Segundo Miller (2004, p. 52), é o trabalho feito com tinta preta e suas sombras em cinza são colocadas na pele com uma única agulha. A técnica teve origem nas penitenciárias. Os prisioneiros improvisavam máquinas de tatuar com pequenos aparelhos elétricos. Os pigmentos eram também feitos por eles próprios e utilizavam-se de cinzas de cigarros e tinta de caneta. Esse estilo foi aperfeiçoado pelos tatuadores no final dos anos setenta e início dos oitenta e recebeu o nome de preto e cinza (Ver fig. 33).
Figura 33 - Tatuagem no estilo preto e cinza74
2.3.13. Realista
Segundo Marques (1997, p. 81), o estilo realista é aquele que reproduz uma imagem qualquer, seja o fotograma de um filme ou uma paisagem, um bicho de estimação ou um quadro. Apresenta desenhos que imitam o mundo real (Ver fig. 34).
74
Figura 34 - Exemplo de tatuagem realista: "bebê"75
2.3.14. Religiosas
Segundo Araújo (2005, p. 77), têm como inspiração motivos religiosos, como personagens bíblicos, santos, cruzes, salmos, preces e votos de todas as tradições religiosas; imagens de santos, de Cristo, de Nossa Senhora Aparecida, de São Jorge e o dragão, de deuses hindus, etc. (Ver fig. 35)
Figura 35 - Tatuagem religiosa76
75
Disponível em < http://www.terra.com.br/jovem/falaserio/2006/10/27/000.htm>. Acesso em 09/12/2007.
76
2.3.15. Retratos
Segundo Marques (1997, p. 81), são tatuagens que apresentam imagens realistas que reproduzem o rosto de parceiros, ídolos populares, familiares ou celebridades (Ver fig. 36).
Figura 36 - Exemplo de tatuagem de retrato.77
2.3.16. Tatuagem de prisão
São tatuagens normalmente feitas em período de detenção. Servem também para denominar um estilo mais rudimentar do processo de tatuagem; normalmente são feitas sem a máquina de tatuar (Ver fig. 37).
Segundo Araújo (2005, p. 32), nas prisões brasileiras a tatuagem ainda hoje é feita de um jeito bastante rudimentar. Os detentos utilizam-se de escovas de dente,
77
agulhas, motor de barbeador e tinta de caneta e correm, portanto, risco de contrair doenças graves, tais como hepatite tipo C e AIDS.
Em prisões de qualquer país, os detentos se tatuam ou são tatuados como forma de identificação de alguma facção a qual pertençam. Segundo Mirela Berger, mestre em Antropologia pela Universidade de São Paulo em entrevista à revista Super Interessante, “Ao longo do tempo, a tatuagem acabou virando a marca dos marginais, diferentes do resto da sociedade.”78
Segundo Paredes (2003), especialista em Tratamento Penal e Gestão Prisional pela Universidade Federal do Paraná, as tatuagens em detenção nas penitenciárias
não são feitas para enfeitar ninguém, elas contam histórias, se comunicam e mantém distâncias, mostram quem é o preso, o crime que praticou e o que se deve sentir por eles, seja medo ou desprezo. Entre o emaranhado de declarações de amor, [encontram-se] iniciais de nomes riscados na pele, seja com objetos pontiagudos como clipes, pregos, arames, e outros.79
Figura 37 - Exemplo de tatuagem de prisão80
Segundo Pires (2005, p. 61), em 1914, quando estourou a Primeira Guerra Mundial, Franz Kakfa escreveu a novela Na Colônia Penal. Nessa obra, o autor
78
BERGER, Mirela. O significado da tatuagem ao redor do mundo e ao longo do tempo. In REVISTA SUPER INTERESSANTE. Assunto principal: tatuagem. 159. ed. Dezembro/2002, p 66-69. 79
PAREDES, Cezinando Vieira. A influência das tatuagens nos presos no interior das
penitenciárias. Monografia (Apresentada como requisito parcial à obtenção do grau de Especialista em Tratamento Penal e Gestão Prisional do curso de Pós-Graduação) - Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2003. Disponível em:
http://www.pr.gov.br/depen/downloads/monografia_cezinando.pdf. Acesso em 01/03/2007. 80
descreveu com precisão um aparelho de tortura que tatuava no corpo do indivíduo a pena pelo crime cometido. Nessa novela, a tatuagem é usada para impregnar no corpo do réu uma frase referente ao motivo que o sentenciou à morte.
