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Grunnskole

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3. UTVIKLING I TJENESTEPRODUKSJONEN

3.2. Grunnskole

participação em processos transnacionais, desde a economia à intimidade, tem estado associada a políticas de desenvolvimento turístico delineadas pelo Estado brasileiro, por vezes em circunstâncias de dependência financeira face ao exterior e num quadro de memórias e relações históricas que vêm sendo (re)configuradas desde a colonização. Há, portanto, alguns aspectos de economia política, muitas vezes descurados pela antropologia, que deverão ser considerados para melhor se compreender a emergência de Ponta Negra como “sítio de desejo” (Manderson e Jolly 1997) e espaço de transnacionalização da intimidade.

À semelhança de outros contextos do Nordeste brasileiro, o turismo na região natalense ganhou escala e projecção internacional ao longo da década de 1990,139 fruto de políticas destinadas a transformar o sector num importante eixo de crescimento económico e de desenvolvimento regional (Thevenin 2011). Estas políticas surgiram num ambiente de crescente abertura da economia nacional ao exterior, ao capital estrangeiro e à iniciativa privada (Araújo 1999). Os seus principais patrocinadores, ideológicos e financeiros, foram o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Além de financiamento a uma economia então muito dependente do crédito externo, estas organizações internacionais estimularam o investimento público em sectores potencialmente apetecíveis ao capital e contribuíram para a instauração de uma agenda ideológica neoliberal no Brasil. Considerando o campo do turismo, pode concluir-se que o Estado foi externamente induzido a despender avultados recursos financeiros na criação de condições atractivas para os investidores privados, aqueles que têm sido os maiores beneficiários das políticas públicas para o sector (Bursztyn 2003, Thevenin 2011).

No Nordeste brasileiro, o Programa de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur) foi particularmente relevante na internacionalização turística daquela que ainda é uma das regiões mais pobres do país. Através dele, os governos estaduais asseguraram financiamento para a construção de infra-estruturas e equipamentos (v.g. acessibilidades, redes de esgotos e electricidade) que viriam a revelar-se fundamentais para atrair grupos económicos e empreendedores nacionais e estrangeiros (Bursztyn 2003), empenhados em

                                                                                                               

139 Muito depois da costa paulista e do Rio de Janeiro, o primeiro e ainda hoje mais destacado pólo turístico

desenvolver projectos turísticos com capacidade para competir no mercado internacional. Enquanto contexto muito privilegiado em termos de investimento público, não é de estranhar a existência em Ponta Negra de uma extraordinária concentração de unidades de hospedagem – cerca de 350 equipamentos com aproximadamente 18.000 camas (Severo 2009: 31) – e o facto de alguns dos negócios aí presentes, sobretudo pequenas pousadas, bares e restaurantes, pertencerem a europeus. Paralelamente, não é de estranhar, também, a significativa presença de turistas e imigrantes da Europa, bem como os espaços sociais que se constroem entre as duas margens atlânticas, em particular no que diz respeito a experiências de intimidade e a projectos de aliança matrimonial.

As acções do governo do Estado do Rio Grande do Norte concretizadas no âmbito do Prodetur, a partir de 1994, foram decisivas no significativo desenvolvimento de Natal e da região potiguar como destino de lazer: o volume de visitantes quase duplicou entre 1995 e 2000, passando de 588.383 a 917.676 (Technum Consultoria 2002: 23)140. Em 2009, o número de visitantes ascendeu a 1.475.737 (Setur 2010), o que coloca a cidade no grupo dos quatro maiores destinos turísticos do Nordeste brasileiro, juntamente com Salvador, Fortaleza e Recife. O município de Natal foi o principal destinatário dos investimentos contemplados no programa. Além de mais equipamentos para o Parque das Dunas/Via Costeira e da construção de novas acessibilidades, duas outras intervenções viriam a revelar-se decisivas na atracção de fluxos turísticos, em especial para a zona sul da cidade: as obras no aeroporto Augusto Severo (Parnamirim, Natal), tendo em vista aumentar as

ligações aéreas internacionais, e o projecto de modernização urbana de Ponta Negra, através do qual foram canalizados para o bairro avultados investimentos na melhoria das suas infra-estruturas (Fonseca 2005). A área costeira correspondente à ZET-1, em especial a orla da praia, como já vimos, foi alvo de um controverso processo de ordenamento e requalificação territorial, preparando-a para receber mais visitantes.

