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H VORDAN FREMME KOMMERSIALISERING ?

O surfe, assim, passa a integrar uma nova concepção, ao mesmo tempo em que mantém seu significando operacional que o aproxima dos demais esportes. Nessa lógica, o surfe se enquadra como uma ação renovada com um imaginário próprio que se projeta num estilo de vida e num meio de identificação grupal, um universo que transcende ao esporte se torna uma maneira de viver (BITERCOURT et al., 2004).

O surfe representa uma forma diferente de estar, pensar e ver o mundo, existindo, assim, diversas maneiras de se praticar, sentir e vivê-lo, culminando em um entrelaçar de significados, como aponta Árias (2003, p. 88): “Surf é diversão, comunhão e respeito à natureza, paz de espírito e confraternização entre os povos, silêncio e cumplicidade”.

Portanto, além desse contexto mais prático ligado à lógica esporte-jogo, o surfe traz outros fatores bem mais abrangentes do que apenas movimentos radicais contra as ondas. São fatores que resistem à lógica do esporte e o seu não alargamento conceitual, que implicaria a uma subordinação dessas atividades à essência esportiva e, gradualmente, um apagamento de suas liberdades em nome do treinamento, da competição e do mercado.

Deste modo, estamos nos referindo a um estilo de vida, valores, filosofias, formas de ser, estar e agir no mundo, configurando a sua relação com a natureza e também com a sociedade. Remete-nos à ideia de que esse deslizar sobre as ondas é um modo de vida que não precisa, necessariamente, estar vinculado ao esporte.

O surfe, hoje, assume incontestavelmente um aspecto visual para os jovens e para a cidade. Para além da prática do esporte, como já foi dito, ele deve ser percebido como um ‘universo’, um ‘mundo social’, um estilo de vida. O surfe não se resume à prática em si, mas, sobretudo, é manifestado na cultura: diz respeito a roupas, comida, natureza, gírias, saúde, publicidade, visual, modo específico de ser e de viver na cidade. (ALBUQUERQUE, 2006, p. 40).

Esse olhar nos remete a um pensamento que compreende essa prática corporal, no caso, o surfe, para além de simples exercícios físicos, percebendo sentidos históricos, culturais e comportamentais, ligando-se a inúmeras esferas da vida cotidiana.

O surfe carrega consigo um legado de elementos que compõem sua cultura, constituída por sua história, pelas pessoas que o praticam, pela sua linguagem carregada de

gírias como “caldo”, “marola”, como também palavras havaianas e em inglês, como aloha e crowd, respectivamente, além de outros elementos que, juntos, formam um conjunto cultural dessa prática corporal.

Alguns surfistas profissionais ou não que se dedicaram a escrever sobre o surfe, além de matérias, livros e publicações em geral, trazendo conteúdos com relação à modalidade no âmbito competitivo, também se disponibilizaram a escrever sobre outros aspectos do surfe, apresentando concepções sobre o universo do surfe (cultura surfe), apontando para que a ideia de surfista não se refere somente àqueles que deslizam sobre as ondas, mas engloba também aquele(a) que se sente surfista pelo astral, pelas roupas, lugares que frequentam, trazendo-nos essa concepção de que o surfe compõe um universo particular, constitui uma filosofia de vida que vai para além da relação com o mar.

O surfe é formado por uma tribo nômade que fala mil línguas e se entende numa só: a paixão pelo esporte. Nesse dialeto universal não há regras, existe consenso: ama-se a natureza, preserva-se o mar, investe-se na qualidade de vida. O praticante de surf é um ambientalista por vocação e em causa própria: se não cuidar do mar, se não alertar para a degradação das condições das praias, se não cuidar da alimentação, será ele o mais prejudicado. (SOUZA, 2004, p. 14).

Em um artigo de história social de um pesquisador da Nova Zelândia, sobre a cultura surfe, nos é mostrado que, por volta de 1950, um dos pioneiros do surfe fez uma menção do que seria o espírito do surfe, mostrando que esse se diferencia da vertente competitiva gerada pela esportivização dessa prática corporal (BOOTH, 2015).

O mesmo autor também nos traz a informação de que, no fim dos anos 1960, devido a essa influência da cultura surfe de alma (espírito do surfe) – em inglês, movimento esse conhecido como “Soul Surfer” –, a ideia de competição advinda da esportivização da prática sofreu um declínio, dando lugar ao pensamento de que a prática de descer as ondas tinha como finalidade o fortalecimento da alma. Apresentou também a ideia de que o surfe de alma compõe uma contracultura de vertente política, que se origina na “nova esquerda”, formada pela adoção de posturas antiautoritárias e a crítica à existência cotidiana, presente na música, nas roupas, na linguagem e no estilo de vida.

Nesse conceito de surfista de alma, trazendo fontes históricas sobre o surfe, o autor continua o entendimento de que essa é uma percepção afetiva desenhada por um pensamento em prol da existência de um momento bom para todos, de cooperação, compartilhamento de sorrisos, conversas, gargalhadas, tranquilidade e respeito entre os surfistas, tanto faz ser local ou não, assim como tanto faz se novato ou veterano na modalidade.

