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3.3 Flytellinger og hekkeregistreringer

3.3.2 Hekkeregistreringer

Corroborando os modelos apresentados anteriormente no que diz respeito à importância da reflexão nos processos de aprendizagem e de formação, Schön (2007) aponta para a importância dos saberes e dos talentos necessários para a atuação profissional.

Para o autor, em situações práticas nas quais a incerteza, o conflito e a unicidade imperam, os profissionais demonstram um talento artístico que os habilita a executar suas tarefas de forma adequada. Execuções estas que, de acordo com Schön (2007), “não dependem de nossa capacidade de descrever o que sabemos fazer ou mesmo considerar, conscientemente, o conhecimento que nossas ações revelam”. A ação realizada pelo indivíduo está relacionada ao conhecimento tácito que este detém, diz respeito ao saber fazer, com o ser capaz de realizar a ação, porém, sem que esta realização possa ser verbalizada passo a passo ou ser ensinada a outro para que a reproduza nas mesmas seqüências, obtendo o mesmo resultado.

Schön (2007) utiliza a expressão conhecer-na-ação para se referir aos tipos de conhecimento que emergem nas ações inteligentes, o que para ele se traduz em performances físicas, publicamente observáveis, como o andar de bicicleta ou a análise instantânea de um balanço, atividades nas quais o ato de conhecer se encontra na própria ação realizada. Pode-se conhecer teoricamente o andar de bicicleta, contudo só se anda de bicicleta na prática.

O conhecer-na-ação está no campo do conhecimento tácito. Contudo este conhecer pode ser traduzido, em alguns casos, por meio da observação e da reflexão sobre as ações realizadas. Esta tradução será de diferentes tipos, dependendo do propósito e das linguagens disponíveis para as descrições envolvidas nesta representação da ação realizada. Esta representação será sempre, segundo Schön (2007), uma construção. Construções estas que “são sempre tentativas de colocar de forma explícita e simbólica um tipo de inteligência que

começa por ser tácita e espontânea” (SCHÖN, 2007, p. 31). Para o autor, nossas descrições são conjecturas que precisam ser testadas contra observações de seus originais, dos quais, pelo menos em certo aspecto, elas provavelmente distorcerão, uma vez que o conhecer-na-ação é dinâmico e os fatos, os procedimentos e as teorias são estáticos.

O conhecer-na-ação está ligado ao como cada indivíduo realiza a sua tarefa no dia-a- dia, tem relação com uma forma quase que automática de realizar uma tarefa. Não há uma reflexão sobre quais são os passos a seguir ou um planejamento a priori, sabe-se e aplica-se o conhecimento na prática. Esta aplicação prática gera situações nas quais o indivíduo está efetivamente aprendendo algo novo, porém, em virtude da falta de reflexão em relação à ação, estas aprendizagens podem não ser percebidas como tal.

Segundo Schön (2007), o conhecer-na-ação “é um processo que se coloca espontaneamente, sem deliberação consciente e que funciona, proporcionando os resultados pretendidos, enquanto a situação estiver dentro dos limites do que aprendemos a tratar como normal” (SCHÖN, 2007, p.33). Este processo se assemelha à acomodação descrita por Piaget, ou seja, o indivíduo resolve seus problemas a partir do cabedal de conhecimentos e saberes acumulados em experiências anteriores, sem questionar ou refletir se estes se aplicam à nova situação enfrentada. A lógica parece estar ligada a algo como “se deu certo anteriormente,

dará novamente”, obviamente de forma automática e sem reflexão.

Contudo, a lógica de funcionamento descrita acima nem sempre se reproduz da mesma maneira. As respostas de uma rotina podem produzir surpresas as quais não podem ser resolvidas a partir do conhecimento disponível no exato momento da necessidade. Situações como esta geram a necessidade de uma reflexão em relação ao presente-da-ação, em relação a quais são as possíveis saídas que podem ser adotadas. Nesta etapa do processo, surge o desconforto e o desequilíbrio em função da ausência de soluções para os problemas enfrentados no dia-a-dia, para os quais os conhecimentos e saberes do passado já não são mais suficientes. Esta situação gera a necessidade de se buscar novas respostas e novas formas de resolver os problemas enfrentados no dia-a-dia. Esta necessidade, salvo engano ou falta de entendimento, apresenta uma grande similaridade com o processo de acomodação descrito por Piaget.

