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7. MATSIKKERHET

7.2 H VORDAN EVALUERE MATSIKKERHET ?

7.2.3 Gulbrandsen og Lindbeck

No universo de múltiplos encontros em que se formaram as cidades latino-americanas, vale ressaltar que nem sempre as diretrizes para a implantação de seus reticulados espanhóis - ou a espontaneidade portuguesa - estavam em sintonia com a cultura nativa. Ou seja, não era regra fixa a absorção pelo europeu da cultura indígena; embora o contrário fosse sua obrigação. Portanto, a miscigenação se fez em muitos momentos, mas foi a pluralidade cultural, causada pela convivência entre culturas, que melhor caracteriza esse diálogo. Apesar da dizimação feita em solo americano na captura de seus metais escondidos ou não, já utilizados ou em seu estado de pureza, a conquista feita pelos espanhóis se aproveitou de uma certa organização, previamente encontrada na cidade indígena. Ao agir dessa maneira, estava articulando o melhor funcionamento da empresa colonial, aproveitando a linguagem visual já estabelecida nessas comunidades. Os espanhóis, ao descreverem e ocuparem a cidade, deram uma aparência conhecida, a eles mesmos.17 Havia um centro detentor de poder e importância que precisava apenas transferir quem dele se apropriava. E para isso se aproveitaram do

princípio articulador da cidade renascentista, ao redor de um núcleo representante do poder real. Denotaram atenção especial ao centro e à construção de edifícios que foram responsáveis pela hierarquia dos espaços urbanos, mantendo a memória indígena e sua concepção de conjunto. Cenograficamente, o poder do colonizador foi estruturado a partir do edifício da Igreja, expressão mais legível da estrutura militar e disciplinada que eram as reduções.

De fato, a colonização da América foi barroca por ter sido essa a característica que permitiu a manifestação do acervo cultural indígena. Contraditório, mas não menos verdadeiro. Tanto Portugal como Espanha queriam colônias que fossem parecidas, visualmente, consigo mesmas. Articularam, implantaram seus traçados, mas se esqueceram de ritos e bagagens ancestrais que eram transferidos de geração em geração entre os índios, impossíveis de serem exterminados. Assim é que as representações espaciais mostravam a ânsia pelo novo, pela organização e estipulação do estrangeiro; e, ao mesmo tempo, não conseguiam deter demonstrações de pertencimento ao solo, já arraigadas na convivência entre os nativos. O indígena se viu, aos poucos e constantemente, participante de um universo que teatralizava a realidade a partir do cristianismo, repetindo comportamentos alheios aos seus, embora os significados fossem compreendidos e incorporados em sua cultura. A partir desses contatos interculturais, a América conseguiu sedimentar suas formas de percepção do mundo, aproximando-se muito mais a uma história arcaica e barroca do que moderna.

Ramón Gutiérrez (2001) completa tal pensamento, considerando positivo ou mesmo “saudável” o caráter de formação do nosso barroco, em que o elemento nacional saiu ganhando justamente por não se fazer independente. Indígenas e europeus utilizaram o espaço para estilizar suas representações plásticas e sociabilizantes, justapondo-as.

Os americanos recorrem à arquitetura apropriada, aquela que é própria e que dominam, aquela que é adequada às suas circunstâncias e aquela que se apropria de espaços, formas e conceitos que são pertinentes para dar adequada resposta a suas necessidades materiais e espirituais. Nosso barroco terá sempre componentes europeus, mas jamais poderá explicar-se exclusivamente por eles, pois responde a outros contextos sociais e culturais.18

Cidades planejadas e sua aplicação como tal, no Brasil, só ocorre de maneira expressiva a partir do século XIX, com a implementação de traçados regulares como Belo Horizonte em 1893. Precisou-se constatar realmente a decadência do ouro em núcleos como Ouro Preto, para que novas propostas de controle e ordenação efetivas do espaço fossem realizadas. O

18 GUTIÉRREZ, Ramón. Repensando o Barroco americano. In: Vitruvius. Arquitextos 019.01, [s. l.]: Romano

desejo renovador se aliava às questões do pensamento liberal que se aproximava, lançando os primeiros passos para o urbanismo de uma época moderna. Apesar de seu traçado reticulado e ortogonal dentro do anel da Avenida do Contorno, Belo Horizonte é esse contraste barroco, tensão de uma cidade contida e explosão de limites.

