1 Introduksjon til emnet
1.4 Hensynene bak foreldelsesreglene
Apesar de todos os entraves que a cidade de Belém carrega, encontramos na bacia do Tucunduba, especificamente no curso do igarapé principal, uma forma metropolitana peculiar. Neste espaço, se estabelece práticas diferenciadas do cotidiano, com determinadas particularidades. O cotidiano se coloca como dimensão privilegiada de análise, pois permite focalizar diferentes formas de sociabilidade (CARLOS, 2011). O cotidiano na cidade envolve a intersecção entre uma ordem próxima, inscrita no plano do vivido, e uma ordem distante, que o condiciona, disciplina e o burocratiza, sendo, portanto, um conjunto de sociabilidades que estão entre o habitual e o repetitivo, o inventivo e o criativo (CARLOS, 1996).
A cidade sempre teve relações com a sociedade no seu conjunto [...] mas depende também e não menos essencialmente das relações de imediatice, das relações diretas das pessoas e grupos que compõem a sociedade [...] ela se situa no meio termo, a meio caminho entre aquilo que se chama de ordem próxima (relações dos indivíduos em grupos, mais ou menos amplos, mais ou menos organizados e estruturados, relações desses grupos entre eles) e a ordem distante (regida por grandes e poderosas instituições). A cidade é uma mediação entre as mediações. Contendo a ordem próxima, ela a mantém; sustenta relações de produção de sociedade; é o local de sua reprodução. Contida na ordem distante ela se sustenta. Encarna-a. projeta-a sobre um terreno e sobre um plano, o plano da vida imediata; a cidade inscreve essa ordem, preescreve-a; escreve-a, texto num contexto mais amplo e inapreensível como tal a não ser para a mediação. (LEFEBVRE, 2008 p. 52).
Para Lefèbvre (1991), a análise do cotidiano significa as transformações da sociedade e suas perspectivas, retendo-se nos fatos aparentemente insignificantes, para buscar alguma coisa de essencial. Assim, o lugar se apresenta sob um duplo aspecto, enquanto resíduo e enquanto produto do conjunto social. O cotidiano constitui uma dialética entre contradições e
desencontros, entrecruzamento de temporalidades, entre repetição e criação, redundância e invenção, vivido e concebido. E, nestas interações, são produzidas novas modalidades de representação: o percebido e o concebido, que em sua relação dialética com o vivido revelam a história das práticas espaciais e, com isso, também, o conteúdo social das práticas temporais, com base na concepção de que cada relação social contém seu próprio sentido de tempo.
O espaço social, então, configura-se como a expressão mais concreta do espaço vivido, quando entendido pela soberania do homem sobre o objeto, por meio de sua apropriação pela corporeidade das ações humanas. Evidencia-se que esta análise espacial remete à produção do espaço no processo de reprodução social; por conseguinte, o espaço é considerado um campo de possibilidades de construção de um espaço diferencial, que se opõe ao homogêneo e contempla o uso.
O cotidiano, de modo geral, é tomado como um ângulo de análise para a compreensão das formas de produção do espaço urbano na bacia do igarapé do Tucunduba. Isto porque, revela situações e evidências mais detalhadas da relação cidade e as águas em determinada parcela desse espaço urbano. Desde o início da ocupação da bacia do Tucunduba, a população vive um cotidiano de representações que transcende as leis jurídicas. A necessidade imediata referente à sobrevivência na cidade gera suas próprias normas que refletem o contínuo processo de ocupação e produção do espaço nas baixadas de Belém.
O espaço vivido na bacia do Tucunduba se apresenta diferente em relação ao modo de vida programado, destacando-se enquanto experiência cotidiana (ordem próxima) com vínculo ao espaço das representações. Estes espaços estão principalmente vinculados com a presença do rio. Com o processo de urbanização na bacia urbana do rio Tucunduba, a vegetação nativa acabou sendo retirada e alguns cursos d’água aterrados ou completamente modificados, contribuindo para a “morte” do rio.
Os pequenos cursos d’água acabaram (e ainda hoje isto acontece), convertidos em canais de drenagem, com a prioridade de uso para o escoamento das águas pluviais, esgotamento doméstico, sem contar a grande quantidade de lixo despejado diretamente em seus leitos. No entanto, apesar do grau de degradação e poluição, principalmente da área adjacente ao curso principal do igarapé Tucunduba (ocupação Riacho Doce, proximidades da Rua São Domingos, proximidades com o antigo Curtume), a população local ainda consegue aproveitá- lo para diversas finalidades, como é o caso da navegabilidade.
Figura 13: Presença de embarcações no igarapé do Tucunduba.
Fonte: SILVA, 2013.
Como demonstra a figura anterior, o igarapé do Tucunduba ainda é uma via de circulação essencial para os moradores. O acesso fluvial permite que alguns moradores ainda trafeguem e comercializem produtos com várias localidades. O igarapé do Tucunduba ainda mantém essa característica, devido à localização da sua foz no interior da UFPA, o que impediu legalmente a execução de projetos de terraplanagem do canal, tão comum na trajetória das políticas públicas da cidade (SOUZA, 2006).
Os comércios às proximidades do rio são principalmente de madeiras, frutas regionais, tijolos, carvão, açaí, que segundo informações dos moradores em trabalho de campo, hoje chegam muito mais por transporte rodoviário, como caminhões, kombis, do que pelo rio. Em visita de trabalho de campo, foi observado certo fluxo de embarcações (partindo principalmente da Rua São Domingos), o que provoca a percepção da importância socioeconômica do igarapé Tucunduba para esta população.
Figura 14:Navegação de moradores no igarapé do Tucunduba.
Fonte: SILVA, 2016.
É possível observar a ocorrência de uma dinâmica de apropriação do rio que se expressa como um patrimônio, em que a comunidade constrói sua vida e se reproduz no espaço, se apresentando como um bem público e coletivo.
Atualmente, a maioria das embarcações que trafegam pelo Tucunduba é de pequeno porte. Devido a sedimentação nos fundos de vale e nos meandros do rio, as embarcações maiores, que atingem profundidade maior, acabam encalhadas nos sedimentos presentes no rio. Em alguns casos, os barqueiros esperam a maré “subir” para continuar seu trajeto.