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HÅLANDSDALEN

A consanguinidade revela-se então um dos traços mais decisivos no sentimento de identidade, que contudo não deixa também de encontrar Inquérito sociológico à população da Estrela

Quadro 1.16 – Atitude face ao divórcio (N)

Não aceitaria o divórcio 12 Teria muita dificuldade em aceitar o divórcio 5 Aceitaria o divórcio como uma situação difícil, mas necessária 3 Aceitaria o divórcio como a melhor solução 22 Não sabe/Não responde 16 Total 58

raízes na relação que os habitantes estabelecem com a divindade. Pese embora a grande maioria tenha casado pela Igreja e considere que esta é uma comunidade «muito religiosa», tal como se observa no quadro 1.17 somente uma minoria de mulheres assiste aos serviços religiosos, tais como a missa celebrada aos domingos à tarde. De resto, nenhum dos homens entrevistados se declarou católico praticante.

Contudo, se a grande maioria não segue as práticas oficiais da Igreja, também é verdade que os estrelenses não são indiferentes aos favores di- vinos. Simplesmente, solicitam mais esses favores por outras vias, sobre- tudo quando confrontados com a adversidade do clima. Tal como nos esclarece um dos entrevistados, são, com efeito, recorrentes os pedidos de auxílio e protecção divinos em anos de seca:

Já temos saído outras vezes com a procissão em anos de seca. Nós somos religiosos e temos fé com a santinha. Já saímos daqui uma vez, estava um sol de rachar, não havia uma nuvem, não havia nada. Saímos só com a san- tinha. Aí não saem mais santos nenhuns. Normalmente, sai a Senhora da Estrela, sai a Senhora do Rosário, a Senhora do Carmo e o Santo António. Mas quando é essa procissão que fazemos, que é a Procissão da Seca, só sai a Senhora da Estrela. E essa vez que saímos com ela, aqui mesmo, começa- ram a aparecer umas nuvens que, quando chegámos aqui à baixa, estavam escorrendo água. Isto parece incrível. Um dia de sol de rachar! Começou a chover, e choveu todo o dia.

A adoração dirigida a Nossa Senhora da Estrela, cuja imagem perma- nece na igreja, próxima do altar, demonstra bem o papel do orago da aldeia na relação que os habitantes estabelecem com a divindade. O facto de o santo padroeiro da Póvoa (São Miguel), freguesia da qual a Estrela é termo, não gozar da popularidade da Senhora da Estrela poderá even- tualmente explicar-se pelo estatuto que a aldeia detinha até deixar de ser freguesia. A invocação da santa da aldeia impõe-se sempre que as águas da chuva tardam, realizando-se para esse fim a Procissão da Seca. Mas a «fé com a santinha» é anualmente exacerbada na festa da Senhora da Es- Aldeia da Estrela

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Quadro 1.17 – Religião segundo o sexo (N)

Homens Mulheres Total

Sem religião 1 0 1 Católico/a não praticante 23 26 49 Católico/a praticante 0 8 8 Total 24 34 58

trela, que envolve uma procissão, seguida de uma largada de vacas e touro. A separação entre os ritos religiosos (missa e procissão) e as cele- brações profanas que a festa envolve (largada, fogo preso, rancho folcló- rico) é quebrada no momento em que à santa é oferecido um animal macho – o «touro da senhora» –, cuja carne é distribuída pelos habitantes. Esta é uma forma de os homens manifestarem a devoção à santa, pois a largada é um ritual introdutório, para os rapazes, e performativo da mas- culinidade. Com a procissão, é costume as imagens da Senhora do Ro- sário, da Senhora do Carmo e de Santo António acompanharem a da santa padroeira, porém sublinhe-se que só a esta é oferecido o touro.

Deste modo, a exaltação do orago a pretexto da qual a festa da aldeia é celebrada permite acalentar o sentimento de identidade. Apesar de não negarem as ligações de amizade, e mesmo familiares, que encontram nas povoações das redondezas – nomeadamente, na Póvoa de São Miguel –, os entrevistados dizem-se da Estrela. Contudo, este sentimento não se alimenta apenas da religiosidade manifesta nas cerimónias dedicadas à santa da aldeia e dos laços de consanguinidade unindo toda a comuni- dade num corpo familiar. A identidade da Estrela alicerça-se também no facto de a todos ser comum a origem rural, pouco desafogada e predo- minantemente assalariada. Além disso, e independentemente do desa- fogo que a emigração tenha permitido a alguns, a proximidade social entre os habitantes decorre ainda hoje da preponderância da condição de trabalhador assalariado, proximidade essa que não se faz observar ape- nas no contacto quotidiano entre os habitantes, mas na participação ac- tiva dos emigrantes nos ritos da aldeia, tal como atesta a realização da festa da Senhora da Estrela no mês de Agosto, precisamente «para apa- nhar os emigrantes».

Seria, contudo, precipitado concluir que esta identidade resultante da consanguinidade, da partilha de uma via quase exclusiva de contac to com a divindade e da proximidade social se reflecte num fechamento da co - munidade sobre si própria. Na realidade, a identidade da Estrela vai cada vez mais sendo o produto do modo como a comunidade reage à mu- dança. Sobretudo a emigração permitiu a muitos habitantes o contacto com outras culturas, como se lê desde logo na diversidade de fachadas das casas que constroem. Neste sentido, a fachada das habitações cons- truídas pelos emigrantes da Estrela demonstra claramente que as frontei- ras espaciais não são simplesmente obstáculos separando doméstico e privado, mas também elementos de comunicação entre interior e exterior através da justaposição de elementos decorativos que simbolizam a tra- jectória de emigração (Villanova et al. 1995). A emigração veio propor- Inquérito sociológico à população da Estrela 01 Aldeia da Estrela Parte I.qxp_Layout 1 05/03/15 10:30 Page 63

cionar a alguns casais um desafogo inacessível aos que ficaram na aldeia, confrontando-os simultaneamente com a probabilidade de os filhos op- tarem pela instalação definitiva no país que os acolheu desde o berço. A emigração revela ainda a permeabilidade a modelos culturais mais igua- litários do ponto de vista da partilha das tarefas domésticas. De igual modo, o recente divórcio de alguns casais contribui para que hoje a maio- ria dos habitantes considere o divórcio a melhor solução para um mau casamento.

Mas a vontade de deixar a aldeia em busca de oportunidades e a even- tual prosperidade económica não se traduziram, entre os primeiros emi- grantes, num desejo de permanecer no país de acolhimento – ainda que seja em grande parte dos casos esta a opção dos seus filhos –, da mesma forma que a suposta abertura a valores mais modernistas adquire pouca expressão no quotidiano da Estrela. Os primeiros emigrantes regressaram, a divisão das tarefas rígida e desigualitária permanece, ao homem cabe o principal papel no sustento da economia doméstica, assim como preva- lece um modelo familiar que atribui maior peso à opinião masculina, in- dependentemente da sabedoria prática que permite à mulher «levar» o parceiro.

O contacto que os emigrantes estabelecem com as culturas exteriores possibilita uma leitura do modo como as famílias lidam com a mudança. O seu regresso revela sobretudo o vigor do sentimento de pertença à Es- trela. Família, religião e assalariamento são as palavras-chave para com- preender este sentimento e, assim, a forma como a comunidade vem rea- gindo à mudança.