Este caleidoscópio de relações que permeiam os espaços vividos na Rua Augusta, tornando tanto a rua quanto os banheiros dotados de “múltiplas personalidades”, foi notado como composto de combinações distintas num outro recorte observado: os banheiros da Universidade de São Paulo, especificamente numa de suas unidades de ensino e pesquisa conhecida por FFLCH (Faculdade de letras, filosofia, letras e ciências humanas).
As características fazem deste local uma “cidade dentro da cidade de São Paulo”, nomeada inclusive como “Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira”, reduto dos estudantes e espaço delimitado por cercas que permite adentrar num ambiente relativamente autônomo, que dialoga menos com outros espaços da cidade se comparado com a configuração de uma rua como a Augusta. Ali nota se uma morfologia espacial e administrativa composta por prefeitura do campus, variados prédios, museus, lanchonetes, livrarias, ônibus interno, praças, pistas de caminhadas, quadras de esporte, hospital, farmácia, correio...
Por conta destas características que singularizam e significam o local, é possível inferir um público que preferencialmente frequenta os banheiros – composto significativamente por estudantes , e que a abordagem da pesquisa particulariza ainda mais no recorte tratado banheiros dos cursos de humanidades.
Diante deste recorte que denota um público específico, as relações processadas no interior dos banheiros não se tornaram dedutíveis ou auto evidentes, até porque pensar um banheiro frequentado por estudantes, traz as múltiplas facetas do lugar onde se encontra este banheiro do prédio, de qual curso se trata, qual o momento político, etc. e ainda ressalta o fato de que o termo “estudante” não carrega em si uma definição auto evidente, ou seja, há vários tipos de estudantes, com preferências subjetivas, políticas e inserções sociais diversas.
Como exemplo desta interação específica do local, e da complexidade das relações íntimas expressas nestes banheiros, cito os presenciados casos de encontros sexuais no interior desses, e um episódio que congregou bem a imagem e simbologia do banheiro com o ethos do local que se encontra: a greve e revolta dos funcionários terceirizados da limpeza, que no dia onze de abril de 2011 fizeram uma espécie de
motim , trazendo a sujeira destes ambientes e espalhando a nos blocos para tornar visível sua causa:
Imagem 18: Banheiro masculino FFLCH – USP Fonte: Arquivo pessoal
Imagem 19: Lixo parte externa WC Fonte: Arquivo pessoal
Imagem 20: Greve Funcionários Limpeza USP Fonte: Arquivo pessoal
Imagem 21: Banheiro masculino FFLCH – USP Fonte: Arquivo pessoal
Realizar o trabalho na USP mostrou que o banheiro pode fazer emergir questões políticas para além das frases e escritos encontrados em seu interior. Por sua característica íntima, ele é local de articulações, dos planejamentos, das ações.
Mostrar sua sujeira é dar visibilidade aos profissionais terceirizados que naquela ocasião não recebiam seus salários, explicitando que a desorganização do ambiente era uma espécie de plataforma de reivindicações políticas organizada.
No dia do protesto, andava pela USP de forma despretensiosa. Passei quase a tarde inteira fazendo registros no prédio da pós graduação em educação, onde, por conta das diversas empresas terceirizadas que a cidade universitária contrata, não havia nem
vestígio do que ocorria a poucos metros dali nos blocos da faculdade de letras e ciências sociais. Quando entrei no bloco dessa faculdade, vi papéis espalhados, lixeiras viradas, carteiras desordenadas. Pensei que tivesse ocorrido ali uma festa de grandes proporções e pouco controle, ou ainda que o ambiente fosse permanentemente deteriorado, uma vez que ainda não o conhecia.
Cheguei a imaginar que apesar do nome e das personalidades formadas ali naquele local, ele não apresentava nada de “melhor” no que tangia a sua infraestrutura. Mal sabia eu que estava “no momento etnográfico”, literalmente.
O motim tinha acabado de acontecer de forma drástica. Ainda que a limpeza já tivesse sido paralisada, e que já existisse uma “sujeira” e desorganização no local, que obrigara os estudantes a se organizar e limpar o bloco no dia anterior para viabilizar as aulas, o evento ocorrido serviu para “acirrar os ânimos” de professores e alunos. O momento produziu um discurso corporal da greve, materializada nos desejos, nos suores, nas manifestações do corpo, fazendo com que os banheiros e suas inscrições ganhassem densidade analítica e comparativa, seja em relação aos outros usos dos banheiros que se fizeram possíveis, seja em relação à expansão das relações internas daqueles banheiros expandidas a outros contextos e espaços, pois se explicitava ali uma possibilidade de análise política do espaço.
Resolvi caminhar pelo local e registrar o que estava vendo, até porque intuía o impacto disso para minha pesquisa, uma vez que o banheiro e suas impurezas foram então trazidos para a área externa, o que gerava a grande revolta, que presenciava no discurso das pessoas que passavam pelo local e que “não estavam envolvidas” com o movimento e suas reivindicações.
