Vários agentes atuam na etapa de projeto, alguns mais intensamente que outros, dependendo inclusive da fase de elaboração dos projetos. Observa-se, principalmente, a participação de profissionais de projeto, de profissionais das empresas construtoras e das empresas incorporadoras ou empreendedoras12. Os usuários também podem fazer parte deste conjunto (ver Figura 3.1), porém a participação destes agentes não é comum em empreendimentos do mercado imobiliário, já que não se sabe quem serão os clientes finais usuários das unidades. Estudos mercadológicos podem ser realizados com o objetivo de captar as necessidades de usuários potenciais. Investidores, consultores, gerenciadores e outros agentes também podem ser incluídos.
Figura 3.1 – Agentes envolvidos na etapa de projeto
(Fonte: MELHADO, 2006)
A atribuição primária dos projetistas consiste na elaboração de projetos – arquitetura, estrutura, instalações prediais, entre outros – em consonância com os requisitos do contratante e as condições do contrato. Outras funções e responsabilidades incluem: ser licenciado e qualificado para oferecer os serviços; aplicar habilidades apropriadas; ser proativo e claro na comunicação; ser consciente com relação ao programa, orçamento e cronograma; ser pontual nas interpretações, avaliações e decisões; prevenir conflitos de interesses; observar códigos, regulamentos e leis aplicáveis; interpretar contratos imparcialmente; representar os interesses do cliente; e desempenhar atividades expressas no contrato com o cliente (ASCE, 2000). Estes agentes podem atuar individualmente ou em uma equipe multidisciplinar. Em geral, são contratados externamente às empresas incorporadora e construtora (NOVAES, 2007b).
12 As empresas incorporadoras participam do mercado imobiliário, foco desta dissertação. Se o trabalho estivesse
Em função de suas diferentes formações, a linguagem utilizada por cada projetista pode ser diferenciada. Este é um dos fatores que ocasiona problemas de comunicação e de compreensão dos requisitos de projeto por parte dos diferentes projetistas. Outro fator importante é que os projetistas pertencem a distintas organizações, trabalham separadamente e, na maior parte dos casos, em locais fisicamente diferentes. Isto incrementa a segmentação entre estes, fato que pode ocasionar também o aumento da possibilidade de ocorrerem incompatibilidades entre os projetos (TZORTZOPOULOS, 1999). Por isso, é importante que os projetistas se organizem uma equipe multidisciplinar subsidiada por um coordenador de projetos13.
De acordo com Melhado (2005), essa lógica multidisciplinar contempla o desenvolvimento integrado das disciplinas e a geração de um conjunto harmônico e coerente, que considera disciplinas compatibilizadas, tanto quanto a aspectos da conformação do produto aos requisitos do contratante quanto ao auxílio à sua produção.
Segundo o mesmo autor, “a diretriz básica a ser adotada para o processo de projeto do edifício, considerando tanto a organização quanto a coordenação das equipes de projeto, deve estar baseada no trabalho gerado por uma equipe multidisciplinar e coordenada de forma interativa e regular por um profissional com adequada experiência em projeto e execução”.
Outro agente participante da etapa de projeto é a empresa incorporadora, que pode atuar também como construtora. Considera-se incorporador “a pessoa física ou jurídica, comerciante ou não, que, embora não efetuando a construção, compromisse ou efetive a venda de frações ideais de terreno objetivando a vinculação de tais frações a unidades autônomas, em edificações a serem construídas ou em construção sob regime condominial, ou que meramente aceita propostas para efetivação de tais transações, coordenando e levando a termo a incorporação e responsabilizando-se, conforme o caso, pela entrega, em certo prazo, a preço e em determinadas condições, das obras concluídas” (Lei nº 4.591, de 1964, arts. 29 e 30, RECEITA FEDERAL, 2008).
Caso o incorporador efetue a construção, é considerado também um construtor. A empresa construtora é “responsável pela contratação dos agentes envolvidos diretamente com a
execução das obras e tem responsabilidade técnica por ela” (SOUZA e MELHADO, 2003).
Com relação à etapa de projeto, a empresa incorporadora pode ser dependente de informações do usuário, de estudos mercadológicos sobre usuários potenciais ou do produto em foco (programa de necessidades) e atua mais no início do processo, se preocupando mais com o negócio imobiliário, importando aspectos econômicos e competitivos. A empresa construtora é dependente de informações da empresa incorporadora e das empresas de projetos e pode atuar mais no desenvolvimento do processo de projeto e tem o foco voltado para a construtibilidade dos projetos, levando em conta a sua atividade de construir. Conforme o sistema contratual e suas relações, uma ou outra empresa atua mais incisivamente na cobrança dos requisitos da PSP.
Como mencionado no item 2.3, os agentes conferem importância ao projeto de acordo com seus interesses. Porém, um interesse é comum a todos: o sucesso do empreendimento e terá sucesso no mercado imobiliário aquele empreendimento que atender as necessidades dos usuários (ver Figura 3.2).
Figura 3.2 – Agentes envolvidos na etapa de projeto e seus interesses
Em oposição ao desenvolvimento tradicional do projeto, que ocorre sequencialmente – um agente atua individualmente e só desempenha sua atividade ao término da atividade de outro agente – o conceito de projeto simultâneo manifesta-se para contemplar a lógica multidisciplinar, integrando as disciplinas de projeto e, portanto, os agentes.
