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Hva hadde det betydd å miste parsellen?

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3.3.3 Hva hadde det betydd å miste parsellen?

A Ilha do Nanja amanhece toda azul com sol claro e passarinhos no ar; de repente tudo desaparece, uma névoa cinzenta envolve montes e praias; soltam gotas de chuva por todos os lados, como um súbito brinquedo de cristal. A névoa já não existe. Existem nu- vens brancas cobrindo e descobrindo o sol. Então, vem o vento,

desce das nuvens e nesses jogos passam o dia inteiro; não há mai- or distração, na Ilha do Nanja, que contemplar as inconstâncias do céu. (Cecília Meireles).

Cecília Meireles numa entrevista revelou: “Aos poucos pude criar a minha própria Ilha de Nanja, a São Miguel transfigurada pelo sonho” (BLOCH, 1964, p.35). Aos poucos a poeta pôde criar a sua Ilha do Nanja. Isso revela uma construção de anos e anos lapidados no devaneio poético. O devaneio poético dá a poeta esta capacidade de transfigurar seu mundo real num outro mundo mais desejado. Mas este acontecimento realizou-se aos pou- cos. Talvez esta expressão utilizada pela poeta “São Miguel transfigurado pelo sonho” não seja o sonho noturno, mas o devaneio poético capaz de levar o ser a outras realidades, a ou- tros mundos. O tema do devaneio é tratado com ênfase nas obras bachelardianas. Uma de suas obras, inclusive, dedicou-se à pesquisa de como acontece a poética do devaneio. Para o autor:

O devaneio é um estado espiritual demasiado natural – demasiado útil para o equilíbrio psíquico – para que o tratemos como uma derivação do sonho, para que o incluamos, sem discussão na ordem dos fenômenos oníricos. Em suma, é conveniente para determinar a essência do devaneio, voltar ao próprio devaneio. E é precisamente pela fenomenologia que a distinção en- tre o sonho e o devaneio pode ser esclarecida, porque a intervenção possí- vel da consciência do devaneio traz um sinal decisivo (BACHELARD, 2006, p.11).

Bachelard (2006) mostrou o valor do devaneio para o equilíbrio psíquico. Sendo, portanto, um estado espiritual natural. Ele chama atenção para o fato que para determinar a essência do devaneio é necessário voltar ao próprio devaneio. E é pela fenomenologia que a distinção entre sonho e devaneio pode ser esclarecida. Diante desta constatação, vale desta- car a diferença entre sonho e devaneio. Ferreira (2008, p.185) mostrou que Bachelard faz a distinção entre sonho noturno e devaneio. “No devaneio, o sujeito tem consciência de que é o autor de sua ‘atividade onírica’ preservando desse modo a unidade de seu cogito” (p.185). O mesmo não acontece com o sonhador de sonho noturno “em que o seu eu ‘se dissolve’ e ele perde a individualidade (p.185). Partindo deste pressuposto, vale salientar que para Ba- chelard existe a poética do devaneio

O devaneio poético nos dá o mundo dos mundos. O devaneio poético é um devaneio cósmico. É uma abertura para um mundo belo, para mundos be- los. Dá ao eu um não-eu que é o bem do eu: o não-eu meu. É esse não-eu meu que encanta o eu do sonhador e que os poetas fazem fazer-nos parti- lhar. Para o meu eu sonhador, é esse não-eu meu que me permite viver mi- nha confiança de estar no mundo. Em face de um mundo real, pode-se des- cobrir em si mesmo o ser da inquietação. Somos então jogados no mundo, entregues a imunidades do mundo, à negatividade do mundo, o mundo é então o nada do humano (BACHELARD, 2006, p.13).

Nos capítulos anteriores, citou-se muitas vezes que a poeta perdeu sua família pre- maturamente e foi morar com sua avó açoriana. Ela cresceu ouvindo as histórias da Ilha de São Miguel. Através do contar destas histórias, nos devaneios da infância, nos devaneios da vida adulta, ela criou a sua “Ilha do Nanja”. A Ilha do Nanja é uma das maiores criações poéticas cecilianas.

