• No results found

H9 Hemnes - N-HR Weray

In document til i til i (sider 187-200)

Uma vez bem esclarecida a dinâmica arquetípica que determina a formação do ego, e tendo sido demonstrado que o ego é fruto do Self e o Self é originado pela Vontade, força bruta e cega da natureza, poderemos avançar no estudo do narcisismo, um dos pontos centrais deste trabalho. Por meio de um zoom que aproxima a imagem e a distancia do todo, observaremos o ego e suas feridas narcísicas. É impossível falar de espiritualidade e de níveis de Consciência mais distantes do ego egocêntrico sem antes mergulharmos nessas feridas e na psicodinâmica responsável por elas.

Foi na observação clínica da fragilidade e da insuficiência narcísicas que acometem o ser humano, que entendi que o tema é de extrema importância. A dor psíquica pode não ter limites. As atuações narcísicas compensatórias são inúmeras. A necessidade de transcendê-las é a grande questão humana. O próximo capítulo será dedicado a essa necessidade. As dinâmicas narcísicas são o ponto central a ser conscientizado e transformado em uma análise de profundidade. Tal empreitada é sabidamente difícil. A transformação narcísica, quando possível, é incrivelmente lenta e o sofrimento humano é, invariavelmente, um sofrimento narcísico.

4. Narcisismo e falso-self

Palavras do pregador, filho de Davi, rei em Jerusalém. Vaidade de vaidades, diz o pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade. Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol? Uma geração vai-se, e outra geração vem, mas a terra permanece para sempre. O sol nasce, e o sol se põe, e corre de volta ao seu lugar donde nasce [...]. Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol; e eis que tudo era vaidade e desejo vão. O que é torto não se pode endireitar; o que falta não se pode enumerar. Falei comigo mesmo, dizendo: Eis que eu me engrandeci, e sobrepujei em sabedoria a todos os que houve antes de mim em Jerusalém; na verdade, tenho tido larga experiência da sabedoria e do conhecimento. E apliquei o coração a conhecer a sabedoria e a conhecer os desvarios e as loucuras; e vim a saber que também isso era desejo vão. Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta o conhecimento aumenta a tristeza. [...] Pois o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos brutos; uma e a mesma coisa lhes sucede; como morre um, assim morre o outro; todos têm o mesmo fôlego; e o homem não tem vantagem sobre os brutos; porque tudo é vaidade. Todos vão para um lugar; todos são pó, e todos ao pó tornarão. (Eclesiastes 1, 1-5; 13-18 e Eclesiastes 3, 19-20).

A beleza do texto salomônico é tão intensa quanto a sua verdade psicológica. O princípio de realidade nele contido é como um antídoto às tantas inflações do ego. O autor, o Rei Salomão, enfatiza, com a sabedoria que lhe era peculiar, que o destino do homem é o pó e que a terra confere aos brutos e aos sábios a mesma morada final. A Consciência por ele alcançada nos remove das nossas ilusões de que a sabedoria e as obras nos livrarão do destino humano. Reagimos, muitas vezes, narcisicamente, como brutos. E olhamos os brutos, com frequência, como muito diferentes de nós mesmos. O texto não deixa margem para dúvidas. Sob o sol, não há novidades. O homem age por vaidade e faz dela a sua luz. Continuará fazendo, porque, no seu arcabouço psicológico mais íntimo, existe um comportamento padrão que é arquetípico. Esse padrão é definido pelo narcisismo.

