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5. ANALYSIS

5.1. C HANGES IN ACTIVITY

Do mesmo modo que concebemos o estudo linguístico a partir da reflexão e do uso por meio de um enfoque epilinguístico, em relação à concretização da argumentação no artigo de opinião, atentamos tanto para seus aspectos mais amplos, evidenciando suas intenções persuasivas aos moldes da argumentação retórica, como também trataremos de seus aspectos mais específicos, em especial, a respeito do uso dos operadores de conformidade e contraposição como instrumentos linguístico-argumentativos que podem confluir para a construção da contra-argumentação.

Ainda que teoricamente sejam colocadas como teorias opostas, Nascimento (2012, p.44) defende que

é possível tratar essas correntes teóricas de maneira complementar, (...) principalmente na perspectiva do ensino. Em outras palavras, as duas teorias não precisam ser tratadas como opostas, dicotômicas, no processo de ensino- aprendizagem da argumentação, em diferentes gêneros. Pelo contrário, elas podem e devem ser utilizadas como base para compreender melhor o fenômeno da argumentatividade, próprio da interação humana.

Em consonância com o pensamento do autor, ao passo que trataremos dos aspectos mais retóricos da argumentação no artigo de opinião como: função sociocomunicativa do gênero, contexto de circulação, levantamento de argumentos e contra-argumentos viáveis para a construção do texto, objetivo explícito de convencimento/persuasão do interlocutor; efetuamos também um estudo mais voltado para as contribuições dos elementos linguísticos possíveis de serem usados para operar a contra-argumentação no gênero textual em questão.

No que diz respeito aos conceitos da Retórica e da Nova Retórica, ativemo-nos à intenção argumentativa do artigo como forma de levar o(s) interlocutor(es) a aderir(em) à/às tese(s) apresentada(s), em especial no que concerne aos conceitos da Nova Retórica a respeito de acordo, auditório e sobre as técnicas argumentativas e tipos de argumentos evidenciados por Perelman (1987).

Sobre as noções da TAL, voltamo-nos para a operacionalização da argumentação, principalmente em relação ao uso dos operadores de conformidade para explicitar, de acordo com a concepção polifônica dos enunciados, as vozes a serem contrapostas no discurso. Além

disso, concentramo-nos também nos operadores de contraposição como forma de inserir os argumentos que refutam essas vozes. Assim procedendo, adotamos a noção da teoria dos blocos semânticos, focando principalmente nos encadeamentos transgressivos (em pourtant), para direcionar o sentido e realização dessa contra-argumentação.

No capítulo seguinte, empenhamo-nos em tratar especificamente do gênero textual instrumento de produção e análise de nossa pesquisa e proposta de ensino-aprendizagem do funcionamento dos operadores argumentativos a partir das funcionalidades destes no artigo de opinião.

Pretendemos evidenciar as principais características sociointeracionais, estruturais e de informatividade desse gênero, assim como tencionamos discorrer um pouco sobre os usos de conjunções e locuções conjuntivas conformativas, adversativas e concessivas possíveis de serem utilizadas para operar e direcionar a argumentação e, principalmente, a contra- argumentação no interior de um artigo de opinião.

III A PRODUÇÃO DE ARTIGO DE OPINIÃO COMO INSTRUMENTO DE AMPLIAÇÃO DE HABILIDADES LINGUÍSTICO-DISCURSIVAS

Uma vez que tratamos, até então, das concepções de ensino linguístico e dos aspectos conceituais a respeito da argumentação pelas perspectivas da Retórica, da Nova Retórica e da Teoria da Argumentação na Língua (TAL), debruçamo-nos agora sobre os principais aspectos teóricos a respeito do gênero discursivo/textual artigo de opinião e sobre as funções básicas exercidas pelos operadores argumentativos dentro deste.

Como bem sabemos, por um viés sociointeracionista, a língua se realiza nas interações sociocomunicativas cotidianas e sempre o faz por meio de algum dos múltiplos gêneros textuais de que dispomos para tanto.

Sendo assim, o ensino de língua materna desenvolvido não pode desprezar esse aspecto e sempre deve ter como base de ensino o texto e suas funções sociais e comunicativas. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) evidenciam que o primeiro objetivo para o ensino de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental é levar o aluno a

utilizar a linguagem na escuta e produção de textos orais e na leitura e produção de textos escritos de modo a atender a múltiplas demandas sociais, responder a diferentes propósitos comunicativos e expressivos, e considerar as diferentes condições de produção do discurso. (BRASIL, 1998, p.32).

