• No results found

H ELSEFREMMENDE ARBEID OG DET TEORETISKE PERSPEKTIV

Opto por nomear de enlutamento melancólico o luto materno após perda fetal tardia, especialmente em alguns casos de repetição e de caráter prolongado. A melancolia tem, na psicanálise, um caráter conflitante, mas é também estruturante do ser humano. Vale ressaltar que ao utilizar a expressão enlutamento melancólico, não concebo a melancolia como tendo um caráter estruturante do psiquismo, mas como um estado psíquico prolongado que surge, em algumas mulheres, após o natimorto. É muito provável que as mulheres que permanecem no luto por mais tempo tenham, originalmente, uma estrutura melancólica. Todavia, outra pesquisa pode vir a investigar este aspecto do luto por natimorto.

Considero que o luto por natimorto apresenta caráter singular por vários motivos: 1. ao contrário do luto normal, exige intervenção em função do abalo narcísico; 2. falta, na maioria das vezes, o princípio de realidade; 3. há empobrecimento tanto do mundo como do eu; 4. ocorre abalo na autoestima com sentimentos de

53

inferioridade e culpa. E acrescenta-se a tais distinções o fato de este luto singular acontecer durante um período específico na vida de uma mulher que é o puerpério.

O luto invisível por natimorto, ao contrário do luto comum, necessita de intervenção na maioria dos casos, pois em geral o eu para tornar-se livre necessita de apoio (reconhecimento social e familiar pelo luto e suporte terapêutico). No grupo do HUB foram atendidas gestantes que ainda estavam com a libido investida na perda anterior. Exemplificocom o caso de uma jovem que engravidou alguns meses após seu primeiro filho natimorto; a gestante gostaria que o bebê atual fosse do mesmo sexo do natimorto, pois daria ao filho que esperava o nome que escolhera para o filho natimorto. Para que a mãe, após filho natimorto, possa enriquecer o seu eu, ela precisaria retirar a libido deste filho saudoso e investi-la em outros objetos. Uma intervenção terapêutica pode vir a favorecer o desinvestimento da libido no filho morto e investimento na gestação atual.

A segunda distinção é a falta do princípio de realidade em certos casos, que obstrui o trabalho de luto. Como apresentado anteriormente, várias mulheres contaram que foram privadas de ver o bebê morto, velá-lo em um funeral, dar-lhe um nome. A mãe, não-mãe, depara-se com as roupinhas do bebê, seu berço vazio e seus seios prontos para amamentar o filho que não está lá. Utilizando uma expressão winnicottiana, falta o bebê para que a mãe possa adaptar-se às necessidades dele, nesta situação, adaptar-se à morte, à falta, dele.

Em terceiro lugar, no luto por natimorto, como em outros lutos, o mundo torna- se sem sentido, vazio e pobre e, como na melancolia, o eu se empobrece. Para Freud, “unicamente por meio da retirada e do retorno da libido que estava investida nos objetos é possível reenriquecer novamente o Eu” (Freud, 1914/2004, p. 117). Ser amado, ser correspondido ou ter a posse do objeto amado elevaria novamente o autoconceito. Após

54

o nascimento do filho morto, a mulher estaria privada do objeto amado, de amar seu filho, de protegê-lo, de vesti-lo, de alimentá-lo. Sem um bebê para amar a mulher está em perigo.

O quarto aspecto que distinguiria um luto do outro seria o abalo na autoestima com sentimentos de inferioridade e culpa. Ao perceber-se sem filho, sem aquele que seria o objeto do seu amor, a mãe enlutada apresentaria sentimento de inferioridade em relação a outras mães. Como discutido anteriormente, seguindo o pensamento freudiano de que o filho equivale ao falo, a mulher se sentiria ferida em seu narcisismo. Nos atendimentos ao grupo do HUB pôde-se identificar no discurso e no silêncio das participantes (vergonha de falar de suas perdas fetais anteriores em público) que há um abalo na autoestima, por não serem capazes de gerar um filho vivo. No luto comum, pela morte de um pai, por exemplo, o abalo à autoestima do enlutado não chegaria a promover uma ferida narcísica.

De outro modo o luto pela morte de um filho ainda no ventre, morte de parte de si, traz consigo um profundo abalo ao narcisismo. Tal afirmativa fundamenta-se também na revisão de literatura, pois as pesquisas relatam sentimentos de fracasso, incompetência, vergonha, tristeza duradoura, medo, solidão, abandono, sentimento de culpa, insegurança, impotência, incapacidade e descrença em relação ao futuro (Duarte, 2008; Freire & Chatelard, 2009; Goulart et al., 2005).

Em muitos casos a mulher se sente culpada por não ter podido gerar um filho vivo. Houve, no grupo em estudo, relato de gestantes que não gostariam de estar grávidas novamente, após ocorrência do natimorto. Uma delas disse: “Eu não queria estar grávida novamente... não trago alegria pra minha família, só (trago) tristeza... eu só faço filho morto... eu sei que este também vai morrer”. A fala citada é de uma mulher que já teve filho natimorto e não possui filhos vivos. Ela se culparia por ter desejado a

55

morte do filho anterior e deste que, segundo ela, também morrerá. Algumas mulheres que tiveram natimorto vivenciaram no pós-parto uma tristeza que permanece ao longo dos anos. De alguma forma, traços melancólicos instalaram-se com o luto e a ferida narcísica.

Considero ainda que dois processos psíquicos podem dificultar a elaboração do luto por natimorto. Primeiro, o fato de haver perda do objeto interno - parte de si - e da impossibilidade de ser mãe. O outro aspecto que se pode destacar seria que o trabalho de luto pode ser obstruído quando a mulher está ferida narcisicamente. Ou seja, o luto por filho natimorto apresentaria maior dificuldade em convocar o narcisismo, que está ferido, para retirar a fixidez da lembrança do filho natimorto.

Em um trabalho de luto por morte de um pai, por exemplo, o filho sabe o que perdeu. Uma mãe que nunca amamentou o filho, não o tocou, perdeu a possibilidade da maternidade que ainda não vivenciou efetivamente, não perdeu algo que já viveu, perdeu um futuro possível, tudo que a maternidade lhe proporcionaria. O luto é também pela morte da mãe em potencial, que alcançaria sua condição de mãe junto ao grupo de que faz parte, o status de mãe. Destaco que nem toda mulher que teve um filho natimorto apresenta um luto melancólico.