A primeira referência oficial encontrada acerca da regulação da atividade dos Grêmios Estudantis nas escolas secundárias e normais é de 1953. Por meio de um decreto, o segundo governo Vargas criou a Divisão de Educação Extraescolar, com o objetivo de promover e orientar atividades extraescolares. No artigo segundo do referido decreto, aparecem algumas atribuições desta divisão que se referem às organizações estudantis, como os Grêmios escolares. De acordo com o mesmo, a divisão extraescolar criada por Vargas teria por objetivo manter contato direto com os estudantes, estabelecer e manter relações com organizações e entidades estudantis, orientando, estimulando e assistindo as mesmas; coordenar e auxiliar a formação de associações, grêmios e clubes literários, recreativos e esportivos necessários à formação moral, intelectual e física dos estudantes e ao desenvolvimento do espírito de organização, cooperação e fraternidade (IDELBRANDO, 2012, p. 23).
Idelbrando (2012) interpretou a referida prescrição como uma forma de controle do Estado sobre os movimentos estudantis que envolviam alunos do ensino básico, visto que em 1948 havia sido criada a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), organização que vinha se engajando no movimento estudantil ao lado da União Nacional dos Estudantes (UNE) e questionando as diretrizes do sistema educacional. O referido decreto teria por objetivo estabelecer certo controle sobre as organizações estudantis.
Nesta pesquisa, a concepção de mobilização discente aparece dentro da perspectiva da historiografia, que entende as organizações de estudantes como movimentos de contestação da ordem estabelecida, e que, em nenhum momento, caracteriza estas agremiações ou organizações sob outro prisma. Seria o caso de pensar no outro lado da história destas organizações. Pensar em articulações que, por outro lado, não contestaram nenhum aspecto da estrutura das instituições em que estavam envolvidos. A organização discente investigada nesta pesquisa estabeleceu relações amistosas com a diretoria e os professores do Instituto Sud Mennucci, de acordo com as fontes escritas, os jornais estudantis. Não questionaram, nas páginas dos impressos, os aspectos da estrutura de organização da escola. Entretanto, reivindicaram, à sua maneira, melhorias da estrutura física deste espaço escolar. Todas as atividades publicadas no jornal pelos sujeitos deste agrupamento de alunos mostram uma relação diferente com os outros atores presentes no espaço escolar. O viés contestatório aparece, no entanto, quando associado a uma atuação política extraescolar dos alunos, dentro do espaço da cidade de Piracicaba.
Neste sentido, convém caracterizar este grupo de alunos dentro da discussão colocada entre três conceitos presentes na historiografia da educação. O conceito de movimento
estudantil, relacionado à formação da união brasileira dos estudantes secundaristas, construída por uma corrente da historiografia, já mencionada acima. O conceito de associativismo
estudantil ou discente, referente à formação de Grêmios Estudantis. Logo após, pretendo discutir a conceituação do que se entende por rede e lugar e (loci) de sociabilidade, componente conceitual importante para compreender o grupo de alunos do Instituto de Educação Sud Mennucci.
A primeira corrente mencionada categoriza movimento estudantil como proposta de movimento de luta dentro da classe de estudantes. Esta visão da história do movimento estudantil se assenta na memória construída sobre a União dos Estudantes Secundaristas
Brasileiros, a UBES28. Segundo essa construção, a UBES foi criada em 1948, com a finalidade de liderar as lutas estudantis no nível secundário, na defesa das causas em favor dos secundaristas. Segundo os autores, os estudantes atuaram nas décadas de 1950 em torno de campanhas nacionalistas, como a do petróleo. Atuaram também dentro dos contextos de luta do movimento estudantil da década de 1960 e 1970, em meio à ditadura militar, sendo auxiliados pela e em parceria com a União Nacional dos Estudantes (UNE).
Ao contar a história do movimento estudantil no ensino secundário, os autores começam a exposição explicando as origens do movimento no Brasil. Segundo eles, os secundaristas, movidos pelo desejo de mudança, entraram em ação por meio dos Grêmios Estudantis, que, a princípio, na década de 1930, eram recreativos, de lazer e de cultura. Caracterizaram a ação destes grêmios como entidades politizadas que se articulavam por meio dos esportes, como o futebol e a natação (MARQUES e CINTRA, 2009, p. 23).
