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Como podemos observar, Piaget é Piaget desde a apresentação de sua “idéia seminal” ou “intenção de criar uma teoria do conhecimento fundada na Biologia”334, cujo primeiro projeto concebido a partir de uma posição teórica própria, está apresentado em Recherche. Desde então a noção de coordenação sempre ocupará um lugar central no seu sistema, e ao longo de todo o restante de sua obra o seu objeto de estudo, o sujeito epistêmico, sempre permanecerá identificado às coordenações das ações comuns a todos os sujeitos enquanto

buscam conhecer o mundo. Neste sentido, depois de Recherche, Piaget apresentará a sua

definição de sujeito epistêmico, nos seguintes termos:

Em Épistémologie Mathématique et Psychologie, escreve335:

[...] L‟abstraction réfléchissante à partir des actions n‟entraîne pas non plus une interprétation empiriste au sens de psychologiste, car les actions don til s‟agit ne sont pas les actions particulières des sujets individuel (ou sujets psychologiques): ce sont les coordinations les plus générales de tout

334 RAMOZZI-CHIAROTTINO. op. cit. [1998/2010], p.14/334.

système d’actions, traduisant ainsi ce qu‟il y a de commum à tous les sujets et se référant donc au sujet universel ou sujet épistémique et non

pas individuel. Dès lê départ, l‟activité mathématisante apparâit ainsi comme réglée par des lois internes et comme échappant à l‟arbitraire des volontés individuelles. [...]. (negritos nossos).

Na mesma obra, mais à frente, escreve336:

[...] le “sujet épistémique” ou partie commune à tous les sujets de même

niveau de développement, et dont les structures cognitives dérivent des mécanismes les plus généraux de la coordination des actions. Pour autant

que les faits nous autorisent à chercher quelque liaison entre les structures lógico-mathématiques et les activités du sujet, c‟est alors naturellement dans la direction du sujet épistémique qu‟il s‟agit de poursuivre les recherches. [...] Or, à cet égard, l’hypothèse d’um sujet épistémique caractérisé par

une logique de la coordination générale des actions [...]. (negritos nossos).

Em Logique et Connaissance Scientifique, escreve337:

[...] Sous le sujet individuel, en sa conscience et son idéalisation particulières, il faut donc considérer les structures des coordinations

d’actions communes à tous les sujets et ce sont ces coordinations générales (psychobiologiques autant que mentales) que nous appellerons le sujet épistémique. (negritos nossos).

Referindo-se à construção de estruturas matemáticas, pelos matemáticos, escreve338: [...] de niveaux en niveaux, les structures construites sont de plus en plus riches, mais ces structures ne sont nullement des créations ex nihilo parce qu‟elles ne sont pas l‟oeuvre du sujet individuel en ses décisions libres ou arbitraires: elles sont déterminées par les activités du sujet épistémique, c‟est-à-dire par lê noyau fonctionnel commun à tous les sujets

individuels. Ces activités consistent en coordinations générales de l’action

(emboîtements et ordre, etc.), c‟est-à-dire qu‟elles sont subordonnés à un fonctionnement vital en ses caracteres les plus généraux. [...]. (negritos nossos).

Em síntese, a hipótese do sujeito epistêmico (sujeito universal) diz respeito à lógica

das ações, ao sujeito que constroe do ponto de vista da forma as estruturas específicas para o

ato de conhecer, subordinadas e análogas ao funcionamento de toda organização viva, em sua filogênese e ontogênese; em outras palavras, em sua evolução epigenética, cujo mecanimso fundamental é a “abstraction réfléchissante”.

Evidentemente essa síntese da definição do sujeito epistêmico, a partir de importantes obras posteriores à sua intenção inicial, implica pesquisas que geraram conceitos não incluídos na significação original do sujeito epistêmico, implícito no kantismo evolutivo

336 Ibidem, p.329.

337 PIAGET, J. (org.). [1967]. Logique et connaissance scientifique. Encylopédie de la Pléiade. Paris: Gallimard, p.563-564.

dirigido pelo bergsonismo avançado de Piaget presente em Recherche. Porém, não por acaso, a parte comum a essas definições é a noção de coordenação geral das ações da organização, isto é, do organismo e do sujeito do conhecimento que transforma o mundo para conhecê-lo.

