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No processo de EA priorizou-se ouvir e reconhecer as vivências dos participantes para o sucesso da elaboração do plano diretor da UC. E pode-se mesmo considerá-lo como os passos fundamentais desse sucesso.

Em diversas regiões da APA ocorre carência em infra-estrutura de abastecimento de água e de rede de esgotos, além da oferta de serviços públicos em educação e saúde, em geral, ineficientes e ineficazes. Soma-se a isso a degradação do ambiente natural, com áreas

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desflorestadas, queimadas, presença de pedreiras, assoreamento e poluição de rios, coleta predatória de plantas e caça de animais, muitos em perigo de extinção. Com toda essa degradação socioambiental soma-se a presença do narcotráfico em diversas áreas do território da APA de Gericinó-Mendanha/RJ (Plano Diretor, 2004).

Tal painel denota o nível do histórico desinteresse oficial com a prioridade a ser dada às políticas públicas, únicas barreiras reais para o avanço da violência urbana.

Ainda assim, o que se constatou ao longo das etapas do processo de EA foi a esperança e a vontade, dos representantes comunitários, de que a situação desvantajosa na qual vivem possa se transformar. Ouvi-los, dar-lhes a palavra, discutir idéias e conceitos, reconhecer sua importância de verdadeiros conhecedores de sua realidade, estimular a tomarem para si as questões que os atormentam anos e anos, sem nunca serem solucionadas pelo Poder Público e buscarem, eles mesmos, as necessárias alternativas junto às prováveis parcerias. Tudo isso fortalece a auto-estima e contribuiu para que aumente seu conhecimento, sua autonomia e o seu poder de escolha e decisão.

O conhecimento faz parte de um processo social que aproxima os indivíduos da participação, pois eles passam a se apropriar dele tendo como base a sua própria realidade aumentando, dessa forma, o nível de conhecimento do próprio grupo a que pertencem, como também a sua possibilidade de interagir com equilíbrio nas decisões políticas locais. Pois,

“A educação ambiental pode mais e, partindo do resgate dos saberes locais, pode ir além da reificação estética da natureza e proporcionar verdadeiros espaços de trocas de saberes, em que grupos e comunidades passam a se colocar como atores ativos no espaço territorial que ocupam e dentro das relações sociais da qual fazem parte” (Ranauro, 2003, p. 308).

Complementarmente, a visão complexa subjacente às ações promovidas em EA permitiu que houvesse maior tolerância e perspicácia diante das situações inesperadas e de conflito na medida que iam acontecendo, o que contribuiu muito para um melhor andamento do processo. Isso porque a práxis educativa fundamentada na complexidade estimulou os militantes ambientais locais a terem atitudes mais solidárias e reflexivas diante das situações que iam se apresentando.

A realidade necessita que se faça uma reflexão dirigida à relação existente entre os saberes e as práticas coletivas, numa perspectiva de diálogo entre eles. Educar é sentir, interpretar, conhecer e agir. Assim, o trabalho empreendido junto às lideranças e representantes locais do território da APA de Gericinó-Mendanha/RJ, superou a instância local e focou o todo que abrangia a situação em questão, de forma que eles fossem capacitados a lidar com as demandas que se apresentassem.

Os representantes comunitários, ao se apropriarem dos aspectos que compõem a complexidade da realidade, fortaleceram-se enquanto sujeitos para expressar suas opiniões, ao proporem caminhos e decisões a tomar. Assim, a participação dos indivíduos na transformação de sua realidade é uma forma de aquisição de poder, deles poderem se transformar nessa práxis e de darem sentido à sua própria vida (Franca, 2003).

Subjacente à gestão participativa, destaca-se o papel relevante da escola pública para a sua efetivação, na medida que não há como se pensar em autonomia do educador/ educando (Freire, op.cit.), sem a práxis educativo-crítica que faz do educando um ser apto a pensar, refletir, escolher e decidir. E o local mais adequado para esse exercício é a escola,

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espaço formal sim, mas intrinsecamente, aberto às possibilidades de trocas de diferentes vivências e saberes, técnico-científicos e populares. Local em que os conflitos e a busca de soluções alternam-se ajudando na construção de sujeitos preparados para saberem lidar com a incerteza, a desordem, o caos. Formação que não é bem-vinda aos donos dos meios de produção.

“Naturalmente, reinsisto, o empresariado moderno aceita, estimula e patrocina o treino técnico de seu ‘operário’. O que ele necessariamente recusa é a sua formação que, envolvendo o saber técnico e científico indispensável, fala de sua presença no mundo. Presença humana, presença ética, aviltada toda vez que transformada em pura sombra” (Freire, op. cit., p. 102).