A reflexão, segundo Schön (2007, p. 33), “é, pelo menos em alguma medida, consciente, ainda que não precise ocorrer por meio de palavras”, pois nas situações quando o indivíduo não dá conta de resolver os problemas a partir do conhecer-na-ação, este conhecer, juntamente com eventos inesperados, são levados em consideração no sentido de se buscar a

compreensão dos fenômenos e do próprio processo de conhecimento. Deste processo surge a

reflexão-na-ação, situação na qual surge o questionamento sobre a estrutura dos pressupostos

do ato de conhecer-na-ação. Os processos passam a ser pensados de forma mais crítica, surgem as reestruturações das estratégias de ação, do entendimento e da compreensão dos fenômenos e da própria forma de conceber os problemas. Contudo é importante salientar que este não é um processo que ocorre separado da ação, para o autor, pensamento e ação são atividades complementares.

Segundo Schön (2007), a partir da reflexão os processos passam a ser experimentados de imediato. O indivíduo passa a pensar sobre suas atividades, as experiências relacionadas às novas ações passam a ter o objetivo de explorar os fenômenos recém observados, passa-se a testar novas compreensões experimentais acerca dos fatos.

Os processos de conhecer-na-ação e de reflexão-na-ação apresentam uma distinção sutil, podendo inclusive ocorrer situações nas quais não seja possível a identificação de em que momento cada um deles está ocorrendo. As respostas dadas a uma determinada situação- problema podem estar atreladas a uma forma de variação conhecida pelo indivíduo e não em função da ausência de uma resposta causada devido a uma surpresa e ao desconhecimento em relação a uma nova situação a ser enfrentada.

O conhecer-na-ação tem relação com o conhecimento tácito, com a rotina, com a espontaneidade, com certo automatismo, com o saber que o indivíduo possui no exato momento da realização de uma atividade, já a reflexão-na-ação está ligada a surpresa, ao inesperado, a falta de respostas para uma pergunta jamais respondida anteriormente, tem a ver com a reestruturação imediata do conhecer-na-ação.

Os processos de conhecer-na-ação e de reflexão-na-ação são práticas presentes no cotidiano, e como tal também estão relacionadas ao contexto profissional nos quais os indivíduos estão inseridos no dia-a-dia. Segundo Schön (2007, p 37) “os processos de conhecer na ação de um profissional tem suas raízes no contexto social e institucionalmente estruturado do qual compartilha uma comunidade de profissionais”. Os profissionais compartilham convenções de ações, linguagens, ferramentas e padrões que são úteis para determinadas atividades, ramos de atuação e de conhecimento. Há um corpo de conhecimento compartilhado entre os profissionais de uma determinada área, as práticas e as condutas são reguladas por um conjunto de valores, preferências e normas que regulam, estabelecem objetivos e diretrizes para a ação profissional.

Falando da prática, o autor afirma que:

Quando alguém aprende uma prática, é iniciado nas tradições de uma comunidade de profissionais que exercem aquela prática e no mundo prático que eles habitam. Aprende suas convenções, seus limites, suas linguagens e seus sistemas apreciativos, seu repertório de modelos, seu conhecimento sistemático e seus padrões para o processo de conhecer-na-ação. (SCHÖN, 2007, p. 39)

Dificilmente se aprende uma prática profissional desvinculada da realidade a que os profissionais estão inseridos e sem que o aprendiz tenha o desejo de se apropriar da técnica. O

conhecer-na-ação se torna possível a partir do convívio com profissionais mais experientes,

por meio da observação, do ensaio e do contato com a prática.

