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Guidance to promote consistency and soundness of practices when

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Quando entrevistado, Júnior estava cursando o 6º semestre do curso de Matemática no IFCE. Morava no distrito de Curral Velho, município de Crateús, com sua família: pai, mãe e um irmão mais novo. É usuário do PNAES (auxílio transporte) e ingressou na universidade pela Lei de Cotas, na modalidade “Candidatos autodeclarados pretos, pardos ou indígenas, com renda familiar bruta per capita igual ou inferior a 1,5 salário mínimo e que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas”122.

Os pais de Júnior são agricultores e a renda da família é proveniente unicamente desse trabalho, complementada pelo PBF. Aos finais de semana e também em alguns dias da semana, ele ajuda a mãe com a plantação e criação de animais de pequeno porte no terreno localizado no quintal de casa, enquanto o pai trabalha nas terras de outra pessoa, sob a modalidade de arrendamento123.

Para chegar diariamente ao IFCE, Júnior desloca-se cerca de 32 quilômetros de moto, uma parte da estrada é carroçal e a outra, coberta por asfalto. O auxílio-transporte no valor de oito reais por dia custeia parte do combustível. Seu irmão também estuda no IFCE, estava matriculado no 4º semestre do curso de Física. Inicialmente, iam juntos ao Instituto no período da tarde, mas, com as reprovações, Júnior teve que cursar componentes curriculares também no horário da noite. Assim, no semestre de realização da entrevista, apenas às quartas e quintas era possível os irmãos fazerem esse percurso juntos.

Antes de ingressar em Matemática, ele havia feito o curso técnico em Agropecuária também ofertado pelo IFCE. Ele recordou que a primeira motivação, quando concluiu o Ensino Médio, foi fazer um curso técnico, e a sua escolha recaiu sobre o curso de Agropecuária, porque desde criança ajudava os pais na agricultura. Logo após concluir esse curso, relatou que gostou tanto do IFCE que “entrou para Matemática” (informação verbal)124.

4.2.1 Práticas socializadoras familiares

Os pais de Júnior não concluíram o ensino fundamental, tendo, ambos, parado de estudar na 4ª série. Para seus genitores, deixar de estudar não havia sido uma opção, tiveram

122 Refiro-me à legislação de políticas afirmativas, a lei de cotas instituída pela Lei nº 12.711/2012. Essas modalidades estão descritas nos editais de seleção.

123 Arrendamento é um contrato de cessão de um fator de produção, pelo qual seu proprietário o entrega a outro para ser explorado, mediante determinada remuneração.

que começar a trabalhar muito cedo e, além do mais, na localidade onde haviam nascido e onde moram até os dias de hoje não há escola, o deslocamento para Crateús era muito difícil. Naquela época, “Não existia ônibus da prefeitura, o transporte dos meus pais era cavalo, eles não tinham cavalo, aí ficavam dependendo de quem tinha”.

Júnior cursou o ensino fundamental numa escola pública municipal localizada no distrito vizinho ao que morava. No ensino médio, estudou numa escola da rede estadual em Crateús. Seu percurso escolar foi sempre junto com seu irmão, que é dois anos mais novo que ele. Eles se deslocavam juntos e permaneciam na escola o mesmo período. No entanto, Júnior reprovou duas séries, o 7º ano do ensino fundamental II e também o 1º do ensino médio, fato este que os levou a estudarem também na mesma sala de aula. Ele relatou que o irmão sempre foi mais estudioso que ele, no entanto ele seria o mais preocupado em ajudar a família. “Enquanto eu ajudava meus pais, ele (seu irmão) ficava estudando. Ele sempre quis se formar, eu não, queria fazer um curso técnico e começar logo a ganhar dinheiro. Ter minhas coisas, ajudar meus pais” (informação verbal)125.

De acordo com Júnior, seus pais sempre os incentivaram a estudar, deixando bem claro que, se também tivessem tido condições, teriam concluído seus estudos e provavelmente não estariam trabalhando na agricultura.

Meus pais sempre dizem pra nós que nós tem [sic] que estudar. É o estudo que pode dar alguma coisa. Essa vida na agricultura é muito sofrida, não chove, o governo investe pouco, a gente não tem muita terra, às vezes o que planta é só para alimentar os animais. Veja só: esse ano foi até melhor do que o ano passado, conseguimos colher um feijão, vendemos e ainda deu para casa, mas ano passado foi uma decepção, vivemos do seguro safra. Ainda pensamos em pegar um empréstimo que o governo ofereceu, mas graças a Deus não precisou (informação verbal)126.

Desde cedo, Júnior teve que conciliar o trabalho na agricultura com seus estudos. Era uma vida árdua, conforme narrou. Contudo, a aridez do dia a dia era dissipada pelas mais diversas manifestações afetivas de seus pais para consigo e seu irmão. Ele relata que até hoje ele e o irmão pedem a benção aos pais, aos avós maternos e paternos que moram perto da sua casa. A união da família, não só a nuclear, mas a ampliada, parece ter sido muito importante para sua formação pessoal.