A vaidade é uma componente do narcisismo, mas ele não deve ser reduzido a ela. Não que a vaidade seja algo de menor importância na estrutura humana. Às vezes, ela parece ser o motor para todas as coisas e motivação de relevância equiparada aos instintos básicos de agressividade, sexualidade e fome. Se pensarmos por uma perspectiva de profundidade, o narcisismo é um aspecto da estrutura humana de grande complexidade. É um fenômeno psíquico vital, no que diz respeito a toda psicodinâmica e psicopatologia. Como o sangue está para a

fisiologia do corpo, a energia psíquica impregnada pelo narcisismo está para a psique. Ele está envolvido no sentir, no pensar, na memória, na imaginação, nos sonhos, nos desejos, no desenrolar do destino, nas frustrações e nas decepções conosco e com o próximo. Sua influência é tão vasta, que é de difícil mensuração. Assim, o narcisismo encanta e desencanta o mundo, transformando-o como espelho de nossa própria face.

Ao descobrirmos toda a sua abrangência, ficamos surpresos ao perceber que ele é muito mais amplo do que comumente é entendido nas esferas social e acadêmica. Ele pode ser equiparado à pedra fundamental que os arquitetos rejeitaram, pois, na maioria das vezes, ele não é levado em conta, quando se tenta compreender os aspectos que justificam o comportamento humano. O analista rapidamente aprende que um pai ou uma mãe com distúrbios narcisistas são suficientes para o desamparo afetivo de seus filhos e para o surgimento das decorrentes feridas narcísicas.

É o narcisismo, com seu grande emaranhado de subjetivações, o pano de fundo das tragédias, dos crimes, das neuroses e das psicoses. O narcisismo é o atributo da psique responsável pelas sensações mais íntimas e prosaicas do gênero humano, como também é a gênese das fantasias que levam às guerras e às edificações humanas mais sublimes. Estamos sempre ligados narcisicamente a um objeto ou a um projeto. A opinião pública não nos passa despercebida. É como se existisse um aparelho medidor de audiência ligado constantemente em nossa alma. O grau de interesse ou a obsessão por ele define a patologia narcisista.

O fato é que o narcisismo, em suas várias expressões, pode ser considerado uma função estruturante do eu e responsável por toda a sua formação. É, assim, uma característica singular da própria energia psíquica que regula, desde o início da vida, a construção do ego. De acordo com as influências que recebeu, define a nossa autoimagem. Nesse sentido, não passamos a existir quando nascemos, mas quando somos refletidos nos olhos de nossas mães. Assim, o bebê se espelha e é refletido no olhar da mãe, passa a existir e se percebe amado ou não por intermédio de seu primeiro encontro narcísico. O narcisismo refletido no espelho dos pais define a construção da identidade, do complexo do ego e dos demais complexos, por intermédio das colisões e adesões arcaicas que a psicologia define como identificações primárias. A relevância do narcisismo é, portanto, magnânima na vida

psíquica, porque, pelo seu intermédio, estrutura-se o amor próprio, o senso de identidade, a saúde psíquica e boa parte da patologia psicológica ou somática.

O narcisismo é também o motor da jornada do herói. É intrínseca ao impulso heroico a necessidade narcísica de reconhecimento. O herói é reconhecido pela sua cultura e espera por isso. O covarde, aquele que não tem amor próprio, é desvalorizado. Está morto, aniquilado para o sentido da vida. Acomoda-se no medo, vê sua autoestima desbotar lentamente, assenta-se na zona de conforto e abre mão de qualquer recompensa narcísica. A depressão é sua característica mais evidente. O herói vence o medo da morte –tanto a simbólica quanto a concreta. Ele afugenta o medo da morte. Subjuga-o e tem uma atitude afirmativa em relação à vida. Passa a ser um arquétipo de força a ser interiorizado por aqueles que o rodeiam.

Muitos começam sua terapia por terem se afastado do Arquétipo do Herói81. Desacreditados e acovardados, estão narcisicamente doentes. O herói que realmente está cumprindo sua trajetória tem um senso de si elevado e sua autoestima lhe garante um humor sereno, sem grandes oscilações. Existem, também, aqueles que apenas aparentemente estão quites com seu narcisismo criativo, mas se desviaram de suas metas mais profundas de autorrealização, em nome de um ideal introjetado que não corresponde aos seus talentos e anseios mais íntimos.