Aprender uma prática por conta própria, segundo Schön (2007), tem a vantagem da liberdade da experimentação sem os limites estabelecidos pela visão recebida de outros, porém traz consigo também a desvantagem de se reinventar a roda sem ter em conta o conhecimento e as experiências acumuladas por outros. Contudo a realidade das empresas nas quais os profissionais atuam, em virtude da necessidade e da pressão por rápidos e bons resultados, desempenhos e minimização de erros não permite que os aprendizes reinventem rodas. Nestes contextos, os profissionais mais experientes aprendem a esperar que os aprendizes sejam munidos de habilidades rudimentares, as quais precisam ser lapidadas durante o processo de aprendizagem.

Para Schön (2007), a aprendizagem do conhecimento e do saber profissional pode ocorrer a partir de três maneiras:

a. Treinamento técnico: conhecimento e o saber são concebidos em termos de

fatos, regras e procedimentos aplicados de forma não-problematizada a problemas instrumentais. Nesta perspectiva o papel do profissional mais experiente se restringe a comunicar e demonstrar a aplicação das regras e operações aos fatos da prática;

b. “O pensar como um __________”: conhecimento e saber concebidos a partir do “pensar como um” profissional experiente. É preciso aprender e entender os fatos relevantes e as formas de investigação pelas quais os profissionais experientes raciocinam para encontrar, em instâncias problemáticas, as conexões entre o conhecimento geral e casos particulares. O profissional mais experiente pode enfatizar tanto as regras da investigação quanto a reflexão-na-ação a partir da qual, ocasionalmente, os estudantes têm que desenvolver novas regras e métodos próprios;

c. A reflexão-na-ação: conhecimento e saber concebidos a partir do ir além das

regras explicitadas, por meio não somente da visão de novos métodos de raciocínio como também por construir e testar novas categorias de compreensão, estratégias de ação e forma de conceber problemas. O papel do profissional mais experiente deve centrar-se na ênfase em zonas indeterminadas da prática e conservações reflexivas com os materiais da situação.

De acordo com Schön (2007, p. 41), o terceiro tipo de aprendizagem não impede o trabalho dos anteriores. O autor acredita que é possível aprender com a reflexão-na-ação, sendo que em um primeiro momento se aprende a reconhecer a aplicar regras, fatos e operações-padrão, em seguida, a raciocinar a partir das regras gerais até casos problemáticos, de forma característica de uma ou de outra profissão, e somente então a partir destes dois primeiros momentos de aprendizagem é que se torna possível desenvolver e testar novas formas de compreensão e ação.

As aprendizagens na prática, segundo Schön (2007), acontecem em dois contextos distintos, o das situações familiares e o das situações incomuns, e sob duas perspectivas diferentes de apropriação do conhecimento em cada um destes contextos.

Os contextos são definidos como:

a. Situações familiares: são aquelas nas quais o profissional pode resolver o

problema pela aplicação rotineira de fatos, regras e procedimentos derivados da bagagem de conhecimento profissional. No planejamento urbano, por exemplo, há regras não-oficiais, mas aceitas, pelas quais um planejador pode calcular, sob um dado zoneamento regulamentado, o número de vagas de estacionamento necessárias para cada apartamento de um edifício. Em medicina existem diagnósticos de rotina de pacientes e prescrições rotineiras para queixas comuns e simples; e

b. Situações incomuns: são aquelas nas quais o problema não fica inicialmente

claro e não há uma equivalência óbvia entre as características das situações e o conjunto de teorias e técnicas disponíveis. É comum neste tipo de situação, falar em “pensar como um médico” – ou advogado, ou administrador – para referir-se aos tipos de investigação pelas quais profissionais competentes aplicam conhecimentos disponíveis em situações práticas em que sua aplicação é problemática.

a) Racionalidade técnica: baseada em uma visão objetivista da relação do

profissional com a realidade que ele conhece. Os fatos são o que são e a verdade das crenças é passível de ser testada estritamente com referência a elas. Todos os desacordos significativos são solucionáveis, pelo menos em princípio, tomando-se os fatos como referência. Todo o conhecimento profissional baseia-se em um alicerce de fatos (SCHÖN, 2007, p. 39).

