Conforme apresentado por Gaskell ( 2002), o mundo social não é um dado natural, ele é ativamente construído por pessoas em suas vida cotidiana. “Estas construções constituem a realidade essencial das pessoas, seu mundo vivencial.” Nesse sentido, a entrevista qualitativa é o ponto de partida para a compreensão das relações entre os atores sociais e sua situação e segundo Gaskell (2002) o objetivo é uma compreensão detalhada das crenças, atitudes, valores e motivações em relação ao comportamento das pessoas em contextos sociais específicos. Na preparação da entrevista ficou definido que a conversação aparentemente natural com os entrevistadosseguiria uma agenda onde as intervenções seriam no sentido de obter informações sobre o relato da situação de risco segundo a ótica do entrevistado, seu conhecimento anterior sobre a possibilidade de acontecer a situação de risco, a intensidade de perigo desta situação e de que forma a experiência influiu no seu processo de avaliação atual para a tomada de decisão com relação à mesma situação ou outras.
A seleção dos entrevistados segue o critério de explorar o espectro de opiniões, as diferentes representações sobre o assunto em questão de um “grupo natural”, constituído pelas famílias que moram na área inundada e que compartilham um passado comum e um projeto de futuro. Portanto, ao selecionar os sujeitos para as entrevistas, estes foram considerados por unidade familiar, ou seja, aquele grupo de indivíduos residentes no dia da “enchente”. Conforme Gaskell (2002), a entrevista individual em profundidade permite explorar em detalhe a cosmovisão do entrevistado, entretanto, a entrevista em grupo tem como características centrais a sinergia que emerge da interação social; a possibilidade de observação da dinâmica da atitude e da mudança de opinião e de liderança no grupo; e, um alto nível de envolvimento emocional. Nesse sentido, ao se optar pela entrevista em grupo buscou-se ocupar o lugar do moderador que conforme Gaskell (2002) serve como catalisador da interação social entre os participantes. Nas entrevistas são muitos os momentos em que se pode perceber esta interação, como neste trecho em que o pai comenta sua surpresa sobre uma fala da filha:
Filha (...) antes eu ficava com medo, falava para eles que eu não queria mais ficar aqui, ficava perguntando: - Tem certeza que não encheu de
novo? Tem certeza que não tá mais com água? Ficava perguntando toda vez, ficava perguntando se tinha água.
Pai : Muito interessante que agora essa conversa toda trouxe aqui uma clareza, que até então eu não havia pensado dessa forma, mas eu, por morar aqui mais tempo, por conhecer como se comporta esse córrego e sabendo que condição (...)
Nas entrevistas busca-se a narrativa da experiência, onde as pessoas lembram o que aconteceu, colocam a experiência em seqüência, encontram possíveis explicações para isso e jogam com a cadeia de acontecimentos que constróem a vida individual e social. (Javchelovitch, 2002). Esta forma de reconstruir a história e de construir o significado dos fatos leva em conta que contar histórias é uma habilidade relativamente independente da educação e da competência lingüistica e o acontecimento pode ser traduzido em termos indexados, como foi o caso onde a referência é feita a um acontecimento concreto, em um lugar e em um tempo – a enchente. Referir-se ao acontecimento como – a enchente – já é uma apropriação da forma como a comunidade entrevistada se refere ao acontecido. O contar a história da enchente implica em duas dimensões, conforme Javchelovitch (2002), a dimensão cronológica referente à narrativa como uma seqüência de episódios e a não cronológica que implica a configuração de um enredo, onde o narrador se insere como personagem e atribui um sentido pessoal, particular ao fato coletivo. Dessa forma, o enredo oferece critérios para a seleção dos acontecimentos que devem integrar a narrativa, como eles serão ordenados em uma seqüência que se desdobra até a conclusão da história, e para o esclarecimento do sentido implícito que os acontecimentos possuem na compreensão da narrativa comoum todo.
As Entrevistas: procedimentos e técnica:
Os procedimentos desenvolvidos para a coleta de dados através da utilização da entrevista narrativa se processa em quatro fases:
Preparação: Em partes anteriores deste trabalho deixou-se claramente definido os interesses pessoais da pesquisadora no tema que levaram ao conhecimento de áreas de risco na cidade de Campinas. O percurso metodológico até chegar-se à configuração atual começou com a realização de quatro entrevistas
piloto, com mulheres residentes em um bairro na periferia de Campinas/SP e caracterizado, segundo o plano dedesenvolvimento do município, como uma área de risco. Neste caso a área de risco era definida pela invasão sobre um LIXÂO desativado. Trata-se de uma encosta bastante íngreme, limitada no topo pela via de acesso e ao fundo por um córrego que é o esgoto do bairro e se estende por duas quadras no sentido transversal e quatro no sentido longitudinal, acompanhando a via e o córrego limites. Situa-se na região conhecida como Campo Grande, uma vasta região na transição do rural para o urbano que vem sendo ocupada por loteamentos populares com precária oferta de infra-estrutura e de equipamentos urbanos. A ocupação desta região segue o padrão tradicional de desenvolvimento das metrópoles brasileira, ou seja, ao sabor da especulação imobiliária com a reserva de terrenos tendo como conseqüência um malha urbana descontínua com espaços vazios reservados para posterior ocupação, quando estes terrenos tiverem atingido maior valorização, após a extensão da infra-estrutura pelas prefeituras e governos estaduais até às áreas mais distantes. Quando acontecem as intensas chuvas de verão características da região, ocorre o afloramento do chorume, liquido escuro, malcheiroso e venenoso decorrente da decomposição do lixo e o transbordamento do córrego, um esgoto a céu aberto. As vias de distribuição do bairro sofrem um intenso processo de solapamento e criam-se buracos capazes, segundo os moradores, de caber um “fusca”. Na abordagem dos sujeitos para entrevista pedia-se que contassem sobre sua vida, como era viver ali (Pergunta Disparadora.). Verificou-se que apesar de as pessoas terem a experiência da enxurrada, do chorume e do mau cheiro tratavam a questão do risco com desconfiança e descrédito, como podemos ver a seguir nesta entrevista realizada em 24/10/200212:
E – “Aqui, era um aterro sanitário da Pirelli. (...) Era o antigo lixão.
(...) Por isso mesmo que o Estado não quer que a gente fique aqui. (...) Eles
acham que isso aqui é um... tempo pode explodir.
C – “E você acha que tem perigo mesmo de explodir?”
E – “Eu acho que não, porque tem gente que já mora há treze anos aqui. A gente nunca viu nada. Nunca nenhuma criança ficou doente, nunca aconteceu isso.”(...) “Eles acha que pode ficar doente por causa do lixo. Como é que se diz?! Tem gases debaixo da terra...(...) Então, eles acha que a
12 E – entrevistada; C entrevistadora.
criança pode ficar doente, pegar uma doença. Só que, graças a Deus, até agora, nunca vi um caso assim de dizer que a criança ficasse doente por causa disso aqui.”
Verificou-se, ainda, que as pessoas não se sentiam confortáveis em falar da situação de risco do ponto de vista de uma hipótese. A idéia de um fato ter uma probabilidade de vir a acontecer não é intuitiva e a configuração desta idéia se apoia na manipulação da informação segundo um conjunto de técnicas não triviais. O pensar sobre o risco requer a materialidade do acontecimento a partir de coisas reais. Refletindo sobre o resultado destas entrevistas iniciais, foi feita uma revisão da proposta inicial quanto à seleção dos sujeitos da pesquisa e optou-se por selecionar aqueles que já haviam passado por uma experiência real de risco, conforme explicitado anteriormente.