Por conta desta situação, algo novo se processou com relação a minha pesquisa. O fato de fotografar o banheiro passou de um ato de estranhamento imposto pelo método da observação para uma atitude apoiada e imitada por parte dos estudantes. O acesso e registro do banheiro masculino também foram possibilitados e compreendidos. Mesmo sem explicar porque tirava fotos, era apoiada no meu ato e ainda pessoas apontavam novos lugares para que pudesse registrar.
O banheiro que nesta ocasião se encontrava deteriorado, sujo, fétido e exposto, passou a expressar a opinião política dos frequentadores acerca do movimento dos funcionários terceirizados e seu “ato de rebelião”.
Discussões calorosas a respeito da validade do ato para o movimento e para a causa buscada eram ouvidas nos corredores, e, principalmente no interior dos banheiros.
Rapidamente os estudantes se organizaram e fizeram desta questão e deste ato – que foi também idealizado por lideranças estudantis – uma bandeira política que tinha, como pano de fundo, discordâncias políticas referentes à atual administração da Universidade e que diziam respeito à militância e áreas de estudo e atuação destes sujeitos.
Surge em cena o comitê contra a terceirização, que se organizou naquele espaço e para além dele rapidamente: através de assembleias, de um blog, de abaixo assinados e manifestos, de iniciativas como o churrasco na frente da reitoria, postagens de vídeos na internet10, veiculação de textos e discussões acerca do trabalho terceirizado para um grupo de e mails composto basicamente de estudantes envolvidos com a causa visibilizada pelo ato que teve como palco o banheiro e a exposição da intimidade típica do local, bem como a sujeira e exposição provocada por tal deslocamento.
O viés político notado então no trabalho de campo na USP atentou meu olhar para esta possibilidade de análise.
Já na abordagem conceitual deste projeto, que pensa agência dos grafitos, instaurando uma dinâmica relacional de escritos entre si, usuários dos banheiros entre si e entre frequentadores e escritos, algumas questões já eram possíveis de serem antecipadas, como por exemplo, a discussão das subjetividades em interação ou da vigilância do local que esquadrinha os corpos e práticas dos frequentadores (muitas vezes expressas na forma de escritos, como por exemplo o dizer : “ Sorria você não está sendo filmado”). Se o banheiro é espaço de anonimato, como visibilizar os atos políticos nele praticados? Grafitos tornam visíveis intenções e desejos em locais e de formas específicas. Na USP o ambiente do banheiro foi externalizado por motivações específicas. Como já vimos no relato da casa de massagem, trazer o ambiente do banheiro para fora das portas e paredes que o delimitam implica visualizar o proibido, o inadequado, o velado, o intencionado. Isso pode se dar para fins inúmeros, desde compartilhar a intimidade até expor o que deve ser velado, revelando o não reconhecimento de certos profissionais que velam pela assepsia do lugar.
Se por um lado tínhamos no Balneário Relax Club a intenção de sexualizar o espaço como propósito do lugar, sujar a USP carregou intencionalidade de politizá lo.
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Nos dois casos temos a disposição dos agentes em tornarem as coisas “fora de lugar”, sexualizar e politizar primam pelo excesso, de erotismo em um caso, espetacularizado nos corpos semi nus, e político no outro, com a exposição de dejetos, depredação e sujeira que ultrapassava as fronteiras do banheiro.
A primeira vista, a sexualização da casa de massagem não denota explicitamente um ato político ainda que espacialize e controle a sexualidade, e que envolva relações muito mais complexas do que uma simples observação de campo poderia conhecer e sim uma comercialização do sexo, de forma que todo o ambiente carrega signos desta intenção e interação. Daí a minha nítida inserção e reconhecimento como “pessoa fora do lugar”. Nota se que o deslocamento de equipamentos ou pessoas em local “inapropriado” torna relações visíveis. A forma do uso e os sujeitos que ocupam determinado espaço evocam tais significados.
Minha intervenção na casa de massagem, que no caso impactou mais que uma simples observação, aponta para as configurações desta sexualidade e os significados partilhados no ambiente da boate, no qual sexo é um negócio e movimenta as relações e motivações dos sujeitos ali presentes.
Já na USP o significado em voga é a precariedade das relações de trabalho, que se torna visível com o deslocamento da sujeira. Assim, a “sujeira nas relações” – o não pagamento de salários e as condições instáveis de trabalho torna se visível com os dejetos depositados pelo espaço, que incomodam e prejudicam a todos, expandindo relações. Enfim, os usos dos banheiros tanto em um quanto em outro caso são fundamentais para ditarem e expressarem ethos, e dessa forma banheiro não são meros palcos onde se desenrolariam sexualidades e atos políticos, mas vetores dessas formas expressivas de sociabilidade
Imagem 22: Banheiro da Oficina Cultural de Uberlândia – MG Fonte: Arquivo pessoal
O campo trouxe novas perspectivas de abordagens da agência, da vigilância e da intimidade partilhada, dentre elas o potencial político destas relações íntimas e partilhadas que o banheiro expressa e a expansão dos significados que veicula.