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A primeira categoria concebida na sistematização das informações investigou a organização do trabalho da redação onde foi possível muito claramente, observar o fenômeno da transição dos dois paradigmas de organização societária e suas marcas a partir da constituição do planejamento e das ações de cada edição do telejornal. Ou seja, na observação ficou evidente o reconhecimento da convivência simultânea entre elementos, valores e formas de organização do trabalho do período moderno, ou da Sociedade Industrial, com as marcas e valorações da sociedade contemporânea, também entendida como Sociedade da Informação, ou ainda Sociedade em Rede.

Além disso, o encontro entre estes “dois tempos” permitiu comprovar que o surgimento de uma nova etapa de organização societária, com seus valores e formas próprias,

138 Como já se pontuou, além das observações do dia de produção do telejornal, nas idas à redação em São Paulo,

também foram feitas entrevistas com os jornalistas que ocupam os cargos mais importantes na hierarquia do programa (Editor-Chefe e Apresentador), com o gerente de operações da emissora e com o coordenador do setor de Arte. As entrevistas foram feitas sempre num período considerado como intervalo durante a produção do telejornal, mais ou menos definido pelos jornalistas entre as 18h30m e 19h30m, a fim de não atrapalhar o andamento das atividades. Além dessas entrevistas feitas quando das visitas à redação da emissora em São Paulo, algumas informações também foram repassadas através de entrevista feita por telefone, ao longo da produção do trabalho com o Editor-Chefe do telejornal, Erick Brêtas.

não se dá com o rompimento completo com a anterior, mas do movimento de gradativo apagamento das marcas da primeira, dando lugar às novas possibilidades da segunda. E neste sentido, a prática na redação refletiu justamente essa hibridização de lógicas e processos, mostrando-se a partir de uma alternância contínua entre as marcas racionalizadas e axiomáticas da Sociedade Industrial, ou Moderna, e da sociedade contemporânea e seus processos de flexibilização e descentralização.

Já na chegada à redação, as primeiras características percebidas dizem respeito ao modelo industrial de organização, evidenciadas na verticalização e hierarquização dos processos na redação. As atividades de maneira geral são divididas por cargos e funções e há separação entre a concepção e execução das atividades, caracterizando um tipo de empresa fordista, conforme retrata Harvey (2001). Os jornalistas, que desempenham funções específicas, batem cartão para o cumprimento de uma carga horária fixa, abrindo os trabalhos do dia com a primeira reunião onde o jornal começa a ser planejado.

O “dia” na redação começa às 16h30m quando os editores do telejornal se reúnem para a “reunião de caixa” ou videoconferência em uma sala específica para tal. Nessa reunião, a equipe de editores de São Paulo, num primeiro momento, conversa com os jornalistas responsáveis pela cobertura das notícias nas 21 praças – emissoras afiliadas da Globo139 – espalhadas pelo país, para discutir as ofertas de matérias de cada uma para o telejornal. A comunicação é feita com as praças através de um aparelho de intercomunicação que permite a todos os editores escutarem, e eventualmente falarem, com todas as praças. Mas, para fins de organização do processo, quem representa a equipe de São Paulo nessa comunicação com as praças é o Editor-Chefe que vai chamando cada jornalista de cada estado do país para ouvir sua oferta de matéria para o dia que depois, se aceita, será gerada por um sistema de microondas via Embratel.

Nessa negociação das tarefas na reunião de caixa, no entanto, tem-se já um primeiro exemplo de que a estrutura hierárquica e vertical da redação, reconhecida nos cargos e funções dos jornalistas, convive com processos e situações de descentralização, horizontalização e virtualização, próprias da conectividade possibilitada pelas redes.

139 Das 21 praças, com quatro delas a comunicação é feita não por rádio, ou seja, não só por voz, mas com

imagem através da videoconferência. Isso porque estas quatro não são emissoras afiliadas, e sim emissoras de propriedade da Rede Globo. São elas: Brasília, Rio de Janeiro, Recife e Belo Horizonte.

Além dos cargos e funções muito bem definidos, a organização fordista pôde ser observada no fato de a estrutura de comunicação ser utilizada nos moldes de uma estrutura vertical e axiomática, ainda que tenham à sua disposição estruturas de redes que permitem a conexão de todos os participantes de diferentes localizações geográficas. Mesmo assim, nesse modelo comunicativo, só o editor-chefe fala com as praças, enquanto os jornalistas que estão em São Paulo apenas acompanham sem intervir na negociação com cada praça. E esta negociação, por sua vez, também se estabelece verticalmente na medida em que os jornalistas que são chamados em cada estado do país, precisam esperar sua vez – seu tempo e lugar – para negociar suas ofertas de matéria com o editor-chefe, numa dinâmica tipicamente fordista.

