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A partir do final da década de 1960 – e, portanto, sob forte influência do pensamento dos estudos culturais –, a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) exerce papel protagonista na promoção da educação para as mídias. Bévort e Belloni (2009) afirmam que foi particularmente em documentos da Unesco que apareceram pela primeira vez expressões como media literacy e media education5. Segundo as autoras, em um primeiro momento essas expressões referem-se

[...] de modo um tanto confuso à capacidade destes novos meios de comunicação de alfabetizarem em grande escala populações privadas de

estruturas de ensino e de equipes de pessoal qualificado, ou seja, às virtudes educacionais das mídias de massa como meios de educação a distância. A mesma expressão é usada para exprimir a preocupação de educadores, intelectuais e decisores com a influência cultural destas mídias [...]. (BÉVORT; BELLONI, 2009, p. 1085-1086, grifo das autoras).

Citando documento da Unesco (1984), Bévort e Belloni (2009) afirmam que uma tentativa de definição do International Film and Television Council (vinculado à Unesco) para a mídia-educação, de 1973, “aponta para o surgimento de um novo campo de ação” (BÉVORT; BELLONI, 2009, p. 1086). De acordo com essa definição, mídia-educação poderia ser entendida como:

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A tradução do termo literacy para o Português engendra discussões e controvérsias que fogem ao escopo deste trabalho, no qual, sempre que a fonte original é de Língua Inglesa ou utiliza o termo em Inglês e/ou a manutenção da expressão original tem relevância para a apresentação das contribuições dessas fontes, optamos por manter a versão original. Já em relação à expressão media education, justamente pelo caráter de campo ainda em conformação das aproximações entre Comunicação e Educação e, particularmente, dos processos de formação voltados ao estabelecimento de relações críticas com os meios de comunicação e as tecnologias de informação e comunicação, também não há uma expressão isenta de controvérsias para designar a área. Neste trabalho, adotamos, como já registrado anteriormente, preferencialmente a expressão educação para as mídias. No entanto, cabe registrar que, na edição brasileira da publicação “Alfabetização midiática e informacional – Currículo para formação de professores” (UNESCO, 2013b), os editores adotam o termo alfabetização, justificando essa opção pela proximidade com a expressão que tem sido utilizada em Língua Espanhola e praticada na Espanha e em países da América.

o estudo, o ensino e a aprendizagem dos meios modernos de comunicação e expressão, considerados como parte de um campo específico e autônomo de conhecimentos, na teoria e na prática pedagógicas, o que é diferente de sua utilização como auxiliar para o ensino e a aprendizagem em outros campos do conhecimento, tais como a matemática, a ciência e a geografia. (UNESCO, 1984, p. 8).

As autoras evidenciam, nessa definição, a ênfase na dimensão de objeto de estudo das mídias – ou seja, na leitura crítica das mensagens midiáticas –, excluindo-se a dimensão de ferramenta pedagógica, cujo desenvolvimento estaria se dando, na mesma época, principalmente nos Estados Unidos, com uma abordagem tecnicista e pragmática que enfatizava a apropriação dos aspectos técnicos de produção das mensagens midiáticas (BÉVORT; BELLONI, 2009). Ainda segundo Bévort e Belloni (2009), em 1979 uma nova definição da Unesco tentaria “abranger o conjunto do fenômeno e melhor definir o objeto da mídia-educação” (p. 1086), que passa a compreender:

todas as maneiras de estudar, aprender e ensinar em todos os níveis [...] e em todas as circunstâncias, a história, a criação, a utilização e a avaliação das mídias enquanto artes práticas e técnicas, bem como o lugar que elas ocupam na sociedade, seu impacto social, as implicações da comunicação mediatizada, a participação, a modificação do modo de percepção que elas engendram, o papel do trabalho criativo e o acesso às mídias. (UNESCO, 1984, p. 8).

