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Questões instigantes vieram à tona quando me deparei com os documentos referentes ao período em que o arquiteto permaneceu em Paris como aluno premiado,10 desenvolvendo estudos para sua tese de urbanismo, intitulada Avant-projet d’aménagement et extension de la ville de Niterói-au Brésil. Constataram-se importantes lacunas em pesquisas até então elaboradas sobre o IUUP, principalmente no que se relaciona à formação dos primeiros urbanistas brasileiros nessa instituição bem como suas influências na produção urbanística no Brasil, em especial na formação de Attilio Corrêa Lima.

Uma das primeiras pesquisas realizadas sobre a produção urbanística de Corrêa Lima é de Lopes (1993). Trata-se de sua dissertação de mestrado, A aventura da cidade industrial de Tony Garnier em Volta Redonda. O propósito de Lopes é reconhecer as bases de Attilio C. Lima na elaboração do projeto dessa cidade que data de 1941, em sua apreciação:

[...] num período de efervescência do pensamento urbanístico moderno, o plano de Volta Redonda irá se inspirar no modelo da Cidade Industrial de Tony Garnier. Vinculada às matrizes conservadoras do pensamento socialista utópico de Proudhon e Saint-Simon, a cidade de Tony Garnier será traduzida no plano de Volta Redonda pelo urbanista Attilio Corrêa Lima. O modelo idealizado na primeira década do século XX, tomando como referência a região de Lyon na França, será descontextualizado no tempo e no espaço na sua versão brasileira, iniciando em meio rural do Vale do Rio Paraíba do Sul, entre o Rio de Janeiro e São Paulo, uma história marcada por profundas mudanças. (LOPES, 1993, p. XVII).

Após uma breve descrição da formação de Attilio C. Lima na ENBA e no IUUP, Lopes (1993, p. 76) destaca que “[...] o período de Corrêa Lima na França é marcado pela realização dos primeiros Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM), onde se afirma o ideário do urbanismo progressista [...]”. E o autor conclui que “[...] é compreensível que Corrêa Lima voltasse da França atualizado com a Cité Industrialle”, sem, no entanto, apresentar uma análise mais profunda dessas influências na formação do urbanista ou mesmo como ela foi construída.

10 Attilio Corrêa Lima formou-se em 1925 com o título de engenheiro-arquiteto, recebendo o prêmio: “Grande

Medalha de Ouro”. No ano seguinte participou do Concurso Prêmio de Viagem à Europa, o chamado prêmio de Viagem Donativo Caminhoá, o que lhe permitiu seus estudos em urbanismo no IUUP.

Uma das pesquisas importantes que apresenta fatos novos é a dissertação de mestrado de Luiz Gonzaga M. Ackel, intitulada Attilio Corrêa Lima: um urbanista brasileiro (1930-1943), defendida na Universidade Mackenzie de São Paulo em 1996. Ackel desenvolve os estudos recorrendo a fontes primárias do acervo da família Corrêa Lima. O pesquisador buscou as informações nos trabalhos, documentos, imagens e fotos de Attilio C. Lima para construir a trajetória do urbanista. No primeiro capítulo da dissertação, Ackel apresenta a formação do arquiteto, de seu nascimento, em Roma em 1901, a sua permanência na França. Fala da infância do arquiteto, que muitas vezes assistiu ao pai José Octávio C. Lima executar suas esculturas. Também aborda seu ingresso e formação como engenheiro-arquiteto na ENBA (1920 a 1925), sua premiação em 1926, com o “Prêmio de Viagem à Europa”, e o curso de urbanismo no IUUP (1927 a 1931).

Ackel analisa o Instituto a partir de Lamas (2004): “[...] através do Institut d’Urbanisme, a França estabelecia o ensino do urbanismo, codificava e definia a metodologia de composição urbana”. E prossegue com as observações afirmando que: “[...] a escola francesa caracterizava-se pela utilização de traçados clássicos, de quadrículas, praças e perspectivas, desenhadas à aquarela e carvão” (ACKEL, 2007, p. 259).

