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Os gêneros introdutórios estão presentes desde há muito tempo nas mais variadas atividades desenvolvidas pelo ser humano, “da oralidade à escrita e ao domínio da comunicação eletrônica via rede internet”. De acordo com Bezerra (2006), na retórica clássica, o exórdio tinha como propósito comunicativo apresentar um discurso oral e promover o orador. Já na escrita, o prologus ou praefatio, presentes nos livros e cartas do Novo Testamento produzidos nos primeiros séculos da era cristã, tinham o propósito de introduzir uma obra ou esclarecer questões relacionadas à autoria.

A importância do gênero introdução está em explicitar a relevância da pesquisa realizada e associá-la aos trabalhos prévios pertencentes à área de estudo, segundo aponta Bhatia (1993). Em artigo intitulado Genre-mixing in academic introductions, de 1997, ele destaca a complexidade que envolve o que denomina gêneros introdutórios no contexto acadêmico, os quais formam uma colônia de gêneros composta por prefácio, prólogo, introdução, dedicatória, entre outros.

De modo geral, para ele, o que caracteriza a colônia de gêneros introdutórios é o propósito comunicativo que têm em comum: introduzir/apresentar um trabalho acadêmico, seja ele um livro, um artigo, um ensaio, uma dissertação de mestrado ou uma tese de doutorado. Assim, em todas as suas manifestações, o gênero introdutório, nessa esfera, tem uma função dominante que é introduzir um evento acadêmico, escrito ou oral (Bhatia, 1997).

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Destaca o autor, contudo, que, em alguns casos, como em introduções de livros acadêmicos, além de apresentar a obra ao leitor, a introdução tem outro propósito comunicativo, que pode ser considerado secundário: promover a obra a potenciais leitores, que podem ser motivados a investir no conhecimento que está sendo oferecido.

Também Bazerman (2006a) trata da multiplicidade de gêneros de que determinada esfera de atividade humana pode fazer uso. O ambiente acadêmico, assim como outras esferas de atividade humana, envolve e produz inúmeros gêneros, orais e escritos, que estão localizados em conjuntos de gêneros (“coleção de tipos de textos que uma pessoa num determinado papel tende a produzir”), os quais se incorporam a sistemas de gêneros (“os diversos conjuntos de gêneros utilizados por pessoas que trabalham juntas de uma forma organizada [...]”) e sistemas de atividades (atividades que ocorrem nas esferas de ação humana) (Bazerman, 2006a: 32-33).

O gênero textual dissertação de mestrado é um dos discursos científicos produzidos na esfera acadêmica de comunicação, mais especificamente em cursos de pós-graduação stricto sensu48, com vistas à obtenção do título de

mestre, caso o trabalho apresentado seja aprovado pela banca examinadora.

Por se tratar de discurso científico, que envolve a complexa tarefa de construir conhecimento, é preciso atentar para dois aspectos importantes: 1) resulta do exercício da reflexão e não comporta ideias reducionistas, do senso comum; 2) organiza-se de acordo com uma estrutura textual específica, prototípica, conforme convenções discursivas próprias, definida pela comunidade discursiva que a utiliza.

Essa “estrutura cognitiva”, denominação de Bhatia (1993: 21) para a estrutura retórica de um gênero, refere-se aos movimentos retóricos (cf. Swales, 1990) que

48 Cursos stricto sensu destinam-se à formação científica e acadêmica. O principal objetivo dos

cursos de mestrado é preparar professores para atuar no nível superior de ensino. Já os cursos de doutorado têm como objetivo formar pesquisadores (Vieira, 2008).

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o pesquisador realiza no texto, a fim de satisfazer o propósito comunicativo do gênero.

No contexto acadêmico de pós-graduação, a dissertação de mestrado representa um “rito de passagem” para a carreira acadêmica (Swales, 1990: 187); refere-se ao trabalho resultante de pesquisa científica cujo tema é delimitado no que diz respeito à sua extensão. O autor de uma dissertação mostra, por meio dela, sua capacidade de sistematizar informações, organizar a literatura consultada pertinente ao assunto, produzir reflexões fundamentadas e proposições e desenvolver argumentos nos quais possa basear seu ponto de vista, o que lhe permite ir além de apenas explanar um tema e reproduzir os textos consultados, de acordo com as ponderações de Severino (2007).

