Do ponto de vista da performance, se olharmos o movimento da festa e a figura central dela, veremos que a imagem da Virgem, através das integrantes da Boa Morte, participa de
momentos que poderiam ser considerados como performáticos, pois no primeiro dia da festa a imagem da Virgem Maria aparece morta. É em torno da imagem que as mulheres, o corpo sacerdotal e o público que dirigem seus olhares, missão, procissão, defumadores, fotografias, filmagens, jornalistas se atropelam para observar do melhor ângulo. Maria é conduzida pelas principais ruas da cidade, inicialmente pelas integrantes trajadas totalmente de roupas brancas e posteriormente por homens de sua confiança. O corpo da imagem é coberto por vestes brancas confeccionadas com tecido de boa qualidade; sua pele é muito branca, cabelos encaracolados e sob a cabeça uma almofada feita de cetim da mesma cor. A charola é enfeitada por flores brancas, ladeada por velas. Ao retornar à capela, a imagem é recebida pelos expectadores com muitos aplausos, o que se segue a uma missa realizada em homenagem às integrantes falecidas; geralmente a homilia aborda tema relacionado à morte, à ressurreição e ao perdão, porém as integrantes parecem não atentar para a mensagem do sacerdote; além disso, podem-se observar as integrantes se prostando diante da imagem como se a mesma fosse uma pessoa da sua convivência.
Após a missa é servida a ceia branca e novamente observamos que o ritual se desenrola com um certo planejamento. Nele, as integrantes, ao entrarem no ambiente, lançam pipocas sobre todos os presentes e em todas as partes da casa. A mesa serve de cenário para os alimentos usados na parte do ritual. Jornalistas, estudantes, fotógrafos correm para registrar aquele momento; nota-se que irmãs posam para a foto com sorriso e dão entrevistas, vê-se que realmente elas se comportam como celebridade. No dia seguinte, muitas delas procuram o jornal para ver suas fotos e o que elas falaram na entrevista; pouco se referem à festa em si.
No segundo dia, Maria sai às principais ruas. Agora, as integrantes vestem-se com saia preta e blusa branca, na cabeça um véu, denominado bioco. Quanto a Maria, ela encontra-se vestida nas cores branca com detalhes lilás e coroa na rica cabeleira. Nesse dia, após o percurso, as integrantes voltam para a Capela d‟Ajuda, onde a imagem permanece até o dia seguinte. Os rituais deste dia são fechados, tendo acesso as irmãs com mais tempo de Irmandade. Ao contrário do primeiro dia, os olhos da imagem da Virgem Maria estão fechados, porém ostenta uma rica coroa cravejada por pedras.
O terceiro e último é o grande dia, pois é comemorada a assunção de Maria. As roupas usadas pelas integrantes são nas cores vermelha, branca e preta; as joias são douradas e prata, além dos fios de conta dos orixás que elas misturam; as flores levadas pelas irmãs dão um brilho especial. Quanto à imagem de Maria, esta se mostra de pé, o branco imaculado dá lugar à cor lilás, com uma rica capa, além da coroa com muitas
pedras que lembram brilhantes. Os cabelos escuros contrastam com a pele branca da imagem. Nota-se grande reverência das irmãs pela imagem em si. No conjunto, Maria representa o povo branco que é cultado pelas mulheres negras. A procissão, saindo da igreja-matriz, percorre as principais ruas de Cachoeira (vide figuras 8, 9 e 10). Neste dia, o trajeto é acompanhado por filarmônica, muitos turistas nacionais e estrangeiros, alunos de universidades retornam para a capela da Irmandade, onde tem início a segunda parte da festa. Essa parte é marcada pela dança. As irmãs elevam várias vezes a imagem de Nossa Senhora, como se ela estivesse dançando, e as próprias integrantes dançam pontos de candomblé e também do cancioneiro popular. Há queima de fogos e também é servida uma grande feijoada para todos os presentes.
Figura 8 – Procissão de Nossa Senhora da Boa Morte e Glória Fonte: Arquivo Joanice Conceição
Figura 9 – Moradores observam a passagem da procissão da Glória Fonte: Arquivo Joanice Conceição
Figura 10 – Olhar a festa Fonte: Arquivo Joanice Conceição
A repetição dos rituais parecem refletir a ideia de comportamento restaurado de R. Schechner (1985), visto que ele está presente nos dramas rituais vivenciados pela Irmandade da Boa Morte, como percebemos nas danças, músicas e gestos rituais que são repetidos anualmente. As tiras de comportamento também propostas por Schechner possibilitam pensar nas performances corporais não apenas das integrantes, mas sobretudo da imagem de Maria que compõe a figura central do ciclo da festa; é por meio da figura da Virgem que as mulheres homenageiam as integrantes já falecidas, assim como as comidas oferecidas fazem a transposição do universo católico para o candomblé. As tiras de comportamento se constroem e se desconstroem, ao passo que alteram identidades. Através dos comportamentos podemos compreender a performance como recriadora da própria ação simbólica, que por sua vez mobiliza o universo sensível, assim possibilitando a restauração, por meio da repetição das ações rituais por elas realizadas.
As saídas de Maria pelas ruas das cidades desperta o olhar das pessoas que mudam suas ações para participar, ainda que seja como expectador, daquele momento (vide figura 10). A performance não é caracterizada apenas pelo ato em si, mas por todo o processo que envolve tal ação; a performance é um paradigma do processo (TURNER, 1974). A própria palavra performance origina-se do verbo francês parfournir que significa “completar”, “realizar completamente”; no caso da Boa Morte, a performance de Maria se faz completamente quando da realização da segunda parte da festa, que acontece normalmente no domingo. A música, a dança (samba) e a grande feijoada conduzem não apenas as integrantes para a restauração de comportamento, mas a própria Maria também é levada para uma rotina diferenciada daquela que é vivida nos últimos dias.