Agora, se, de uma parte, a noção de coordenação é a viga mestra da construção da teoria do conhecimento de Piaget, de outra parte, a noção de equilíbrio, conceituada do ponto de vista epistemológico um pouco mais tarde (em relação à Introduction à l’Épistémologie Génétique) como abstraction réflechissante, é a base na qual está fundada esta viga mestra,

pois, como explica Piaget nas conclusões do terceiro volume de Introduction a

L’Épistémologie Génétique, que trata do pensamento biológico, psicológico e social, na parte

que indaga se a evolução dos conhecimentos constituídos pela Razão supõe uma direção determinada, Piaget escreve339:

[...] Sans savoir ce que seront les connaissances ou les structures

ultérieures de pensée, on peut cependant affirmer, en effect, qu‟elles sont

assujetties, avant meme d’être construites, à cette obligation préalable ou bien de conserver ce qui est déjá construit, ou bien, en cas de modifications et même de remaniement général, de trouver la forme la meilleure de coordination entre le maximum d’acquis et les transformations ultérieures. Quelque que soit la liberté de la construction

intellectuelle, celle-ci ne saurait, en effect, et c‟est en quoi une construction

rationnelle diffère d’une construction quelconque – supprimer ce sur quoi elle s’est appuyée en son point de depart, et sa solidité sera corrélative de sa capacité de mise en relation entre les elements nouveaux qu’elle apporte et les éléments anciens qu’elle a utilisés

(puisque, répétons-le, aucune connaissance n’a de commencement absolu). (negritos nossos).

E um pouco mais à frente, completa340:

La loi générale d’équilibre, qui imprime une direction à l’évolution des structures de connaissance est donc plus profonde que les príncipes formels de la pensée; ou, plus précisément elle oriente la structuration formelle elle-même, à tel point qu‟elle determine la non-contradiction

comme telle, mais envisagée en ses diverses formes opératoires possibles, et

non pas seulement sous la forme particulière qu‟elle a prise au sein de la logique bivalente (p.~p = 0). Cette loi est celle-lá même qui régit le

développement de l’intelligence en général: c‟est le passage de l’irréversibilité à la réversibilité, puisque cette dernière constitue par ailleurs le critère de tout equilibre, en même temps que de toute cohérence intellectuelle ou non-contradiction (chap. III §5 n. IV).

(negritos nossos).

Aqui, Piaget explica a lei geral de equilíbrio que rege e submete o desenvolvimento da inteligência em geral e imprime, caracteriza e orienta a direção da construção e da evolução

339 PIAGET, J. [1950]. Introduction à l`épistémologie génétique. Tomo 3: La pensée biologique, la pensée psychologique et la pensée sociologique. Paris: PUF, p.313-314.

da estruturação formal da razão, ou seja, das estruturas de conhecimento ou estruturas e princípios formais do pensamento. A lei geral de equilíbrio consiste numa obrigação prévia de conservar as estruturas da razão já construídas ou de melhorar a forma de coordenação entre o máximo adquirido pelas construções anteriores e as construções ulteriores, sem suprimir as estruturas iniciais que constituem o ponto de partida das novas construções.

A melhora da coordenação entre as estruturas anteriores e as estruturas ulteriores consiste na melhoria da capacidade dessas estruturas para relacionar os novos elementos trazidos pelas novas construções e os elementos antigos utilizados nas construções anteriores, o que resulta numa maior consistência da construção intelectual geral. Como explica Piaget,

“o equilíbrio consiste então em uma integração maximum do já construído na construção

nova, com estruturação retroativa do adquirido: o equilíbrio é constituído pela melhoria das formas possíveis de conciliação compatíveis com o conjunto dos dados adquiridos341, e é neste sentido que Piaget afirma que nenhum conhecimento tem começo absoluto.

Além disso, Piaget explica que o “critério de todo equilíbrio” e de “toda coerência

intelectual ou não-contradição”, implicado na lei geral do equilíbrio que orienta a construção das diversas e possíveis formas operatórias do pensamento é o da passagem da “irreversibilidade à reversibilidade” ou a “reversibilidade operatória que realiza a coerência

interna”342 da coordenação e da integração entre as estruturas novas e as já construídas. O epistemólogo reconhecerá aqui a explicação da abstraction réflechissante que conceituou este processo.

A reversibilidade operatória343 da coordenação entre a estrutura anterior e a ulterior, esta última mais ampla que a primeira, é o que garante a sua integração e a coerência interna do conjunto da construção intelectual, ou seja, a não-contradição entre essas estruturas, já que a relação reversível entre as estruturas permite que se proceda da estrutura ulterior à anterior, e inversamente, da anterior à ulterior que a integra. Neste sentido a lei geral do equilíbrio é

constituída pela reversibilidade operatória que estabelece a integração e a coerência interna

das estruturas operatórias anteriores e ulteriores, e determina a direção das novas construções. Enfim, com a apresentação de sua lei geral do equilíbrio, Piaget quer dizer que ela é “mais profunda que os princípios formais do pensamento”, ao mostrar que, de uma parte, a “evolução dos conhecimentos implica a marcha em direção a um equilíbrio cada vez mais

341 Ibidem, p.314-315. 342 Ibidem, p.316. 343 Ibidem, p.316.

estável e mais móvel”344, e que, de outra parte, os princípios formais do pensamento não dirigem o aumento dos conhecimentos, mas só se limitam a regular a sua formalização”345. Interessante é salientar que, justamente, a abstraction réfléchissante ocorre nos processos puramente orgânicos e se prolonga até o mais alto nível da construção da linguagem científica.