Mas essa dinâmica, onde se observa apenas o processo vertical e centralizador de trabalho e a estrutura das redes não é explorada, não se mantém nas demais instâncias da produção do telejornal. Em muitas delas, na verdade, o que se verifica é a convivência entre a linha de produção fordista com estruturas rizomáticas, produzindo uma alternância das duas formas. Um exemplo é o uso das redes de Internet e Intranet pelo editor-chefe nas reuniões da videoconferência. Enquanto comanda a negociação com as emissoras afiliadas, Brêtas (2007) utiliza-se das redes que oferecem conectividade e agilidade para a tomada de decisões editoriais na medida em que, conforme lembra Castells (2003), possibilitam a atualização contínua e a mudança rápida das operações em curso. No caso da Internet, a rede é utilizada para consultas aos principais portais de notícias como “O Globo”, “UOL News” e “BBC News” servindo de orientação e subsídio para a avaliação da pertinência dos assuntos ofertados pelas emissoras afiliadas. Ou seja, a conectividade à rede que descentraliza e virtualiza o processo produtivo, ajuda a nortear o julgamento do editor-chefe a respeito da pertinência das ofertas das praças e da seleção do que vale como notícia. E dessa forma, ajudando a tomar decisões agilmente sobre o que vai ou não entrar no telejornal, uma vez que este é sempre “menor” do que o número de matérias oferecidas para o dia.

Já na Intranet, ao abrir o arquivo do dia no software “inews”140 usado para edição do telejornal, o editor-chefe verifica o que o “Jornal Nacional” – editado e exibido antes do “Jornal da Globo” e a partir do Rio de Janeiro – tem em sua previsão para o dia e o que vale a pena continuar a repercutir. No arquivo do inews, enquanto negocia com as praças, o editor- chefe vai registrando cada assunto que virá de cada região do país, com previsão de duração e

140 Segundo o Editor-Chefe Erick Brêtas (2006), o inews é um software usado na maior parte das televisões do

formato narrativo da notícia, dando início ao processo de construção do “espelho141” do telejornal, isto é, do menu de assuntos previstos, a princípio, para a edição daquele dia. E apesar da dificuldade em delimitar preliminarmente a duração das matérias, o editor-chefe sempre põe no “espelho” do telejornal uma previsão de tempo tanto para o “VT”142, bem como para a “cabeça do VT”, ou seja, o texto que deverá ser lido pelo apresentador e a suposta ordem de apresentação ao longo dos blocos do telejornal.

Novamente aqui é possível reconhecer na adoção de processos padrão, características típicas da Sociedade Industrial na medida em que as tarefas tendem a ser racionalizadas, neste caso, a partir da medida do tempo (entendido aqui como duração) pré-determinado para as matérias do telejornal. Sobretudo, essa dinâmica torna-se interessante por conta da dificuldade de se alcançar este grau de racionalização em áreas como a produção de notícias que lidam com linguagens e subjetividades, além de variáveis na sua operacionalidade de tempo e espaço.

Com a previsão das ofertas das diferentes praças do país já negociadas, as possibilidades apontadas pelos sites de notícias e a consulta ao menu do “Jornal Nacional”, o editor-chefe dá início à reunião de pauta exclusivamente com a equipe de São Paulo. Além do editor-chefe, participam um dos apresentadores, o coordenador do setor de Arte da emissora e os editores definidos a partir de suas editorias específicas: Rio de Janeiro (1), internacional (2), esportes (1), política (1), economia (1), geral (2), São Paulo (1) e Recife (1)143.

Tanto a divisão do trabalho em editorias especializadas, quanto as próprias orientações em função disso, repassadas pelo editor-chefe aos editores, evidenciam os traços de uma estrutura fordista e taylorista de redação por conta da fragmentação e especialização das atividades, onde cada um é responsável por uma etapa do processo. Além disso, vê-se que os jornalistas, na individualidade de suas tarefas, têm o compromisso de garantir, sobretudo, as condições de exeqüibilidade do programa dentro do tempo e da velocidade exigida pelo sistema, movendo todos os seus esforços neste sentido. Dessa maneira, há, para cada

141 Nome técnico usado para designar a ordem de assuntos previstos para a edição do telejornal. Ver anexo B. 142 Abreviatura de vídeo-tape. Diz respeito ao material que será produzido pela equipe de reportagem.