A sombra de seres humanos, seres não considerados tão humanos assim, porque apenas servem para executar as ações não-executáveis por aqueles que se consideram – será que o são? Homo sapiens, homem sábio, homem que pensa. Os demais, apenas fazem para ele usufruir, certamente. Nessa linha de raciocínio, a compreensão do porquê da dificuldade de se fazer com que a escola pública tenha qualidade. Afinal, para quê? se em sua grande maioria é freqüentada pelos filhos desses “seres humanos sombra”.

Resulta daí que o trabalho feito no campo, junto às populações que se encontram em regiões degradadas ou em processo de degradação, torna-se muito desgastante pela exigüidade de tempo hábil necessário de investimento na sua capacitação real e no devido acompanhamento dos resultados alcançados. No caso específico do plano diretor, em pauta, foram cerca de oito meses de trabalho árduo para o levantamento das comunidades, a definição das representações comunitárias para as reuniões, as oficinas de trabalho, a realização do seminário de planejamento participativo e o posterior acompanhamento das primeiras reuniões com o grupo de representantes que facilitaria o processo para a continuidade do futuro Conselho Gestor participativo da UC. Foi repassado o acompanhamento desse grupo para a equipe da Feema, órgão responsável pela presidência do Conselho.

A reivindicação dos líderes e representantes comunitários para que no menor prazo fosse elaborado um amplo programa de EA (Pastana et al., op. cit.; Plano Diretor, op. cit.), denota a percepção deles sobre a importância da EA para que possam atuar plenamente na gestão democrática da UC. Eles entendem que a participação nas várias instâncias de decisão que a integra é um avanço democrático. Percebem a educação como forma de ação política, e a participação, como processo para a aprendizagem política. Eles exercitam seu poder de decisão aprendendo a levar em consideração a visão do outro.

“A participação é o cerne da aprendizagem política, da gestão democrática de uma escola, um lar, uma comunidade, enfim, de um ambiente (...) Participar é compartilhar poder, respeitar o outro, assegurar igualdade na decisão (...) Participação significa o exercício da autonomia com responsabilidade, com a convicção de que a nossa individualidade se completa na relação com o outro no mundo, em que a liberdade individual passa pela liberdade coletiva” (Loureiro, 2004, p. 18).

A comunidade percebe claramente a importância da escola nesse processo de educação do ser e do fazer humanos. Por isso sua ânsia por um programa educacional que possibilite a seus filhos lutar e conquistar qualidade em suas vidas. Nesse sentido, apenas uma escola pública, de qualidade, poderá lhes garantir esse caminho.

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Considero que buscar a hegemonia da EA enquanto visão educacional é lutar também pela prioridade que deve ser dada à escola pública, porque educar uma nação sob a égide da complexidade ambiental exige uma sólida, crítica, participativa e emancipatória formação educacional (Loureiro, 2003).

Considerações finais

O trabalho desenvolvido durante o processo de EA voltado à capacitação das lideranças locais para a gestão participativa no Conselho da APA de Gericinó-Mendanha/RJ, evidenciou o abismo que há entre o nível da qualidade educacional das comunidades existentes e qual deveria ser para que se pudesse resgatar, num prazo mínimo, a necessária sanidade ambiental na UC. Isso porque é falso acreditar que se pode alcançar a sustentabilidade socioambiental sem que se invista prioritariamente em políticas públicas educacionais, sob o viés ambiental. As próprias comunidades locais possuem essa noção e clamaram por tal ação ao longo de todo o período com elas trabalhado.

Referências bibliográficas:

FRANCA, N. Formar para a gestão participativa: métodos em construção. In: LOUREIRO, D. F. B.(Org.) Cidadania e meio ambiente. Salvador: Centro de Recursos Ambientais, p. 44-83, 2003.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 28 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2003.

LOUREIRO, C. F. B. Conceitos de ética, educação ambiental e cidadania. In: Cidadania e meio ambiente. Salvador: Centro de Recursos Ambientais, 200, p. 34-44.

_____. Educar, participar e transformar em educação ambiental. In: Revista Brasileira de Educação Ambiental. Brasília: Rede Brasileira de Educação Ambiental, n. 0, p. 13-20, 2004. MORIN, E. A cabeça bem feita – repensar a reforma, reformar o pensamento. Tradução de: Eloá Jacobina. 5ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 2001.

PASTANA, G. I. I. et al. Importância da Educação Ambiental (EA) na Gestão Democrática de uma Unidade de Conservação (UC): Área de Proteção Ambiental (APA) de Gericinó-Mendanha/ RJ. In: Anais do 2º Congresso Mundial de Educação Ambiental. Rio de Janeiro, 2004. (CD- Rom, em fase de edição)

PLANO Diretor da APA de Gericinó-Mendanha. Rio de Janeiro: Gov. Estado do Rio de Janeiro/ SEMADUR/FEEMA, 2004.

RANAURO, M. Educação Ambiental e Saber Local: do desencontro à participação. In: Anais do VII Encontro de Educação Ambiental no Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Rede de Educação Ambiental/RJ, 2003, p. 307-316. (CD-Rom em fase de edição).

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