Ainda sobre o IUUP, Ackel cita alguns dos professores de Attilio C. Lima, tais como Leon Jaussely, Henri Prost, e destaca a disciplina Art et Technique de la Construction des Villes, ministrada pelo professor J. M. Gréber. O pesquisador reproduz na íntegra o conteúdo da apostila das aulas de Gréber.

Há, no trabalho de Ackel, várias referências a Lamas quando esse aborda a escola francesa de urbanismo. Entre elas, há a menção aos paradigmas urbanísticos seguidos pelos alunos do IUUP. O autor pondera que os modelos apresentados pelos professores estavam profundamente relacionados aos seus trabalhos profissionais elaborados em seus escritórios. Ao apresentar outros professores do Instituto, Ackel (1996, p. 29) sugere “[...] a inegável influência de Agache na formação de Corrêa Lima, pois que ele havia trabalhado em 1929, no escritório do mestre, em Paris, na elaboração do plano para o Rio de Janeiro”. O autor revela a colaboração de Attilio C. Lima nos planos do Rio de Janeiro de Agache, mas não detalha exatamente que participação seria essa. Porém, ao descrever a presença de Corrêa Lima no Congresso de Urbanismo de Paris em 1928, Ackel completa (1996, p. 29-30):

[...] traçou-se ali um “esquema ideal de cidades”, que representava uma espécie de “tratado da urbanística francesa” e que recomendava que o “tecido urbano” deveria ser diferenciado em sete zonas [...]. A divisão da cidade por categoria de uso e a conseqüente criação de “zonas especializadas”.

E conclui:

[...] foi nesta fase de transição entre o urbanismo tradicional e as novas proposições colocadas em discussão pelo Movimento Moderno que Attilio realizou seus estudos em Paris. Ainda assim, em seus depoimentos e, sobretudo, nos seus trabalhos, ele admite ter sido influenciado pelos novos preceitos. (ACKEL, 1996, p. 30).

O autor dedica um capítulo ao trabalho de tese de Attilio Corrêa Lima, analisando desde o prefácio, escrito por Henri Prost, às proposições de intervenções.

Prosseguindo a pesquisa de mestrado, em 2007, Luiz Gonzaga M. Ackel defende, na Universidade de São Paulo, sua tese de doutorado intitulada Attilio Corrêa Lima: uma trajetória para a modernidade. Nos primeiros capítulos, trata sobre a formação de Corrêa Lima na ENBA, mediante a reprodução dos trabalhos realizados, nos quais se pode notar a influência do estilo neocolonial e do academicismo. Além disso, apresenta as disciplinas cursadas e os professores do arquiteto.

Quanto à formação no IUUP e a permanência de Corrêa Lima em Paris, Ackel (2007, p. 40) cita vagamente a existência de cartas que foram trocadas entre o urbanista e seu pai. Em uma delas, descrita pelo filho Bruno C. Lima, Attilio C. Lima comenta: “[...] que a maioria dos professores do Institut d’Urbanisme não gostava de Agache, a quem considerava retrógado e ultrapassado” (grifo do autor).

Também no trabalho de doutorado, Ackel destina um capítulo à análise da tese de Attilio Corrêa Lima. No texto, cujos conteúdos e estrutura são os mesmos da dissertação de mestrado, Ackel (2007, p. 46) reafirma:

Attilio Corrêa Lima, evidentemente, foi bastante influenciado por Agache, quando elaborou sua tese de doutoramento para Niterói. Situada defronte ao Rio de Janeiro, na outra margem da Baía de Guanabara e interligava a Capital através de nova ponte proposta, Niterói foi concebida como uma natural extensão territorial do Rio, pois apresentava uma situação geográfica, apertada entre a serra e o mar.

Na revisão dos autores que se dedicaram a estudar a obra de Attilio Corrêa Lima, é preciso mencionar os trabalhos de Manso (2001) e Gonçalves (2002). Como ambos citam Ackel ou

Lamas como fontes para entender a formação de Attilio C. Lima na ENBA e no IUUP, trata- se, portanto, de informações que não acrescentam novos conhecimentos à trajetória profissional do urbanista em estudo.

