A partir da diferenciação socioespacial, no contexto de produção do espaço urbano, alguns aspectos podem ser elencados para a compreensão dos elementos da morfologia urbana nas cidades, visto que a diferenciação revela-se como justaposição entre uma morfologia social (promovida pela diferenciação das classes na sociedade) e pela morfologia espacial (produzida pelas diferenças nas formas e modos de acesso aos espaços da vida, através do uso) (CARLOS, 2007, p.49).
Considerar as relações entre as cidades contemporâneas e a globalização no âmbito da produção do espaço urbano exige uma análise não somente das transformações no plano das relações espaciais, mas também, no plano das formas espaciais urbanas (objeto da morfologia), uma vez que a cidade imprime em suas formas uma sobreposição de tempos, que constituem paisagens urbanas fisionomicamente distintas (WHITACKER, 201344). Ainda de acordo com o autor a opção pela perspectiva da morfologia urbana45 é que ela denota uma investigação conjunta dos processos criadores de formas espaciais e de sua capacidade, mais ou menos limitada, de influenciar na reprodução de processos socioespaciais.
Esta concepção parte do pressuposto de que o urbano é forma cumulativa de todos os conteúdos, resultantes da indústria, técnicas, relações sociais, vinculando-se de um lado à
44 WHITACKER, A. M. Morfologia Urbana. Urbanização e Produção do Espaço. PPGG/FCT/UNESP, 2013. [notas
de aula].
45 A opção pelo estudo da morfologia urbana se faz porque ela integra um conjunto de elementos que não se
limita a determinação das formas espaciais, mas, permite identificar a gênese na relação espaço-tempo que construíram tais formas espaciais, complexificando a análise atribuindo-lhe maior conteúdo, visto que expressa também uma ideologia e materialização de poder sobre a cidade), tal como orienta Sposito (2011, p.136) e Whitacker e Miyazaki (2012), cujos termos já descritos por Roncayolo (1990).
57 lógica da forma, e de outro à dos conteúdos (LEFEBVRE, 1991), por isso ser apreendido enquanto fenômeno urbano (articulação de funções, estrutura e formas) que apesar de necessárias para compreendê-lo, não são suficientes para defini-lo (LEFEBVRE, 1999). Segundo Sposito (2011), a morfologia vai muito além das formas, e embora parta delas, apreende as contradições do seu conteúdo:
O que quero retomar com essa revalorização do conceito de morfologia urbana é o sentido da articulação entre as formas, os processos e as lógicas que ensejam as dinâmicas de estruturação, segundo as quais podemos compreender essas relações. Segundo essa perspectiva, o conceito de morfologia urbana, embora próprio para a escala do espaço urbano, pode ser adotado para a escala interurbana (SPOSITO, 2011, p.137).
A morfologia urbana enquanto conceito remete a necessidade de fundamentação do caráter social na transformação do espaço, e consequentemente, da forma de organização e distribuição dos elementos naturais e urbanos na cidade, que resultam de decisões no plano das ações, daqueles que têm poder de decisão.
De acordo com Whitacker e Miyazaki (2012, p.318) a morfologia urbana a partir da paisagem e suas formas no sentido geográfico permite ser o ponto de partida, ou de chegada, na análise das relações entre o sítio urbano e a estrutura da cidade (admite inferir tempos, sobreposições, dinâmicas, processos da cidade ou da aglomeração urbana em diferentes escalas - da cidade em sua totalidade, ou áreas da cidade, edificação, das áreas homogêneas). Para tanto, de acordo com Whitacker e Miyazaki (2012, p.322), deve-se partir de um conjunto prévio e complexo de elementos, tais como: as características do plano e do
sítio urbano, homogeneidades nas formas ou usos, os limites físicos, densidade de ocupação, topografia, os acidentes geográficos etc (que não se limitam a forma urbana,
mas a contempla, envolvendo a paisagem que compõe a realidade), que são retomados, por exemplo, desde a tradição da Escola Conzeniana46 (WHITEHAND, 2001).