Atendendo a que o avião assume um papel decisivo na expansão dos destinos de lazer para áreas do globo mais periféricas e no constante crescimento do turismo mundial (Azarya 2004),141 a ampliação e modernização do aeroporto foi essencial à constituição de                                                                                                                

140 O mesmo aconteceu com a contribuição do sector do turismo para o PIB do Estado (Technum Consultoria

2002: 23).

141 Pode mesmo dizer-se que o turismo de massas à escala global é indissociável do uso generalizado do

avião (Gmelch 2004: 7), impulsionado por tarifas de viagem mais acessíveis graças ao contínuo desenvolvimento tecnológico e organizacional da aeronáutica civil. Compreende-se, assim, por exemplo, que o novo aeroporto internacional de Natal (Aeroporto São Gonçalo do Amarante), a concluir até 2014 e planeado para ser um dos maiores complexos aeroportuários de cargas e de passageiros da América Latina, seja comummente apontado como um projecto decisivo para dar continuidade à tendência de crescimento do turismo no Nordeste brasileiro.

Natal como lugar de escala transatlântica. Na segunda metade dos anos de 1990, o fluxo total de passageiros (embarques e desembarques) passou de 610.844, em 1995, para 899.363, em 2000, representando um acréscimo na ordem dos 47% (Technum Consultoria 2002: 22). Nesse mesmo período, o número semanal de voos charter internacionais passou de um para oito (todos provenientes da Europa),142 ainda que dois deles tenham começado de facto só em 2003 (idem). Ao longo da primeira década do presente século, o movimento aeroportuário continuou a intensificar-se: 1.299.144 passageiros em 2005 e 2.415.833 em 2010 (Infraero 2011). Todavia, entre 2005 e 2010 registou-se um declínio de passageiros internacionais superior a 50% (idem)143, com o número de voos charter a diminuir para seis por semana em 2010: dois de Portugal, dois de Itália, um de Espanha e um da Holanda.

Geralmente apontados como um factor de massificação turística e de fomento do chamado turismo sexual (Carter e Clift 2000, Azarya 2004), os voos charter para Natal tiveram o seu início em finais de 1995, com os responsáveis políticos e demais agentes locais a privilegiarem quase sempre o estabelecimento de rotas aéreas com países europeus. Um ex-secretário estadual de turismo (62 anos) descreveu-me do seguinte modo a génese dos voos Natal-Europa e a forma como a sua organização e composição terá contribuído, logo ao início, para uma forte presença de turistas masculinos italianos em Ponta Negra:

Existia um director comercial da Varig que era, coincidentemente, aqui do Rio Grande do Norte. Esse director teve um desentendimento dentro da directoria e ele negociou a saída dele da directoria e foi para Roma, para ser director comercial da Varig em Roma. E este homem na Europa… Ele era um cara de visão, uma visão diferente da Varig, e ele foi a primeira pessoa que viu o Nordeste brasileiro; até pelo facto dele ser do Nordeste. Achou que o mercado Nordeste seria um destino turístico para o mercado europeu, entendeu. E ele começou e lançou o primeiro voo directo. Era Milão-Natal-Fortaleza. Foi ele a primeira pessoa a trabalhar esse destino de turismo para o Nordeste. E daí a coisa, aquela história foi indo. […] Nos anos 90, em 1992/93, quando foi inaugurado este voo da Itália para Natal (era um voo regular da Varig que fazia Milão-Natal) começou a ter um grande fluxo de italianos. Eu me lembro de existir uma operadora italiana que trabalhava muito com pessoal de cerâmica, de olaria, de fábrica de tijolo, no centro da Itália. Então, essa região… como teve muito esse cliente, era um cliente especificamente homem e aí começou um ensaio dessa parte de turismo sexual. […] Depois, esse voo passou a ser um voo charter, operado pela companhia chamada Dimensione Turismo. Esse voo concentrava muitos                                                                                                                

142 Dois de Itália, dois da Dinamarca, um da Suécia, um de Espanha, um de Inglaterra e um da Holanda. Por

altura da transição do milénio, Natal recebia ainda mais três voos regulares semanais oriundos do continente europeu (dois de Portugal e um de Espanha) e, da América do Sul, um voo regular diário do Chile e três semanais da Argentina (Technum Consultoria 2002: 22).

