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A partir do acompanhamento do dia-a-dia das atividades no Banco Nascente pude ver sua dependência em relação ao poder público, à medida que a garantia de sustentabilidade do empreendimento na questão crucial da remuneração de seu quadro de trabalhadoras, desde sua criação até os dias de hoje, depende de financiamentos advindos principalmente do governo federal na figura da SENAES. O atual momento de retração das políticas sociais, e de não renovação ou abertura de novos editais de fomento à BCDs, coloca em risco as possibilidades de funcionamento do Banco Nascente. Não há outra forma substancial de remuneração, e não há a possibilidade dessas mulheres, mães de família, trabalharem cotidianamente apenas movidas pelo “espírito voluntário” exaltado nas conversas diárias. A organização das atividades do Banco - da liberação de empréstimos à organização de eventos culturais - demanda uma carga horária de trabalho que não se sustenta sem a devida remuneração. Assim sendo, desde o

segundo semestre de 2017, encontram-se suspensas as atividades do empreendimento, inclusive as de acompanhamento dos créditos em andamento.

Nesse sentido, chega ao Banco Nascente uma mobilização que parte da Rede Brasileira de Bancos Comunitários com objetivo de construir caminhos para a autonomia financeira dos BCDs que, assim como o Banco Nascente, foram criados e funcionaram até então com o financiamento público. Uma das formas apresentadas para garantir a sustentabilidade financeira dos BCDs é um aplicativo de celular, o E-Dinheiro, que apresenta a possibilidade de retorno financeiro de acordo com a quantidade de movimentação feita via aplicativo e que, uma vez consolidado como plataforma digital para os serviços oferecidos pelos BCDs, poderia representar a garantia de remuneração de suas trabalhadoras.

Para o Banco Nascente essa realidade não chega como a “luz no fim do túnel” como aparece nas cartas e pronunciamentos da Rede. As trabalhadoras do Banco Nascente têm dificuldade com o uso de tecnologias como computadores e smartphones, situação que é compartilhada por muitos(as) moradores(as) da comunidade onde o Banco Nascente está inserido. Também são feitas ressalvas quanto ao pequeno tamanho da comunidade do “Jardim Gonzaga e entorno” quando comparada ao território de atuação de outros Bancos Comunitários brasileiros, sendo que isso será sentido no montante total de dinheiro movimentado e no retorno que isso significará concretamente para o fundo do Banco Nascente.

A questão da sustentabilidade financeira do Banco Nascente, que foi extensamente debatida nas reuniões internas das trabalhadoras ao longo dos últimos meses, me faz pensar, junto com as trabalhadoras, nos limites da autonomia de um empreendimento econômico solidário que, pela sua utilidade social, se justifica como uma política pública que requer investimento do Estado, e que, da forma como está construída como política pública, fica suscetível às formas de gestão dos diferentes governos. Assim como a mudança do governo municipal trouxe dilemas em relação à possibilidade de fechamento do Centro Público Municipal de Economia Solidária ou de uso do Fundo Municipal de Apoio à Economia Solidária, também parte do governo federal o repasse para políticas de fomento às finanças solidárias que até então garantiram o funcionamento do Banco Nascente.

De maneira geral, essa situação se reflete ao conjunto de empreendimentos econômicos solidários brasileiros, não só aos ligados às atividades de finanças solidárias. Uma sistematização dos empreendimentos autogestionários de São Carlos feita em 2016 mostra que mais de 50% deles não representa para seus membros a fonte principal de renda, enquanto cerca de 50% de trabalhadores(as) envolvidos nos EES alega ter renda de até dois salários mínimos. A forma como a pesquisa é apresentada não me permite confirmar o cruzamento desses dados, mas me instiga a pensar nas possibilidades dos EES em gerarem uma renda digna à seus membros, questão que me parece crucial à um movimento que pretende proporcionar às pessoas nele envolvidas o ​bem viver

​ . Vejo como essa questão

particular de São Carlos pode se desdobrar em outra pesquisa, que não tenho pretensão de desenvolver aqui. Por ora, com a descrição apresentada, procurei mostrar algumas questões que acredito irem de encontro a teses críticas de que a economia solidária, da forma como é construída no Brasil, pode vir a ser uma nova configuração de precarização do trabalho e que, em muitas situações, as políticas públicas de fomento às iniciativas solidárias ainda não se constroem como um caminho no sentido de gerar, além de renda digna e outras formas de garantia de direitos, a autonomia e soberania dos empreendimentos.

Vejo como essas formas de dependência não se restringem apenas à esfera econômica, e uma das situações mais expressivas para mim diz respeito à abertura das portas do Banco à comunidade. Desde que o Banco Nascente se mudou para o Salão São José Operário, não há nada que indique que ali funciona o empreendimento. Foi solicitado junto ao Conselho Gestor do Fundo Municipal de Apoio à Economia Solidária um banner que seria pendurado na porta do Salão, mas ele nunca chegou a ser impresso. Após inúmeras negociações, a liberação de recurso para impressão do material de divulgação foi aprovada, mas com o recente contingenciamento do Fundo por conta da situação financeira da prefeitura de São Carlos, não há perspectiva de quando esse banner chegará ao Banco. Até lá, as atividades continuarão acontecendo sem que seja identificado o local onde moradores(as) podem solicitar pedidos de empréstimo - isso fica apenas circunscrito às relações de vizinhança entre as pessoas que ali moram.

Ressalto a questão das relações de dependência financeira por reconhecer, a partir do dia-a-dia do Banco (assim como na vida das mulheres), que a esfera econômica é crucial para a construção de autonomia, seja das suas trabalhadoras, seja do empreendimento de maneira geral. Mas essa não é a única forma de dependência que vejo permeia as atividades desse empreendimento. Outra diz respeito à presença da universidade na história e no dia a dia do empreendimento. Vejo que essas relações de dependência se desenham e reafirmam cotidianamente, fazendo a equipe do NuMI parte de todos os processos e instâncias deliberativas do Banco, tendo atuação determinante na escolha de atividades e formas de desenvolvê-las, e também na mediação de conflitos e interesses entre as trabalhadoras.

Isso leva a pensar no papel da universidade na organização popular, e nas consequências da implementação de um empreendimento econômico solidário que, em suas diretrizes teórico-metodológicas, tem como pré-requisito a organização política endógena prévia da comunidade, percebendo que no caso do Banco Nascente isso se deu de forma bastante tímida, ao longo dos anos fazendo o Banco e o NuMI papel de articuladores dos interesses políticos da comunidade, e não o contrário. Essa mesma questão eu relaciono com a delimitação desse território, que também parte de estudos da universidade e que justifica uma série de ações de extensão, mesmo ele não se delimitando hoje como um recorte homogêneo dessa comunidade, e mesmo hoje já não se mostrando o ​bolsão de pobreza mais expressivo da cidade de São Carlos.

Por outro lado, apesar das inúmeras relações de dependência e controle que permeiam o dia a dia do Banco e das mulheres que nele trabalham, ao longo de minha convivência com elas, concluir esta dissertação apenas versando sobre relações de controle, gestão ou precariedade seria retirar do quadro as formas que elas criam e recriam se movimentando por essas relações. Se de fato aqui aponto para situações onde encontram-se entraves e limites para a construção da autonomia (da economia solidária, dos bancos comunitários de desenvolvimento, das mulheres), por outro, reconheço as possibilidades que foram, nesse campo de conflito, criadas e que contribuem para a construção subjetiva e identitária dessas mulheres, em movimento de perceber a política como subjetivação, e as

possibilidades que elas próprias criam para si mesmas. Essa questão será desenvolvida a seguir.