Para Andrade (1989), em sua análise dos espaços, o barroco significou a completa aceitação e abertura da cidade à luz que fora almejada no Renascimento, conseguida pelas configurações geométricas do planejamento urbano. Dessa maneira, o caráter militar e vigilante se tornou implícito, mas foi constantemente reforçado por jogos de perspectivas abertas, que destacavam a posição do rei, seu poder e seu palácio. A luz foi então um instrumento que valorizou a posição e visão do soberano, levadas ao habitante comum da cidade, que adquirira a ilusão de estar participando da engrenagem urbana; uma característica persuasiva barroca. Belo Horizonte é, dentro desse enfoque, uma versão republicana do poder real em continuação, embora no contexto moderno que previa a reordenação da sociedade pelo Estado. Murilo Marx19 já comparara Belo Horizonte a La Plata: cidade também latino- americana que fora planejada para conter utopias em traçados então materializados. Semelhantes na concepção, projeto e construção, resumiam-se na palavra controle. A República foi o sistema que tornou possível a mudança da sede do governo de Vila Rica para o Curral d’El Rei, impedida anteriormente pelo centralismo do Império. “A cidade vai ser fator de identificação (fusão, co-fusão, confusão) entre o homem comum e o dirigente, como acontecia nas capitais barrocas”.20

Já as ruas das cidades coloniais mineiras precisavam ser o palco para a opulência encontrada, comportando-se como espaços para a manifestação religiosa, em festividades que comemoravam nascimentos, batizados, entrada de capitães-gerais e governadores e a chegada de membros católicos ou casamentos. No ano de 1748, é relatada a entrada triunfal de Dom Frei Manuel da Cruz na cidade de Mariana, para a instalação do bispado. Na leitura do documento, evidencia-se a “vontade de Deus escolasticamente inscrita na ordem das coisas e profeticamente figurada nos fatos e na natureza”.21 Foram realizados oito dias de festa,

[...] com grande solenidade e assistência de todo o principal destas Minas, fazendo-se- lhe uma aparatosa procissão triunfal, que se compunha de dois famosos carros

19 MARX, Murilo. A formação das cidades no Brasil. (Palestra Magna apresentada no Seminário sobre

patrimônio histórico: o estatuto da cidade e a gestão urbana de sítios históricos. Realizada no CREA-MG, Belo Horizonte, em 22 de junho de 2004).

20 MAGALHÃES, Beatriz de Almeida; ANDRADE, Rodrigo Ferreira. Belo Horizonte: um espaço para a

república. Belo Horizonte: UFMG, 1989, p. 57.

21 FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida; CAMPOS, Maria Verônica (Org.). Códice Costa Matoso. Belo

triunfantes, cheios de música, cantando várias letras, repetindo muitos vivas, que pareciam os próprios anjos.22

A Igreja detinha e fortalecia seu poder, se exibindo pelas procissões que eram acontecimentos imperdíveis, festas esperadas e coordenadas; assim como era planejado o seu trajeto, adaptado às ruas que melhor acomodassem os rituais. Para tal, contribuíam as fachadas dos templos, bastante paramentadas para que definissem o caminhamento da via, então sacra, fazendo o papel de altares voltados para o uso em grande escala. Importantes peças desse aparato eram os “passos”, reduzidas capelas que se abrem, até os dias atuais, nas festas da Paixão. Representam uma grande proximidade entre as igrejas e as ruas, como se a cidade fosse um grande templo marcado por, geralmente, quatorze altares enfeitados e adequadamente posicionados para receber a celebração a céu aberto. É notório um documento enviado à coroa pelos oficiais de Vila Rica pedindo a D. João V que ordenasse as irmandades e confrarias da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias para que assistissem “infalivelmente à procissão pública de Corpus Christi em todo o seu giro”.23 Foram utilizadas frases que explicitam a religião e o divino culto como a primeira base de toda a monarquia, sendo repugnante aos oficiais da Câmara a ausência das citadas irmandades e confrarias no acompanhamento ao Santíssimo Sacramento.