Antigamente, a Ilha do Nanja, de minha absoluta propriedade poética, era um retiro apenas sentimental para alguma tarde ociosa, essas doces tardes que se vão acabando, e quando ainda se podia, em imaginação e com a cumplicidade do silêncio e da sombra, viajar por Trebizonda ou pelo Posi- libo. A Ilha do Nanja era um desses paraísos, lugar sem melancolia ou in- quietação: uma taça de flores no Atlântico, uma concha de nácar (MEIRE- LES, 1976, p.113).

São nestes devaneios que ela é transportada do seu mundo real para o mundo dos so- nhos, não os sonhos noturnos, (dormindo), mas dos devaneios, sonhos acordados. É este devaneio que dá abertura para o mundo belo. Sendo assim, Ferreira esclareceu que “os de- vaneios do escritor não são fugas da realidade. São instantes verticalizantes de inefável sig- nificação, transpostos numa obra escrita” (FERREIRA, 2008, p.58). A ilha do Nanja é este instante verticalizante de inefável significação que levou a poeta a criar sua obra poética.

Não sei o que se passou para que a ilha do Nanja começasse a chamar por mim com tanta veemência. Ou eu por ela. De repente, sentia-me solicitada pelo seu refúgio; era a minha barca e minha cabana, meu bosque de orácu- lo e minha palavra de proteção. Que terríveis coisas se me têm feito pre- sentes, para que a Ilha do Nanja chegue a parecer um exercício feliz. Que vozes tão tremendas se fizeram ouvir, em redor de mim, para que o grave som do mar, sereno ou áspero, me pareça mais aprazível, e o seu verde anel de solidão me inspire uma confiança que eu vou perdendo pelos arredores humanos? (MEIRELES, 1976, p.113).

Portanto, não são fugas da realidade, mas encontro com o mais profundo do seu mundo interior, seu ser místico religioso. E, ao falar deste ser místico religioso, está se fa- lando deste ser criado no labor poético. Este ser transformado através do canto, da poesia, da prosa poética. Jamais será fuga da realidade, mas instantes de encontros com outros mundos dentro do próprio mundo da poesia. É um mundo todo seu, um instante necessário para quem vive do labor poético:

Para que um devaneio tenha procedimento com bastante constância para resultar em uma obra escrita, para que não seja simplesmente a disponibili- dade de uma hora fugaz, é preciso que ele encontre sua matéria, é preciso que um elemento material lhe dê sua própria substância, sua própria regra, sua poética específica. (BACHELARD, 1998, p.4).

Esta matéria pode ser esta ausência familiar (mãe, pai, irmãos), depois na adolescên- cia de sua babá Pedrina, suicídio do primeiro esposo, Fernando Correia Dias, a morte de sua

avó Jacinta Garcia Benevides, e tantas outras mortes sentidas tão de perto pela poetisa, nas quais a Ilha do Nanja foi uma criação para um refúgio para dar conta de sobreviver diante de realidades tão trágicas. Ou a sua ascendência açoriana que lhe deu como herança poética levar, por onde for, o mar, a ilha e a solidão. A todas as suas viagens pelo universo afora cantando e encantando as pessoas com seu jeito de fazer poesia. Isso parece sugerir que a matéria para a criação ceciliana: “Há horas na vida de um poeta em que o devaneio assimila o próprio real. O que ele percebe é então assimilado. O mundo real é absorvido pelo mundo imaginário”. (BACHELARD, 2006 p.13). Fato este de grande relevância em Cecília Meire- les. Diante de sua realidade para transfigurar aquele mundo dolorido, seu imaginário criava outros mundos todos seus, mundos imaginários que se transformavam em poesia.

Eu vou para a Ilha do Nanja para sair daqui. Passarei as férias lá. Nem pre- ciso fechar os olhos: já estou vendo os pescadores com suas barcas de sar- dinhas, e a moça à janela a namorar um moço de outra janela de outra ilha! (MEIRELES, 1980, p.28).

Há em Cecília Meireles o regresso ao mundo primitivo ao visitar a Ilha de São Mi- guel, em criar a Ilha do Nanja:

Consagremos uma parte de nossos esforços para demonstrar que o deva- neio retoma constantemente os temas primitivos, trabalha constantemente com uma alma primitiva, apesar dos sucessos dos pensamentos elaborados contra o próprio saber das experiências científicas (BACHELARD, 1999, p.28).