Fabricio (2002) define Projeto Simultâneo como “o desenvolvimento integrado das diferentes dimensões do empreendimento, envolvendo a formulação conjunta da operação imobiliária, do programa de necessidades, da concepção arquitetônica e tecnológica do edifício e do projeto para produção, realizado por meio da colaboração entre o agente promotor, a construtora e os projetistas, considerando as funções subempreiteiros e fornecedores de materiais, de forma a orientar o projeto à qualidade ao longo do ciclo de produção e uso [operação e manutenção] do empreendimento”.
Conforme Brasil e Cordeiro (2004), o objetivo final da engenharia simultânea é promover a integração da etapa de projeto com a etapa de produção. Para que isso ocorra, é necessária a criação de uma equipe multidisciplinar de projeto que trabalhe de forma integrada no desenvolvimento simultâneo do projeto do produto e do projeto para a produção, com o objetivo de alcançar a racionalização da produção.
A Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) configura-se em uma importante ferramenta para subsidiar a integração entre as disciplinas de projeto e facilitar o relacionamento entre os agentes da equipe multidisciplinar. Segundo Nascimento et. al (2003), a TIC envolve a introdução, armazenamento, processamento e distribuição da informação por meios eletrônicos. As tecnologias de informática mais usadas no setor da Construção Civil são aquelas como CAD (Computer Aided Design) e sistemas para cálculo de estruturas. Porém, há outras tecnologias como CAD 4D, BIM (Building Information
Modelling), entre outras e ambientes para integração da atividade de projeto, as extranets,
ainda de emprego pouco disseminado no setor.
Segundo Ruschel e Guimarães Filho (2008), CAD 4D “são ferramentas que associam ao modelo geométrico o fator tempo e permitem, ainda em projeto, a visualização da simulação da evolução da obra quando o fator tempo representar o cronograma planejado”.
Os sistemas baseados na tecnologia BIM podem ser considerados uma evolução dos sistemas CAD, pois gerenciam a informação no ciclo de vida completo de um empreendimento de construção, através de um banco de informações inerentes a um projeto, integrado à modelagem em três dimensões (COELHO e NOVAES, 2008).
Os sistemas BIM adotam modelos paramétricos dos elementos construtivos de uma edificação e permitem o desenvolvimento de alterações dinâmicas no modelo gráfico, que refletem em todas as pranchas de desenho associadas, bem como nas tabelas de orçamento e especificações (COELHO e NOVAES, 2008).
Embora existam tecnologias da informação cada vez mais elaboradas, há necessidade de profissionais cada vez mais qualificados e mais do que isto, é necessário que a colaboração entre eles seja eficaz. O projeto-produto na área de AEC é resultado de um processo colaborativo entre diversos agentes, que muitas vezes estão em lugares distintos, daí a importância de tecnologias que auxiliem nas atividades.
De acordo com SILVA e NOVAES (2005), a tecnologia da informação dentro dos sistemas de informação, com o auxílio dos recursos de informática, promove mudanças no processo de projeto, na sua coordenação, permitindo novas formas de comunicação.
Segundo os mesmos autores, as tecnologias de comunicação facilitam o compartilhamento do conhecimento. Os avanços contínuos dos programas de computador para o desenvolvimento de projetos de edificações, compatíveis entre si, sistemas informatizados e a conexão digital por redes interna (intranet) e externa (extranet) e as novas tecnologias de comunicação permitem que o processo de projeto tenha um intercâmbio instantâneo com os seus diversos colaboradores, agilizando a coordenação de projeto e melhorando a qualidade do processo e do produto final.
A Internet, sigla para Inter Networking (entre redes de comunicação), “é uma rede de comunicação internacional que permite a transferência de dados entre os usuários e sistemas que se encontram a ela conectados”. A intranet “é uma rede privativa que utiliza as mesmas tecnologias utilizadas na Internet (como navegadores e servidores de rede, protocolos de rede TCP/IP, publicação e bancos de dados de documentos de hipermídia em HTML, e assim por diante), possibilitando o intercâmbio de informações, comunicações, colaborações e suporte aos processos de negócios”. Quando se tem “um conjunto de duas ou mais intranets ligadas em rede, podemos nomeá-las como uma extranet”. O termo extranet “é derivado de intranet expandida” (COELHO et. al, 2006).
A extranet pode ser caracterizada como “uma rede de computadores que utilizada tecnologia de internet para conectar empresas com seus colaboradores e parceiros (fornecedores e clientes) que compartilham objetivos comuns. Contém um banco de dados e um conjunto de ferramentas para visualização e controle com a permanente atualização e disponibilidade on- line de informações” (SILVA e NOVAES, 2005). Através de uma plataforma web, os usuários do sistema acessam áreas restritas, onde, de acordo com a permissão estabelecida pelo gerente de projetos, podem comunicar-se com outros membros da equipe, bem como compartilhar documentos (planilhas, cronogramas, memoriais, orçamentos, arquivos CAD etc.) (NOVAES, 2007a).
Há que se perceber que as tecnologias estão disponíveis e que seus recursos são louváveis. Então, é preciso que elas sejam exploradas e utilizadas na plenitude. Por exemplo, é necessário refletir que a extranet é mais do que um repositório de documentos, é uma ferramenta de interação dos envolvidos em um determinado projeto e assim por diante.