London (2002), em A circulação de idéias urbanísticas no meio profissional e acadêmico e sua influência nas obras de Donat Alfred Agache e Attilio Corrêa Lima, compara morfologicamente os planos de Agache para o Rio de Janeiro e a tese de Attilio C. Lima para Niterói, sem, contudo, mencionar a colaboração de Corrêa Lima nos planos do Rio. Quanto à pesquisa sobre o IUUP, London (2002, p. 15) assegura:

Foram pesquisados os arquivos do Institut d'Urbanisme de l’Université de Paris.

Este estudo só foi possível graças à gentil colaboração da professora Dra. Margareth da Silva Pereira, que cedeu diversas publicações sobre o IUUP, o Musée Social e demais instituições a eles relacionadas, tentando identificar as linhas de pensamento mais importantes e dissecando as disciplinas e principais professores. (Grifo do autor).

Os estudos de London sobre o IUUP contribuem com novas análises por meio de acesso a documentos e publicações possibilitados pela professora Margareth Pereira,11 incluindo informações importantes sobre disciplinas, alunos e seus professores nessa instituição. Há um passo adiante em relação ao trabalho de Ackel, uma vez que London pôde consultar diretamente a documentação do Instituto.

London elabora um estudo sobre a vida e a obra de Agache e Attilio C. Lima, com especial interesse para a influência do urbanista francês na tese do arquiteto brasileiro. Esses dados foram apresentados de maneira cronológica, em forma de linha do tempo, que se estende de 1875 a 1959.

No segundo capítulo de sua pesquisa, London analisa a importância do Institut d’Urbanisme de l’Université de Paris, desde a sua origem na École des Hautes Études Urbaines (EHEU), fundada em setembro de 1919, e depois quando se integrou à Universidade de Paris, em 1924:

O IUUP teve papel preponderante pelo debate teórico, realização de planos e pela irradiação internacional. Exportou saber e formação e os seus urbanistas trabalharam na organização de muitas cidades pelo mundo, conferindo-lhes determinadas

11 Dra. Margareth Aparecida Campos da Silva Pereira, urbanista pela Université Paris 8 (1979), pós-doutora pela

homogeneidade cultural, técnica e distributiva, ainda hoje reconhecível. (LONDON, 2002, p. 23).

Ao detalhar o conteúdo das disciplinas e o papel dos professores do IUUP, London destaca Marcel Poëte. Para afirmar a relevância de Poëte, menciona a disciplina por ele ministrada, Evolução das Cidades, descrevendo as atividades pedagógicas e de investigação que realizou, assim como as instituições onde ele trabalhou e aquelas as quais ajudou a fundar, como, por exemplo, em 1911 a Société Française des Architectes Urbanistes e a École des Hautes Études Urbaines (EHEU).

Quanto aos alunos que frequentavam o IUUP, London elabora seus perfis, com base em seus países de origem:

Dos estudantes estrangeiros, 38% vinham de outros países europeus, notadamente dos países do Leste; 8% provinham da África – em função da importância do império colonial francês naquele continente, 44% da Ásia; e 10% do Continente Americano, sendo da América do Sul. (LONDON, 2002, p. 27).

E, então, conclui:

Percebe-se claramente uma sub-representação dos países industrializados. A importância dos trabalhos e a maturidade do pensamento reformista urbano desenvolvido nesses países desde o fim do séc. XIX explicaria a fraca presença de alunos desses países no IUUP, que poderiam encontrar em seus próprios países um ensino de urbanismo adaptado a suas realidades locais. Ao contrário, os países com forte participação no instituto assinalavam um estado de pobreza em matéria de ciências sociais aplicadas à cidade. Para estes países, a aquisição da cultura francesa do estudo das cidades representou, na década de 20, um enriquecimento intelectual fundamental. (LONDON, 2002, p. 27).