Um aspecto fundamental e que se associa à perspectiva desta pesquisa é que a morfologia urbana pode expressar as tramas da desigualdade na cidade, anunciando nas
46 A Escola Conzeniana de pensamento fundada por M. R. G. Conzen tem seu início imediato que antecede o
final dos anos XIX. Conzen foi o primeiro a reconhecer a divisão tripartite da paisagem urbana (plano da
cidade, estrutura dos edifícios e a utilização dos terrenos e edifícios). Para tanto desenvolveu análises em
escalas, micro áreas, definindo a precisão dos limites e dimensões dos lotes, e a importância na reconstrução da história das cidades. Além de introduzir os conceitos de Fringe belts, Ciclo Burgage, Região morfológica (WHITEHAND, 2001, tradução e interpretação da autora).
58 formas e funções a complexidade inerente à produção do espaço urbano. Quanto a isso, Capel (2002, p.68) salienta:
Puede hablarse de un paisaje de la riqueza y de la pobreza, con características morfológicas diferenciadas entre sectores ricos y pobres de la cuidad. Dichos rasgos se reflejan en la calidad constructiva de los edificios y en los espacios públicos. Y hacen similares con gran frecuencia a los barrios de las clases populares de todas las ciudades del mundo.
De acordo com Rego e Meneguetti (2011, p.125) o que chama atenção primeiramente no desenho de uma cidade é a sua tessitura, a trama dos seus elementos. O tecido urbano se configura “pelo sistema viário, pelo padrão do parcelamento do solo, pela aglomeração e pelo isolamento das edificações assim como pelos espaços livres”. Em relação aos elementos do tecido da cidade destaca-se as edificações, ruas, quadras e lotes, parques, praças e monumentos, nos seus mais variados arranjos (REGO e MENEGUETTI, 2011, p.125).
A morfologia urbana, portanto, permite não apenas e exclusivamente o estudo da cidade, mas sua planta, posição e situação geográfica caracterizam um conjunto peculiar inserido no território desigual de apropriação do espaço e o conjunto de formas urbanas, sejam elas planejadas ou espontâneas, constitui o cenário de análise e intervenção urbana.
Diante disso, admitem-se as contradições inerentes à própria natureza da cidade na sociedade contemporânea, que são ditas por Rodrigues (2011, p.211, grifo nosso) ao demonstrar os rebatimentos da matriz atual de abordagem dos problemas urbanos, que inverte a lógica do sujeito e da desigualdade:
As novas matrizes discursivas, ao mesmo tempo em que ocultam os verdadeiros responsáveis pelos problemas - aqueles que se apropriam e são proprietários dos meios de produção, da terra, das riquezas - e atribuem a responsabilidade aos "consumidores" e aos pobres que ocupam as piores áreas, que não interessam ao setor imobiliário, obscurecendo a essência da desigualdade e da segregação socioespacial, ocultando a importância do território, do espaço e da sociedade.
A partir do momento em que é possível distinguir na cidade uma divisão econômica e social do espaço, retomando as ideias de Carlos (2007) e Corrêa (2007), divisão esta pautada na separação daqueles que as ocupam, só resta concluir que a produção da cidade expressa desigualmente em suas formas e no conjunto da morfologia urbana que nem todos tem poder de decisão.
59 A colocação de Rodrigues (2011), a seguir, demonstra um pouco da tendência e lógica de produção do espaço observada nas cidades, assim como se verifica em São Carlos e Marília, com deslocamentos de famílias e bairros inteiros de segmentos sociais menos favorecidos e sua "disposição47" em setores geográficos mais ou menos propícios no âmbito de infraestrutura ou características do sítio selecionado, muitas vezes distante, de difícil acesso e/ou, em áreas de risco. Assim, observa-se que:
Os ocupantes de terra para moradia estão nas "piores" áreas, aquelas que não interessam ao capital, e são tidos como dilapidadores do "meio ambiente". Quando as áreas ocupadas passam a ter interesse para o capital, no entanto, a população é removida, criando conflitos mediados pelo Estado (RODRIGUES, 2011, p.214).
As estratégias de configuração do espaço, que produz tempo e cria espaços (SANTOS, 1996, p.16), não mais naturais, mas historicizados (SANTOS, 2002, p.119), materializam-se na morfologia urbana, que oferece um conjunto de elementos de interpretação das formas e funções da cidade, cuja lente de análise em muito contribui para o estudo que se objetiva.