Pires (p. 63), examina ainda as marcas que funcionam como um sinal de exclusão social e comenta as tatuagens nazistas:
O exemplo mais contumaz desse tipo de marca nos foi dado durante a Segundo Guerra Mundial (1939 a 1944), quando o indivíduo pertencente às chamadas raças inferiores – compostas por judeus e homossexuais – teve seu corpo desapropriado e torturado pela doutrina que pregava a suposta superioridade da raça ariana: o nazismo. Ao chegar aos campos de concentração, após ser despojado de tudo que ainda lhe permitisse manter sua identidade, o sujeito era marcado por um número tatuado em seu antebraço. A real função dessa tatuagem não era identificar o sujeito dentro do campo, mas sim identificá-lo a si próprio e aos outros como pertencente à escória social.
Ramos (2006, p. XI) discorre sobre esse tipo de tatuagem:
...A tatuagem está aí, como um grito de liberdade para quem a imprime em si mesmo, ainda que carregue um forte componente anti-social. É um ato de vontade que algumas pessoas querem exercer, como se afirmassem o pleno direto a seu corpo, como se afirmassem que o corpo, emulando o sociólogo canadense Marshall McLuhan, é a mensagem. Nem sempre foi assim. Em Auschwitz, na Polônia, durante a Segunda Guerra Mundial, faziam-se tatuagens, mas não eram, longe disso, gritos de liberdade ou atos de vontade. As tatuagens, marcas ou números de identificação, eram aplicadas à força nos prisioneiros, principalmente judeus, cerca de 90%, e ciganos. Por lá, o corpo também era mensagem, comunicando a quem quisesse entender que havia dor no mundo e, mais que dor, que se perdia o sentido da humanidade. Ao invés de congregar, significado do termo humanidade, a mensagem dos campos era a não-aceitação do outro (étnica, religiosa, política, econômica, sexual e socialmente). Numa palavra, a intolerância.81
Segundo Ramos (2006, p. 107),
A tatuagem no contexto dos campos nazistas foi concebida como matrícula na sociedade dos excluídos, signo de controle político dos segregados da cultura dominante. Entretanto, nos anos subseqüentes à libertação dos campos, essa marca tatuada comunicava, e ainda comunica, a vivência nos campos, transformando o corpo dos ex-deportados em um documento político, e a tatuagem, impressa nesse corpo, um símbolo de autenticidade da deportação.
81
RAMOS, Célia Maria Antonacci. As nazi-tatuagens: inscrições ou injúrias no corpo humano? São Paulo: Perspectiva, 2006 Apresentação.
Há sobreviventes de campos nazistas espalhados pelo mundo, mas suas tatuagens sempre carregam uma história muito triste. Foram tatuagens feitas à força. Tais indivíduos foram marcados como se fossem gado (Ver fig. 38).
Dave Navarro, roqueiro e guitarrista do grupo Red Hot Chili Peppers, que tem o corpo cheio de tatuagens, foi inspirado a fazer uma tatuagem bem especial após conhecer, em um avião, uma mulher que mostrou a ele suas marcas feitas em um campo de concentração.
O guitarrista ficou tão comovido que decidiu fazer um tributo permanente à mulher, conforme conta:
Eu estava em um avião quando uma mulher começou a olhar minhas tatuagens e disse ‘Eu também tenho uma tatuagem, mas não foi escolha minha’. Então ela arregaçou a manga e me mostrou os números em seu braço. Ela tinha estado em Auschwitz. Seu nome era Rose e eu fiz uma tatuagem para homenageá-la, onde está escrito ‘I Have One But Not By Choice’ (Eu tenho uma, mas não foi escolha minha) e há uma figura de uma rosa. É a mais incrível que eu tenho 82
Figura 38 - Tatuagem de campo de concentração
82
Entrevista do artista ao site contact music em 05/10/2006. Disponível em:
http://www.contactmusic.com/news.nsf/article/navarros%20auschwitz%20tribute%20tattoo_1010088. Acesso em 22/03/2007. Tradução nossa.
2.3.17. Tebori ou Sumi
Tebori é um método manual tradicional utilizado para tatuar. A tatuagem desse
estilo é feita com as mãos, sem o tatuógrafo. Ela apresenta um resultado mais delicado que as feitas pela máquina.
Como a tatuagem oriental normalmente ocupa grandes espaços na pele, às vezes até quase o corpo todo, como por exemplo, nos body suits japoneses, o processo feito pelo tebori demora meses e até mesmo anos para ser concluído.
O tebori é executado de uma maneira artesanal, desde o preparo das tintas, das agulhas até a inserção da tinta na pele. É feito com hastes de bambu, madeira ou marfim. São usadas entre duas e cinco agulhas para fazer as linhas mais finas do contorno. Para as linhas mais grossas são usadas de dez a doze agulhas (Ver fig. 39).
Alguns tatuadores brasileiros estiveram no Japão para aprender a técnica tebori e já se especializaram.
Figura 39 - Artista não identificado tatuando no método tebori83
83
Disponível em < http://design.leerjohnson.com/tattoomethods/japanese.html>. Acesso em 09/12/2007.