Ainda no contexto das articulações promovidas pela Unesco, é em 1982, na Declaração de Grünwald (documento resultante de reunião internacional com representantes de 19 países realizada na cidade de Grünwald, na Alemanha), que o termo mídia-educação é consagrado e as dimensões de objeto de estudo e de ferramenta da mídia são conciliadas – ainda que permaneça a ênfase na primeira –, já que a área

é definida como uma formação para a compreensão crítica das mídias, mas também se reconhece o papel potencial das mídias na promoção da expressão criativa e da participação dos cidadãos, pondo em evidência as potencialidades democráticas dos dispositivos técnicos de mídia. Este documento fundador deixa vislumbrar a ideia da dupla dimensão da mídia- educação e, sobretudo, a consideração das mídias não só como meios de comunicação de massa, cuja leitura crítica é preciso desenvolver, mas também como meios de expressão da opinião e da criatividade pessoais, cuja apropriação é necessário assegurar a todos os cidadãos. Começa a se construir, a partir de então, a noção de mídia-educação como formação para a apropriação e uso das mídias como ferramenta: pedagógica para o professor, de criação, expressão pessoal e participação política para todos os cidadãos. (BÉVORT; BELLONI, 2009, p. 1087, grifo das autoras).

Outro marco destacado pelas autoras é a Conferência Internacional “Educando para as mídias e para a era digital”, realizada pela Unesco em Viena, Áustria, em 1999. Bévort e Belloni (2009) destacam, deste encontro, o fato de, pela primeira vez, terem sido “ressaltados como princípios norteadores a consideração das crianças e adolescentes como parceiros efetivos (e não mais apenas como destinatários das ações) na discussão e definição de propostas” (p. 1092), bem como a incorporação das mutações tecnológicas “como elementos essenciais a considerar e não apenas como meras questões de suporte técnico” (p. 1092).

Em 2007, a Unesco promove, em Paris, um encontro comemorativo dos 25 anos de Grünwald, que resulta na Agenda de Paris. Deste documento, Bévort e Belloni (2009) destacam, como avanços reais, “a ênfase no papel dos sistemas educacionais na promoção da mídia-educação e à importância de integrar a mídia-educação na formação inicial de professores” (p. 1097). Segundo as autoras, é na Agenda de Paris que, pela primeira vez em documentos oficiais internacionais desse tipo,

aparece entre as principais recomendações a prioridade ao ensino formal, como espaço privilegiado de ações de mídia-educação, à formação inicial de professores [...] e à pesquisa integrada ao estudo de inovações pedagógicas (e não mais a estudos de recepção de mídias, de especialistas da comunicação). (BÉVORT; BELLONI, 2009, p. 1097).

Mais recentemente, a partir da década de 2010, uma novidade nos documentos da Unesco foi a integração dos conceitos de media literacy e information literacy em uma única expressão, a alfabetização midiática e informacional. Na publicação intitulada “Media and Information Literacy – Policy and Strategy Guidelines” (UNESCO, 2013a), a justificativa para essa integração é a busca por um conceito que harmonize e abranja o grande número de

literacies que podem ser identificadas na era digital, relacionadas às informações jornalísticas, à televisão, ao cinema, ao computador, à Internet e às redes sociais, dentre outras áreas emergentes ou que venham a surgir. Na publicação, afirma-se que o conceito visa englobar conhecimentos, habilidades e atitudes que permitam aos cidadãos:

compreender o papel e as funções da mídia e outros provedores de informação nas sociedades democráticas; compreender sob quais condições essas funções podem ser exercidas; reconhecer e articular uma necessidade de informação; localizar e acessar informação relevante; avaliar criticamente a informação e o conteúdo da mídia e de outros provedores de informação, incluindo aqueles na Internet, em termos de autoridade, credibilidade e propósito; extrair e organizar informação e conteúdo midiático; sintetizar ou operar sobre as ideias abstraídas do conteúdo; comunicar com ética e responsabilidade sua compreensão do conhecimento criado para uma audiência em formas e meios apropriados; ser capaz de aplicar habilidades com tecnologias de informação e comunicação para o processamento de informações e a produção de conteúdo; engajar-se na mídia e em outros provedores de informação, incluindo aqueles na Internet para a autoexpressão, liberdade de expressão, diálogo intercultural e participação democrática. (UNESCO, 2013a, p. 13-14, tradução nossa).

Chama a atenção, nessa formulação, o que avaliamos como um maior equilíbrio entre as dimensões analíticas e criativas. Além disso, essa nova perspectiva também traz como novidade a inclusão, além da mídia, da abordagem de outras fontes de informação, como bibliotecas, arquivos e museus.