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3 Laura Marks

3.2 Haptisitet

3.2.5 Haptisk-erotiske kropper

João entrou no banco em 1984, após ter trabalhado em um banco privado como contínuo em 1978, lecionado em curso supletivo ao terminar sua faculdade e atuado como secretário de uma escola pública estadual (concurso público). O entrevistado descreve sua “opção” por trabalhar no banco, conforme abaixo:

Na verdade, eu não tinha outra opção [risos]. Como a maioria dos brasileiros, eu saí da faculdade – eu me formei em Tecnologia Civil, na área específica de construção de estradas e movimentação de terra – e foi uma época muito ruim, de muito desemprego. Eu não conseguia nem para trabalhar em estágio de graça. Fui procurar um estágio em uma empresa de topografia lá em Jaú e nem de graça o cara quis. E eu procurei emprego! Fui para São Paulo. Eu não tinha experiência, pois tinha acabado a faculdade e, nessa época, eu estava trabalhando na escola e procurando algo na minha área de trabalho. Aí apareceu o concurso do Banco X, na época era um... um emprego bom. Não era da minha área, mas era o que estava na minha oportunidade. Aí eu passei no concurso do X e estou lá até hoje. (João)

Esse discurso é bastante similar ao de Adão. Casado, formado em Engenharia, bancário há 20 anos, antes de atuar no banco, trabalhava com seu pai em serviços de construção civil: “a gente fazia qualquer coisa, servente de pedreiro, o que aparecia.”. Adão sonhava em cursar Engenharia Agrícola, mas, devido a sua condição financeira e de sua família, acabou cursando Engenharia Civil na UNESP – Bauru, após uma tentativa frustrada de arcar com os custos de um curso de Administração em uma tradicional instituição privada da região. Em certo sentido, sua trajetória profissional espelha sua trajetória acadêmica, ambas limitadas por suas condições materiais de vida, levando-o, a exemplo de João, a afirmar que:

É como eu falei, não foi exatamente uma opção, um sonho ser bancário. Era a necessidade de você conseguir (...) Então, mesmo quando eu me formei na área Civil, eu me formei na UNESP por falta de opção. Então, o que era, eu não me identificava bem com a área Civil. Eu me identificava com a agricultura, de Engenharia Agrônoma, essa parte, assim. Só que é o tal negócio, também não tinha. Ou você tinha grana para bancar ou, então, você ia fazer o quê? UNESP. O quê que tinha na UNESP, que era grátis, que eu me identificava mas sem ser essa área: área Civil. Então, eu acabei me formando na área Civil, mas não porque gostasse. E bancário também... (Adão)

Adão relata que, a princípio, seu objetivo de vida era prestar concursos, adquirir estabilidade financeira e, quem sabe, até mesmo acumular um patrimônio a fim de estudar e “fazer o que eu gostaria de fazer da minha vida que seria mais aí na parte de engenharia agrícola”. Nosso entrevistado foi bem-sucedido na primeira etapa de seu plano, mas não na segunda. Foi aprovado em três concursos: Fórum, Nossa Caixa e Banco X. Descartou o Fórum por ser o menor salário, iniciando sua carreira no banco estadual; logo, contudo, foi chamado pelo X. No entanto, com o tempo, o que era um meio para se atingir um fim, torna-se um fim em si mesmo.

Aí eu entrei como bancário com essa ideia já [de sair futuramente para seguir carreira na área de Engenharia Agrícola]. Mas aí você vai ficando, você vai se acostumando, fazendo amizades, você vai se desenvolvendo, você vai crescendo. Então, acabei ficando... Optei no meio do caminho pelo banco. (Adão)

Mário, bancário do X há 27 anos, também descreve o início de sua carreira no banco mais como fruto de uma necessidade do que de uma opção de vida. Ex-aluno de Escola Militar e desempregado, decidiu prestar concursos públicos. Foi chamado para trabalhar no INSS e, pouco tempo depois, também no Banco X. O primeiro lhe oferecia a vantagem de trabalhar seis horas, porém o segundo lhe pagaria CR$ 62.563,00 em lugar dos CR$ 37 mil oferecidos por aquele. Ao relatar o porquê optou pelo trabalho no banco, Mário afirma que:

