A pesquisa de campo constitui parte essencial deste trabalho, assim, a Biblioteca do Caraça foi contactada em um primeiro momento e, após a apresentação da pesquisadora à bibliotecária responsável pelo acervo – Vera Lúcia Garcia (CRB 6 – n.759) – foi iniciada a exploração do acervo. Conforme exposto no item 2.3.4, somente uma parte do acervo de obras raras se encontra catalogado e os registros antigos existentes sobre o acervo não fornecem informações precisas relativas aos exemplares que constam atualmente na Biblioteca. Os primeiros documentos consultados, então, foram: uma listagem das obras raras fornecida pelas bibliotecárias, e dois livros de registro de obras setecentistas (Fig. 4 e 5). Desses documentos foi retirado um primeiro levantamento das possíveis obras que constituiriam o corpus de análise desta pesquisa, sendo que Chorro (1736), Verney (1775) e Palairet (1788) foram identificadas nas estantes, e Figueyredo (1722) se encontra em constante exposição.
Figura 4 – Livro de registro dos livros de 1700 a 1799. Acervo do Caraça.
Fonte: Arquivo fotográfico da autora.
Figura 5 – Livro de registro dos livros de 1700 a 1799. Acervo do Caraça.
Através da busca direta nas estantes, foram encontrados, no interior do acervo de obras raras da Biblioteca do Caraça, livros de natureza vária – compêndios, tratados, manuais – que tratam de línguas, sobretudo do Latim, do Português, do Francês e do Alemão. Como mencionado no capítulo 2 deste trabalho, tais línguas integravam o currículo do Colégio do Caraça.
Foram selecionadas, então, entre as obras raras datadas do século XVIII, aquelas que tratassem de questões ortográficas e trouxessem dados como definições, aspectos linguísticos abordados e exemplos da língua portuguesa. Primeiramente, as obras selecionadas como corpus de estudo serão apresentadas no item 4.1, e se seguirá com a análise das informações encontradas nos próximos tópicos.
Ressalte-se que as quatro obras selecionadas – Figueyredo (1722), Chorro (1736), Verney (1775) e Palairet (1788) – trazem, cada uma, determinadas informações acerca da temática ortográfica. Sendo Chorro (1736) e Verney (1775) duas obras que tratam da gramática latina, foram observadas as considerações dos autores sobre a ortografia, mas não seus exemplos, por estarem em Latim. Palairet (1788), por sua vez, apresenta a definição do termo Ortografia e de outros que a ele se relacionam, e, finalmente, Figueyredo (1722), que é a obra de maior destaque neste trabalho, uma vez que trata especificamente da ortografia da Língua Portuguesa, trazendo definições e exemplos nessa língua.
A análise que será apresentada nos próximos tópicos se baseia no referencial teórico discutido no Capítulo 1 deste trabalho. Assim, observou-se, nas obras estudadas, o reconhecimento de uma norma ortográfica, que diferencia formas corretas e incorretas para a língua escrita, que toma a etimologização como fator de uniformização da ortografia da língua portuguesa, conforme Gonçalves (2003) indica. Verifica-se, nas definições e regras ortográficas encontradas, o reflexo do pensamento linguístico e cultural do Setecentos, que valoriza os usos linguísticos dos Antigos e também dos homens letrados da época.
4.1 As obras analisadas
1) Identificação: FIGUEYREDO, Manoel de Andrade de. Nova Escola para aprender a ler, escrever, & contar.
Transcrição da folha de rosto: Nova Escola para aprender a ler, escrever, & contar.
Manoel de Andrade Figueyredo, Mestre desta Arte nas Cidades de Lisboa Occidental, & Oriental. Lisboa Occidental. Na Officina de Bernardo da Costa de Carvalho, Impressor do Serenissimo Senhor Infante. Com as licenças necessarias, e Previlegio Real.
A obra de Figueyredo (1722) localiza-se no Setecentos: impressa sem data, “pelas licenças situa-se em 1722” (GONÇALVES, 2003, p.900):
Licencas do S. Officio
Està conforme com seu original S. Domingos de Lisboa Occidental em 21. De Outubro de 1722.
Fr. Antonio da Cruz
Visto estar conforme seu original pòde correr. Lisboa Occidental 23. De Outubro de 1722.
Rocha. Fr. Lancastre. Carneyro. Cunha. Teixeyra. Sylva Do Ordinario
Pode correr visto estar conforme com seu original. Lisboa Occidental 29. De Outubro de 1722 D. J. Arceb. De Lacedemonia.
Do Paço
Taxaõ este Livro em reis. Lisboa Occidental 3. De Novembro de 1722. Andrade. Pereyra. Oliveyra. Teixeyra. (FIGUEYREDO, 1722, Licenças)
Manuel de Andrade de Figueyredo (1670 – 1735), brasileiro, nascido no estado do Espírito Santo, viveu em Lisboa e se destacou na sociedade em que viveu como calígrafo e mestre de senhores e fidalgos da Corte de D. João V (Gonçalves, 2003). Nova Escola para aprender a ler, escrever, & contar (1722) se trata de uma obra de caráter introdutório – como seu próprio nome indica – para leitura e escrita, caligrafia, ortografia e aritmética. O objetivo da publicação de tal obra, assim como a concepção das regras de escrita, ou regras gramaticais, como arte característica do Setecentos, é explicitado em seu Prólogo:
Muytos costumaõ ser (benévolo leytor) os motivos, que ordinariamente se alegaõ antes de sahir à luz qualquer obra; porem nesta hum só me obriga, que he o amor da pátria, pois vejo que todas as outras nações tem publicado livros, que ensinaõ a escrever com regras muyto conformes a Arte; & naõ sendo inferior a nossa naçaõ Portugueza, nesta parte tem faltado os seus Mestres em darem ao prelo as suas doutrinas, ou seja por se escuzarem ao trabalho, ou por se naõ exporem à censura (FIGUEYREDO, 1722, Prólogo)
A obra de Figueyredo é dividida em quatro tratados: o “Tratado Primeyro” (p.1-25), trata “da instrucçam para ensinar a ler o Idioma Portugues com brevidade, & sufficiencia para se escrever, assim como se pronuncia” (p.1); o “Tratado Segundo” (p.27-55) “ensina a escrever todas as formas de letras, que ao presente se usaõ, & dos instrumentos para bem se escreverem, com as advertencias, & avizos necessarios para se aprenderem com fundamento, & brevidade” (p.27); o “Tratado Terceyro” (p.57-80) – de que nos ocuparemos para a análise que se seguirá – trata “da orthografia portuguesa” (p.57); finalmente, o “Tratado Quarto” (p.81-156) é o lugar “em que se ensinaõ as oyto especies da Arithmetica de inteyros, & quebrados, com algūas regras pertencentes as Escolas” (p.81).
O exemplar da Nova Escola existente no Caraça permanece em constante exposição (Fig. 6), possui uma assinatura e uma rubrica em sua folha de rosto, por isso sabe-se que a obra pertenceu a José Correa do Porto e, também, ao Padre Barthélemy F. X. Sípolis, que teria chegado ao Caraça em 1858.
Figura 6 – Nova Escola para aprender a ler, escrever, & contar (FIGUEYREDO, 1722) em exposição na Biblioteca do Caraça.
Fonte: Arquivo fotográfico da autora.
2) Identificação: CHORRO, Bartholomeu Rodrigues. Curiosas advertencias da boa