2. TEORI
2.2 H YMAN M INSKYS KRISEMODELL
Embora a Teoria das Operações Predicativas e Enunciativas não defina rótulos terminológicos para o léxico, Culioli (1995) faz menção à ciência (lexicologia) e à técnica (lexicografia) destinadas ao estudo do léxico a fim de deixar clara sua insatisfação com ambas por elas ainda rejeitarem, de certa forma, toda a heterogeneidade que constitui as palavras. E é exatamente esse desajuste intrínseco existente nas línguas naturais que, a nosso ver, melhor justifica a imensa dificuldade que os semanticistas têm em lidar com as propriedades dos termos durante o processo de catalogação lexical.
Nesse contexto bem se encaixa o problema entre a homonímia e a polissemia, pois apesar de não ficar clara, a grande preocupação tem se restringido em saber se um termo terá uma ou mais entradas em dicionário, haja vista que já está mais que admitido que a distinção entre ambas é complexa, mesmo que se recorra a critérios etimológicos.
Atrelado, prioritariamente, à semântica dita lexical e declaradamente ao significado apreendido na língua (e não na fala), Ullmann (1977) diz que o próprio termo significado é dos mais ambíguos da teoria da linguagem e considera que morfemas e palavras são dotados de algum tipo de significado que é relevante no significado total da expressão.
O linguista reconhece que o mundo fenomenológico (o não linguístico) é determinante na constituição dos significados e adiciona que alterações de percepções dos objetos são passíveis e que a relação entre nome e sentido é recíproca e reversível. Daí sua concepção de significado da palavra: a relação recíproca e reversível entre o som e o sentido. (ULLMANN, 1977, p. 119)
Assim, sentido lexical seria a informação que o nome comunica ao ouvinte, de modo que por nome ele compreende a configuração fonética da palavra ; por referente, o acontecimento não linguístico sobre o qual se fala e por significado, a relação de reciprocidade e reversibilidade entre palavra e referente (ou coisa).
Um ponto interessante a ser notado é que Ullmann vê a língua como um depositário do mundo exterior que é guardado de modo diferente em cada língua que o analisa, fragmenta e classifica à sua maneira. Tal pensamento o condiciona a reconhecer que o significado depende da relação entre referente e nome.
Algo que nos parece importante salientar é que o linguista, apesar de reduzir o conceito de palavra ao de signo, amplia o conceito de linguagem por considerar
que as palavras estão associadas umas às outras por terem propriedades em comum, seja pelo som, seja pelo sentido, seja por ambos concomitantemente.
Ullmann (1977) simpatiza, em alguns pontos, com os pensamentos de Wittgenstein - o qual aposta radicalmente na ideia de que o significado de uma palavra é atribuído graças a seu uso na língua e o define em termos contextuais - e acrescenta que seu postulado bem serve como um complemento válido da teoria referencial.
Ainda em guiso de defesa, tais constatações são úteis à semântica na medida em que direcionam o olhar do linguista ao fato de que o significado de uma palavra é reconhecível por meio do estudo de seu uso. Seguem algumas de suas palavras que muito coincidem com que a TOPE propaga:
O investigador deve começar por reunir um número adequado de contextos e abordá-los com espírito aberto, permitindo que o significado ou significados brotem dos próprios contextos. Uma vez concluída esta fase, pode passar com segurança para a fase “referencial” e procurar formular o significado ou significados assim identificados. (ULLMANN, 1977, p. 140) Assim, a maior contribuição de Ullmann (1977) é a de estabelecer uma relação recíproca e reversível entre nome e sentido, ter admitido a existência de significados múltiplos e de relações associativas entre as palavras.
Traremos mais explanações sobre a preocupação de Ullmann (1977) sobre o estudo do significado em outras partes desse trabalho.
5.2.1 A polissemia
Ullmann (1977, p. 331-364) após afirmar que a polissemia é um traço fundamental da fala humana, apresenta cinco fontes de sua incidência. São elas:
(i) A mudança de aplicação (de emprego) - Ela se relaciona às diferenças aspectuais que são dependentes do contexto de uso. Como destaque,
há o caso dos adjetivos que variam o significado de acordo com o substantivo que qualificam. É o caso do adjetivo /infantil/, em português, que tem sentidos diferentes associados ao termo /vacinação/ e ao termo /homem/. No primeiro caso é tipificador, no segundo é qualitativo. Outro exemplo é o adjetivo /ordinário/, que tanto tem uma acepção asséptica (ordinário = aquilo que está na ordem habitual das coisas) quanto pejorativa (ordinário = grosseiro, vulgar). (ii) Especialização num meio social - esse tipo retoma a ideia de que “a
mesma palavra pode assumir certo número de sentidos especializados, dos quais um só será aplicável em um determinado meio”. (p. 334). Para exemplificar, cabe a retomada do termo /forma/, já um pouco trabalhado noutro momento dessa pesquisa18. Para um linguista, forma está ligada à língua, para um fisiologista, ao corpo, para um artista, aos contornos de sua obra e assim por diante.