143 Em 2005 o número de passageiros internacionais atingiu os 245.094, enquanto que em 2010 cifrou-se

apenas em 118.055. Se considerarmos que a maioria destas pessoas são turistas e provêm sobretudo da Europa, a crise internacional, que atingiu com particular severidade o continente europeu, e a significativa valorização do real face ao euro poderão ser invocadas como razões muito influentes neste decréscimo da procura externa de Natal nos últimos anos.

passageiros na região de Ponta Negra. E aí começou, realmente... como era uma coisa muito mais massificada, começou a criar um bolsão de turismo sexual nessa região de Ponta Negra. Isso aí foi em finais da década de 90.

Como é dito no excerto, a primeira ligação charter semanal, ainda activa, foi entre Natal e Milão. A operadora, a Dimensione Turismo, é uma agência de viagens italiana que, no seu site oficial, aponta Natal como o marco da sua ascendência no mercado italiano: “O Brasil foi o destino que deu início ao nosso negócio há mais de vinte anos, mas, em particular, foi a ‘descoberta’ de Natal que permitiu impor-nos no mercado turístico italiano, de modo a ser-nos reconhecida a posição de liderança” (www.dimensioneturismo.it).144 Fazendo referência à organização do voo charter inaugural, é ainda destacado o contributo para o desenvolvimento turístico local: “Ao iniciar uma corajosa operação charter activa há cerca de 10 anos, contribuímos grandemente para o desenvolvimento turístico desta localidade balnear, acreditando nas suas potencialidades receptivas” (idem).145 Desde 2003, a agência também é proprietária de uma grande unidade hoteleira (próximo do Morro do Careca), que recebe, essencialmente, turistas provenientes de Itália. O seu papel pioneiro parece ter funcionado como catalisador inicial da presença italiana em Ponta Negra e importante referência da abertura transatlântica do lugar à Europa.

A par das infra-estruturas receptivas e das ligações aéreas, o forte crescimento do turismo em Natal foi também impulsionado por políticas de city marketing (Fonseca 2005, Santos 2010), desenvolvidas pelo governo do Estado do Rio Grande do Norte (através da Setur-RN e da sua subsidiária Emprotur) em articulação e complementaridade com a autarquia local, nomeadamente com a Secretaria Municipal de Turismo e Desenvolvimento Económico (Seturde). Os alvos prioritários destas políticas promocionais têm sido o mercado interno, alguns vizinhos da América do Sul e países europeus como a Itália, Portugal, Espanha, Holanda e a Suécia. As acções iniciais mais relevantes de divulgação transnacional de Natal como destino de férias datam do princípio da década de 1990, destacando-se a realização dos primeiros Famtour decison makers146, o financiamento de anúncios exibidos na televisão italiana, as campanhas de publicidade em revistas da Editora Abril (v.g. Veja, Playboy) e vários roadshows para operadores e agentes de viagens                                                                                                                

144 “Il Brasile è stata la destinazione che ha dato il via alla nostra attività più di vent’anni fa, ma in particolare

è la “scoperta” di Natal che ha permesso di imporci sul mercato turistico italiano tanto da riconoscerci la posizione di leader”.

145 “Nell’avviare una coraggiosa operazione charter ormai attiva da circa 10 anni, abbiamo contribuito

fortemente allo sviluppo turistico di questa località balneare credendo nelle sue potenzialità ricettive”.

146 Famtour é uma abreviatura para familiarization tours: eventos organizados para dar a conhecer in loco o

nas cidades italianas de Roma, Milão, Turim, Bolonha, Mestre, Nápoles e Florença (Emproturn 1994).

Desde então, o marketing turístico tem vindo a intensificar-se, com a constante presença de órgãos oficiais natalenses em feiras de turismo147 e o investimento em publicidade nos meios de comunicação social tradicionais148 e nas novas tecnologias de informação. Estas e as demais acções para dar a conhecer o destino e captar visitantes parecem ter subjacentes três grandes orientações: aproveitar melhor o forte potencial de consumo turístico interno, consolidar os fluxos externos mais antigos, provenientes da área mediterrânea, da Escandinávia e da Argentina, e atrair novos países emissores, casos da Alemanha, do Chile, da França e, mais recentemente, da Rússia.

Na construção da identidade turística de Natal, os responsáveis locais seguiram de perto o quadro estratégico da Embratur. Este organismo federal de referência em políticas de promoção do sector contribuiu, desde finais da década de 1960 e durante largos anos, para a difusão de um discurso do Brasil como destino exótico e sensual, dominado por imagens do Carnaval, das praias e das mulatas de biquíni, que rapidamente se tornou na linguagem publicitária privilegiada de muitas das actividades públicas e privadas do trade turístico (Alfonso 2006). O referente central desta linguagem era a corporeidade da mulher mestiça, intensamente sexualizada nos mecanismos de biopoder (sobretudo discursivos) do colonialismo (Gomes 2010), e construída como ícone pós-colonial de uma nação que procurava encontrar na mestiçagem a sua grande síntese identitária. A Embratur, todavia, não criou nada de substancialmente novo: nem identidade(s), nem desejos transnacionais. Como constatámos em capítulo anterior, desde a sua descoberta que o Brasil é uma geografia mapeada por “mitos de origem” em torno de uma sexualidade alegadamente extraordinária (Parker 1991) e alvo do desejo europeu.