Foi feita solicitação24 à Rainha, através do provedor e de outros oficiais da Irmandade do Santíssimo Sacramento de Nossa Senhora do Pilar de Vila Rica, para que se regulamentassem os lugares que deveriam ocupar os membros da dita Irmandade e os das Ordens Terceiras durante as procissões, juntamente ao clero e aos cavaleiros ao longo de seu percurso. Transferências e hierarquia religiosas retratavam a ordem e o equilíbrio da mensagem barroca, comovente por meio de seu aparato festivo e religioso. As festas incitavam a participação da sociedade e, ao mesmo tempo, davam-lhe o constante recado de quem é que deveria ser seguido. Os grêmios e as confrarias, originários de grupos artesãos, tinham a oportunidade de fazer parte, nesse momento, da vida urbana colonial, confeccionando estandartes, retábulos, mastros, bandeirolas ou arcos coloridos e enriquecidos com ouro, para serem levados às ruas.

Os limites entre o poder religioso e a atuação dos fiéis ou das confrarias chegavam a se confundir em certos momentos, como demonstra um fragmento de uma consulta feita ao Conselho Ultramarino: existiam dúvidas entre a jurisdição eclesiástica e a secular, em

22 FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida; CAMPOS, Maria Verônica (Org.). op. cit., p. 664. 23 ARQUIVO Histórico Ultramarino – AHU Brasil/MG, Cx. 36 doc. 70, Vila Rica, 26/10/1738. 24 ARQUIVO Histórico Ultramarino – AHU Brasil/MG, Cx. 119 doc. 3, Vila Rica, 8/1/1783.

referência à tomada de contas das confrarias existentes no bispado de Mariana.25 Ou em outra Representação dos Oficiais da Câmara de Vila Rica, contra a obrigação da despesa com a celebração religiosa pelas irmandades, solicitando ordem ao rei para que pusesse fim a esse “abuso”, em relação à matriz de Ouro Preto.26 Os gastos eram altos e problemas existiam para custeá-los, no tocante às rendas municipais, pois eram festas obrigatórias. Havia um calendário cristão a seguir, e punições severas exigiam o comparecimento ao uso coletivo do espaço urbano, inclusive de moradores que vivessem próximos a alguma sede municipal. Esses eventos preenchiam as áreas urbanas, ultrapassando os objetivos litúrgicos e sua função cívica. “Tornavam-se verdadeiros espetáculos de fé como desejava a Igreja e de fidelidade à metrópole, como desejava a Coroa”.27

Acima de tudo, tais solenidades a céu aberto eram demonstrações do nível de riqueza daquela povoação e, principalmente, do potencial criativo local e regional. Os moradores eram incitados a conservarem suas casas limpas, caiadas e preservadas para a passagem das procissões, enfeitando portas, janelas e balcões, mesmo para comemorações locais. O requinte a que tais festas chegavam pode ser ilustrado pela já citada procissão de Corpus Christi e as festas reais de determinado santo, além daquelas estipuladas nas Constituições da Bahia para algumas corporações de religiosos e leigos. Nem sempre tais festejos eram documentados, como no caso do Triunfo Eucarístico, em Vila Rica, no ano de 1733; ou a recebida do novo bispo de Mariana, em 1748, registrada no Áureo Trono Episcopal.

Este último, relata a posse de Dom Frei Manoel da Cruz, ditado em Lisboa em 1749. Representa uma visão geral da civilização que foi manifesta artisticamente a favor do barroco. Foi feito um programa diversificado de comemorações em Mariana, tanto religiosas quanto profanas. Coreografias e números musicais foram arranjados, anunciados a todo o povo que presenciou procissões, desfiles alegóricos, iluminação especial, missas, teatros e o recitar de poesias, que iam ocupando os espaços vivos em acontecimento da cidade. Roupas e decoração cuidadosas ajudavam a compor uma espécie de carnaval dos nossos tempos, tamanha atração que causavam, de cunho apelativo e religioso. Por outro lado, aos índios e negros era permitida a participação, como acompanhantes rítmicos de danças folclóricas. A literatura também se destacava nessa comemoração barroca, que se preocupava com o conteúdo intelectual das solenidades; o Áureo Trono reproduziu mais de vinte e cinco composições poéticas em português, espanhol e latim, conforme estudos de Ávila (1980). Não é objetivo

25 ARQUIVO Histórico Ultramarino – AHU Brasil/MG, Cx. 57 doc. 61, 1750.

26 ARQUIVO Histórico Ultramarino – AHU Brasil/MG, Cx. 80 doc. 50, Vila Rica, 16/06/1762. 27 MARX, Murillo. Nosso chão: do sagrado ao profano. São Paulo: [s. n.], 1989, p. 66.