Entretanto, ao longo da década de 1930 e 1940 o movimento passou a ser mais politizado e engajado, e, segundo os autores, mostrando uma expressão de rebeldia. Neste contexto, os alunos se envolveram em manifestações contra a ditadura do Estado Novo. Neste sentido, os autores ressaltam que, nesse movimento de luta, foram criadas entidades municipais que se aglutinaram e, em 1948, deram origem à UBES. Segundo os autores, suas articulações tinham como ponto de partida os grêmios estudantis. Logo, as atividades e ações dos alunos extrapolaram as paredes desses grêmios (MARQUES e CINTRA, 2009, p. 36).
Neste ponto, ocorre nos discursos dos autores uma ligação direta entre o Grêmio Estudantil e a ascensão do movimento estudantil de luta, indicando que este se origina e é promovido por aquele. Não se considera a articulação de grêmios estudantis em torno de outras questões, tanto dentro quanto fora do espaço escolar, que não estivessem necessariamente ligadas a questões de uma militância combativa no plano extraescolar. Esta visão, entretanto, acaba não dando conta de explicar as formas de organização dos alunos dentro da instituição escolar, mostrando uma visão unívoca que só considera a história de articulação dos alunos a partir da perspectiva de luta, estabelecendo ligação direta com a UNE, instituição muito conhecida pelo embate com a ditadura militar no Brasil.
28 A bibliografia utilizada para essa descrição do movimento estudantil colocada neste trabalho se pauta em um
documento editado pelos próprios articuladores atuais do movimento estudantil secundarista no Brasil. O livro se intitula UBES: Uma rebelião consequente, e foi escrito por Raysa Marques e André Cintra (MARQUES e CINTRA, 2009). Publicação que teve por objetivo, segundo os autores, passar a limpo a trajetória de lutas da UBES, contando a história desse movimento. Nesse sentido, se justifica o caráter tendencioso desta fonte.
Em relação ao conceito de associativismo, existem autores que definem organização de alunos sob outro prisma. Christófaro (s/d) analisa em seu artigo as ações de associativismo estudantil, criadas em Minas Gerais nos cursos superiores, que se voltaram a prestar auxílio aos estudantes pobres entre 1912 e 1936 na cidade de Belo Horizonte, onde se localizavam as Faculdades de Direito, Medicina, Odontologia e Farmácia. Neste sentido, a autora analisa diversas associações estudantis nesse recorte temporal, como a Fundação Afonso Penna (1912), a Fundação Barão do Rio Branco (1912), a Associação Universitária Mineira (1929- 1931) e a Caixa do Estudante Pobre Edelweis Barcellos (1932-1936). Para conceber a pesquisa, a autora utiliza como fontes os estatutos das universidades e os jornais locais da cidade de Belo Horizonte.
Essas associações se direcionavam para a formação social do estudante. Utilizavam-se de dispositivos de inserção na sociedade e criavam ligações entre os estudantes e compromissos de honra, constituídos pelos empréstimos concedidos pela assistência e também pela preocupação em desenvolver o aluno do ponto de vista moral, intelectual e psíquico. Neste ponto, a autora passa a fazer considerações sobre os primórdios do associativismo estudantil, destacando a formação de fundações de assistência dentro das faculdades mineiras, baseadas na atividade filantrópica.
Por meio da análise das revistas destas fundações, a autora percebe a articulação dos estudantes para criar associações que atendessem às suas reivindicações e oferecessem auxílio àqueles que não tinham recursos para continuar os estudos. Iniciativas de assistência acadêmica isoladas nas diversas faculdades analisadas pela autora indicaram que os representantes dos cursos por intermédio dos centros acadêmicos passaram a se articular, buscando uma assistência generalizada, com a formação da Confederação Universitária Acadêmica. Christófaro (s/d) conclui o artigo ressaltando que as associações estudantis agiriam como vínculo de formação de sujeitos que viriam a atuar positivamente na sociedade, conforme uma moral estabelecida e como forma de um biopoder sobre a vida dos estudantes enquanto estes frequentassem os cursos superiores. Portanto, ao analisar as relações entre estudantes, professores e sociedade nas três décadas, pode-se perceber que havia elementos que apontavam para a existência de redes de sociabilidade entre esses sujeitos.