Mais do que “formadora de imagens da nação brasileira”, como a apresenta Alfonso (2006), a Embratur foi uma caixa-de-ressonância de elementos da identidade nacional já estabelecidos.149 Quando muito produziu e difundiu um ordenamento semiótico para o turismo partindo de conteúdos culturais que já circulavam em vários campos (v.g.                                                                                                                

147 No plano internacional destaca-se a presença assídua em grandes eventos europeus, como a Feira de

Viagens Mundo Abreu (Portugal), a Feira Internacional do Turismo (Espanha), a Borsa Internazionale di

Turismo (Itália) e a World Travel Market (Inglaterra).

148 Em 2010, por exemplo, a Emprotur estabeleceu uma parceria com a revista francesa Biba Magazine,

tendo em vista publicitar as praias do Rio Grande do Norte.

149 Referindo-se especificamente à figura da mulata, Corrêa (1996) destaca a não existência de

descontinuidades significativas entre a sua representação nos discursos médicos, literários ou carnavalescos do passado e a imagem mercantilizada da “mulata globeleza”, apropriada no passado pelo próprio Estado como significante da imagem turística do país.

artes) da sociedade brasileira. Como, justamente, destaca Gomes (2010), ao disseminar representações do Brasil como “paraíso das mulatas”, aquele organismo oficial não fez mais que reafirmar a identidade brasileira esboçada a partir das ideias de Gilberto Freyre sobre a mestiçagem e a sexualidade, e agrupar algumas manifestações do imaginário colonial que apresentavam a América Latina como uma espécie de paraíso terrestre. Deste modo, e partilhando as observações de Blanchette e Silva (2010), parece-me exagerado e simplista depreender-se – como o fazem, entre outros, Bem (2005) e Alfonso (2006) – que a estreita associação do Brasil à sexualidade e a consequente inserção do país nas rotas internacionais do chamado turismo sexual resultou, fundamentalmente, das campanhas promocionais da Embratur. Embora estas campanhas possam ter contribuído para tal, existem muitos outros “factores estruturais e ideológicos” a considerar150 (Blanchette e Silva 2010) e é preciso não esquecer a arqueologia dos processos de erotização do Brasil, bem como os múltiplos actores e agentes que contribuíram para a projecção internacional da brasilidade como sensualidade.

O Rio de Janeiro foi a principal ecologia de incubação de um marketing turístico fortemente marcado pelas intersecções de género, “raça” e sexualidade geradas no quadro dos impérios coloniais transatlânticos (Stolke 2006). Em 1982, a revista de divulgação internacional Rio, Samba e Carnaval, na qual era constante a presença de imagens de mulatas, apresentava a metrópole carioca nos seguintes termos: “A cidade, como virgem transtornada pelo cio, enlouquece, cai no desvario, na alegria, na euforia, no desatino, num vôo-mergulho de vertigem, sofrimento, gozo e êxtase” (in Alfonso 2006: 122). Da cidade maravilhosa, e com maior ou menor influência da Embratur, a publicitação sexualizada de destinos de lazer estendeu-se ao longo dos anos de 1980 e 1990 a muitos outros contextos balneares da costa brasileira, a maior parte deles situados no Nordeste brasileiro. No caso de Natal, a sua construção como “cidade do prazer” ter-se-á iniciado, embora de forma tímida, com a presença militar americana durante a Segunda Guerra Mundial, atingindo, mais tarde, uma expressão verdadeiramente icónica nos outdoors do Motel Tahity, ainda antes da chegada do turismo de massas:

Quando na segunda metade dos anos oitenta, o Motel Tahity entra em decadência e a sua publicidade agressiva desaparece das ruas da cidade, a matriz discursiva de Natal como cidade do prazer já havia sido incorporada aos discursos de publicitários, administradores e empresários do sector turístico. A publicidade promocional da cidade, mesmo a patrocinada por órgãos oficiais, apelava para as tradicionais ilustrações de areias, dunas, mar azul e corpos femininos (Júnior 1997: 183).

