a eternidade, e foi Jeová que os revelou aos seus eleitos, para que fossem reproduzidos sobre a terra” (ELIADE, 1992, p. 56-57).
O templo onde a divindade estabeleceria sua morada foi erguido, no entanto, por Salomão, descendente de Davi. Jerusalém tornou-se, portanto, além de centro político, centro da vida religiosa do povo hebreu. Consolidaram-se, então, três elementos centrais da religião judaica: templo, sacerdócio e sacrifício.
A construção e a reconstrução do templo de Jerusalém estiveram marcadas todo o tempo por objetivos políticos. Salomão o usou para fortalecer o seu poder e sua política centralizadora. O templo era o símbolo do poder do rei, por isso foi destruído na invasão de Jerusalém pelos babilônios. E entre os planos de Herodes estava a reconstrução do Templo de Jerusalém a fim de remover um pouco a hostilidade que os judeus tinham contra ele.
Mas, ao mesmo tempo que o Templo era usado pelos governantes com fins políticos, nem sempre no interesse do povo, servia também como ponto de coesão e um símbolo na luta do povo [...]. (MACHADO, R, 2001, p. 18-19).
O Templo de Jerusalém foi frequentado por Jesus Cristo, que o considerou a “casa de meu Pai”. Seu respeito pelo templo, registrado pelos evangelistas no Novo Testamento, é visível também em outras expressões que empregou: “casa de Deus” e “casa de oração”. Essa compreensão do Templo o levou a agir com rigor, expulsando cambistas e vendedores que atuavam ali.
Na compreensão cristã, a instituição religiosa do Templo terminou com a morte e ressurreição de Jesus. Considerando que o sacrifício de Jesus foi único, definitivo e superior, não se justificava mais a necessidade do Templo de Jerusalém com os seus sacrifícios nem ainda de uma casta de sacerdotes.