Caracterizando outra forma de associativismo, Silva (2009), no terceiro capítulo de sua pesquisa, analisa os sete números da Revista Excelsior, publicação do Grêmio Normalista “Vinte e Dois de Março” entre os anos de 1911 e 1916, buscando verificar a trajetória editorial do impresso na cidade de São Carlos, interior do estado de São Paulo. Segundo
afirma, a revista literária e pedagógica foi criada com o objetivo de estreitar o vínculo dos alunos com a sociedade. Por meio da análise das atas do Grêmio Normalista, o autor constata que a formação da associação, junto com a ideia da publicação da revista, não partiu da iniciativa dos alunos, mas sim do diretor da escola na época, João Chrysostomo Bueno de Reis Filho. Ainda por meio das atas do que ele chama de associação discente, aparece a Diretoria Geral da Instrução Pública participando de maneira indireta das decisões do grêmio, por meio do financiamento dos primeiros números da revista. O autor conclui, ao fim de sua análise, que a formação do grêmio estudantil foi uma construção tutelada pela direção da escola, portanto, sem autonomia em relação às suas decisões.
No que se refere ao grupo de estudantes analisado em minha pesquisa, os alunos fazem menção, a todo tempo, à diretoria e aos professores do Instituto. Entretanto, até aqui, não foi possível afirmar que este jornal, composto por tal grupo de alunos que, de alguma forma, fazia parte da estrutura do Grêmio Normalista, tenha sido caracterizado como um espaço de tutela dos professores e diretores dentro da hierarquia da instituição. Essa questão será discutida e esclarecida ao longo da dissertação, no capítulo terceiro.
Outro autor que contribui para essa análise é Dallabrida (2012), que investiga as práticas escolares cotidianas, como aulas, rituais escolares, formas de sociabilidade e modos de associativismo de três colégios catarinenses de ensino secundário – o Colégio Catarinense, o Colégio Coração de Jesus e o Instituto de Educação Dias Velho – nos anos de 1950. Em alguns destes modos de associativismo analisados pelo autor, era comum estas formas estarem ligadas à formação de Grêmios Estudantis ou associações de estudantes. No caso do Colégio Catarinense – de padres jesuítas de origem alemã, voltados para a formação de uma elite masculina – Dallabrida ressalta que o associativismo estudantil nesta instituição tinha longa tradição, estando ligado a associações católicas de cunho devocional e social, como as congregações marianas. As também chamadas pelo autor de organizações estudantis ou associações eram, a partir de 1940: a Associação Desportiva Colegial, o Grêmio Cultural “Padre Schrader”, o Clube Pan-Americano Colombo, a Juventude Estudantil Católica e o Grêmio Oratório “Vieira”. O autor considera que a última associação citada tenha sido criada com o intuito de formar oradores e declamadores, no sentido de preparar os homens da elite para a vida pública (DALLABRIDA, 2012, p. 175).
[...] proporcionavam aos alunos a aquisição de habilidades socialmente distintas, como a capacidade de trabalho em grupo, de planejamento e execução de projetos, o exercício da liderança política e o treinamento da declamatória e de oratória. Da mesma forma, a existência de jornais estudantis concorria para boa parte dos estudantes terem um treino na arte da escrita, que exigia trabalhos gramaticais e trabalho sistemático e criativo. (DALLABRIDA, 2012, p. 176.)
Interessante notar aqui que esta associação descrita pelo autor, pautada na instituição de clubes e grêmios escolares, que envolvia a produção de jornais pelos alunos em conjunto com o corpo docente da instituição, tinha, como descrito no caso acima, um propósito definido: formar homens de elite para a vida pública.
Em outros casos, essas associações tinham finalidade filantrópica, como é o caso do modo de associativismo do Colégio Coração de Jesus, de cunho católico, voltado para a formação da elite feminina catarinense. O Clube de Sociologia “Tristão de Ataíde”, a Juventude Escolar Católica (JEC) e a “Liga da Bondade” proporcionavam práticas de sociabilidade cuja finalidade era incitar entre as alunas a adesão aos princípios católicos, desenvolvendo o espírito de solidariedade e filantropia. As ações dessas associações eram divulgadas pela revista produzida pelas alunas, chamada Pétalas. Esse colégio, segundo Dallabrida, contava com outras associações estudantis, como o Grêmio Cultural Rui Barbosa e o Grêmio Joaquim Nabuco. (DALLABRIDA, 2012, p. 179-180.)
