Seguindo uma orientação sociocognitiva, discursiva e interacionista do fenômeno anafórico, apresentamos alguns tipos de anáfora.
I) Anáfora fiel (Apothéloz, 2003); Anáfora do tipo I (Marine, 2004)4: a
retomada do antecedente é feita por um SN (definido) cujo nome nuclear é aquele mesmo por meio do qual foi introduzido. Assim, este tipo de anáfora é uma das possibilidades de correferência. Exemplo:
(23) Havia uma casa à venda naquela avenida. Esta/A casa parecia ser bastante confortável.
II) Anáfora infiel (Apothéloz, 2003): o nome da forma de retomada é diferente
daquele da forma introduzida (trata-se, mais freqüentemente, de um sinônimo ou de um hiperônimo). Marine (2004) afirma que neste tipo de anáfora, a qual a autora chama de anáfora do tipo II, a retomada do antecedente é feita pela união “pronome demonstrativo + sinônimo direto ou contextual do nome anteriormente mencionado” e acrescenta que “sinônimos diretos ou contextuais” podem ser realizados de diferentes maneiras, porém em seu trabalho considera apenas os seguintes mecanismos lingüísticos: sinonímias, hiperonímias, hiponímias e silepses de gênero e/ou número. Exemplos:
(24) A menina adora pipoca. A/Esta garota come pipoca todos os dias.
(25) As meninas adoram dançar. Essas crianças praticam jazz a tarde toda.
4 Cabe ressaltar que as tipificações anafóricas propostas por Marine (2004) invariavelmente estão
(26) O garoto foi jogar bola de novo. Esse menino não sai do clube.
(27) Pelé é conhecido do mundo inteiro. Esse futebolista é exemplo para muitos atletas.
(28) Você pode até não ter pego esta doença por contato sexual, mas pode transmiti-la por essa via.
III) Anáfora por nomeação (Apothéloz, 2003): quando o sintagma nominal
transforma em referente, ou seja, em objeto individuado, o processo denotado por uma proposição anterior; a nomeação pode retomar o conteúdo proposicional da proposição ou o ato de fala realizado por meio da enunciação. Assim, como propõe Marine (2004), focando seu estudo nas anáforas estabelecidas pelos pronomes demonstrativos, neste tipo de anáfora (anáfora do tipo III) a retomada do antecedente, que neste caso não constitui apenas um nome, mas toda a idéia5 pode ser realizada de duas maneiras diferentes: i) “pronome demonstrativo + sinônimo direto ou contextual da proposição anteriormente mencionada” ou ii) “pronome demonstrativo + proposição de mesma referência em relação ao antecedente”. Muitas vezes, acrescenta a autora, o uso deste tipo de anáfora implica em um conhecimento compartilhado do assunto/tema do texto por parte dos interlocutores (escritor/leitor; falante/ouvinte); caso contrário, ela tende a se tornar incompreensível a um dos interlocutores e, portanto, ineficiente, tanto do ponto de vista textual, quanto do discursivo. É importante ressaltar que a anáfora do tipo III pode ser realizada também pelas formas invariáveis dos pronomes demonstrativos (isto/ isso/ aquilo), já que tais pronomes têm a capacidade de estabelecer uma referência textual bastante ampla, podendo retomar toda uma idéia. Observemos os exemplos:
5 O conceito de “idéia” é utilizado por nós de forma bastante abrangente, designando assuntos,
(29) Os arquivos dos jornais serão doados a algumas bibliotecas. Essa doação vai acontecer no fim deste ano.
(30) Todos os sábados eles saem e usam vários tipos de drogas, mas eu não gosto dessas coisas.
(31) Toda vez que ele tem prova na escola, inventa uma nova doença para não ir à escola. Isso não pode acontecer mais.
Acreditamos que esse tipo de anáfora coincida com o que Conte (2003) chama de “encapsulamento anafórico”. Para ele o encapsulamento anafórico é um recurso coesivo pelo qual um SN funciona como uma paráfrase resumidora de uma porção precedente do texto. Esta porção de texto (ou segmento) pode ser de extensão e complexidade variada (um parágrafo inteiro ou apenas uma sentença). Ainda segundo Conte (2003), o SN anafórico é construído com um nome geral (por exemplo, “fato”, “questão”, “assunto”, “situação” etc.) como núcleo lexical e tem uma clara preferência pela determinação demonstrativa. Exemplos;
(32) Hoje em dia a Internet exerce forte influência na construção da opinião pública. Este fato pode ser bastante preocupante para um mundo globalizado.
(33) Grandes porções de terra fértil sob domínio de uma minoria. Essa
situação não muda no Brasil!
Pelo encapsulamento anafórico, um novo referente discursivo é criado sob a base de uma informação velha; ele se torna o argumento de predicações posteriores. Como um recurso de integração semântica, os sintagmas nominais encapsuladores rotulam porções textuais precedentes; aparecem como pontos nodais no texto. Quando o núcleo do SN anafórico é axiológico, ou seja, “avaliativo”, o encapsulamento anafórico pode ser um poderoso meio de manipulação do leitor, tal como demonstramos no exemplo abaixo:
(34) Mais um vazamento de óleo da Petrobrás aconteceu ontem. Essa
Cabe ressaltar que o termo “encapsulamento” apresentado por Conte (2003) não possui nenhuma relação com o que Lyons (1977) denomina “encapsulamento”, visto que, para este autor, tal termo denota o fenômeno de inclusão sintagmática. Exemplo: to bark (latir) encapsula o sentido de dog (cachorro).