Continuando seu relato sobre esse conceito, o autor mostra também que a ideia do surfista de alma sofreu um colapso, sob o peso de críticas internas, invejas mesquinhas e realidades materiais geradas muito em parte pelo profissionalismo, que transformou as relações entre os surfistas.

Neste clima, a competição, paradoxalmente, parecia proporcionar aos surfistas um caminho para ondas sem fim e hedonismo eterno, e ao longo da década seguinte o surfe se desenvolveu como um esporte profissional sob os auspícios da Associação de Surfistas Profissionais (ASP). O profissionalismo, contudo, transformou as relações entre os surfistas. Nat Young acredita que o profissionalismo feriu ‘moral’ e ‘mortalmente’ o passatempo, ao introduzir uma competitividade implacável. (BOOTH, 2015, p. 5).

Não cabe em nossa reflexão trazer um quadro das divergências entre aqueles que comungam com um movimento pautado em uma abordagem mais afetiva e coletiva do surfe com aqueles que os encaram no teor de um cenário individualista, competitivo e egocêntrico. A ideia desse tópico é mostrar a existência de uma cultura surfe que perpassa a lógica do esporte, adentrando em um consentimento que traz uma noção de espírito do surfe e o conceito de surfista de alma vindo de uma cultura do surfe, a “soul surfer”, fomentado por uma compreensão afetiva da prática, conjuntamente com os ideais de harmonia entre os povos e a natureza.

No surfe, entendido como brincadeira, há espaço para a solidariedade e para a aprendizagem coletiva. Com efeito, todos podem ser considerados vencedores. O surfe emerge como possibilidade de criação e interação dos surfistas entre si e das pessoas com o mundo natural. Por exemplo, a perspectiva do surfe como uma espécie de terapia natural surge intensamente nas narrativas, sendo um significado compartilhado entre quase todos os surfistas. Portanto, o surfe, relaciona-se com as esferas do esporte, do trabalho e do consumo, mas igualmente emerge como prática da experimentação estética e da aventura como elemento constitutivo de um modo de vida particular. Interage de modo variado de acordo com o contexto sociocultural no qual os sujeitos estão situados. O surfista se insere, portanto, de modo incisivo na paisagem urbana, fazendo do litoral um espaço onde se manifestam diferenciados usos e sensações. (NOGUEIRA, 2015, p. 13).

Nesse sentindo, o surfe é uma prática corporal que traz significados diversos, o movimento de deslizar o corpo sobre as águas do mar não carrega apenas o significado de ser um deslocamento corporal contínuo sobre uma superfície, pois essa ação impetra variados significados, que não só estão em um campo físico, mas se expandem para outras dimensões da vida. São concepções ampliadas sobre o corpo em movimento, que ultrapassam a mera lógica das atividades físicas, podendo, assim como a arte, a literatura, a política, o cinema etc., contribuir para um pensar e um vivenciar das várias formas sociais e culturais.

Diante dessa reflexão, o surfe torna-se objeto de estudo pertencente também ao campo das ciências humanas e sociais, possibilitando investigações da sua relação com o

povo e os seus saberes, como parte do seu processo de auto-organização submetido a uma lógica social da vida. Sendo interpretado de diferentes formas, consoante a natureza de quem o pratica; assim, ele pode visto como um passatempo, desporto, religião, filosofia, estilo de vida, prática educativa e objeto de estudo.

Deste modo, o surfe apresenta diversas abordagens, que vão desde uma vertente ligada ao esporte vivenciado como modalidade física do atleta amador ao treinamento do atleta competidor, até a uma concepção de cunho cultural, que reconhece esse movimento corporal a partir dos significados históricos e sociais que ele carrega para um determinado público, como é destacado na citação abaixo.

Na perspectiva da antropologia da imaginação dos jovens, o significado simbólico do Serviluz precisa ser apresentado a partir de suas duas maiores auto-atribuídas riquezas socioculturais: a pesca artesanal e o surfe. São os universos sociais entrecruzados destas duas práticas culturais que oferecem as maiores recompensas simbólicas para o ideal e imagem de nós desses jovens. Portanto, pesca e surfe são símbolos de ampliação da experiência sociocultural desses jovens. Seu ethos e visão de mundo estão modelados expressivamente pelas práticas culturais que mais elevam a autoposição e autovaloração dos jovens para consigo mesmos e enquanto coletividades. (SÁ, 2010, p. 237).

Para complementar esse quadro de significados sobre o surfe, mostra-se pertinente, para essa conceituação, fazer um levantamento mais específico enquanto sua presença no campo da ciência, tendo, para a orientação dessa busca, as seguintes perguntas norteadoras: como o surfe se apresenta no campo dos estudos científicos?; quais áreas mais apresentam estudos usando o surfe como objeto de estudo?; que estudos são feitos sobre o surfe e seu caráter educativo?.

Portanto, o capítulo seguinte apresenta uma sistematização das produções científicas que desenvolveram estudos tendo o surfe como foco de investigação, no período de janeiro de 2012 até maio de 2016, publicados nas principais plataformas de trabalhos científicos.