Foi o que apareceu, necessidade. Eu tinha deixado a carreira que eu queria, aliás, não pude dar continuidade. Aí surgiram os concursos e eu fui fazendo o que apareceu. E o X, apesar de ter sido na época o último concurso que eu fiz, foi o primeiro que me chamou. A partir do meu primeiro dia de X, eu passei a desistir de outros. (Mário)

Vagner, casado, bancário há 28 anos, formado em Direito e pós-graduado em Gestão Empresarial, relata que por não ter uma “vocação definida” e nem padrinhos (requisito assinalado como necessário para o início de uma carreira no setor privado), então, decidiu prestar o concurso do X. Conforme relata: “Foi aí que eu decidi prestar concurso, porque se você tiver uma vocação, você corre atrás. Agora, quando você é um Zé Mané, você vai abraçando o que vem pela frente, não é verdade? É isso aí que acontece.”

Antes de trabalhar no X, trabalhava na roça da propriedade agrícola que pertencia a seu pai e a seu tio. Foi aprovado em um concurso para a vaga de escriturário de escola, onde trabalhou por “dois ou três meses”, tendo abandonado esse emprego após ter sido aprovado no concurso do X 1982.

Maria, por sua vez, entrou no banco em 1990. Antes de trabalhar no banco, exerceu a função de inspetora de alunos. Havia, em sua família vários bancários, dentre os quais, irmãos e cunhados. Diante do que ouvia destes, costumava considerar que “quem trabalhava em banco era louco”. Dessa forma, confessou pensar que “jamais trabalharia [em banco]”. Porém, talvez mais por uma questão socioeconômica do que por ironia do destino, foi chamada para assumir justamente a vaga no Banco X em uma época em que havia decidido prestar (e efetivamente prestou) vários concursos públicos. Mas, conforme destaca, ao corrigir o entrevistador sobre o porquê havia optado por trabalhar no banco: “Eu não escolhi não [risos].”

Marta entrou no banco em 1982. Morava na capital e, antes de entrar no banco, exerceu uma série de outras atividades. Trabalhou com o pai no comércio, depois em uma editora, em seguida, no setor de compras de uma distribuidora de soja, trabalhou como auxiliar em pesquisas e, também, no projeto Rondon. Quando questionada sobre por que optou pelo trabalho no banco, afirma ter sido “sem querer”. Após ter concluído a faculdade, declara ter decidido prestar concursos públicos, dentre os quais: Prefeitura de São Paulo, outro banco público federal (no qual declara não ter sido aprovada) e para o Banco X, onde trabalha atualmente.

Isaac, 50 anos, tem 27 anos de experiência bancária (20 deles no X) e trabalhou como funcionário público da Marinha no Rio de Janeiro durante a década de 1970. Devido ao que chama de “resquícios da ditadura”, decidiu abrir mão desse emprego, o que relata com certo arrependimento uma vez que tal emprego lhe proporcionava ou lhe proporcionaria uma série de benefícios de que hoje não dispõe. Trabalhou também no setor de exportação e importação de uma empresa no Rio de Janeiro: realizava cálculo de estiva e destaca com orgulho que falava com pessoas do mundo todo. Com o fechamento dessa empresa, foi para Angra dos Reis para trabalhar no setor de exportação/importação, o que fez com que abrisse mão de seus estudos. De volta ao Rio de Janeiro, trabalhou por dois ou três anos em uma empresa que vendia tratores. Após a falência desta, iniciou sua carreira no banco Bradesco, onde trabalhou por sete anos, muito embora alegue que, quando jovem, tenha declarado que jamais trabalharia em um banco. Nessa instituição, exerceu as funções de Caixa (mesmo sem ter feito o curso de Caixa), de Supervisor de Caixa e Tesoureiro. Em 1987, conseguiu uma transferência para Porto Ferreira a fim de se casar. Ainda nesse ano, e já casado, decidiu prestar o concurso do X. Foi aprovado e convocado em 1990. Visando à estabilidade e tendo boas referências vindas de parentes de sua esposa que construíram a vida a partir de suas carreiras em bancos públicos, aceitou a convocação de trabalho do X.