Sobre as teses defendidas no Instituto, London (2002, p.28) atesta que, “[...] apesar de sua pretensão científica, não se apresentava como um trabalho estritamente universitário, inscrevendo-se, em primeiro lugar, na bagagem cultural de cada aluno”. Na verdade, assegura que “o aluno determinava o território físico de suas investigações em função de sua trajetória pessoal”, o que resultava numa formação de urbanistas especializados em problemas urbanos locais. London (2002, p. 28) também descreve a estruturação das teses, que seguiam “uma certa norma”:

Inicialmente eram desenvolvidas as idéias gerais sobre o tema e a parte histórica. Na segunda parte eram apresentados estudos estatísticos, análise de documentos administrativos e uma comparação da legislação francesa com a estrangeira. E finalmente, a reflexão era levada ao terreno das soluções dos problemas levantados. Esta terceira parte evidenciava, de maneira geral, a dificuldade de se obter o ajuste entre conhecimentos gerais e soluções concretas. .

Quanto à biblioteca do IUUP, afirma categoricamente que se trata de uma reunião desordenada de estudos de temas e abordagens distintos, manuais de ensino comuns às escolas de engenharia, enfim, um acervo que permite concluir o estreito elo do ensino ministrado na instituição à tradição higienista do final do século XIX (LONDON, 2002, p. 28).

Outra pesquisa de relevância sobre o tema é Goiânia: cidade pré-moderna do cerrado – 1922-1938, de Jacira Rosa Pires (2009).12 Pires relata o ambiente cultural relacionado aos debates sobre o urbanismo à época em que Corrêa Lima estudava no IUUP. Dedica-se a explicar a formação da instituição e apresentar seus professores e as disciplinas ministradas. Exemplificando o que ocorria com os primeiros urbanistas franceses no pós-Primeira Guerra, Pires (2009, p. 68-69) esclarece:

Na exposição da Cidade Reconstruída, realizada em Paris (1916) pela Associação Geral de Higienistas e técnicos Municipais, foram exibidas pela primeira vez as propostas de planos de reconstrução das cidades destruídas pela guerra. Apesar do êxito dos urbanistas franceses, sendo alguns inclusive laureados com o prêmio de Roma, muitos não conseguiram trabalho na França.

Citando Tony Garnier, H. Prost, L. Jaussely. E. Hébrard e J. Gréber, Pires aponta a “exportação” de urbanistas franceses para outros países. Gréber foi para os Estados Unidos, onde realizou os planos de Filadélfia, e no Canadá, os planos de Ottawa e Montreal; Jaussely foi para Barcelona; Agache, para o Brasil, desenvolvendo os projetos para o Rio de Janeiro; e H. Prost elaborou os planos de Fez, Casablanca, Marrakesh, Tánger, Rabat e Angora.

Ao abordar Attilio Corrêa Lima no IUUP (1927 a 1930), Pires cita as disciplinas por ele cursadas, apresenta os registros de matrículas reproduzidos dos livros do Instituto e analisa sua tese, contudo não estabelece uma conexão entre o conteúdo das disciplinas e as soluções adotadas e descritas no projeto para Niterói, como também nos planos de Goiânia. Os dois projetos elaborados por Corrêa Lima, Niterói e Goiânia, são analisados sob o aspecto das

proposições, no qual se verifica que a questão do rebatimento da formação do arquiteto- urbanista no IUUP tem suas interpretações em citações de intervenções urbanísticas de alguns professores do Instituto. Apesar do avanço representado pelo trabalho da autora, a formação de Attilio Corrêa Lima como urbanista ainda não é devidamente aprofundada, restando lagunas que não conseguem explicar suas decisões e carreira posterior.

Buscou-se aqui apresentar um estado da arte sobre Attilio Corrêa Lima. Os trabalhos comentados, todos com contribuições importantes, deixaram um espaço para a pesquisa que se empreendeu e que aqui expõe seus resultados finais. Conclui-se que seria importante apreender a formação do arquiteto urbanista de forma mais detalhada, o que se tornou possível graças à documentação zelosamente guardada por seus descendentes.