                                                                                                               

A iconografia da “praia global” (Löfgren 1999) e, em particular, os quatro “S’s” (sun, sea, sand, sex) de que nos fala Crick (1989) parecem ter configurado as primeiras coordenadas simbólicas dos discursos e das práticas de formatação de Natal como “produto” de lazer. As iniciativas locais procuravam, amiúde, reproduzir muito daquilo que era feito no Rio de Janeiro151, a grande referência na internacionalização do turismo brasileiro. De modo não necessariamente intencional, a linguagem de promoção da identidade turística da cidade, tal como aconteceu à escala nacional, acabou por reflectir valores dominantes da masculinidade e da (hetero)sexualidade, orientando-se, sobretudo, para o olhar (gaze) masculino, branco e heterossexual (Pritchard e Morgan 2000a). Com alguma frequência, nessa linguagem foram reproduzidas velhas “lógicas culturais do desejo” (Constable 2003), forjadas na economia política colonial e pós-colonial152, e à luz das quais o fascínio erótico-sexual do homem branco ocidental pela mulher mestiça dos trópicos, e vice-versa, é assumido como princípio axiomático. Em simultâneo, foram também explorados antigos desejos e vínculos (inter)culturais na definição geográfica da internacionalização turística de Natal, privilegiando-se a Europa, berço das ex-potências coloniais, nas acções de divulgação externa da cidade e na captação de voos charter, como atrás constatámos. Sobre o Brasil e as suas conexões internacionais é caso para se reproduzir o que Quiroga (in Altman 2001: 41) refere para uma outra antiga colónia da América Latina: “Cuba has always been linked to the outside world by the threads of desire”.

Na perspectiva de muitos dos agentes políticos natalenses, as estratégias de desenvolvimento do turismo seguidas no passado terão sido as grandes responsáveis pela atracção de fluxos de visitantes cujo perfil consideram indesejado. Alegadamente, agora a principal preocupação passa por refundar a imagem da cidade, na expectativa de fomentar o turismo interno e em família, como se pode constatar nas palavras do secretário da Seturde do município de Natal, Tertuliano Pinheiro:

                                                                                                               

151 Enquanto praia carioca de grande destaque, Copacabana, em particular, foi vista como um exemplo a

seguir pelo trade turístico natalense. Aliás, a iniciativa pública que estimulou definitivamente a expansão do turismo em Natal (projecto Parque das Dunas/Via Costeira), como já foi dito, tinha subjacente a ambição declarada de criar uma espécie de Copabana local. Estes processos de mimetização produziram- se a várias escalas e envolveram diversos agentes, desde os órgãos com responsabilidade política às actividades privadas. Ainda em 2010, durante o trabalho de campo em Natal, encontrei à venda um cartão postal da praia de Ponta Negra que é, claramente, uma adaptação de outro que representa a praia de Copacabana (v. Alfonso 2006: 126). Em ambos aparecem quatro jovens mulheres de biquíni deitadas lado a lado na areia da praia. Entre um e outro, à excepção do cenário de fundo, tudo é rigorosamente igual.

152 No contexto das relações coloniais e pós-coloniais constituíram-se configurações de poder nas quais

foram moldados determinados regimes de sexualidade (Parker 2000a) e lógicas de desejo que, actualmente, ainda proporcionam possibilidades e influenciam decisões relativas ao modo como as pessoas gerem a sua intimidade.

Acho que o poder público teve tanta preocupação e boa vontade em atrair o turista, que acabou não procurando qualificá-lo. E aí passamos a receber um visitante que não nos interessava, aquele que vinha sozinho interessado em mulheres. Só agora entendemos e identificamos isso e estamos começando a rearrumar […]. Estamos voltando nosso trabalho para o público interno, para a família brasileira que quer vir visitar Natal” (Turismo – Novo Jornal 2011: 15-16).

Neste discurso é feita, implicitamente, uma avaliação de pendor moralista com base na qual se definem turistas indesejados (homens estrangeiros que não vêm em família) e turistas desejados (os nacionais, em especial os que chegam em família), deixando antever que a prostituição, tal como existe em Ponta Negra, é uma questão que, no essencial, se resume apenas e só à presença dos gringos. Ao mesmo tempo, é idealizada uma visão do turismo impregnada dos valores normativos da (hetero)sexualidade associados à moral familista. Esta visão encontra terreno deveras propício para se impor e legitimar em contextos muito marcados por pânicos morais associados ao turismo sexual,

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