A Ilha de São Miguel contada em histórias e cantada em romances, primitivamente, é a Ilha do sonho onde todos os desejos se realizam. O devaneio poético ceciliano evoca este tempo mítico e, ao mesmo tempo, cria a sua Ilha do Nanja. Entre o real e o sonhado a Ilha de São Miguel de sua avó micaelense transfigurou-se na Ilha do Nanja, na criação poé- tica da neta Cecília Meireles, brasileira, carioca.

Houve tudo isso e muito mais – de que existem apenas vestígios: nomes truncados, histórias confusas, coisas sonhadas que se misturam as vividas ou apenas desejadas. Assim por cima da ilha, assim por dentro dela; essas navegações, essas sereias, esses monstros... e a memória de tudo isso, inde- lével em suas contradições : a Ilha do Nanja. A Ilha do que não vai aconte- cer, ou do que demora. (Com um vinho que vem de vulcões, e nuvens apa- recem e nuvens de onde aparece o rosto de Cristo) A minha Ilha, naquele oceano. (MEIRELES, 1976, p.108).

A herança micaelense da avó foi agarrada pela neta e a partir disto transformou-se no que há de mais belo na poesia ceciliana: a sua Ilha aos poucos transfigurada pelo sonho. O poema “Pastoral V” é uma destas criações para falar de sua Ilha:

Pastoral V

Na Ilha que eu amo,

na Ilha de Nanja, que eu tenho no meio do Atlântico, há veredas de hortênsias,

lagos de duas cores,

nascente de água fria, morna e quente. Doce Ilha que foi de laranjas

e hoje é de ananases! Ilha de Nanja.

Robustos homens, que devem ser meus parentes, levam seus carros de vime

pela tarde de chuva e sol, de vento e névoa,

porque a Ilha tem todos os tempos em cada instante. Por uns caminhos chamados canadas,

os homens de carapuça olham a tarde, como quem não sabe se amanhã está vivo. Porque a Ilha está pousada em fogo, cercada de oceano,

e seu limite mais firme é o inconstante céu. E os homens detêm-se a ouvir vozes de vulcões, vozes de sereia, vozes de lua,

na Ilha de Nanja. Na Ilha que eu amo,

na Ilha que eu tenho no meio do Atlântico todos são muito pobres,

mas já não pensam nisso. As mulheres tecem panos, enrolam novelos,

enquanto os maridos estão lutando com as chamas dos fornos onde cozinham sua louça,

ou tangendo ao longo dos muros carros e carros de solidão,

com cestos e cestos de silêncio. (MEIRELES, 2001b, p.1407-1408)

O poema é formado por cinco estrofes e cada estrofe possui um número diferente de versos. Na primeira estrofe o eu lírico fala de sua ilha amada enumerando o antes e o agora de sua beleza geográfica. Esta Ilha está localizada no meio do Atlântico. O oceano Atlântico é considerado símbolo das grandes navegações, especialmente portuguesas. Cecília Meire- les a tem como marco em sua poesia de neta de açoriana. Nesta Ilha há as flores, como as hortênsias, lagos de duas cores, nascentes de água fria, morna e quente. A água da ilha é

muito diferente das demais. O lago é de duas cores. As nascentes têm águas fria, morna e quente. É nesta diferença das demais que torna a água da ilha do Nanja com sabor de poesia. “Doce ilha que foi de laranjas\e hoje é de ananases!” Além de a água ter sua conotação poé- tica, as frutas também a têm. A Ilha no passado foi das laranjas, ou seja, a maior produção frutífera eram os laranjais. Certamente, os laranjais se estendiam por aquela região espa- lhando seu perfume. O cheiro da flor de laranjeira inundava aquela Ilha. O ananás já não é muito conhecido pelo seu cheiro, mas seu fruto, assim como a laranja, tem suas proprieda- des nutritivas. Foi nutrida pelo contar da história desta ilha que a poeta compôs seu cântico poético. Há de ressaltar o adjetivo “doce” atribuído à ilha justamente por ter estes dois tipos de frutas, embora cítricas, mas “doce” na palavra, na poesia.