Outro conceito que advém da ideia de associativismo descrita acima é o de rede de sociabilidade, presente em obras de historiadores e historiadores da educação brasileira. Conceituação que envolve também a noção dos lugares de sociabilidade, definição importante para situar o grupo de estudantes estudado nesta pesquisa. Dentro das discussões feitas até aqui, a ideia de rede de sociabilidade aparece como a mais pertinente para caracterizar o objeto pesquisado, esse agrupamento de alunos que faziam parte do Grêmio Normalista do Instituto de Educação Sud Mennucci entre os anos de 1952 e 1954. Algumas ressalvas devem ser feitas no sentido de que, como será visto adiante, as pesquisas que abordam a questão das redes de sociabilidade desenvolvem o conceito a partir de articulações feitas entre intelectuais de diferentes lugares do país.
Warde (2003), em artigo que pretendeu compreender o itinerário da formação de Lourenço Filho, analisou as cartas enviadas pelo educador para Anísio Teixeira, quando o mesmo esteve em viagem pelos Estados Unidos, na década de 1920, com o objetivo de relatar
a ele as novas experiências educacionais da educação norte-americana, dentro do empreendimento dos educadores da Escola Nova.
Para entender o itinerário de formação deste educador, a autora considera os laços de sociabilidade e as redes intelectuais e políticas na qual Lourenço Filho se envolveu durante sua trajetória. Entre ele e os republicanos reformistas, como Oscar Thompson, Sampaio Dória e Almeida Júnior foram estabelecidos laços considerados como redes de relações e lugares com os quais o próprio educador e pedagogista havia entrado em contato durante seu itinerário. Outro aspecto que a autora considera para compreender a trajetória de Lourenço Filho são os espaços de sociabilidade nos quais o mesmo relacionou-se, como os ambientes editoriais, os espaços institucionais, como a Faculdade de Direito e a Escola Normal da Praça. Lugares onde o educador recolheu experiências que determinaram sua formação (WARDE, 2003, p. 20-21).
Para Warde (2003), a ideia de associar o itinerário de formação deste intelectual às redes de relações sociais mostra a originalidade e a fertilidade deste enquadramento para estudos sistemáticos dos intelectuais da educação. Para a autora, é interessante considerar os intelectuais como “coletivos” que se organizam, funcionando por meio de redes, pois estas apontam para as singularidades das regras que regem esses grupos.
Sobre isso, a autora afirma:
Pensar os intelectuais como coletivos que se organizam e funcionam em rede, aponta, de um lado, para a singularidade das regras que o regem. Tornar-se membro de uma rede intelectual, por exemplo, não se impõe como lei sobre o indivíduo que pode decidir dela participar ou não. De outro lado, pensar os intelectuais em rede – por oposição à imagem de um cipoal de indivíduos cujos caminhos se cruzaram por força do acaso – aponta para a existência de regras de inclusão e exclusão, de pertença ou de oposição. (WARDE, 2003, p. 26.)
Menezes (2006) também trabalha com o conceito de rede de sociabilidade. Em sua pesquisa de mestrado, visou recompor as trajetórias de um grupo que se formou ao longo da segunda metade do século XIX, em torno das ideias apresentadas no Almanaque Literário de São Paulo. Grupo que, segundo ele, se constituiu por complexas redes de sociabilidade no interior de diversos microclimas que abrigaram sua atuação pública, como a relação do grupo com grandes líderes da propaganda republicana paulista. Neste sentido, o autor tenta recuperar os itinerários individuais de seus integrantes e entender o modo como os mesmos se
inseriram nos chamados microclimas, que seriam a Academia de Direito de São Paulo, os jornais Gazeta de Campinas, a Província de São Paulo e o Partido Republicano Paulista. O autor justifica que o aporte teórico respondeu pela experimentação do conceito de “estruturas de sociabilidade”, categoria engendrada pelo historiador francês Jean-François Sirinelli, pela noção de duas variáveis: a noção de rede de socialização e a noção de microclimas29.