(iii) Linguagem figurada – Esse tipo ocorre quando uma palavra assume
outros sentidos (metafóricos) sem perder o seu sentido original. No português, o termo /diabo/ demonstra isso, pois pode se referir ao anjo que desafiou Deus (O Diabo tem várias facetas), a alguém bravo (Acordou com o Diabo, hoje), a alguém feio, a alguma situação de espanto (Que diabo é isso?), além de ser o nome de uma máquina usada para desfiar lã (O Diabo necessita reparos)
(iv) Homônimos reinterpretados – Ocorre quando duas palavras têm som
idêntico com significados não muito diferentes, o que os condicionam a serem entendidos como uma mesma palavra com dois sentidos. No português, esse fenômeno é comum no que se refere aos estrangeirismos. A palavra impeachment, que no inglês, significa “impedimento”, ao ser introduzida no português (por meio do uso popular) manteve a mesma materialidade fonológica e um sentido semelhante: “cassação”.
(v) Influência estrangeira – Se dá quando uma língua
impulsiona a mudança de sentido de uma palavra noutra ao ponto do sentido novo e importado anular, por completo, o anterior.
5.2.2 A homonímia
Sem nos atermos muito na diferenciação entre homonímia e polissemia por esse assunto não estar nenhum um pouco próximo das nossas ambições, apenas nos restringiremos a fazer alguns apontamentos sobre o que a semântica lexical entende por uma relação homonímica. Para essa tarefa também recorreremos aos estudos de Ullmann (1977).
Para o linguista, apesar de menos complexa do que a polissemia, ela se cerca de 3 causas fundamentais:
(i) A coincidência fonética (homofonia) de duas ou mais formas linguísticas. O português está repleto de casos assim: /sexto/ (número ordinal) x /cesto/ (objeto depositário); /são/ (abreviação de santo) x /são/ (sinônimo de sadio), (verbo ser em terceira pessoa do plural no presente do indicativo).
(ii) A divergência semântica decorrente de um distanciamento radical de dois ou mais significados de uma mesma palavra. O termo /pupila/, em português, é um bom exemplo, pois tanto pode ser, apesar do raro uso, sinônimo de noviça, quanto a abertura do olho que permite a passagem da luz até o cristalino.
(iii) A influência de termos estrangeiros que ao adentrarem uma língua, formam homônimos, por vezes conflituosos. No português podemos dar como exemplo os homônimos /manga/ (fruta) x /manga/ (parte da roupa que envolve o braço). No primeiro caso, a origem está na língua indiana malaiala manga e, no segundo caso, no latim manica.
Lyons (1977, p. 550) já admitiu que quando se trata de diferenciar polissemia de homonímia, a distinção se complica ao adentrarmos os critérios operacionais de cada um desses fenômenos. E desses critérios, é o etimológico que mais ganha destaque à medida que é um dos que mais cria problemas.
Como já dissemos noutro momento dessa tese, critérios etimológicos dão conta até certo nível da análise semântica de uma unidade linguística, mesmo porque muitos termos não podem ter sua derivação histórica recuperada. Do mesmo modo, a semântica que vimos fazendo hoje (lê-se aqui a arraigada em bases
enunciativas e funcionalistas) está pautada em análises sincrônicas, haja vista que o que buscamos é o valor referencial das unidades, o que deixa à margem a pertinência de toda informação histórica.
Já Ullmann (1977, p. 374), quando amaldiçoou a homonímia ao dizer que a língua seria um meio mais eficiente sem ela e quando abençoou a polissemia ao dizer que é impossível imaginar a língua sem ela, estava indiretamente reafirmando a relatividade do sentido e a essencialidade do contexto. O seu pecado foi defender que a coincidência de formas cria perturbação como se a polissignificação também não o fizesse. Aliás, é justamente dessa perturbação que ele insiste em desconsiderar que depende, como ele mesmo chama, “a ambiguidade como um artifício de estilo”.
Da nossa parte, cremos que insistir na distinção entre homonímia e polissemia por meio de critérios como associabilidade x dissociabilidade de significado é arriscar numa definição que subestima a intuição natural dos falantes nativos da língua. Esse exercício distintivo leva a resultados oriundos de uma desarticulação entre léxico e gramática. Tanto que à homonímia e à polissemia fica condicionado o problema da ambiguidade lexical, quando na verdade é da relação do léxico com a gramática que se precisa para fixar um sentido (desambiguizar), esteja ele encerrado numa sequência fônica de sentido fragmentado (portanto, num termo polissêmico), esteja ele encerrado numa sequência fônica coincindível em forma e /ou som (portanto, num termo homonímico).