• No results found

Hanger arrangement

Excetuando-se o pressuposto tácito do qual Freud (1929/1974) partiu inúmeras vezes, sem se ater propriamente ao que significaria tal rigidez, para a análise do psiquismo individual e de suas implicações sociais, segundo o qual a natureza humana possui uma estrutura a-histórica, pode-se supor que as bases pulsionais dessa natureza, sobretudo em seus aspectos destrutivos, foram magistralmente desvendadas por ele em sua análise do mal-estar na civilização. A pulsão de morte, esta segunda natureza derivada diretamente das condições histórico-sociais predominantes na história da dominação e reproduzida pelos indivíduos por meio do processo de subjetivação da cultura à qual estão inseridos, foi para Freud uma das mais ameaçadoras expressões universais da estrutura da mente. Todavia, apesar da necessidade ainda urgente de aprimorar a delimitação histórica dessa dimensão profunda do psiquismo humano, cabe reconhecer que sua análise propiciou o mais profundo entendimento até então produzido acerca da continuidade histórica de certos aspectos da personalidade, inclusive de determinados traços de caráter em nada motivados pelas disposições racionais, e também propiciou o entendimento acerca do alcance da determinação cultural exercida pelas pulsões destrutivas sobre as experiências humanas. Pode-se

depreender de suas observações, o entendimento de que esta dimensão tão radical e determinante do comportamento dos indivíduos acrescenta ao desprazer derivado da repressão da libido sexual uma destinação fatídica cujo conhecimento e análise são essenciais à compreensão do estado geral de descontentamento da civilização moderna.

No que diz respeito à constituição psíquica possível ante as exigências culturais, sobretudo em resposta às formas de ajustamento a que os indivíduos são impelidos, pode-se considerar que a neurose – caracterizada pelos sofrimentos mentais constituídos como formação reativa aos mecanismos de repressão das pulsões sexuais e ao movimento genericamente repressivo produzido pelo progresso técnico da dominação social – sempre foi mais branda ao ser humano do que as demais alternativas a ele disponíveis: a ruptura com a realidade característica da psicose, o estigma de anti-natureza atribuído às perversões sexuais e a saúde mortífera subjacente à boa adaptação. Dente estas alternativas funestas, que diferenciam, mas não superam o sofrimento mental, a perversão destaca-se por sua aparente isenção. Para além de todas as contradições do próprio fenômeno e das disputas interpretativas que a ele estiveram historicamente atreladas – a análise e a intervenção psicológicas –, a insinuação de que em suas variações polimorfas estaria encerrada uma disposição contrária ao destino natural da pulsão sexual sempre contribuiu para tornar ainda mais escasso e impreciso o diagnóstico de perversão sexual. Os que foram amaldiçoados com este rótulo devem se haver com o mal-estar excedente produzido pela sociedade repressiva: o julgamento moral e o rechaço muitas vezes preconceituoso em relação a suas disposições psíquicas. Quer seja concebida como o negativo da neurose, como Freud (1905/1989) indicou em

Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, quer seja aceita como a negação da castração da mulher (mãe), idéia apresentada por ele no ensaio sobre o fetichismo (1927/1974), a perversão caracteriza a negação do mal-estar decorrente da repressão, portanto caracteriza uma possibilidade de prazer alienado da ordem objetiva, quer esta ordem seja compreendida como expressão da natureza ou como

condição social. Na análise dos percursos da pulsão sexual na neurose, desenvolvida nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud indicou com precisão o modo como diferenciava uma e outra psicopatologia a partir do mecanismo da repressão:

(...) a psicanálise ensina ainda mais. Ela mostra que de modo algum os sintomas surgem à custa da chamada pulsão sexual normal (pelo menos não de maneira exclusiva ou predominante), mas que representam a expressão convertida de pulsões que sejam designadas de perversas (no sentido mais lato) se pudessem expressar-se diretamente, sem desvio pela consciência, em propósitos da fantasia e em ações. Portanto, os sintomas se formam, em parte, às expensas da sexualidade anormal; a neurose é, por assim dizer, o negativo

da perversão. (Freud, 1905/1989, p. 155.)

