Cornu considera que o jornalista se inscreve necessariamente numa «comunidade de interpretação».(165) De resto, a interpretação é uma das três ordens para a construção dos
relatos jornalísticos. As outras duas são a observação e a narração. Modelo convocado para a prática jornalística que é idêntico aos saberes profissionais a que alude Traquina e que constituem o vocabulário de precedentes: um saber de reconhecimento, um saber de procedimento e um saber de narração.
A informação «repousa sobre uma hipótese prudente: deve existir algures uma ver- dade da realidade observada, essa verdade pode ser procurada, pode ser mesmo, pelo menos em parte, apreendida e comunicada. Sem o que parece efectivamente difícil conti- nuar a falar de conhecimento, que o mesmo é dizer, de informação.»(166) E a informação
165 Cornu, obra citada, p.334. 166 Cornu, obra citada, p.329.
constitui tão-só um fragmento da realidade. No entanto, contribui para a descoberta do mundo e para a redução da incerteza.
O autor introduz o conceito de objectividade, o qual se situa no interior do processo da informação e em relação aos factos, comentários e relatos. Cita Julien Freund, que define «a objectividade como a validade da verdade dos julgamentos que fazemos sobre a realidade».(167) Arendt, que faz a distinção entre verdade de facto e verdade de razão,
sendo aquela mais modesta quando comparada com as verdades matemáticas, científicas ou filosóficas, salienta que «os factos e os acontecimentos – que são sempre engendrados pelos homens vivendo e agindo em conjunto – constituem a própria textura do domínio político.»(168) Isto é, o domínio dos assuntos públicos.
A verdade de facto «é sempre relativa a várias pessoas: ela diz respeito a aconteci- mentos e circunstâncias nos quais muitos estiveram implicados; é estabelecida por teste- munhas e repousa em testemunhos; existe apenas na medida em que se fala dela, mesmo que se passe em privado. É política por natureza.»(169) Arendt sustenta que factos e opini-
ões não se opõem, pertencem ao mesmo domínio. «Os factos são a matéria das opiniões» e estas são «inspiradas por diferentes interesses e diferentes paixões».
A informação ocupa-se da verdade de facto. E, segundo Cornu, essas «verdades de facto podem ser estabelecidas pela observação, por testemunhas, por documentos». Con- sidera que o papel do jornalista, tal como o historiador, reside na «orientação para a procura e para a fundação da verdade de facto».(170) Todavia, a discussão sobre a verdade
não pode «deixar de ter em conta a interpretação desses factos, segundo os seus diversos níveis, e por conseguinte a justeza dos julgamentos que sobre eles se façam. Já não pode abstrair-se da intervenção dos próprios jornalistas, na sua subjectividade, como observa- dores, selectores e, mais particularmente, narradores dos factos.»(171)
Para Cornu, a verdade jornalística e a objectividade respeitam e estabelecem relação com as três ordens da informação: (1) a ordem da observação (o acontecimento, os fac- tos); (2) a ordem da interpretação (o sentido, os comentários); e (3) a ordem da narração (o estilo, o relato). Mas também implica plenamente a intervenção do jornalista como sujeito.
A observação não se limita ao acto de olhar, de contemplar. Requer o exame, a análi- se do que se está a observar (factos, acontecimentos, fenómenos). Supõe ainda identificar indícios, estabelecer comparações com experiências anteriores para interpretar o que se observa. E a objectividade consiste na validade da verdade dos julgamentos feitos sobre a realidade. Todavia, como verdade frágil, a verdade de facto pode estar sujeita «aos as- saltos da política, que é suficientemente poderosa em sociedades totalitárias para reduzir esses factos a um estado de “não-existência”».(172)
167 Cornu, obra citada, idem.
168 Arendt, Hannah (1995), Verdade e Política, Lisboa, Relógio D’Água Editores, pp.14-15. 169 Arendt, obra citada, p.24.
170 Cornu, obra citada, pp.330-331. 171 Cornu, obra citada, p.329. 172 Cornu, obra citada, p.330.
Os jornalistas têm a vantagem de relatar muitos testemunhos sobre o acontecimento e as suas interpretações são imediatamente sujeitas à crítica dos envolvidos. A verdade de facto é imediatamente confrontada com uma opinião crítica. Esse debate crítico deve ser tomado como um aliado da investigação. E a rectificação, se for esse o caso, é uma exigência.