A segunda estrofe mostra a robustez dos homens moradores da Ilha, ou seja, os pa- rentes do eu lírico. Os homens fortes da ilha são considerados parentes do eu lírico. Na luta diária eles convivem com a instabilidade atmosférica a ponto de haver todas as estações no mesmo dia.

A terceira, quarta e quinta estrofes falam das incertezas da vida por causa dos vulcões. Ser um morador da ilha é viver neste constante perigo. Pelo fato de ser uma ilha vulcânica, a ameaça de uma erupção é constante. Não se tem certeza do dia de amanhã, pois a qualquer momento tudo pode virar lavas. “Porque a Ilha é pousada em fogo,”. Se atribuir-se ao verbo pousar o sentido de estar firmado em algum lugar, a Ilha está firmada em cima de um vulcão, em cima do fogo. Estar firmada em cima de um vulcão é uma ameaça constante. Recorre-se também à imagem do fogo, uma vez que falar de vulcão é se lembrar também do fogo. O fogo aqui tem uma conotação de ameaça. A ilha é constantemente ameaçada por este fogo. É desta ameaça, deste constante perigo que nasceu a poesia ceciliana. A beleza em fazer poesia está neste fogo constante, oferecendo sua beleza vulcânica, embora ameaçadora, mas querida por quem vive da poesia.

Porque a Ilha está pousada em fogo, cercada de oceano,

e seu limite mais firme é o inconstante céu.(MEIRELES, 2001b, p.1407)

Nesta imagem, existe a beleza da construção poética. A Ilha (água) pousada em fogo e cercada de oceano. A água da Ilha não apaga o fogo. Água e fogo complementam-se para tornar a Ilha mais bela, mais sedutora, mais poética. É nesta magia espetacular que os homens escutam as vozes vulcânicas, vozes de sereia, vozes da lua. Nesta ilha mítica, tudo se trans-

forma em magia. Ou seja, os elementos da natureza (fogo, sereia, lua) falam para as pessoas que sabem ouvir suas vozes.

A sexta estrofe fala da simplicidade do ser morador da Ilha. Na Ilha todos são “muito pobres”. Em sentido geral, ser pobre é não possuir bens materiais. O eu lírico ainda acrescen- tou o advérbio de intensidade “muito”: “todos são muito pobres”. Na crônica “Natal na Ilha do Nanja”, o eu lírico exalta esta pobreza da ilha ao dizer o seguinte:

E ninguém, pede contribuições especiais, nem abonos nem presentes — mesmo porque se isso acontecesse, Jesus não nasceria. Como podia Jesus nascer num clima de tal sofreguidão? Ninguém pede nada. Mas todos dão qualquer coisa, uns mais, outros menos, porque todos se sentem felizes, e a felicidade não é pedir nem receber: a felicidade é dar. Pode-se dar uma flor, um pintinho, um caramujo, um peixe — trata-se de uma ilha, com praias e pescadores ! — uma cestinha de ovos, um queijo, um pote de mel... É como se a Ilha toda fosse um presepe. Há mesmo quem dê um carneirinho, um pombo, um verso! Foi lá que me ofereceram, certa vez, um raio de sol! MEIRELES,1976,p.110).

Talvez os “muito pobres” estejam nesta categoria de não terem coisas sofisticadas, mas as coisas simples com pouco custo financeiro. O que se produz pode ter um custo bem baixo: uma flor, um pintinho, um caramujo, um peixe. Existem coisas que a pessoa pode dar para a outra sem custo algum. Como exemplo, um raio de sol. Se entrarmos nesta categoria de pobres e compararmos com grandes centros com lojas e presentes sofisticados, estas pessoas da ilha podem ser consideradas “muito pobres”, pois os seus presentes não tem custo algum. Além do raio de sol, pode-se presentear com um verso.

A sétima estrofe anuncia as atividades dos moradores da ilha. Nas imagens da casa as mulheres estão em sua rotina de tecedeiras. Viu-se antes que a mãe morta de Olhinhos de Ga- to foi enfatizada como “mãos de prata”, ou seja, excelente bordadeira. Neste poema, existe a rotina das mulheres moradoras da Ilha como tecedeiras. Tecer evoca criação, nascimento, Grande Mãe. As tecedeiras simbolizam essas Grandes Mães geradoras de tecidos para cobri- rem os moradores da Ilha.