De modo semelhante quanto ao fato de neurose e perversão ocuparem pólos opostos em relação à repressão, a análise do fetichismo indica que o fetiche seria um substituto do “falo” da mãe, caracterizando, dessa forma, uma negação de sua castração. Ora, por meio deste raciocínio ilusório do fetichista, a ameaça de castração e toda a angústia que a acompanha estariam afastadas da consciência e o mal-estar, que persegue o neurótico como sua sombra, estaria controlado pela configuração perversa da sexualidade. A felicidade e o prazer seriam possíveis somente aos perversos, mas não como expressão de sua liberdade e sim como condição opressiva de suas disposições psíquicas.

Em nossa cultura, o gozo dos prazeres sexuais propiciados ao indivíduo isolado sempre se manteve dissociado da percepção dos limites dados pela realidade opressiva ao conjunto da sociedade. Dos senhores das casas-grandes dos séculos XVIII e XIX, protegidos pelos códigos morais do patriarcalismo herdado do colonialismo português, à figura despojada do Bon Vivant das modernas hordas do consumo material e cultural, o acesso ao prazer manteve-se vinculado à posição ocupada na hierarquia social. O poder político e econômico sempre foram os verdadeiros baluartes da idéia de liberdade burguesa. Essa condição caracterizada pelo acesso facilitado ao gozo de prazeres negados à massa subalterna, quando considerada em relação a uma minoria de indivíduos cuja “sorte” decorreu de situação financeira herdada ou se consumou como expressão de seus próprios

esforços de ajustamento à ordem estabelecida, não equivale simplesmente aos excessos que por séculos foram cometidos contra os dominados – as populações negra e mestiça escravizadas e as mulheres em geral subordinadas pelo direito patriarcal, como outrora se consolidou na cultura das casas-grandes (Freire, 2005) -, mas sim à elementar possibilidade de usufruir os variados prazeres que sua condição lhes propicia. O Bon Vivant não precisaria praticar os excessos sadianos para participar da injustiça geral. Se a justiça empreendida pelo mal-estar não lhe acomete com a mesma freqüência com que desestrutura a vida mental do neurótico tradicional, não se poderia por isso amaldiçoá-lo com o rótulo de perverso, mas sim buscar na fraqueza de sua percepção da miséria espiritual geral a contradição de sua espécie de prazer. Não é apenas por meio da associação entre o prazer – sexual, sensual ou moral – e a crueldade propriamente dita que a violência social se exerce sobre a massa de oprimidos, mas já está presente na espontânea entrega ao prazer possível, sobretudo àquele que conserva a mediação da divisão de classes. Nesta, já se pode perceber, mesmo que nenhum ato violento seja cometido, a expressão pura da frieza burguesa. Talvez a mesma frieza que Adorno (2000) acusou estar presente em nossa possibilidade de dormir serenamente enquanto a barbárie progride sob nosso olhar resignado. Auschwitz também se repete cotidianamente na disposição para o prazer e para a felicidade que é propagada aos quatro cantos do mundo como um sacro mandamento. O Bon Vivant é apenas mais uma síntese dessas contradições entre o direito particular ao prazer e o sofrimento geral; é a expressão do desejo geral de partilhar das benesses do capitalismo e subsequentemente dos prazeres que ele propicia; mas também é, ao mesmo tempo, um depositário concreto do ódio decorrente da frustração a que as pessoas em geral estão submetidas há séculos; é o culpado que todos precisam para mitigar a culpa geral da civilização. Agora que a repressão não mais impede a expressão do desejo sexual e a livre prática do sexo genital, essa ilusão de vida bem vivida por meio da entrega aos prazeres mundanos não poderá mais estar livre do verdadeiro mal-estar, silenciosamente pressentido como desconforto e insatisfação.