Outra referência para o trabalho de Menezes foi o livro de Angela de Castro Gomes, denominado Essa Gente do Rio... Modernismo e Nacionalismo, no qual a autora buscou compreender a atuação dos intelectuais cariocas na cidade do Rio de Janeiro, antiga capital federal. Intelectuais que, para Gomes, foram entendidos como os que viviam e teciam redes de sociabilidade na cidade, destacadamente nos anos 1930. Nesse sentido, procurou captar a ambiência sócio-político-cultural da cidade, para então mapear a dinâmica de articulação de seus vários grupos de intelectuais, reunidos em lugares de sociabilidade por eles legitimados, para o debate e a propagação de suas ideias e propostas de intervenção na sociedade. Assim, a autora procurou concentrar sua atenção na lógica de constituição de seus grupos, pretendendo mapear as ideias, valores e comportamentos que alicerçaram a formação desses grupos de intelectuais (GOMES, 1999, p. 10).
Para tal, trabalhou com dois periódicos produzidos por dois grupos de intelectuais formalmente organizados, que participaram de maneira direta dos debates literários travados desde a segunda metade dos anos de 1920 até a primeira metade da década de1940: o grupo que criou a revista Festa, e o grupo que fundou a Sociedade Felipe D’Oliveira e publicou seu boletim, Lanterna Verde. A autora trabalhou com a ideia de que esses dois grupos se envolveram numa luta político-cultural, o que revelou posições de parte da intelectualidade carioca (GOMES, 1999, p. 20-21).
Em relação ao que ela descreve como “lugares de sociabilidade” dos intelectuais cariocas, a autora chama atenção para os diferentes ambientes em que esses intelectuais se inseriam na época, como casas, cafés, livrarias e associações culturais. Espaços onde os mesmos se organizavam para construir e divulgar propostas modernistas, que defendiam a questão da identidade nacional e a modernidade possível de ser vivida no país (GOMES, 1999, p. 11).
Sobre a definição dos conceitos de rede e de lugares de sociabilidade, a autora ressalta:
29 A ideia de rede de sociabilidade e dos microclimas, proposta por Sirinelli, será desenvolvida mais adiante
neste capítulo, a partir da apropriação feita por Angela de Castro Gomes em seu livro Essa Gente do Rio...
Modernismo e Nacionalismo (1999). Tais definições servirão de base para a presente pesquisa e também ofereceram subsídios para a pesquisa de Menezes (2006).
A noção de lugar de sociabilidade é, assim, central para o trabalho e está sendo tomada em dupla dimensão. De um lado, aquela contida na ideia de “rede”, que remete às estruturas organizacionais, mais ou menos formais, tendo como ponto nodal o fato de se constituírem em lugares de aprendizado e de trocas intelectuais, indicando a dinâmica do movimento de fermentação e de circulação de ideias. De outro, aquela contida no que a literatura especializada chama de “microclimas”, que estão secretados nas redes de sociabilidade intelectual, envolvendo as relações pessoais e profissionais de seus participantes. Ou seja, se os “espaços de sociabilidade são “geográficos”, são também “afetivos”, neles se podendo e devendo captar não só vínculos de amizade/cumplicidade e de competição/hostilidade, como igualmente a marca de uma certa sensibilidade produzida e cimentada por eventos, personalidades ou grupos especiais. Trata-se de pensar em uma espécie de “ecossistema”, onde amores, ódios, projetos, ideais e ilusões se chocam, fazendo parte da organização da vida relacional. (GOMES, 1999, p. 20.)
A definição da autora para o conceito de rede e lugares de sociabilidade parte, portanto, de duas dimensões: a primeira, que entende a “rede” como um conjunto de estruturas organizacionais que servem também de lugares de troca e circulação de ideias. A outra dimensão que tem que ser levada em conta diz respeito aos “microclimas” presentes nessas redes de sociabilidade, compostos por espaços de sociabilidade “afetivos”, onde se devem captar vínculos entre os sujeitos que compõem o grupo.
Dentro desta perspectiva de rede de sociabilidade entendida por Gomes, é possível pensar na caracterização conceitual do grupo de alunos que compunha a organização do jornal