O trabalho da tecelagem é um trabalho de criação, um parto. Quando o te- cido está pronto, o tecelão corta os fios que os prendem ao tear e, ao fazê- lo, pronuncia a fórmula de benção que diz a parteira ao cortar o cordão umbilical do recém-nascido. Tudo se passa como se a tecelagem traduzisse em linguagem simples uma anatomia misteriosa do homem (CHEVALIER & GHEERBRANT, 1990, p.872).

Em “Saudades da Ilha do Nanja” a poetisa fala também da profissão destas tecedei- ras, comparando-as com tecedoras de existências:

Qualquer dia vou para lá. Vou procurar aquela pobre gente, sem arengas nem ameaças, todas voltadas para os teares de sua existência, com fios de variadas cores, claros e sombrios, e entretecidos de canções. Tão distraídos com sua tarefa de existir, não me perguntarão o que vou fazer por lá. Creio que nem perceberão que eu cheguei. E isso é o que mais desejo (MEIRE- LES, 1976, p.114).

Enquanto as mulheres teciam, os homens estavam nos fornos cozinhando as louças ou tangendo ao longo dos muros cestos nos carros. Porém, os carros de solidão com cestos de silêncio. O silêncio e a solidão companheiros inseparáveis de Cecília Meireles, de sua poesia. Em “Férias na Ilha do Nanja” a poeta enaltece esta tranquilidade da Ilha ao falar do trabalho diário com os carros de bois.

Sossego? A beira das lagoas verdes e azuis, o silêncio cresce como um bosque. Pelos caminhos passam carros de bois, carros de vime com cestos enormes; o carreiro vai andando tranquilamente, como um sonho lento ao ritmo dos animais: é um desenho clássico no bojo da tarde límpida (MEI- RELES, 1980, p.27).

O boi é símbolo para expressar a tranquilidade alheia ressaltada na poética ceciliana. Segundo Eliade “no Cristianismo, São Lucas tinha como símbolo o boi, o qual é considerado como sendo um símbolo da bondade e da calma”. Então, além de expressar tranquilidade, o boi traz em si a simbologia da bondade.

Leão (1968), ao fazer um estudo crítico sobre a obra de Cecilia Meireles, ressalta es- ta transfiguração ao criar suas poesias. Há em Cecília um mergulho no seu mundo interior, próprio de poetas líricas, e tão bem notado em vários críticos de suas obras:

A percepção pela intimidade, que é sabedoria de poetas, tem em Cecília Meireles um dos mais altos expoentes. O seu mergulho sobre a sensibilida- de é pleno de êxitos. Extremamente, subjetiva a si própria se abandona, e dentro de si encontra a transfiguração de tudo. Criou o seu mundo (soube criá-lo) e acredita na riqueza dele; isso a faz desapegada e exteriormente céptica, até em relação a própria poesia. (LEÃO, 1968, p.187).

Tantos os críticos portugueses como os brasileiros destacam este desapego do mun- do na obra ceciliana. Ela conheceu o mundo e até revelou que na “Índia sentiu-se dentro dela mesma”. Este percurso está bem registrado em suas obras. Os países visitados trans- formaram-se em poesia. E em cada um deles observamos como a poetisa vai aperfeiçoando a sua escrita criativa e, ao mesmo tempo, vai se desligando de seu mundo de menina órfã e sofrida, para se transformar numa mulher-poeta reconhecida universalmente pela sua capa- cidade de intimidade com a poesia.

Ao criar sua própria Ilha do Nanja a poeta transcendeu este mundo de sofrimento e elaborou sua síntese poética. Entre as histórias contadas e as músicas cantadas pela sua avó

açoriana, criou-se a Ilha do Nanja. Imaginação e poesia unidas para nascer esta Ilha. Em seguida discutiremos a terra, o ar, a água da chuva e o devaneio poético em Cecília Meire- les. Este tópico nos introduz na perspectiva do ser infantil totalmente envolvido com estes elementos da natureza.