Este amálgama entre o desprendimento moral e o mal-estar inexplicável que acomete cada vez mais pessoas corrobora as suposições de que parte importante dos novos quadros psicopatológicos surgidos recentemente caracterizam estágios fronteiriços entre a subsunção nos processos alucinatórios e delirantes, próprios das patologias psicóticas, e a rigidez mental própria das neuroses. Esses casos intermediários, classificados como borderlines, estão diretamente relacionados à forte interferência do narcisismo, em geral considerado patológico, e às formas de expressões mais direta das pulsões, especialmente das pulsões de destruição. Entretanto, como não consta dentre os objetivos desta pesquisa discutir conceitos derivados do âmbito da psicologia clínica, mas, ao contrário, sublinhar a relação de determinação existente entre estas formas de regressão individual e os padrões de exigência social que pesam sobre os indivíduos, forçando-os a aceitarem certas condições de sobrevivência física e psíquica, vale destacar que estas evidências clínicas fortalecem a argumentação de que as transformações ocorridas na esfera da subjetividade deram ao narcisismo e às pulsões destrutivas mais espaço de atuação do que à consciência. Tal como Adorno (1955/1986) argumentou a respeito da articulação que propôs entre a psicanálise e a teoria crítica, a configuração subjetiva predominante nas sociedades totalitárias e administradas não permite o desenvolvimento adequado da individualidade e da subjetividade que lhes dariam sustentação, com isso, os sujeitos têm, paradoxalmente, sua subjetividade destruída, ficando sem condições de reagir independentemente das determinações sociais. Segundo ele, por estarem assim constituídos, os indivíduos regredidos não conseguem nem mesmo mediar suas ações mais simples e passam a agir de forma reflexa. Do mesmo modo, a compulsão que tão frequentemente orienta suas ações não é propriamente inconsciente, pois já sofreu a mediação da sociedade e apresenta-se ajustada aos padrões por ela estipulados. Nesse sentido, pode-se destacar que a vitória do id sobre o ego equivale à vitória da sociedade sobre o indivíduo.

Ao analisar a independência relativa do ego em relação ao id e às forças inconscientes, Adorno (1955/1986) destacou que nos processos regressivos nos quais o ego consciente perde sua capacidade de mediação dos conflitos estabelecidos entre as pulsões e as exigências sociais de ajustamento, ocorre uma retirada dessa instância psíquica para o inconsciente, onde assume uma forma não- diferenciada. Segundo ele, apesar da perda da autonomia do ego, este processo conserva “algumas das qualidades que adquiriu como agente social”, porém sua conservação depende do fato de permanecerem submetidas ao primado do inconsciente. Contudo, mesmo absorvidas por esta dinâmica, ainda permanecem carregadas de conteúdos remanescentes da formação social da qual provieram, sobretudo no que se refere à forma que desenvolveram para se adaptarem às exigências sociais; as funções egóicas assim regredidas adicionam à dimensão inconsciente elementos externos à sua lógica, modificando-a substancialmente:

Con la trasposición del yo al inconsciente se transforma, además, la calidad de la pulsión, la cual por su parte es desviada hacia objetivos yoicos propriamente dichos que contradicen aquello hacia lo que se dirige la libido primaria. (Adorno, 1955/1986, p. 64.)

De acordo com esta argumentação, a regressão do indivíduo provoca danos diretos e explícitos à dimensão da consciência, pois os indivíduos se vêem impossibilitados de enfrentar as imposições que lhes são feitas pela sociedade. Com isso, algumas funções egóicas como a percepção da realidade e a mediação de conflitos ficam comprometidas: ora ficam sujeitas a distorções, como ocorre com a subordinação do processo perceptivo à direção externa exercida pela racionalidade técnica, ora ficam totalmente debilitadas, como ocorre com a deterioração da capacidade de mediar racionalmente os impulsos e as exigências sociais, o que a aproxima da estrutura do delírio paranóico, impossibilitando uma ação autônoma frente às exigências de adaptação social. Mas, além dos danos impingidos à esfera da consciência e à instância psíquica que seria responsável por sustentá-la como expressão da autonomia do sujeito, o impacto da fusão entre o ego e o id, desencadeado pela ação de forças sociais objetivas que impedem a sólida constituição do eu e impossibilitam os indivíduos de poderem viver sem medo,

