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HANDLINGER FOR IVERKSETTELSE
A principal crítica contida nos parágrafos 1 ao 64 das Investigações segundo Stern dirige-se à noção de que nossas palavras obteriam sua significação por representar algo independente da linguagem68. Com efeito, a associação entre coisa, mente e linguagem é secular e pode ser encontrada em muitos pensadores, desde Platão até os dias atuais, mas Wittgenstein escolhe um pensador bastante particular para dialogar (mais que para simplesmente opor-se) a respeito deste assunto: Agostinho de Hipona (354 – 430 d.C.).
A associação direta entre linguagem e objeto na qual todas as palavras têm por correspondência objetos é tratada por Wittgenstein como o modelo agostiniano de linguagem, já aludido no prefácio das Investigações, e a técnica de aprendizagem apresentada por Agostinho como a definição ostensiva, esta em verdade outra faceta da visão agostiniana da linguagem.
Para aclarar estes termos: nas Investigações o autor austríaco assinala o comum artifício de se ensinar a uma criança o que significa uma palavra apontando para determinado objeto, como o professor para a pedra, fazendo com que o aluno repita a palavra ―pedra‖ (PU §7) – para Wittgenstein, esta estratégia seria apenas uma faceta da linguagem, sendo que nem todas as palavras de uma língua
68 Stern, David G. Wittgenstein’s Philosophical Investigations – an introduction. Nova York: Cambridge
correspondem a objetos (como ―verdade‖ ou ―justiça‖), ou ainda, é tão somente um jogo de linguagem entre outros.
O livro marrom de Wittgenstein começa também com uma menção a Agostinho e que pode elucidar o que se irá expor:
―Al describir Agustín de Hipona su apredizaje del lenguaje disse que le enseñaron a hablar aprendiendo lós nombres de las cosas. Resulta claro que quien diga esto está pensando en el modo en que un niño aprende palabras tales como ‗hombre‘, ‗azúcar‘, ‗mesa‘, etc. No piensa en principio en palavras tales como ‗hoy‘, ‗pero‘, ‗quizá‘.
Supongamos que una persona decribiese un juego de ajedrez sin menionar la existencia y las operaciones de los peones. Su descripción del juego como fenómeno natural será incompleta. Por otra parte, podemos decir que ha descrito completamente un juego mas simple. En este sentido podemos decir que la descripción
que hace Augustín de Hipona del aprendizaje del lenguaje es correta para un lenguaje más sencillo que el nuestro. Imaginemos este
lenguaje: (...)‖ [grifo nosso]69.
Como mostra da importância destas concepções agostinianas para a filosofia wittgensteiniana, o pensador austríaco também inicia as Investigações com uma citação das confissões de Agostinho em que o filósofo cristão aduz que as coisas são designadas por palavras, sendo que se mostra possível a aprendizagem das palavras através da repetição destas em diferentes frases. Para Wittgenstein, a visão agostiniana da linguagem associava a palavra aos objetos de modo com que aquelas denominariam estes, como se uma palavra fosse a substituição do objeto. A seguinte passagem do parágrafo que abre as Investigações Filosóficas indica bem esta faceta em que Wittgenstein acopla o significado das palavras a seu uso, ao contrário da visão de Agostinho de Hipona:
PU - §1 ―(...) Pense agora no seguinte emprego da linguagem: mando alguém fazer compra. Dou-lhe um pedaço de papel no qual estão os signos: ―cinco maçãs vermelhas‖. Ele leva o papel ao negociante; este abre o caixote sobre o qual encontra-se o signo ―maçãs‖; depois, procura numa tabela a palavra ―vermelho‖ e encontra frente a esta um modelo de cor; a seguir, enuncia a série dos numerais – suponho que a saiba de cor – até a palavra ―cinco‖ e a cada numeral tira do caixote uma maçã da cor do modelo. – Assim, e de modo semelhante, opera-se com palavras. – ―Mas como ele sabe onde e como procurar a palavra ‗vermelho‘, e o que vai fazer com a palavra ‗cinco‘?‖ – Ora, suponho que ele aja como eu
descrevi. As explicações têm em algum lugar um fim. – Mas qual é a significação da palavra ―cinco‖? – De tal significação nada foi falado aqui; apenas, de como a palavra ―cinco‖ é usada.‖70
A significação da palavra ―cinco‖ pelo uso como mostrado no exemplo dado no parágrafo não necessita de perguntas como ―Mas o que significa ‗cinco‘?‖ na medida em que estas são dispendiosas para que se saiba o que significa a palavra, pois seu uso já demonstrou isto – assim, ao invés de tentar descobrir o que significa determinado signo, devemos tão somente olhar para casos nos quais as palavras são empregadas, considerando também que existem diferentes tipos de palavras71 – e diferentes modos de funcionamento da linguagem além de se transmitir pensamentos (PU §304).
