Várias vezes empregamos em nosso estudo o termo contexto e para isto buscamos em alguns autores suas compreensões e definições a respeito do que significa esse termo e sua importância em pesquisas educacionais.
A palavra contexto tem um significado amplo e é usada de forma diversa nas áreas do conhecimento. Para Lave (1988), refere-se tanto ao ambiente quanto a fenômenos físicos que podem servir para introduzir conceitos matemáticos. Para a autora, o contexto apresenta uma estrutura própria para a atividade nele inserida.
Para Vergnaud (1987) e Nunes (1992) o contexto pode ser entendido como a situação-problema ou o ambiente no qual a situação é construída, ou o fenômeno que dá sentido ao conceito.
É consenso entre alguns pesquisadores (Nunes, 1991; Vygotsky, 1962, 1978) a importância dada ao contexto para a aprendizagem. Para o ensino de qualquer conteúdo, deve-se levar em conta a influência do contexto e uma situação na qual o assunto a ser apreendido possa ser vivenciado pelo aprendiz.
Em Educação Matemática, Roth (1996) categorizou três diferentes sentidos para o termo: o primeiro diz respeito a problemas de matemática que possuem um texto. Aqui a compreensão do texto é um aspecto fundamental do conhecimento. O termo contexto ("con-text” como diz Roth), usado neste sentido de “o que vem com o texto”, refere-se a todo
conhecimento adicional necessário para a compreensão do problema matemático. Este “con-text” é como uma história que envolve o problema, e, algumas vezes, as idéias são expostas de forma explícita e, outras vezes, implícita. No último caso, quando implícitas, muitas das idéias não são ditas ou explicadas detalhadamente. De toda forma, a interpretação do problema matemático e do texto vai depender da experiência em leitura que o indivíduo tenha. O segundo sentido do termo refere-se a alguns fenômenos do mundo, que podem ser modelados de uma forma matemática particular. Quando os estudantes apropriam-se significativamente da forma matemática (ou conceito) ligando-a com o fenômeno, este pode ser considerado o contexto que auxiliou a elaboração do significado do conceito.
A terceira maneira de se entender contexto está ligada à noção de ambientes e situações. As situações são caracterizadas por aspectos sociais, físicos, históricos, espaciais e temporais que são constituintes do contexto e formam a base para o desenrolar das atividades. Ambientes são entendidos aqui como os lugares físicos das atividades humanas. Em cada um dos ambientes, existem diferentes situações que incluem diversas práticas, inclusive, matemáticas. Quando as atividades envolvem práticas matemáticas, elas estão inseridas em outras práticas da vida em cada um dos ambientes e é justamente esta inserção que torna a matemática do dia-a-dia poderosa para o indivíduo.
Dentro de uma perspectiva psicológica, Nunes define contexto como situação significativa, ou seja, um rico local de conhecimento onde a criança pode entender as semânticas de uma situação. Situação semântica refere-se a uma situação que tem significado para uma criança. Esta situação não precisa necessariamente estar inserida dentro de uma situação de mundo real, mas precisa ser uma situação em que a criança possa fazer um paralelo entre esta situação e seu cotidiano.
Para conhecer quanto esta criança sabe sobre um conceito específico, é mais importante apresentar à criança uma situação semântica do que inseri-la em uma situação do mundo real.
Nunes (1991) referindo-se aos resultados obtidos dos trabalhos de Carraher, Caharrer e Schielmann (1985), que envolveram resoluções de atividades aritméticas com sistemas orais e escritos, afirma que os princípios que controlam os processos de cálculo em ambos as práticas foram os mesmos, mas há diferenças na organização funcional das atividades de resolução de problemas que dependeram do uso de um ou outro sistema. Nunes concluiu que os sistemas de representação estabelecidos pela cultura (contexto social nele incluso) influenciam a organização funcional das atividades das crianças, mas esses sistemas não podem ser capazes de fazê-lo sem o suporte de um particular sistema de signos. Isto significa que a mesma criança tem desempenho distinto quando conduz a mesma função com o suporte de diferentes sistemas.
Nunes enfatiza a relevância do contexto e, sobretudo, a função semiótica como tendo uma importante parte na resolução de problemas.
Em nosso estudo, tratamos o “contexto” de acordo com as definições de Roth e de Nunes por considerá-las mais abrangentes e mais adequadas ao estudo. Assim, usamos a palavra contexto sempre que nos referimos a fenômenos, lugares físicos (ambientes), a situações-problema ou situações diversas que incluam práticas matemáticas. O “contexto” é fundamental para nosso estudo, pois a partir dele criamos os pressupostos e algumas de nossas hipóteses sobre as situações de aprendizagem dos números decimais. Está estritamente relacionado com nossa questão de pesquisa, que é diagnosticar em qual contexto o aluno tem mais facilidade para a compreensão da quebra da unidade.
Adotaremos em nossa pesquisa a noção de “contexto” de acordo com as teorias de Nunes e Roth (1996). Portanto o termo “contexto” em
nossa pesquisa pode referir-se a problemas matemáticos, a fenômenos do mundo que podem ser modelados de uma forma matemática particular, a ambientes (lugares físicos das atividades humanas) e a situações (aspectos sociais, físicos históricos, espaciais, temporais).
Portanto, para diagnosticar como a “noção da quebra da unidade” está vinculada à “noção de contexto” em situações de aprendizagem, criamos o “contexto da medida”, o “contexto monetário” e outro que denominamos de “contexto matemático”. No capítulo sobre a Metodologia, as questões do instrumento diagnóstico nos auxiliam a especificar melhor cada um dos contextos.