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Hagen (FrP): Så du synes i realiteten at kritik- kritik-ken fra de tre ikke er berettiget?

Um marco de qualidade na zona de Telheiras Uma referência de qualidade habitacional e comercial em toda a cidade de Lisboa Conceito arquitectónico e urbanístico únicos Lazer, conforto e qualidade de vida como qualidades indissociáveis

Ligação privilegiada ao NAT Telheiras

Legenda: Discurso da EPUL - análise de conteúdo do «discurso» da EPUL, tendo por base as qualidades materiais e imateriais que o impregnam.

Analisando a comunicação da EPUL, detalhadamente referida nas páginas anteriores, pode produzir-se um quadro (Quadro 1) que faça relevar as qualidades imateriais, abstractas e as qualidades materiais, que remetem para o concreto das características das urbanizações.

Deixando as segundas, as qualidades materiais, de lado – porque, embora ideológicas (por exemplo, o que é para este “um apartamento espaçoso e funcional” pode não o ser

para aquele) remetem para o concreto142 – analisemos as que aqui chamamos «qualidades

imateriais». Desde a primeira hora, a da revisão do plano OTAM, que a EPUL representa Telheiras como um bairro e tudo fez para o construir como tal (veja-se a esse propósito o que já neste trabalho se mostrou do “Relatório NEUT, 1989”); essa representação mantêm-se e reforça-se nos suportes de comunicação aqui analisados, em que repetidamente se afirma: “Telheiras é um bairro....”. Mas não é um «bairro» qualquer. É um «bairro» que tem um “centro histórico”, onde é possível o reencontro com o ambiente das antigas aldeias que tornejavam Lisboa (portanto, onde é possível “a nostálgica renovação dos sentimentos comunitários ou identitários.”, de que fala Breton, P. (2001: 167), sem que isso represente um afastamento da modernidade, porque este «bairro» tem uma Praça Central, uma “significativa diferença de qualidade urbana”, uma centralidade/acessibilidade à cidade e aos seus equipamentos-chave, do hospital à Universidade; ora possuir “centralidade em relação à cidade não será, ao mesmo tempo, ser-lhe exterior? Não será uma forma de sub-liminarmente fazer valer para Telheiras a ideia de aldeia às portas de Lisboa, mais do que a de um «bairro» de Lisboa?

Um «bairro» que, afinal, é mais do que um «bairro»? Tanto mais que “a qualidade urbanística de Telheiras, identificada com a EPUL, foi percebida pelo mercado imobiliário, que passou a designar por Telheiras toda a zona envolvente, estranha à área de intervenção da EPUL, nomeadamente a Sul da 2ª circular e a Poente do Eixo Norte-

142 Claro que mesmo as «qualidades materias» enunciadas pela EPUL escondem o facto do Plano de

Pormenor não ter sido cumprido. Por exemplo, os parques de estacionamento de Telheiras, na sua quase totalidade, seriam cobertos, para assim proteger o ambiente e conquistar terreno para jogos de crianças ou para a implementação de extensões arrelvadas, o que não se verificou - Augusto Pita, (1980) “Telheiras Sul. Plano de Pormenor”, in arquitectura, revista de Arquitectura. Planeamento. Design. Construção. Equipamento., Ano II (4ª Série) Nº 137, Julho/Agosto, 1980.

Por outro lado, muitos dos edifícios construídos pela EPUL nos primeiros anos apresentaram graves problemas de inflitracções, que a empresa tardou em resolver ou não resolveu mesmo; para não falar da “perspectiva crítica” sobre o local onde moram, revelada pelos moradores em edifícios da EPUL, e referida no “Relatório NEUT, 1989”. E há ainda o facto do jardim da Praça Central conflituar com as expectativas dos residentes em relação às hortas comunitárias e/ou clube de jardineiros, que haviam de ser implementadas no «bairro» e não foram, caso detalhadamente abordado pela já citada Contumélias, A. (2006). Um quadradinho de Verde na Aldeia de Telheiras. Caso e Metáfora. Lisboa: Plátano.