Rodrigues (2000, p.207) critica a forma como se tem dado o ensino tradicional de produção escrita nas escolas. Para ela,

Uma das carências apontadas no ensino tradicional da produção escrita foi a desconsideração dos seus aspectos sociodiscursivos. A prática da redação escolar se transformou em meio para a verificação, avaliação da aprendizagem de aspectos gramaticais, ou para a avaliação da escrita em si (saber escrever sem erros ortográficos), desconsiderando-se as funções sociais da escrita, as suas condições de produção, os seus processos de produção. A análise dessa prática pedagógica leva à constatação de que a escola acabou construindo, nas atividades de produção escrita, modelos de gêneros que não encontram referência nas práticas de linguagem escrita fora da sala de aula.

É inconcebível que no ambiente escolar, contexto onde se formam os cidadãos para a (con)vivência social e para o exercício pleno da cidadania, o ensino de produção textual se limite a atividades descontextualizadas e com pouquíssimas implicações sociointeracionais.

Tomando como base essa necessidade de adequação do ensino de língua materna à aprendizagem significativa de instrumentos de interações sociais, o trabalho efetivo a partir dos gêneros textuais nas aulas de português é basilar para que tal mudança ocorra, pois, como bem tratamos no primeiro capítulo, o ensino linguístico por meio da prática da reflexão e do uso só pode ocorrer se estudarmos a língua a partir de uma situação de uso real desta mediada

por um dado gênero textual.

Dentre os múltiplos gêneros textuais que podemos explorar e estudar no contexto escolar, constam os do campo jornalístico (notícias, reportagens, editoriais, artigos de opinião etc.).

Para os propósitos desta pesquisa, deter-nos-emos sobre o gênero artigo de opinião como instrumento textual promotor do desenvolvimento e/ou da ampliação das competências e habilidades linguísticas e crítico-interpretativas dos alunos. Para Cunha (2010, p.179),

Os gêneros da mídia têm sido objeto de inúmeras descrições nos últimos vinte anos, com uma grande diversidade de enfoques em função do instrumental teórico adotado. A escola também passou a estudá-los com o objetivo de formar leitores críticos e construtores dos diversos textos que circulam na sociedade.

Na sociedade atual, as principais fontes de informação e interação social são as mídias (internet, rádio, televisão etc.). Nesses meios de comunicação, circulam informações as mais variadas, inclusive as de cunho jornalístico. Por essa razão, a escola também se torna campo de exploração desses gêneros.

É notório também que alguns gêneros textuais presentes nesses meios de comunicação necessitam de maiores estudos e discussões para poderem ser apreendidos e utilizados adequadamente por seus leitores e/ou escritores. Dentre esses, podemos citar o artigo de opinião, veiculado principalmente nos jornais impressos, revistas e internet.

O artigo de opinião, ao ser estudado em sala de aula, possibilita aos educandos oportunidade de não apenas aprenderem o uso padrão de nossa língua materna, mas, e principalmente, a lerem, compreenderem e escreverem esse gênero, identificando sua funcionalidade sociointerativa de posicionamento crítico e defesa de um ponto de vista (o que implica a ampliação da capacidade argumentativa dos estudantes que leem e/ou produzem esse gênero textual).

A ação de argumentar, além de intrínseca à língua, como vimos anteriormente, é subsídio fundamental para a interação humana. Segundo Kersch (2014, p.54),

Argumentamos desde sempre; diariamente, nas interações sociais, ao praticar atividades de linguagem, estamos expondo nossa visão de mundo, nossas convicções e nossos desejos. Ainda quando crianças, produzimos discursos levando em conta nosso interlocutor, a situação de produção desse discurso, o lugar geográfico e o espaço social onde nos situamos; elaboramos, pois, uma estratégia para seduzir nosso interlocutor.

Ainda que involuntária e automaticamente já exerçamos a argumentação cotidianamente desde que aprendemos a usar a língua materna, o aprimoramento do exercício da ação de argumentar de forma consciente e crítico-reflexiva se dá por meio do estudo desses fenômenos discursivo-argumentativos que se realizam nos gêneros textuais, quer em sua

macro quer em sua microestrutura por meio da relação de sentido estabelecida entre os enunciados.

Ao nos determos sobre o artigo de opinião e suas funções sociodiscursivas e/ou interacionistas e sobre suas características estruturais e de informatividade, estamos possibilitando ao estudante não apenas usar a linguagem de forma automática e inconsciente, mas a dominá-la, a usá-la como instrumento efetivo para suas (inter)ações sociocomunicativas cotidianas, de modo a atingirem o objetivo sociocomunicativo almejado.

Para que essa aprendizagem efetiva do uso da língua para a argumentação consciente se realize, é necessário que exploremos, nas aulas de leitura e produção textuais, essas potencialidades de uso idiomático para interagirmos socialmente.

Em se tratando do artigo de opinião, faz-se essencial que o aluno conheça devidamente suas funções sociocomunicativas e suas características estruturais e de conteúdo informativo, assim como os vários e possíveis meios de circulação social desse gênero textual.