atinge as camadas mais recônditas do psiquismo, modificando substancialmente a qualidade das pulsões. Consequentemente, a liberação das pulsões, tão propalada pela moderna moralidade permissiva, fica subordinada à pré-delimitação que define a forma que devem ter para que possam, efetivamente, ser liberadas. Não são quaisquer pulsões que serão aceitas na dinâmica social, nem tampouco sob as condições que o sujeito definir. O ajustamento do indivíduo à sociedade permissiva implica no ajustamento das pulsões à forma de regressão requerida pela sociedade; por isso, as formações reativas também se modificaram substancialmente no último século e estão sofrendo novas modificações com a solidificação das novas condições antropológicas. A cristalização dessa nova superestrutura está atingindo um grau bastante avançado de cooptação das forças de resistência, pois com a subordinação das pulsões aos princípios e forças que governam o mundo, a herança humanista que ainda permite chamar de humanas às pessoas que se formam sob estas condições tenderá rapidamente a desaparecer. A mediação exercida pela sociedade sobre a constituição do psiquismo individual estabelece as configurações pulsionais que melhor respondem a suas necessidades de reprodução, enfraquecendo a própria disposição para a diferença qualitativa em relação ao todo hegemônico. Neste contexto, o narcisismo se destaca como um dos principais mediadores dos novos padrões libidinais. Sua função no psiquismo constituído sob a ameaça de dissolução favorece a expressão das pulsões internamente modificadas, expandindo retroativamente sua força e importância para a autoconservação:

La figura de la energia pulsional, que apuntala el yo – según el tipo anáclitico freudiano – quando procede al más alto sacrificio, el de la conciencia, es el narcismo. (Adorno, 1955/1986, p. 64.)

A busca compulsiva por prazer, que frequentemente se associa à não- diferenciação de seu objeto, responde mais claramente às necessidades do próprio sujeito em reafirmar sua existência do que à sua disposição por obter experiências gratificantes. O sexo dessexualizado não se dirige a objetos diferenciados, mas sim a instrumentos que permitam ao sujeito responder a suas necessidades psicológicas

insatisfeitas. A mediação social representada pela experiência objetiva do sacrifício eleva o narcisismo à condição de formação reativa; não propriamente psicopatológica, pois sua exacerbação favorece o ajustamento aos padrões de normalidade estabelecidos pela pseudocultura, mas certamente destrutivo, pois impede a própria experiência. O sacrifício da consciência decorre dos muitos sacrifícios que historicamente foram exigidos do indivíduo para garantir sua autoconservação e que, após a conquista das condições materiais para isso, permaneceram sendo requeridos como condição de existência. Sua função, a de amenizar o sofrimento incomensurável presente na realidade objetiva, partilhado pelos indivíduos que, mesmo a contragosto, o percebem, é complementada pelos mecanismos psíquicos que os levam a se sentirem mais fortes do que efetivamente são.

Dentre os mecanismos que acionam o narcisismo, o estabelecimento de vinculações regressivas no interior das massas é apontado por Adorno (1951/2006) como uma contrapartida à aniquilação do indivíduo:

O “empobrecimento” psicológico do sujeito que “se entregou ao seu objeto”, o qual “substituiu seu componente mais importante”, isto é, o supereu, antecipa quase com clarividência os desindividualizados átomos sociais pós-psicológicos que formam as coletividades fascistas. Nesses átomos sociais, as dinâmicas psicológicas da formação do grupo foram para além de si mesmas e não são mais uma realidade. (Adorno, 1951/2006, p. 188.)

Ao verificar a correlação entre a ideologia da racionalidade tecnológica e a personalidade narcisista, dimensões social e individual da deterioração da autonomia e expressões do declínio da própria esfera da individualidade, Crochík (1999) enfatizou que “o sofrimento acarretado pelo mundo externo colabora com a volta ao narcisismo” (p.98). Segundo sua análise, não é na busca por gratificação imediata, tão comum ao indivíduo narcisista, que devemos procurar compreender a gênese deste fenômeno tão disseminado atualmente, mas principalmente nas condições objetivas sob as quais os indivíduos se constituem. A complementação

ex officio entre as ameaças cotidianas que objetivamente compelem os indivíduos à defesa desesperada de sua sobrevivência e a falta de possibilidades concretas de

participarem com o mínimo de autonomia das esferas de decisão que governam suas vidas práticas caracteriza um limiar novo, no qual o ego e o id encontram-se indiferenciados e, consequentemente, também incapacitados de expressarem suas demandas de forma espontânea. Como a sociedade não oferece aos indivíduos a possibilidade de viverem sem medo, os mecanismos de defesa tornam-se preponderantes na configuração geral da personalidade; dentre eles, o narcisismo destaca-se como o processo que melhor articula a racionalidade do sistema social, interiorizada como forma natural do pensar, e os elementos pulsionais acionados como parte do processo de retorno da libido para o próprio ego, ou melhor, para o novo órgão mental constituído pela fusão e regressão múltipla do ego e do id.

