1. General introduction
1.4. Health benefits
A análise realizada a respeito das concepções de corpo mais influenciadoras do paradigma em que estamos imersos na Idade Contemporânea e os estudos sobre o paradigma da complexidade nos estimularam fortemente a buscar respostas não cartesianas a questionamentos sobre o homem, e a propor uma concepção de corpo que fosse capaz de compreender o ser humano complexo e sua diversidade, relatividade, imprevisibilidade, incerteza, ambigüidade, dualidade, cisão, antagonismo, insuficiência e inter-relação constante entre suas partes.
Como já afirmamos, a busca pela unidade foi a preocupação entre os estudiosos, cuja maioria fundamentou-se inicialmente de forma sensata, tentando
superar o dualismo. No entanto, muitas das propostas mostraram-se insuficientes aos questionamentos da crise paradigmática em que vivemos.
Por algum tempo, prezamos pela unidade corporal. Passamos a considerar que não somos seres duais, não somos compostos por duas instâncias separadas: corpo e mente. Assim, fomos levados à idéia de que somos seres unos. E o que isso quer dizer? Que “O corpo-próprio ensina-nos uma unidade no momento em que não estamos diante de nosso corpo, tampouco estamos dentro dele, enfim, somos ele” (MERLEAU-PONTY apud GUEDES, 1995, p. 49), que somos formados por componentes de um todo indivisível. Mesmo diante de dessas constatações, verificamos não ter alcançado ainda a genialidade suprema a ponto de afirmar com toda a convicção que um coletivo, que um todo, que um sistema macro não tenha suas “partes”, suas individualidades, melhor dizendo, que não seja composto por elas.
É sob essa ótica que consideramos necessária a adoção de uma concepção que abarque não apenas as partes ou, sobretudo, o todo, mas que dê conta de ambos e suas inter-relações. Por conta dessa necessidade, nossos estudos nos levaram a encontrar, nos pressupostos de Edgar Morin (1999), o termo unidual, utilizado para conceber o homem sob esse prisma.
Não é apenas uma questão de mudança terminológica. A unidualidade colabora muito no entendimento e esclarecimento desse complexo e misterioso ser, que é o humano.
Mas o que vem a ser unidualidade? A que esse termo nos remete? Que implicações ele tem? Se observarmos a composição do termo, perceberemos que ele abarca em sua raiz os dois termos contraditórios, discutidos neste estudo: “uno” e “dual”. Esses termos advindos, um mais outro menos, de um positivismo científico, remete-nos a um passado tão presente em nossa práxis, que talvez seja mais presente do que a própria teoria construída atualmente. E como a ciência nos tem evidenciado, o passado não pode ser de todo descartado, assim como o futuro não pode ser tomado bruscamente como o ideal, o mundo está em constante processo e modifica-se por processo.
Atrelado a esse passado, fato constante durante todo o percurso de construção deste trabalho, foi o nosso incessante auto-questionamento a respeito de nossa fala e por conseqüência de nossa escrita. Estamos aqui para defender uma concepção unidual de corpo, mas se pararmos para analisar continuamos a escrever
e verbalizar de maneira dual, como estamos a fazer na maioria das linhas deste texto. Isto se dá em função do limite da nossa linguagem ocidental e cartesiana, com a qual não somos os únicos a se preocupar. Guedes também já se questionou a respeito: “Como é possível falarmos de uma singularidade corpórea, se usamos uma linguagem culturalmente dualista e didática, que freqüentemente nos contradiz todo o sentido?” (GUEDES in MOREIRA, 1995, p. 42).
Nesse sentido, defendemos e propomos a concepção unidual de homem, a qual leva em consideração que o ser humano é composto de partes, mas que a simples soma dessas partes não forma o todo, o qual por sua vez se configura por meio das relações das partes. Assim, optamos pela busca de compreensão complexa de corpo, que busca tecer a unidade sem negar a dualidade, ou seja, munidos da lógica complexa, queremos enfrentar a contradição historicamente construída entre corpo e mente, sem contudo, buscar superá-la, como propõe a lógica dialética.
Ser complexo é questionar o que para muitos é “inquestionável”, quanto mais aquilo que é necessário examinar como as visões duais de homem, construídas e solidificadas ao longo do tempo e não mais cabíveis ao mundo em que vivemos.
Conceber um corpo unidual é compreender que, ainda de acordo com as descobertas científicas que temos, se nos fosse retirado um dedo sobreviveríamos, assim como se algo em nosso aparelho cerebral fosse lesado também sobreviveríamos, mas jamais seríamos os mesmos a partir de qualquer uma dessas faltas, pois cada uma delas corresponderia a diferentes agravantes em diversos níveis.
Nosso corpo (nós próprios) é provido de intencionalidade. Sem ele o conhecimento construído por nós jamais emergiria da mesma maneira. O cérebro e o espírito, produto e produtor do produto, não são responsáveis absolutos por nossas condutas, nem superiores a “carne”, nem mais “puros” que o corpo, não deve existir hierarquia entre as partes do sistema, elas são dependentes. Não existe um cérebro desencarnado, ou seja, todas as partes do corpo se articulam para que o espírito possa emergir. Consideramos como espírito todas as atividades emergentes da inter-relação das partes do corpo: pensamento, consciência. loucuras, sonhos, devaneios, delírios e utopias.
Como diria Morin (1999), devemos abandonar toda a idéia que acredita num fenômeno psíquico independente de um fenômeno físico/químico/biológico, como nos mostra a própria medicina psiquiátrica:
[...] aprendemos cada vez mais que os estados psicológicos dependem estreitamente da falta ou do excesso deste ou daquele complexo molecular (assim a depressão corresponde a uma redução de serotonina no cérebro) [...] sabe-se que a dor do luto ou a depressão grave enfraquecem o sistema imunológico durante vários meses e que os males do espírito podem tornar-se doenças do corpo (psicossomáticas) [...] Além disso, o fenômeno mais intensamente psicocultural, a fé, pode provocar morte ou cura; assim, os tabus, encantamentos, maldições, podem matar; os milagres, curar, e os placebos são eficazes num terço das doenças (MORIN, 1999, p. 82).
Toda essa “contradição” mútua entre corpo e cérebro nos mostra a impossibilidade de eliminação e a irredutibilidade de cada um desses termos, a unidade inseparável deles e a relação circular que os caracterizam. Tudo isso se exprime no paradoxo da concepção unidual de corpo, proposta pela complexidade.