Ao compararmos essas explicações de Piaget com o que vimos em Recherche, compreendemos que, tanto aqui quanto lá, Piaget aponta uma lei do equilíbrio como o fator de direcionamento das construções das estruturas lógico-matemáticas responsáveis pelo funcionamento da razão. Ou seja, nessas novas passagens temos a versão madura de Piaget para o bergsonismo avançado que dirigiria o kantismo evolutivo, no projeto de Recherche.

Em comum com a primeira lei da organização, definida em Recherche, que dizia que “toda organização tende a se conservar como tal – Esta lei resulta diretamente de nossa

definição uma vez que há equilíbrio entre um todo autônomo e suas partes”, temos a preocupação de Piaget em apontar a tendência à conservação, em Recherche, das estruturas e coordenações da organização biológica e do espírito, e depois, mais especificamente, a conservação das estruturas formais do pensamento por meio da lei geral do equilíbrio que apenas é conceituada, por ele mesmo, na década de 70, sem causar muito impacto dentre aqueles que não valorizam adequadamente o lugar do conceito na construção da ciência.

A nova lei geral do equilíbrio explica a razão do equilíbrio entre o todo e as partes da organização do pensamento e a sua tendência à conservação, por meio do processo de integração e de melhoria da coordenação entre as suas estruturas anteriores e ulteriores, constituídos pela ampliação da reversibilidade operatória que caracteriza a coerência interna da organização do pensamento, sob formas de equilíbrio cada vez mais móveis, e por isso cada vez mais estáveis, próprio do funcionamento da razão, pois, como escreve Piaget346:

A reversibilidade não é mais que a forma de equilíbrio do pensamento, e ela pode se realizar por meio de todas as estruturas operatórias. Atualmente, o “grupo” é a forma mais geral e a mais acabada, mas ele não é o único possível e poderá ser englobado em outras futuras transformações. A

reversibilidade simplesmente traduz em sua forma mais direta a dupla exigência de construção e de reflexão, própria a todo pensamento, quer dizer, de composição operatória e de interpretação retroativa. Ela

constitue então o ponto de junção entre o funcionamento descrito em §4 e as sucessivas estruturas possíveis. Ela é a simples expressão do fato de que o

pensamento tende a um equilíbrio móvel, já que todo equilíbrio se define pela reversibilidade e que a reversibilidade lógica consiste na

344 Ibidem, p.313. 345 Ibidem, p.315. 346 Ibidem, p.318-319.

possibilidade das operações inversas (de onde se origina, entre outros, o

princípio de não-contradição p.~p = 0). (negritos nossos).

Deste modo, a reversibilidade (do pensamento) está para a lei geral do equilíbrio, assim como, em Recherche, as leis do pensamento estavam para as leis da organização. Com o detalhe de que, nos dois casos, são as leis do equilíbrio que dirigem e determinam a construção das formas de equilíbrio do pensamento, e é por isso que as leis do equilíbrio são

mais profundas que os princípios formais do pensamento. Agora compreendemos por que em Recherche Piaget primeiro apresenta as leis da organização e depois as leis do pensamento,

pois estas últimas são dirigidas e determinadas pelas primeiras que são essenciais à preservação do organismo, ou seja, à toda organização viva.

A razão é a “assimilação racional” do real a “operações móveis e reversíveis”, isto é, a razão consiste numa “organização operatória”347, que é construída nível a nível, segundo “formas sucessivas de assimilação”, cada vez mais reversíveis, que prolongam a “organização vital” a partir de suas ações pouco reversíveis em interação com o meio.

A “assimilação é a fonte de toda organização”, portanto é a fonte da construção de toda “organização operatória” cuja atividade é a “assimilação essencialmente formal” dos objetos, segundo a construção de suas sucessivas formas de assimilação. Desta maneira348, não há uma “oposição radical” entre a razão e a vida, pois “a vida não poderia, por meios

simplesmente orgânicos, realizar as formas de equilíbrio que ela alcança graças à inteligência e ao pensamento, quer dizer, graças ao seu prolongamento natural”, e por isso a assimilação é a fonte da razão e das suas formas de equilíbrio, da passagem da irreversibilidade à reversibilidade e do equilíbrio mais móvel e estável da organização.

Esse progresso da reversibilidade das operações dentre as estruturas que constituem a organização amplia a sua capacidade de assimilar o meio ao engendrar formas de assimilação e de equilíbrio cada vez mais móveis e ao mesmo tempo estáveis que, por sua vez, contribuem para a sustentação da tendência à conservação afirmada em sua definição, isto é, afirmado pela natureza da organização ou pelo sistema de coordenações entre o seu todo autônomo e as suas partes, tal como Piaget explica na sua primeira lei da organização, em Recherche.

347 Ibidem, p.123-124. 348 Ibidem, p.124.