«Observador do notável, o jornalista assume-se como intérprete da actualidade, en- tendida como o momento presente da realidade.».(173) A actividade jornalística supõe uma
primeira leitura da actualidade, que compreende, antes de qualquer relação dos factos, um trabalho de interpretação que consiste, segundo Ricoeur, citado por Cornu, em «decifrar o sentido oculto no sentido aparente, em desdobrar os níveis de significação implicados na significação literal».(174)
Cornu considera que a leitura da actualidade jornalística se inscreve, «quanto aos seus aspectos mais concretos, num esforço hermenêutico, na medida em que a hermenêu- tica supõe precisamente a existência de acontecimentos sobre os quais as interpretações sucessivas se depõem como estratos e deixam sedimentos».(175) Na prática da redacção,
os critérios de selecção, avaliação e referências de interpretação estão inscritos em do- cumentos codificados, como a linha editorial, ou fazem parte da «subjectividade socia- lizada».(176) Esta refere-se ao conceito de habitus cunhado por Bourdieu como princípio
gerador e organizador de práticas e representações.
O jornalista inscreve-se necessariamente, como afirma Cornu, numa «comunidade de interpretação.» O sistema mediático «prescreve a priori uma grelha de interpretação pela imposição de uma ordem do dia». A definição da agenda, tomado como o verdeiro poder dos média, «exerce uma síntese mediática da verdade». Essa síntese «é a forma acabada do totalitarismo informativo, que se exerce sobre o jornalista como indivíduo, antes de se exercer sobre o seu público.»(177)
O esforço hermenêutico «manifesta-se em toda a procura de informação que vise revelar elementos ocultos, própria do jornalismo de investigação; na entrevista, pelas per- guntas feitas e sua organização; na reportagem, que consiste em ‘dar a ver’, pela escolha dos elementos descritivos, das palavras citadas, pelas sensações transmitidas; em todo o acto jornalístico que vise restituir uma experiência vivida, operação deliberadamente subjectiva implícita nas fórmulas modernas do “novo jornalismo”.»(178)
As condições da hermenêutica estendem-se às três ordens principais da activida- de jornalística: a observação dos factos, a sua interpretação e a narração. A interpreta- ção, segundo Cornu, «não entra em contradição com a noção de objectividade, que in-
173 Cornu, obra citada, p.332. 174 Cornu, obra citada, p.333. 175 Cornu, obra citada, p.333.
176 Bourdieu, Pierre (2006), As Estruturas Sociais da Economia, Porto, Campo das Letras Editores, p.290.
177 Cornu, obra citada, p.334. 178 Cornu, obra citada, p.336.
tegra nos seus métodos.»(179) «A verdade passa por uma reconstrução que permite situar
os factos, descrever o seu encadeamento, procurar as suas causas, apresentá-las na sua coerência.»(180)
Traquina, que cita Ericson, Baranek e Chan, associa o ritmo temporal do trabalho jor- nalístico, o controlo da acção no quadro do ciclo produtivo, aos saberes do «vocabulário de precedentes»: (1) saber de reconhecimento; (2) saber de procedimento; e (3) saber de narração. Esses saberes decorrem de «um processo subtil, de acumulação, baseado na experiência e nas transacções diárias com colegas, fontes, superiores hierárquicos e textos jornalísticos».(181)
O primeiro mobiliza critérios de noticiabilidade e a perspicácia noticiosa do jornalis- ta, o segundo convoca conhecimentos relacionados com a recolha de dados para elaborar a notícia, para a identificação e verificação de factos e para o estabelecimento de contac- tos com as fontes, e o terceiro implica compilar a informação e dominar o discurso jor- nalístico. «Os saberes de reconhecimento, de procedimento e de narração são elementos constitutivos de toda a cultura profissional que os membros deste grupo profissional desenvolveram num processo histórico e contínuo de profissionalização.»(182)