IV) Anáfora associativa (Apothéloz, 2003): sintagmas nominais definidos que
apresentam simultaneamente as seguintes características: i) de um lado, uma certa dependência interpretativa relativamente a um referente anteriormente (às vezes, posteriormente) introduzido ou designado; ii) de outro lado, a ausência de correferência com a expressão que introduziu ou designou anteriormente (às vezes posteriormente) esse referente. Logo, as anáforas associativas apresentam o seu referente – objeto de discurso – como já conhecido (ou identificável), sempre que ele não tiver sido ainda objeto de nenhuma menção, e que não indicar mais sua relação com outros referentes ou com outras informações explicitamente formuladas. Um exemplo clássico deste tipo de anáfora, já discutido em vários artigos, é o seguinte:
(35) Nós chegamos a uma cidade. A igreja estava fechada.
Neste exemplo, o antecedente anafórico, que na verdade é um trigger, ou seja, um “desencadeador”, segundo Hawkins (1977), é o sintagma definido “uma cidade”. Já o sintagma definido “a igreja” – que, neste exemplo, poderia ser também “a farmácia”, “a escola”, “a prefeitura”, entre outros – é o que se denomina, ainda segundo Hawkins, associate, isto é, “associado”: sintagma definido cujo emprego como primeira menção de um objeto de discurso (referente) se torna possível graças ao “desencadeador”, sem que haja ambigüidade sobre a identidade deste objeto de discurso.
Algumas vezes a informação discursiva que nos permite identificar o “associado” é dada apenas depois do anafórico, constituindo assim, uma catáfora
associativa. Vejamos o exemplo emprestado de Apothéloz (2003, p.78):
(36) ENTERRADA VIVA – Uma menina de 8 anos foi retirada viva dos escombros de um prédio de três andares que desmoronou ontem, em Nápoles,
deixando seis mortos e muitas pessoas desaparecidas. Os bombeiros conseguiram tirar Valentina Giannelli dos entulhos depois de duas horas de trabalho. A explosão foi provavelmente devida a um vazamento de gás (Le Matin, 17/12/1992).
V) Anáfora de memória: partindo do que Apothéloz (2003) define como
“dêixis de memória” e do que Bühler (1978 apud Marcuschi, 2007) define como “dêixis fantasma”, conforme já mencionado neste trabalho, propomos um novo tipo de anáfora: a anáfora de memória, que se caracteriza pela remissão ao antecedente feita in absentia, ou seja, na ausência de qualquer designação explícita e prévia de seu referente. Neste caso, a referência é estabelecida pela união “pronome demonstrativo + nome ou idéia resgatada na memória de um dos interlocutores”. Cabe ressaltar que este “resgate” de uma idéia estabelecido pelo escritor/falante deve ser, necessariamente, compartilhado pelo seu leitor/ouvinte, para que a comunicação entre ambos tenha um sentido pleno. Abaixo segue um exemplo retirado do corpus que, como poderá ser observado adiante, utilizamos em nossa pesquisa:
(37) Tenho quinze anos e como todas as raparigas da minha idade gosto de homens mais velhos. Há quase um ano conheci uma rapariga que se tornou a minha melhor amiga. Tenho muita ternura por ela, se bem que por vezes pense que sinto algo mais... Sei que a atraio e que ela gosta muito de mim, porém não me atrevo a confessar-lhe que me atrai com medo de perdê-la como amiga. Que posso fazer? Laura-Almoçageme/ O melhor é ficares completamente certa do que sentes pela tua amiga. Tem a conta que na adolescência é muito normal viver situações de incerteza ou confusão sexual. Não deves ter medo de manifestar a tua própria maneira de amar; porém, antes de dar um grande passo, assegura-te de que na verdade queres
essa pessoa quer seja rapaz ou rapariga. [...].
(Ragazza, Fevereiro de 1994).
(38) Para mim, esse negócio de virgindade nunca foi muito importante. Talvez por isso, quando transei pela primeira vez não foi tão emocionante. Mas para
uma coisa é ótimo, quebra aquela barreira que a gente sempre coloca na hora de ir além de abraços e beijinhos com os namorados. N.P., 19 anos.
(Capricho, Abril de 1994).
VI) Anáfora com elipse (Marine, 2004): a retomada do antecedente é feita por
meio, exclusivamente, do pronome demonstrativo, visto que o antecedente encontra-se elíptico no sintagma nominal. É importante destacar que este antecedente elíptico pode ser apenas um nome (39) ou toda uma “idéia” (40, 41), tal como nas anáforas por nomeação.
(39) O primeiro namorado de Maria era muito mulherengo. Ela não teve muita sorte com este, mas dizem que o atual é um rapaz bastante sério.
(40) O mais certo é que ele parta do princípio que todas as miúdas gostam que estejam em cima delas constantemente e que ache que essa é a melhor forma de te mostrar o seu carinho e amor. [...].
(Ragazza, Abril de 1998).
(41) Mas pense bem: uma coisa é crítica e ponto de vista; outra é falar mal por pura fofoca. Esse é outro departamento. [...].
(Capricho, Novembro de 2003).