143 Há uma série de departamentos e setores dentro da emissora que servem aos mais diferentes programas, bem

como dentro do jornalismo, há também muitos setores que trabalham para vários telejornais. Dessa maneira, neste trabalho, quando se fala do número de pessoas que compõem a equipe do “Jornal da Globo” está se considerando aqui apenas os 18 jornalistas – editores, apresentadores e comentaristas - que trabalham especificamente para este telejornal, ainda que se tenha em mente que para colocar o jornal no ar é preciso contar com o trabalho de uma série de pessoas de vários outros setores da casa.

jornalista, uma preocupação tanto com a execução da tarefa no seu particular como com o geral nessa grande empreitada de colocar o jornal no ar, onde a consciência de que uma etapa não cumprida significa o comprometimento de todo o programa.

Essa preocupação com o bom andamento e execução do programa pode ser claramente observada nas discussões operacionais e pragmáticas que tratam da elaboração de um planejamento que precisa ser necessariamente muito “amarrado” para dar conta de as matérias estarem a tempo e à hora de volta à redação. A atenção minuciosa nesse planejamento para que garanta eficácia e eficiência é tão grande que, muitas vezes, suplanta até mesmo as preocupações mais subjetivas como, por exemplo, as questões éticas e/ou de enfoque e formatação da matéria.

Assim, para que isso funcione dessa forma e as subjetividades sejam agilmente objetivadas, é possível imaginar que os jornalistas já tenham em mente estruturas e formatos de notícia “prontos”, ou seja, padrões de narrativa da história a ser contada e que, eventualmente se repetem, ainda que a matéria-prima – a informação – seja subjetiva. Esta observação reafirma o que diz Salomão (2003) a respeito da “linha de montagem” do telejornalismo, marcada pela divisão e compartimentalização das tarefas e pela conseqüente instituição de padrões de trabalho que conduzem sempre aos mesmos enfoques das matérias. Ou ainda ao que diz Virillio (1996) quando chama essa dinâmica de “industrialização da percepção”.

Esta forma de trabalhar que é nitidamente fordista (Harvey: 2001) também faz lembrar Marcondes Filho (2002), Neveu (2006) e Vizeu (2006) quando dizem que esse processo, apesar ser característico da Sociedade Industrial, parece não mudar com a reestruturação das organizações a partir da flexibilização oportunizada pelas novas tecnologias da sociedade contemporânea. Na verdade, os autores dizem que as redes, ao permitir mais agilidade e velocidade no trabalho da redação, agravam a situação dos jornalistas, porque passam a impor como valoração do profissional sua capacidade de executar tarefas e ser tecnicamente disciplinado para as incumbências que lhe são repassadas de maneira mais rápida possível. Essa aceleração dos processos acaba por diminuir a possibilidade de reflexão e de discussão sobre este fazer, como diz Marcondes Filho (2002), esvaziando os dilemas éticos da redação.

O disciplinamento técnico é evidenciado na fala do Editor-Chefe Erick Brêtas que reafirma a preocupação e a necessidade de que o telejornal, acima de tudo, “aconteça”, ou esteja pronto a tempo e a hora, e que os imprevistos sejam continuamente gerenciados da melhor forma possível. Para tanto, a sintonia com o setor de operações, que é responsável por garantir a infra-estrutura técnica do programa, precisa ser muito grande:

A gente faz o possível para o operacional dar sempre certo. A gente tem uma equipe de operações muito competente aqui. Às vezes você tem alguma coisa que foge do teu controle. Isso acontece numa margem de 10% (BRÊTAS, 2006).

Também o Chefe de Redação Mariano Boni diz que o compromisso coletivo da equipe é de, acima de tudo, colocar o jornal no ar de alguma maneira, ainda que, às vezes, não seja da forma como se previu:

Prendeu a fita na ilha de edição? Rompeu a fita antes de o jornal ir para o ar? Então isso atrapalha. Mas a notícia a gente dará. Se ele (telejornal) não tiver a imagem, (a notícia) ele vai dar (BONI, 2006).

Quando termina a reunião com a equipe de São Paulo, tem-se a primeira versão do espelho144 do telejornal do dia que servirá como guia no trabalho da redação, mas que, como todos já sabem, devido à série de acontecimentos possíveis, mudará ainda muitas vezes até a exibição do programa. Ao saírem da reunião, os editores, especializados em seus temas e tarefas, recebem a incumbência de gerenciar essas informações que se transformarão em notícias para o telejornal. E dentre elas, às que couber um investimento maior com captação de material fora da redação, os editores encomendarão a tarefa aos repórteres, a partir de um contato feito com outro setor dentro da redação. É a Central de Reportagem que gerencia as chamadas equipes de externa.