Ernest Becker82, em sua excelente obra A Negação da Morte, faz uma boa síntese do enfrentamento heroico, no que diz respeito à individuação e ao reconhecimento:

81 Em O Homem e Seus Símbolos, obra editada primeiramente por Carl G. Jung e continuada, após sua morte,

por seus colaboradores, Joseph L. Henderson, um analista jungiano americano, escreve: “O mito do herói é o mais comum e o mais conhecido em todo o mundo. Encontramo-lo na mitologia clássica da Grécia e de Roma, na Idade Média, no Extremo Oriente e entre as tribos primitivas contemporâneas. Aparece também em nossos sonhos. Tem um poder de sedução dramática flagrante e, apesar de menos aparente, uma importância psicológica profunda. São mitos que variam muito nos seus detalhes, mas, quanto mais os examinamos, mais percebemos quanto se assemelham na estrutura. Isto quer dizer que guardam uma forma universal, mesmo quando desenvolvidos por grupos ou indivíduos sem qualquer contato cultural entre si – como, por exemplo, as tribos africanas e os índios norte-americanos, os gregos e os incas do Peru. Ouvimos repetidamente a mesma história do herói de nascimento humilde, mas milagroso, provas de sua força sobre-humana precoce, sua ascensão rápida ao poder e à notoriedade, sua luta triunfante contra as forças do mal, sua falibilidade ante a tentação do orgulho (hybris) e seu declínio, por motivo de traição ou por um ato de sacrifício ‘heroico’, em que sempre morre”. (JUNG et al, 1996, p. 110).

82

Ernest Becker (1925 – 1974), nascido nos Estados Unidos em uma família judia, teve na diplomacia o início de sua vida profissional, mas decidiu dedicar-se à antropologia quando tinha cerca de 30 anos. Doutorou-se na antropologia filosófica, mas marcou presença no mundo como um pensador interdisciplinar que acreditava que o caráter de uma pessoa era formado a partir de um processo de negação da própria mortalidade. Foi influenciado por Otto Rank, Soren Kierkegaard, Sigmund Freud, Wilhelm Reich, Norman O. Brown e Erich Fromm. Entre suas diversas obras, estão A Negação da Morte, vencedor do prêmio Pulitzer de 1974, e Escape from Evil.

De todas as coisas que movem o homem, uma das principais é o seu terror da morte. Depois de Darwin, o problema da morte como problema evolucionário ficou em destaque, e muitos pensadores viram logo que se tratava de um grande problema psicológico para o homem. [...] O heroísmo é, antes de qualquer coisa, um reflexo do terror na morte. O que mais admiramos é a coragem de enfrentar a morte; damos a esse valor a nossa mais alta e mais constante adoração. Ele toca fundo em nossos corações, porque temos dúvida sobre até que ponto nós mesmos seríamos valentes. Quando vemos um homem enfrentando bravamente a sua extinção, ensaiamos a nossa própria vitória. E, assim, o herói tem sido alvo de honra e aclamação desde, provavelmente, o início da evolução humana. Mas, mesmo antes disso, nossos ancestrais primatas acatavam aqueles que eram extrapoderosos e corajosos, ignorando os que fossem covardes. O homem elevou a coragem animal ao patamar de culto. (BECKER, 2007, p. 31).

O Arquétipo do Herói pode ser entendido como uma força espiritual, oriunda do inconsciente coletivo, que pulsiona o indivíduo à autossuperação, mantendo-o vivo no espaço e no tempo. É uma das objetivações psíquicas mais evidentes da Vontade de Schopenhauer. Reflete-a e a ela dá um corpo. É um dos arquétipos mais importantes da individuação. Quando ele está comprometido, toda a trajetória do indivíduo corre perigo. Imagens do herói de lança em punho, enfrentando um mitológico dragão que cospe fogo podem ser entendidas como a árdua tarefa da Consciência de resgatar a anima que é prisioneira de um complexo materno negativo.