Empenhado em desfazer a aparente contradição entre o hedonismo preponderante na sociedade contemporânea e a conceituação do narcisismo como processo defensivo, Costa (1984/2003) desenvolveu ponderações importantes a respeito do modo como o prazer socialmente consentido e, por vezes, também estimulado, se relaciona com o sofrimento e com a ameaça de morte:

O narcisismo moderno, dissemos, é um narcisismo defensivo, voltado para o investimento do corpo, que se tornou foco de sofrimento e ameaça de morte pela ação da violência. Essa hipótese choca-se aparentemente com as teses sobre o hedonismo da sociedade contemporânea. Porém, a nosso ver, esta faceta vendável da ideologia do bem- estar é divulgada para dissimular o medo do sofrimento e da morte, que apavoram o indivíduo moderno. (Costa, 1984/2003, p. 235.)

Segundo pode-se depreender de sua análise, a intensa estimulação da idéia de que o corpo é uma fonte infindável de prazer é parte de uma ideologia do bem- estar diretamente relacionada à ocultação do medo, do sofrimento e da morte que apavoram o indivíduo. O mal-estar na civilização denunciado por Freud (1929/1974), expressão genérica da incompatibilidade entre os interesses do indivíduo e os interesses da civilização inevitavelmente repressiva, não se diferencia da mais-repressão denunciada por Marcuse (1955/1981), formando uma condição que é insuportável para os indivíduos senão por meio da alienação e da subsunção em formas de prazer ajustadas aos mecanismos de opressão. O prazer obtido às expensas da mutilação da própria consciência e alçado à função de síntese entre a

necessidade de uma sobrevivência a todo custo e a experiência objetiva da impossibilidade de uma existência digna é matéria-prima da sexualidade dessualizada; é um dos meios pelos quais os indivíduos sucumbem ao conformismo generalizado. Se considerarmos a indicação de Crochík (1999) de que “é a diminuição do sofrimento que permitiria ao indivíduo voltar a se relacionar com o mundo” e de que para efetivação deste processo “a satisfação das pulsões sexuais, sublimadas ou não, seria prioritária” (p. 100), teremos mais elementos para compreender o papel essencial que o narcisismo exerce tanto na economia psíquica do indivíduo quanto na sustentação de certas formas coletivas de ilusão, intrinsecamente associadas aos mecanismos de dominação social. Crochík conclui esta análise da base objetiva do narcisismo e dos elementos que deveriam ser superados para que também se pudesse ultrapassá-lo, indicando que, sem a mediação do sofrimento, a satisfação das pulsões sexuais não remeteria necessariamente à autoconservação, de modo que poderia, com isso, representar outras possibilidades de prazer compatíveis com a consciência.

Na medida em que cumpre uma função integradora e estabelece conexões internas entre as necessidades subjetivas insatisfeitas e as formas falsas de gratificação que a pseudocultura oferece, o narcisismo contribui para a mobilização dos mecanismos de defesa, acionados como reação ao estado geral de tensão, e fornece parte substancial da base psíquica das formulações ideológicas que transfiguram o individualismo em expressão de liberdade e de realização pessoal. Em inúmeras circunstâncias, ele próprio se configura como um mecanismo de defesa. Bloqueia a relação entre o indivíduo narcisista e os outros com os quais entra em contato em situações cotidianas e impede a formação de vínculos afetivos duradouros, tornando comum a redução do outro à condição de objeto, como comumente ocorre no caso da dessexualização. De modo geral, pode-se dizer que o narcisismo, por suas próprias propriedades, mas também devido à conexão que estabelece com os conteúdos sadomasoquistas, cumpre uma função central nas