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2. TEORETISK BAKGRUNN

2.6 H OLDNING - TIL - HANDLING

E no que se refere aos gêneros textuais, seria possível de alguma forma enquadrar o discurso do jornalismo econômico em algum gênero específico de texto, talvez a crônica? Bem, se a pergunta referir-se a gêneros literários, a resposta é não. Mas antes de explicar o porquê da negativa, vamos nos concentrar na própria discussão dos gêneros.

Como lembra Bulhões, a questão dos gêneros remonta à Antiguidade, a Platão e Aristóteles. E já com referência ao período do Renascimento, diz o autor:

Nessa fase, a do chamado Renascimento, os gêneros literários foram encaminhados como entidades fixas e imutáveis. Cada um dos três – épico, lírico e dramático – subdividia-se em gêneros menores e todos se delimitavam com o rigor da obediência a regras absolutas, as quais diziam respeito tanto a aspectos temáticos quanto aos de natureza estilístico-formal (BULHÕES, 2007, p. 36).

Portanto, primeiro na Antiguidade Clássica e depois no Renascimento, que retoma a questão, a caracterização dos gêneros na literatura aparece como de ordem prescritiva, uma questão de “como fazer” mais do que um processo de identificação de características comuns de uma produção existente. A situação só mudaria de fato em fins do século XVIII e início do XIX com o chamado Romantismo.

Tributário da emergência da burguesia e dos novos valores que esta representava, como o gosto pelo individualismo, e com sua “entusiasmada confiança nos poderes irreprimíveis da imaginação e da criatividade do gênio artístico”, como lembra Bulhões (2007, p. 37), o Romantismo rejeita os modelos clássicos associados à aristocracia, até então detentora do status de validadora do que devia ou não ser considerado possuidor de qualidades estéticas com base em padrões normativos da tradição da Atiguidade clássica, incluindo, é claro, a literatura.

Em fins do século XIX e início do XX, o italiano Benedetto Croce propõe que o caráter normativo dos gêneros estava superado, mas que estes seriam ainda úteis como parâmetro para os estudos sobre as transformações históricas que a literatura passara ao longo do tempo. E já no século XX, surge o chamado formalismo russo, com teóricos

como Viktor Chklovsky e Roman Jakobson, que buscava conciliar uma visão autônoma da linguagem literária com sua análise científica, de forma que, como afirma Bulhões:

a ênfase recairia sobre os elementos construtivos do texto literário e a identificação do estudo das transformações dos gêneros deveria levar em conta o quadro geral do sistema literário, o qual, por sua vez, nunca estaria desligado da dinâmica do sistema social (BULHÕES, 2007, p. 37).

É com base na trilha aberta por Croce e nos estudos dos formalistas russos que Lígia Cadermatori, por exemplo, afirmava em 1985, em um texto básico sobre períodos literários que:

Todo momento histórico apresenta um conjunto de normas que orienta e caracteriza suas manifestações culturais, constituindo o que se chama de estilo de época. Ou seja, o estilo de época que caracteriza a produção cultural de um determinado momento histórico se orienta por normas que agem como princípio regulador, estabelecendo regras para a criação, prescrevendo os traços que devem apresentar e circunscrevendo sua abrangência (CADEMARTORI, 1985, pp. 5-6).

Seja como for, primeiramente com o caráter prescritivo de normatização do fazer literário, depois como ferramenta balizadora útil ao estudo da literatura, o estudo dos gêneros é quase tão antigo quanto a própria literatura e acaba por ir além dela, passando a dizer respeito, principalmente a partir do século XX, com a grande reportagem, também ao fazer jornalístico.

E embora o conceito de jornalismo seja bem mais recente que o de literatura, a questão dos gêneros no jornalismo é, por sua vez, também quase tão antiga quanto o jornalismo. Mas Bulhões defende que ela seguiu, no caso do jornalismo, percurso oposto ao da literatura, em movimento de aproximação, e não de afastamento, das regras de normatização:

Enquanto na literatura [...] a trajetória histórica conduziu à superação do caráter normativo, com a negação de regras e prescrições, no caso do jornalismo, exigências profissionais e mercadológicas acabaram por sedimentar a delimitação de padrões expressivos e estilísticos (BULHÕES, 2007, p. 39). Ele chega a afirmar que a necessidade de eficácia comunicativa tenderia a levar a uma “fossilização formal dos gêneros”, a um “aspecto viciado e repetitivo de sua fisionomia textual” (2007, p. 39). Cabe no entanto ressaltar que se uma tal fossilização formal fazia sentido no jornalismo impresso, predominante até a primeira década do século XXI, no ambiente do jornalismo on-line, a questão formal ganha novas

configurações, mais afastando-se do que aproximando-se da cristalizações de formato e gênero.

O ponto de aproximação inicial que Bulhões vê entre literatura e jornalismo é o conto, identificando, na concisão que o caracteriza, atributos que encontra no que chama de gêneros essenciais do jornalismo: a notícia e a reportagem (2007, p. 42). E é na reportagem, que ele considera uma forma desenvolvida de notícia (2007, p. 44), que estariam as mais promissoras possibilidades de formação de uma literariedade no texto jornalístico. Afirma ele:

Na dilatação do evento noticioso, a reportagem pode estender-se como uma realização descritiva, na composição astuciosa de um personagem ou na coloração de um cenário. Ou desdobrar-se plenamente na narratividade, em que estão implicados personagens em processo de mudança de estado. É desse modo que ela ensaia alguma proximidade com realizações da prosa de ficção ou transporta marcas da própria literariedade (BULHÕES, 2007, p. 45).