A amoreira é uma planta do gênero Morus, família Moraceae, ordem
Urticales, classificada morfologicamente pela primeira vez por Lineu em 175388. É bastante usada na prática da sericultura, como fonte exclusiva de alimento para o bicho-da-seda (Bombyx mori L.), podendo também ser utilizada como forragem para
animais, principalmente ovinos, ou como cerca-viva em projetos paisagísticos. É uma planta de origem asiática, mas que, devido à produção de seda, se espalhou ao redor do mundo com fácil adaptação, sobretudo aos climas tropical e subtropical, podendo ser cultivada tanto na forma de árvore quanto arbusto. Mais de 150 espécies de amoreira foram catalogadas baseadas na classificação de Lineu, porém o avanço das técnicas de biologia molecular permitiu identificar por estudos filogenéticos que muitas “espécies” eram na verdade variações fenotípicas para um mesmo genótipo89. Em uma espécie de amoreira, às vezes em um único exemplar, é possível encontrar as folhas com diferentes formatos (FIGURA 1.10).
FIGURA 1.10 - Diferentes morfologias observadas para folhas de uma mesma espécie de amoreira.
As espécies de amoreira mais conhecidas são a Morus alba, Morus nigra e Morus rubra, que receberam essas denominações por causa da forma dos
frutos. No Brasil, a mais popular é a Morus alba, que possui frutos mais alongado
(FIGURA 1.11). A amoreira tem uma longa história de uso na medicina tradicional oriental, principalmente na China, Japão e Coréia. Na China, além do uso bastante intenso na sericultura, partes da amoreira são utilizadas nas composições de medicamentos tradicionais chineses (TCMs), nos quais são conhecidas como Sang Gen (raiz), Sang Bai Pi (casca da raiz), Sang Zhi (caule); Sang ye (folha) ou Sang
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shen (fruto) e indicadas respectivamente para (i) hipertensão, epilepsia, vermelhidão ocular, estomatite micótica, inflamação muscular; (ii) antitussígeno; (iii) hipertensão, dores e dormência nas juntas; (iv) refriado, tosse seca, tontura, dor de cabeça, olhos avermelhados e embaçamento da visão; (v) constipação por alteração sanguínea, diabetes, tontura, insônia, palpitação, (vi) antioxidante90.
FIGURA 1.11 - Fruto de Morus alba, espécie comumente encontrada no Brasil
Estudos in vitro e in vivo vem demonstrando que extratos preparados
com as raízes, caule, folhas ou frutos das espécies mencionadas apresentaram atividades biológicas de diferentes naturezas (TABELA 1.1). No Brasil, as folhas de amoreira são muito utilizadas na medicina popular para o preparo de infusões (chás) que amenizam o desconforto causado pelas ondas de calor. A amoreira vem sendo alvo de estudos para diferentes atividades biológicas, mas o seu potencial para esse propósito em particular é pouco conhecido. No final da década de 1990, experimentos realizados com a larva do bicho-da-seda mostraram que o estrogênio sintético (17--estradiol), quando absorvido por ingestão, interferia na atividade das glândulas produtoras da seda, estimulando principalmente a síntese de proteínas diretamente relacionadas à qualidade do casulo produzido91,92. Recentemente, outro estudo, publicado por Yang e colaboradores93, mostrou que extratos preparados com a pupa do bicho-da-seda levaram a um aumento no nível de 17--estradiol em ratazanas ovariectomizadas.
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TABELA 1.1 - Atividade biológica descrita para extratos preparados com diferentes partes da amoreira para as espécies mais comuns
Parte da planta Espécie Atividade Referência
folha Morus alba Antileucêmica 94
raiz Morus sp.* Anti-inflamatória 95
raiz Morus alba Antimetastática para melanoma 96
fruto Morus alba Antibacteriana 97
caule Morus alba Antineuroinflamatória 98
caule Morus nigra Antioxidante 99
folhas Morus nigra hipoglicêmica 100
folhas Morus rubra Antiaterosclerose 101
folha Morus rubra Antidiabetes 102
fruto Morus rubra Adjuvante em tratamento
periodontal 103
* espécie não informada.
Como a única fonte de alimento para o animal é a folha de amoreira, pode-se inferir que essa parte do vegetal contém fitoestrógenos, os quais estariam envolvidos na sinalização para a produção da seda. A hipótese da presença de compostos com esse perfil foi reforçada recentemente, pelo patenteamento de extratos alcoólicos da espécie Morus alba para uso no tratamento de sintomas do
climatério, em tratamentos de câncer de mama e/ou útero e osteoporose104, embora no texto da patente constem apenas informações obtidas de estudos in vitro com
linhagens celulares que expressam o receptor estrógeno e não há qualquer informação acerca da composição química dos extratos .