b) Epistemologia da prática Reflexão na ação: nessa perspectiva se reconhece

como um caso limite as situações nas quais é possível fazer uma aplicação rotineira das regras e dos procedimentos existentes a situações problemáticas específicas. Para além destas situações, regras, teorias e técnicas conhecidas trabalham em instâncias concretas, por intermédio de uma arte que consiste em uma forma limitada de

reflexão-na-ação. E para além destas, se reconhece casos de diagnósticos

problemáticos nos quais os profissionais não apenas seguem as regras da investigação, mas também, às vezes, respondem às descobertas surpreendentes a partir da invenção imediata de novas regras. Esse tipo de reflexão-na-ação é fundamental para o talento artístico com o qual os profissionais, muitas vezes, compreendem situações incertas, únicas e conflituosas (SCHÖN, 2007, p. 38).

Em situações nas quais há o predomínio da perspectiva da epistemologia do conhecimento, de acordo com o autor, o profissional experimenta surpresas que o levam a repensar seu processo de conhecer-na-ação de modo a ir além de regras, fatos, teorias e operações disponíveis. O indivíduo é capaz de responder àquilo que é inesperado por meio da reestruturação de suas estratégias de ação, teorias de fenômeno ou formas de seus esquemas de conhecer o problema, passando a buscar soluções imediatas para testar novas aproximações. O comportamento adotado é o de um pesquisador que busca modelar um sistema especializado.

A Figura 12 apresenta a relação entre os contextos e as perspectivas apontadas anteriormente.

Figura 12: Contextos e perspectivas da prática da aprendizagem reflexiva Fonte: Inspirado em Schön (2007)

No centro da Figura 12, estão as situações familiares, em seguida as situações incomuns, demonstrando que a prática sempre tem início a partir de uma situação familiar, comum, do cotidiano. A situação familiar estará sempre na base da prática, pois não se parte de uma situação desconhecida e incomum de início, pode-se enfrentar novas situações, contudo o cabedal de conhecimento e de esquemas do indivíduo está sempre baseado nas situações familiares vividas anteriormente, o desconhecido e o incomum surgem no momento em que o conhecer-na-ação não dá mais conta de solucionar os problemas encontrados nas situações que deixam de ser familiares. Este conhecer-na-ação está ligado à perspectiva da racionalidade técnica, a qual independentemente do contexto, sendo ele familiar ou não, busca respostas para as práticas, as quais nem sempre estão ao alcance do indivíduo. A epistemologia da prática e a reflexão-na-ação, como se pode perceber na ilustração, abarca todos os contextos, pois se trata de uma perspectiva que busca respostas que sejam capazes de dar conta da prática, sendo esta familiar ou não. Em virtude da amplitude que esta abordagem pode alcançar não há uma delimitação de seu espaço representado na Figura 9.

A reflexão-na-ação e a reflexão sobre a ação são fundamentais para esta pesquisa, eles serviram para iluminar não somente o caminho percorrido como também atuaram como guias e alertas no trabalho de campo. A reflexão sobre as práticas observadas no caso estudado estiveram focadas nas experiências práticas e nas reflexões decorrentes destas práticas, experienciadas por parte dos profissionais que participaram da pesquisa.

As interações entre os indivíduos, as trocas de experiências, o convívio social e o ambiente onde estes estão inseridos servem de matéria-prima e de fomento para as novas aprendizagens. Estas novas aprendizagens estão essencialmente vinculadas ao contato social e às trocas de experiências entre os profissionais mais experientes e seus aprendizes, sem este contato as aprendizagens não ocorreriam.

O objetivo deste tópico foi de introduzir a importância das experiências, das práticas e da reflexão nos processos de aprendizagem profissional. O seguinte tópico aborda as questões relacionadas à teoria social da aprendizagem nas organizações.

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