Pedro trabalha há 20 anos no banco e foi funcionário concursado pelo banco Nossa Caixa. Diante da possibilidade de um melhor salário, decidiu trocar aquele banco pelo Banco X. Esse entrevistado não explicitou sua ida para o X como fruto do acaso ou pela falta de oportunidades, mas também não deu indícios de que tenha sido algo planejado.

Já Rosa dá indícios de que foi preparada pela família para carreira em órgão público. Filha de ex-funcionários públicos, tinha a estabilidade no emprego, própria do funcionalismo público, como um de seus objetivos.

Há vinte anos atrás, o concurso do Banco X era assim, além de dar status, era um dos que pagava melhor em termos de salário.

Eu não queria sair da cidade, meus pais, os dois eram funcionários públicos, os dois sempre me passaram que ter um salário todo o fim de mês era muita segurança. Então, eu acabei a faculdade, eu prestei vários concursos. Para o DER [Departamento de Estradas de Rodagem], para a Nossa Caixa, para o Banco X. Acho que um dos únicos que eu passei foi o do X [risos]. E aí já entrei, quer dizer, acabando a faculdade e já começando um emprego, eu nem fui tentar outra coisa naquela época. Então, era assim, eu acho que hoje ainda é assim. Ainda hoje dá aquela garantia. Mas, no meu caso, foi por dar uma estabilidade financeira. (Rosa)

Érika, casada, ex-escriturária de Delegacia de Polícia, funcionária do X há 20 anos, afirma, ao ser questionada sobre os motivos que a levaram a optar pelo emprego no X, que: “na época era status trabalhar no X. Não sei se você pegou essa época”. Essa entrevistada relata ainda que, embora tenha cursado uma faculdade de Contabilidade, não possuía grandes certezas e nem expectativas em termos profissionais. Sentia-se sem vontade e perdida durante seu curso de graduação. Diante disso, foi aconselhada por seus pais a “fazer concurso público para garantir emprego”. Após concluir sua faculdade, prestou concurso público e iniciou sua carreira, a princípio, na delegacia de polícia e, posteriormente, no Banco X.

De forma geral, vemos os motivos que levaram os Escriturários a optarem pelo emprego no X parecem estar embasados em torno do tripé: estabilidade, salário e status. Além disso, os depoimentos destacam duas posturas em relação à entrada dos entrevistados no Banco X, alinhando-se à categorização de Romanelli (1978, p. 149), apresentada em seu estudo sobre o trabalho e as aspirações dos bancários do então Banco do Estado de São Paulo S.A. na década de 1970, segundo a qual há: 1) um grupo de trabalhadores “cujo objetivo é fazer carreira e que considera o emprego como definitivo”; 2) aqueles para os quais o banco “é mero ‘trampolim’ a ser utilizado até que, em um futuro indefinido, tenham condições para transformar o emprego provisório em definitivo”.

Dessa maneira, temos, por um lado, uma maioria que atribui o início de suas carreiras bancárias antes a uma necessidade de vida ou falta de outras oportunidades do que a uma carreira previamente planejada. Muito embora o trabalho para esses empregados tenha sido visto, a princípio, como transitório, esta ideia se modifica frente às dificuldades de inserção em um mercado de trabalho específico, ou seja, capaz de oferecer condições de trabalho (estabilidade) e assalariamento equiparáveis às do banco, fazendo com que a condição de trabalho definitivo torne-se prevalente com o tempo. O relato de Adão, por exemplo, mostra-se um caso típico desse movimento denominado Romanelli (1978) provisório-definitivo.

Por outro lado, temos também uma minoria que não se enquadra nesse conceito, uma vez que, desde o princípio, viram neste a oportunidade de seguir uma carreira permanente. Assim, o banco, de fato, surge como um projeto de vida capaz de proporcionar melhores condições de vida para o ex-empregado de um banco privado, ou para uma recém-formada sem expectativas em termos profissionais, ou mesmo para a filha de funcionários públicos que já visava a um emprego nos moldes do X.