A passagem pode demonstrar também uma insuficiência do modelo agostiniano de linguagem para o qual cada nome corresponderia a um objeto ―real‖, como maçã e vermelha, passíveis de serem observadas na tabela. Contudo, a palavra ―cinco‖ não pode ser tabelada pois não corresponde exatamente a nenhum objeto no mundo e, assim, o modelo criticado não consegue explicar a multiplicidade inerente à linguagem humana72.
A pequena história não representa, contudo, uma simples exemplificação do que ocorre na vida cotidiana, mas sim uma encenação absurda do que os seres humanos acreditam que ocorre mentalmente consigo mesmos quando conversam, ou seja, o dono da mercearia faz o papel dos homens que advogam certo comportamento mental ante o confronto com a linguagem73.
Isto não quer dizer que Wittgenstein negue de alguma maneira os processos que ocorrem internamente em cada ser humano, mas apenas que nega que a imagem obtida com o processo mental represente de algum modo o caminho seguro pela qual podemos obter o modo correto de se empregar uma palavra, sendo que a imagem que surge no processo mental da palavra (trata aqui de ―recordar‖) impede de se ver o emprego da palavra (PU §305).
70 Wittgenstein, Ludwig. Investigações Filosóficas. Tradução de José Carlos Bruni. São Paulo: Abril,
1975.
71 Stern, David G.
Wittgenstein’s Philosophical Investigations – an introduction. Nova York: Cambridge
University Press, 2004, p. 84 e s.
72 Fann, K.T. El concepto de filosofia en Wittgenstein. Madrid: Tecnos, 2003, pp. 85 e s.
73 Stern, David G. Wittgenstein’s Philosophical Investigations – an introduction. Nova York: Cambridge
Assim, pode concluir-se da fábula wittgensteiniana contida no §1 que grande parte da tradição filosófica colocou de lados opostos as palavras e as coisas, intermediadas pelos estados da alma humanos, inclusive em parte o Tractatus
Logico-Philosophicus74, mas que a visão tradicional não consegue abarcar a linguagem tal como se apresenta intrincada.
Neste sentido, a definição ostensiva de uma palavra tal como aprende uma criança ao olhar para a pedra e ver o adulto repetindo diversas vezes ―pedra‖ ao apontar para a mesma não é totalmente equivocada, mas é simplista demais para dar conta do que significam as palavras em uma língua, como estampado na citação que inaugura o livro marrom. Com efeito, podem surgir múltiplas interpretações a partir da ligação entre uma palavra e um objeto na medida em que sempre a definição ostensiva parte de um caso concreto e específico – assim, nunca vai haver uma última definição do que significa determinada palavra pois a última casa da rua pode não ser a última se se construir uma a seu lado (PU §29).
Aliado a isto, toda definição ostensiva para o aprendizado deve pressupor o conhecimento prévio de uma série de jogos de linguagem para que a aprendizagem seja realizada com sucesso. Assim, o aluno de xadrez que aprende o que é o rei porque o professor assim disse deve já ter uma certa vivência prévia de como o jogo é operado para entender o que significa ―rei‖ – por exemplo, o que é uma peça no jogo, que uma peça pode eliminar a outra etc. (PU §31) ou, de outra forma, a definição ostensiva explica o uso da palavra apenas se o papel global da palavra já estiver claro na linguagem (PU §30)75.
Deste modo, a definição ostensiva não pode servir como método válido para o aprendizado da língua materna na medida em que as pressuposições no que tangem o funcionamento e os lugares nos quais as palavras podem se encaixar em diferentes situações inviabilizam este meio como o principal. Mas é sugerido que o método ostensivo pode ser utilizado em caso de se aprender uma nova língua e, desse modo, a concepção agostiniana da linguagem não pode ser completamente
74 Ainda que se possa admitir que neste livro certas ideias não estariam representando coisa alguma
no mundo, como as constantes lógicas (TLP 4.0312), conforme Stern, David G. Wittgenstein‘s
Philosophical Investigations – an introduction. Nova York: Cambridge University Press, 2004, p. 76 e
s. Sobre o mentalismo do Tractatus, no qual o pensamento confere vida e sentido preciso aos signos, v. Spaniol, Werner. Filosofia e método no Segundo Wittgenstein. São Paulo: Loyola, 1989, pp. 41 e s.
descartada76 (PU §32), o que mais uma vez retira o pensar wittgensteiniano do mundo estratégico maniqueísta ocupado por algumas tradições filosóficas. Com efeito, neste mesmo parágrafo das Investigações o método agostiniano é novamente apontado por Wittgenstein como o de uma criança que chega em um país estrangeiro e já pode pensar e não falar, como se pensar fosse uma operação que ocorre apenas internamente e, por tal motivo, o aprendizado por definições ostensivas é novamente visto como por demais simples.