Há diferentes estudos nos quais são identificados metabólitos secundários nas espécies do gênero Morus, porém poucos são direcionados para a
identificação de fitoestrógenos. KIM e colaboradores isolaram os flavonoides glicosilados quercetina 3-O-glicosídeo (isoquercetina) e quercetina 3,7-O- diglicosídeo de folhas de Morus alba94 (FIGURA 1.12). DOI e colaboradores isolaram outro flavonoide glicosilado, o campferol 3-O-glicosídeo (astragalina), das folhas da mesma espécie, além da isoquercetina105. Pawlowska e colaboradores isolaram de frutos das espécies Morus nigra e Morus alba, os flavonoides glicosilados quercetina
3-O-rutinosídeo, campferol 3-O-rutinosídeo e a isoquercetina106. SONG e colaboradores por sua vez identificaram dois estilbenos, o oxiresveratrol e o resveratrol em frutos das espécies Morus multicaulis Perr. e em folhas da espécie Morus atropurpurea Roxb107. Nesses estudos, entretanto, quando houve avaliação da atividade biológica, a estrogenicidade não foi investigada. O potencial estrogênico
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dos flavonoides glicosilados identificados em espécies de amoreira foi observado em um estudo in vitro realizado por LEE e colaboradores, que isolaram as moléculas da Artemisia vulgaris L., uma planta comumente utilizada na medicina tradicional
chinesa para aumentar o fluxo menstrual em casos de desequilíbrio hormonal como na oligomenorreia108. Mais recentemente, DAT e colaboradores isolaram de folhas de Morus alba os flavonoides kuwanon S, ciclomulberrina, sanggenona J,
sanggenona K, ciclomorusina, morusina, atalantoflaavona, campferol e dequelina, todos na forma aglicona109. Devido à similaridade estrutural com o 17--estradiol, poderiam ser candidatos a fitoestrógenos. Os mesmos autores realizaram um ensaio
in vitro com a linhagem MCF-7, um modelo bastante utilizado em estudos de
estrogenicidade, mas nas concentrações testadas, todos os flavonoides apresentaram citotoxicidade.
FIGURA 1.12 - estruturas químicas de substâncias identificadas e/ou isoladas de espécies de amoreira
A presença de resíduos de açúcar como substituintes nos flavonoides confere uma maior solubilidade em água, o que facilita o transporte e o armazenamento na planta110. Em uma formulação fitoterápica, o aumento da
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solubilidade também torna-se interessante por facilitar a administração do medicamento. A grande maioria dos derivados glicosilados é metabolizado no intestino, sofrendo uma reação de desglicosilação e sendo absorvidos na forma aglicona111,112, embora também possam ser absorvidos na forma não- metabolizada113. A perda da molécula de açúcar de modo geral aumenta o potencial estrogênico da molécula.
O fato de conhecidos fitoestrógenos, como o campferol, ter provocado citotoxicidade para uma linhagem celular na qual se esperaria observar o efeito oposto, perfil característico de compostos como o estradiol, reflete a importância de se padronizar e regulamentar o uso de extratos em formulações fitoterápicas para tratamentos de sintomas do climatério. Em relação à atual legislação brasileira, até o presente momento não foi encontrada qualquer orientação oficial da ANVISA sobre a utilização de partes da amoreira para essa finalidade nas edições vigentes da Farmacopeia Brasileira145, do Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira154, da Lista de Medicamentos Fitoterápicos de Registro Simplificado, e tampouco na Lista de Produtos Tradicionais Fitoterápicos de Registro Simplificado114, embora cápsulas de amora sejam facilmente encontradas em farmácias de manipulação.
Pensando em explorar o potencial fitoestrogênico das folhas da amoreira e a grande variabilidade de fatores envolvidos no uso de plantas para reposição hormonal, foi desenvolvido esse trabalho, que propôs a padronização de um extrato preparado com folhas de Morus sp com potencial para ser utilizado na
amenização das ondas de calor, sintoma característico da fase do climatério. Desta forma, métodos analíticos devem ser aplicados para auxiliar na padronização das características de interesse do extrato, combinados com estudos in vitro para observar a atividade biológica de interesse.