Lá em casa toda vida nós fomos muito unidos. Na hora da colheita a gente partilha com meus avós e eles também. Antes de serem aposentados, também trabalhavam com a gente, aí era todo mundo junto. Na época de fogueira, a senhora precisava ver

125 Entrevista realizada em setembro de 2017. 126 Entrevista realizada em setembro de 2017.

lá no meu interior, era tanta festança, parecia até que nós era tudo rico. Meus avós ajudam muito a gente, porque, como eles ganham o salário certinho todo mês, aí dá para planejar. O auxílio-transporte também ajuda demais, tem vezes que não vou mentir, não, não tenho dinheiro para a gasolina, aí aparece o dinheiro do auxílio. Como cai na minha conta, eu já deixo lá separado. Ah, e o do meu irmão também ajuda demais (informação verbal)127.

A socialização primária, no contexto de incentivo aos estudos e reconhecimento da importância deles para um crescimento pessoal e profissional, foi muito relevante para que Júnior continuasse a estudar, principalmente após as reprovações.

4.2.2 Estratégias de permanência e êxito no ensino superior: integração e afiliação à vida acadêmica

Júnior ingressou no curso de Matemática porque foi o curso que a nota do Enem lhe permitiu, mas confessou que não era sua primeira opção. Ele queria muito fazer Agronomia ou Medicina Veterinária, porque tinha gostado muito do curso técnico em Agropecuária cursado anteriormente.

O curso de Matemática para ele foi uma oportunidade de continuar estudando e tentar um emprego melhor. Disse que depois dos primeiros semestres foi gostando mais, no entanto tem muita dificuldade com as disciplinas pedagógicas como sociologia da educação, fundamentos históricos teóricos e metodológicos da educação, didática e história da educação no Brasil. As reprovações que teve ao longo dos seis semestres foram nessas disciplinas. Em virtude disso, atrasou a conclusão do curso em um ano.

Atribui as reprovações à sua dificuldade de compreensão textual, mas também à sua timidez. “Essas disciplinas são todas para fazer seminário, pra mim é a pior coisa que tem. Prefiro resolver cem problemas de matemática do que fazer um seminário” (informação verbal)128.

Ele ressalta que tais disciplinas têm muito texto para ler e que desde a educação fundamental não gosta muito de ler, ou melhor, “não entende muito o que lê”. Já entrou no curso de leitura ofertado pelos estudantes de letras que participam do Programa Institucional Básico de Iniciação à Docência (PIBID), mas por ser no segundo horário da noite, ficou muito tarde para voltar de moto para casa.

127 Entrevista realizada em setembro de 2017. 128 Entrevista realizada em setembro de 2017.

A percepção de Júnior sobre seus pontos frágeis no curso de Matemática ajuda a buscar estratégias para melhorar, mas ao mesmo tempo o coloca sempre em posição de dúvida se é a profissão de professor de matemática que ele quer seguir. Relatou que tem conversado muito com o coordenador do curso e que este lhe revelara que também não gostava muito de ler e o havia aconselhado a se dedicar mesmo à atividade de aprender matemática, as operações de cálculo, porque a leitura ele aprenderia com o passar do tempo.

Júnior se preocupa muito com a conclusão do curso, sua ansiedade maior é para conseguir logo uma colocação no mercado de trabalho e passar a ter uma renda própria. Na tentativa de agilizar o término do curso, ele está cursando nove disciplinas, sendo cinco do período regular do curso, uma que reprovou no semestre anterior e três adiantadas de semestres seguintes. Seus planos são deixar poucas disciplinas para o semestre que corresponde ao estágio curricular, a fim de conciliar a atividade de docência com algumas aulas particulares de matemática. “Muita gente lá do meu interior já me pede para eu dar umas aulas, mas não tenho muito tempo para isso. Minha vida é toda no relógio. Por isso que muitas vezes a senhora pede para eu ficar para aquelas reuniões dos auxílios, e eu não posso” (informação verbal)129.

Eu acordo às 5 horas da manhã, ajudo meus pais com as coisas todas e depois vou estudar alguma coisa daqui [IFCE], aí já é a hora do almoço. Como e já pegou a moto pra vir pra cá. Chego aqui, assisto aula à tarde todinha e emendo com a noite. Quando chego em casa, já é 9 horas da noite. Como acordo cedo, durmo umas 10 horas (informação verbal)130.

A rotina de escola, trabalho e estudos somada a uma responsabilidade desenvolvida desde criança permitiu inculcar uma disposição para organização e cumprimento do tempo. O estudar de forma autônoma, conciliando com os afazeres domésticos, foi também despertando uma maior consciência de seus limites e da elaboração de um projeto profissional, características fundamentais para uma integração a vida acadêmica131.

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