Assim, não quer dizer que Agostinho ou os que defenderam uma concepção de linguagem tal como ele estão completamente errados, mas apenas que suas ideias não conseguiriam suportar a complexidade da linguagem tal qual ocorre cotidianamente – palavras como ―ali‖, ―este‖, ―agora‖ ou ―depois‖, por exemplo, também não são passíveis de explicação satisfatória no paradigma agostiniano da linguagem, mas apenas se levado o uso em consideração77.
Com a estratégia de montar um arcabouço que mostre o uso cotidiano das palavras, Wittgenstein não faz uma pesquisa filosófica sistematizada, mas apenas mostra como o pensar, falar e agir dos homens e dos filósofos conduziram a certas conclusões cristalizadas na própria história da filosofia78 que desconsideraram reiteradamente um fator básico que ajuda a entender e dissolver muitos dos problemas advindos do entendimento tradicional.
A escolha da citação de Agostinho é uma outra prova de que Wittgenstein não trabalha com conceitos ―tudo ou nada‖ oriundos da história da filosofia. Com efeito, observa-se na referida citação do filósofo de Hipona contida nas Investigações (PU §1), quando da aprendizagem das palavras, alusões aos gestos dos homens, à mímica, aos jogos com os olhos, ao som da voz, enfim, a um conjunto de coisas o qual indicaria as sensações da alma em determinadas situações específicas, o que parece andar ao lado do que defende Wittgenstein79, ou seja, Agostinho admite fatores não linguísticos que influenciam na linguagem humana, como o autor austríaco com noções como a de ―forma de vida‖, abaixo detalhadamente exposta.
76 Stern, David G.
Wittgenstein’s Philosophical Investigations – an introduction. Nova York: Cambridge
University Press, 2004, p. 96.
77 Fann, K.T. El concepto de filosofia en Wittgenstein. Madrid: Tecnos, 2003, pp. 88. 78 Stern, David G.
Wittgenstein’s Philosophical Investigations – an introduction. Nova York: Cambridge
University Press, 2004, p. 74 e s.
79 Stern, David G. Wittgenstein’s Philosophical Investigations – an introduction. Nova York: Cambridge
Consequentemente, esta constatação sugere que o Agostinho de Wittgenstein apresentado nas Investigações não seja aquele mesmo Agostinho que existiu, e portanto a visão agostiniana da linguagem e seu aprendizado ostensivo não pode ser claramente identificados na obra do filósofo cristão. Neste sentido, pode ser reconhecida uma interpretação de certa maneira errônea de Wittgenstein em relação ao outro filósofo, mas esta não poderia ser considerada ingenuamente como um ―erro‖ não intencional, haja vista que provinda de um dos autores mais lidos e citados pelo pensador do século XX80– a pesquisa filosófica wittgensteiniana, neste sentido, caminha por estradas diferentes das tradicionais e mesmo sua ―crítica‖ deve ser visualizada sob um prisma diverso do usual enquanto uma terapia.
A argumentação em relação à visão agostiniana da linguagem conduz à conclusão (que pode ser observada nos §§ 36 e 37 das Investigações) de que a relação entre os nomes e as coisas nomeadas compõem-se de uma multiplicidade de atividades familiares entre si que nós empregamos e conectamos quando usamos os nomes, como apontar para a coisa e dizer seu nome (uma atividade física) ou recorrer à imagem do objeto que vem à mente (uma atividade mental) e, assim, ele não nega em absoluto que possam existir passagens nas quais a atividade mental desempenha algum papel na constituição da linguagem. Wittgenstein argumenta, isto sim, contrariamente aos que entendem que a mente possui uma habilidade ―quase mágica‖ para assegurar que as palavras e as coisas encontram-se ligadas umas nas outras, como poderia sugerir a tradicional filosofia representada em seu texto pelo paradoxo da definição ostensiva81.
1.2.4. A significação e os jogos de linguagem.
Como já mencionado quando da exposição acerca da visão agostiniana da linguagem, o uso (Gebrauch) é noção das mais importantes para a filosofia de Wittgenstein na medida em que é o que determina a significação das palavras, conforme o §43 das Investigações (aliás, uma de suas mais conhecidas e citadas afirmações) segundo a qual sempre ou quase sempre que se indaga sobre a significação da palavra, esta significação pode ser definida como o uso das palavras
80 Stern, David G.
Wittgenstein’s Philosophical Investigations – an introduction. Nova York: Cambridge
University Press, 2004, p. 78 e s.
81
Stern, David G. Wittgenstein‘s Philosophical Investigations – an introduction. Nova York: Cambridge University Press, 2004, p. 96 e s.