As dissertações de mestrado possuem propósitos comunicativos bem definidos e dirigem-se a uma audiência restrita – a comunidade científica – em especial, à banca examinadora e, eventualmente, a um público mais amplo pertencente a essa comunidade, que pode consultar esse material nas bibliotecas ou acessá-lo eletronicamente, nas bibliotecas virtuais das universidades ou por meio do site da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes)49.

No que diz respeito ao gênero introdução, produzido no contexto acadêmico, ele faz parte da estrutura canônica textual composta por Introdução, Desenvolvimento e Conclusão, referendada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT, 2005). A introdução consta nas normas dessa Associação como sendo a parte “[...] inicial do texto, onde devem constar a delimitação do assunto tratado, objetivos da pesquisa e outros elementos necessários para situar o tema do trabalho” (ABNT, 2005: 6)50.

Tal definição, contudo, parece não esclarecer adequadamente a estrutura ideal de um texto introdutório dessa natureza e nem sua função, uma vez que a seção introdutória de trabalhos acadêmicos (como dissertações ou teses) deve ser escrita de forma a ganhar a atenção do leitor, a quem o autor deixa claro de que

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O site ao qual nos referimos é http://www.periodicos.capes.gov.br/portugues/index.jsp.

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trata sua pesquisa, o estado da questão naquele momento, a problematização proposta, a natureza do raciocínio desenvolvido, os aspectos em que o trabalho é importante para a área de pesquisa a qual pertence, bem como os aspectos para os quais pode contribuir em termos de ampliação do conhecimento.

Podemos também afirmar, na mesma direção e juntamente com Motta-Roth (2001: 45), que elas têm por objetivo estabelecer uma “base de conhecimento compartilhado” entre autor e leitor, a fim de contextualizar o trabalho desenvolvido. Considerando os movimentos retóricos propostos por Swales (1990), as informações presentes nas introduções indicam a relevância da pesquisa, as lacunas no conhecimento e relacionam os estudos prévios com as contribuições oferecidas pela pesquisa desenvolvida.

Também é importante que, na introdução, fique claro para o leitor os aspectos da problematização do tema da pesquisa e o raciocínio que será desenvolvido. Severino (2007: 149) adverte que é preciso evitar “intermináveis retrospectos históricos, a apresentação precipitada dos resultados, os discursos grandiloqüentes. Deve ser sintética e versar única e exclusivamente sobre a temática intrínseca do trabalho”.

Em síntese, podemos afirmar que, assim como a dissertação de mestrado tem seus propósitos comunicativos, a introdução da dissertação possui os seus: revelar ao leitor o assunto do qual trata a dissertação, indicar as contribuições que traz para o campo de estudos e oferecer ao leitor uma prévia do que encontrará no texto apresentado na sequência.

Espera-se que, em sua formação acadêmica, o pesquisador aprimore seus conhecimentos acerca da produção textual em sua área, a fim de, entre outros aspectos, conhecer as convenções a serem seguidas e as restrições em relação aos gêneros textuais de que precisa fazer uso.

Biasi (2009: 75) assinala que, muitas vezes, ao produzir textos para a comunidade acadêmica, o pesquisador o faz de forma intuitiva ou apenas para cumprir uma exigência da instituição, sem ter consciência da função

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sociocomunicativa do gênero. Valemo-nos de nossos esquemas mentais e de nosso conhecimento de mundo para produzir textos. Contudo, também devemos ter claro que “[...] os gêneros não se organizam aleatoriamente: eles são determinados nas situações de uso, decorrentes de uma rotina interacional que influi na sua construção”.

No que diz respeito ao profissional de texto e às intervenções que realiza quando exerce sua atividade, o conhecimento acerca dos gêneros acadêmicos – como são distribuídas as informações, sua organização retórica, o propósito comunicativo e a comunidade discursiva ao qual se dirige – constitui um repertório fundamental, a nosso ver, para o exercício de sua atividade, a fim de que dê conta de fazer sugestões adequadas para que o texto seja bem-sucedido do ponto de vista comunicacional.

No capítulo seguinte, procedemos à análise dos textos pertencentes ao gênero selecionado, tomando como base os estudos de gênero elencados neste capítulo, com foco nos modelos resultantes dos estudos de Swales (1990) e Bunton (2002).