Observa-se, nesse caminho que a informação percorre, mais uma compartimentalização da estrutura bem como uma dissociação entre a concepção da tarefa e sua execução, própria da linha de produção que caracteriza empresas da era industrial.

Após o contato dos editores com os repórteres fica estabelecido o assunto, formato da matéria e duração e, sobretudo, a entrega do trabalho dentro do prazo, o dead-line145, integrando a série de etapas que marcam o trabalho em linha de montagem na redação. Na

144 Ver anexo B.

145 O dead-line é o termo técnico utilizado para designar tanto o prazo máximo para a chegada das matérias na

esteira desse processo de disciplinamento técnico e do imperativo de agilidade e velocidade que o telejornal exige, verifica-se que os critérios de noticiabilidade146 tendem a ser “automatizados” na tomada de decisões, apesar de sua natureza subjetiva. A esse respeito o editor-chefe Erick Brêtas diz:

Nossa operação é muito semelhante à operação de todos os outros telejornais. Primeiro você monitora todas as agências de notícias, todos os sites na internet. Você já sabe as ofertas das outras (emissoras) Globo do país e das nossas afiliadas. Precisa fazer uma avaliação crítica, uma peneira daquilo que você tem que fazer para o jornal e qual o cardápio. (...) O critério (de escolha) é uma mistura de fatores que aí tem que entrar nossa sensibilidade de acertar. Nossos fatores são a importância, a atualidade (BRÊTAS, 2006).

Na volta à redação, após a reunião de pauta, os editores assumem seus postos frente aos computadores. Apesar dos computadores estarem em rede interna, os editores sentam sempre, cada um no mesmo computador todos os dias. O que chama a atenção nesse momento é o fato de a redação do telejornal ser muito silenciosa. A comunicação entre os editores e o editor-chefe é quase que exclusivamente feita através do serviço de comunicação virtual, disponibilizado junto ao editor de texto do inews, além de e-mails147 e do uso também de um rádio – em seu formato semelhante a um celular – por todos os jornalistas e que é levado por eles em seus deslocamentos dentro da redação148.

Mais uma vez se trata de uma configuração que prevê essa mescla entre processos estandartizados, fragmentados em especializações, verticalizados e hierárquicos com elementos, marcas, estruturas e processos típicos de uma redação organizada a partir de uma estrutura de rede mais flexível como neste exemplo observado nas redes de comunicação interna do telejornal.

Cabe aqui retomar Machado (2003), quando trata justamente da existência de dois sistemas de trabalho na redação a partir da entrada das redes na redação. Enquanto num

146 O Editor-Chefe diz com muita segurança que o espelho do telejornal é construído a partir dos critérios de

importância e atualidade, como se estes fossem objetivos, mas tem certa dificuldade em objetivá-los quando perguntados sobre o que são.

147 Segundo o Editor-Chefe do telejornal Erick Brêtas, o uso da Intranet e dos recursos de comunicação entre os

editores foi adotado a partir da segunda metade da década de 90 na redação juntamente com a chegada do inews. Já os rádios ou intercomunicadores estão na redação há quatro anos e têm a função de dar mais agilidade ao trabalho.

148 Apesar da atenção contínua aos fazeres de todos os editores e do Editor-Chefe, durante a observação do

trabalho, na visita à redação, o uso do rádio e da comunicação por Intranet entre os jornalistas, naturalmente, não permitiu que uma série de informações e supostas discussões sobre o telejornal durante seu processo de fechamento pudesse ser captada pela pesquisadora.

modelo todas as etapas do sistema jornalístico de produção estão digitalizadas e organizadas sob a forma de rede, em outro, os produtos e programas jornalísticos se utilizam dos recursos e possibilidades da tecnologia de forma complementar, produzindo, entende-se, um modelo híbrido de sistema. E este é o caso da redação do “Jornal da Globo” que combina, enquanto meio de comunicação tradicional, recursos tecnológicos em rede em momentos e instâncias específicas, com a organização clássica de produção.

Ou seja, o telejornal opera a partir da simultânea adoção de estruturas de rede em combinação com estruturas racionalizadas e verticais, constituindo em última análise um típico exemplo da convivência e da transição entre os dois momentos de experiência em sociedade. Em conseqüência disso, o “Jornal da Globo” constitui-se assim de um encontro entre os valores da Sociedade Industrial – que por isso mesmo já não mais se apresenta na sua forma “pura” – em associação com inovações que, ainda que seminais, apontam para um movimento de adaptação em direção às demandas e marcas da Sociedade em Rede.

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