A autoestima deve ser conquistada nas zonas de tensão, onde o herói pode perder sua espada, sua montaria ou onde sua armadura pode não ser suficientemente resistente às lanças e obstáculos que encontrará pelo caminho. É aceitando o risco do combate e colocando seu narcisismo à prova que o herói suplantará a si próprio e se reconhecerá como um guerreiro capaz de possuir a sensação de que é senhor do seu próprio destino.

Não obstante seus aspectos positivos do conceito de narcisismo, prevalece, ainda que estejamos mergulhados em uma cultura narcisista, a noção negativa do termo “Narcisismo”, que é considerado apenas pejorativo. O próprio analista deve cercar-se de cuidados ao empregá-lo durante as sessões de análise. Heinz Kohut, um dos mais importantes teóricos do narcisismo, discorre sobre a visão unilateral, geralmente negativa, sobre o conceito do narcisismo e também comenta sua força:

O contexto científico em que o termo narcisismo pode ter adquirido uma conotação ligeiramente depreciativa, como produto de regressão ou de defesa, não é tão terrível quanto o clima emocional específico que é desfavorável à sua aceitação como constelação psicológica saudável e louvável. O sistema de valores tão profundamente arraigado no Ocidente (impregnando a religião, a filosofia, as utopias sociais do homem ocidental) louva o altruísmo e a preocupação com os outros e deprecia o egoísmo e a preocupação consigo mesmo. E, no entanto, ocorre, em relação aos desejos sexuais do homem, exatamente o mesmo que em relação às suas necessidades narcísicas: nem uma atitude de desprezo em relação a essas poderosas forças psicológicas que atuam nas duas dimensões da vida humana, nem a tentativa de erradicá-las totalmente hão de levar a um genuíno progresso no autocontrole ou na adaptação social do homem. (KOHUT, 1984, p. 84).

Kohut cita a religião como uma das instâncias que deprecia o egoísmo, mas é inócua em relação ao autocontrole genuíno. Em anos recentes, vêm sendo denunciados, no Ocidente, comportamentos socialmente inaceitáveis por parte de pessoas religiosas que, justamente, demonstram falta de autocontrole em suas ambições narcísicas. São escândalos que, ligados, por exemplo, à sexualidade pervertida e à busca desenfreada e ilícita pelos bens que conferem poder e status, revelam uma tentativa malograda de repressão do narcisismo natural. Ao ser sufocado por um ideal radical de supressão de qualquer traço de egoísmo, ou, em outras palavras, de uma energia criativa voltada para o próprio eu, o narcisismo pode gerar resultados catastróficos no que diz respeito à adaptação social. Isso se dá, porque toda repressão gera uma tensão psíquica que, cedo ou tarde, vai se romper devido ao desequilíbrio que causa no organismo como um todo. Kohut bem explica essa dinâmica:

As estruturas narcísicas reprimidas, mas não transformadas, tornam-se intensificadas à medida que se impede sua expressão; e terminam rompendo os frágeis controles e fazendo aparecer subitamente, não apenas em indivíduos, a busca desenfreada, seja de objetivos grandiosos ou de fusão irrestrita com self-objetos onipotentes. (KOHUT, 1984, p. 84).

É por isso que postulo que uma conversão religiosa, se não for integrada à conscientização dos conteúdos da sombra que precisam ser transformados, terá vida curta, isto é, logo será denunciada, em sua superficialidade, pelo próprio inconsciente recalcado. A polaridade reprimida vai, então, requerer seu lugar na

existência. A repressão de conteúdos incompatíveis com o ideal do ego não leva à transformação do narcisismo arcaico e grandioso. Ele permanece, subjacente à Consciência, pronto a reivindicar seu lugar, assim como um cão que, faminto, preso no canil, não hesitará em agredir o próprio dono para defender suas necessidades básicas de sobrevivência.

In document til i til i (sider 187-200)