Quanto à Praça Central, propriamente dita, Ana Silva Pinto, primeira presidente da ART, que vive hoje num palacete recuperado na antiga Quinta de St’Ana, junto á Praça Central, diz: “A Praça Central parece o Parque das Nações. Acho demasiado. Lembras-te que nós queríamos uma Praça Central com vida activa? Gostava que fosse mais simples”. E, mais adiante na conversa informal, em Janeiro de 2004, “eu sou uma previlegiada, mas não tenho onde estacionar o carro”...

Sul”143. Fiel, embora, ao seu «Triângulo», onde substantivou a sua intervenção, a EPUL

reconhece que Telheiras lhe escapou e se estendeu para lá das fronteiras do «bairro», o que antes se ficara pelo espartilho de três vias rápidas, demarcadoras de um constrangedor território físico. A imagem de Telheiras e a da Aldeia de Telheiras convivem na produção simbólica de um «bairro» diferente dos outros, e por isso com uma identidade própria, mas com base numa diferença, que confere estatuto e onde apetece viver. “Prepare-se para mudar”, dizia a EPUL, noutro suporte de promoção da venda dos apartamentos da Praça Central. Telheiras é o «bairro» em que se “Constrói o novo conservando a memória, através da construção de espaços pensados em função do público a que se destinam, da identidade cultural e da qualidade de vida que só um planeamento urbanístico integrado pode proporcionar”, como afirma a EPUL num dos seus folhetos promocionais.

Diz (Costa, J., 1992: 16) que “as imagens mentais que regem as condutas (as micro- condutas) dos indivíduos no fluxo do quotidiano mais elementar, por exemplo o consumo, convertem-se em autênticos instrumentos estratégicos com que as organizações influenciam estes vectores da conduta social que são as imagens públicas. Estas ferramentas são imagens instrumentais, quer dizer, que são instrumentalizadas” pelas “empresas em busca da competitividade, quer dizer da sua sobrevivência e do seu triunfo”. (Costa, J., 1992: 16) Pode a EPUL estar a fazer isso mesmo, a produzir uma imagem de Telheiras que conduza ao seu sucesso, enquanto empresa. Telheiras é hoje uma marca e uma marca é simultaneamente signo e significante, uma “imagem mental”; a sua notoriedade vem-lhe dos seus “elementos distintivos (originalidade diferenciadora) e retentivos (força de recordação)”. “Mas o que lhe dá sentido “são os seus atributos de valor”. Em última análise, são eles que promovem e determinam “uma conduta no público” . “A marca converte-se num valor que o público adquire com o produto” (Costa, J., 1992P: 45 e 46).

Mas está também a EPUL a produzir, com a sua argumentação, um «bairro retórico», onde antes já produzira «um bairro físico»; não é, evidentemente, o único actor, mas desempenha, por certo, um dos principais papeis. A EPUL busca o poder simbólico de

impôr uma visão do mundo, “um conhecimento local criado e disseminado através do discurso argumentativo. Estas duas características, o carácter local e o carácter argumentativo são inseparáveis, visto que só pode haver discurso argumentativo dentro de comunidades interpretativas, os auditórios relevantes da retórica” (Santos, 2000: 89 e 90). Sustenta Mela, A. (1999: 146) que “Apesar do carácter quase inconsciente” dos processos de produção de identidade, “há situações em que determinados indivíduos, ou grupos, tentam influir na identidade relativa à cidade, ou nos sentimentos de pertença, com base em estratégias precisas”. É isto, afinal, o que faz a EPUL; convém dizê-lo porque, como lembra Bourdieu (1989: 129) “não reconhecer a contribuição dada à construção do real pela representação que os agentes têm do real”, significa “não compreender a real contribuição que a transformação colectiva da representação colectiva dá à transformação da realidade.”