No campo científico arqueológico, no Brasil, quando fora criada a Tradição Itaparica, além de pesquisadores brasileiros, atuavam agentes (arqueólogos) estrangeiros, vinculados a instituições estrangeiras e nacionais, marcadamente os membros da “Missão Francesa” ou “Escola Francesa” e da “Escola Americana”, que desempenhavam um papel relevante na realização de pesquisas e na formação de arqueólogos brasileiros. A “Missão arqueológica francesa” fora iniciada por Joseph Emperaire e por sua esposa Annette
Laming-Emperaire, que continuou pesquisando na América do Sul após a morte de seu
marido, na Patagônia (KERN, 2007). No entanto, antes da realização de pesquisas pelo casal de arqueólogos mencionado, a amizade entre o arqueólogo francês Paul Rivet, diretor do Musée de l’Homme de Paris, e o arqueólogo brasileiro Paulo Duarte concorreu para a criação do Instituto de Pré-História da USP (Universidade de São Paulo). A vinda de Joseph Emperaire foi possibilitada por esta instituição (PROUS, 1996b). Paul Rivet, nos anos 1930, além de atuar na criação de um instituto na USP também esteve vinculado ao Museu Nacional, no Rio de Janeiro, na companhia do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss. Os primórdios das missões francesas no Brasil são mencionados por Luis de Castro Farias (1993, p. 3) do seguinte modo:
Claude Lévi-Strauss tinha o patrocínio ostensivo de Paul Rivet que, em carta a Heloisa Alberto Torres de 11 de abril de 1937, agradece a acolhida afetuosa que esta proporcionara ao seu “excelente amigo Lévi-Strauss” e fala do projeto da missão ao Brasil, “que juntos tinham estabelecido em Paris”.
Esta conjuntura institucional marcada pela colaboração entre agentes e instituições francesas e brasileiras, na constituição de pesquisas no campo científico da arqueologia e antropologia, desde os anos 1930, concorreu para que a expressão “Escola Francesa” fosse instituída na arqueologia, e de algum modo, mais marcadamente associada aos arqueólogos Annette Laming-Emperaire e Joseph Emperaire. No início dos anos 1960, Laming- Emperaire contribuiu com a formação da primeira geração de arqueólogos brasileiros (PROUS, 1996b), sendo uma das principais agentes científicas vinculadas a uma identidade nominativa institucional cunhada no termo “Escola Francesa”. De acordo com esta expressão identitária institucional no campo da arqueologia brasileira, poder-se-ia encobrir uma distinção de ofício e de concepções teórico-metodológicas transmitidas por estes arqueólogos que estariam formando alunos brasileiros, pois a generalização nos termos de uma escola representativa do “pensamento arqueológico francês” minimizaria as particularidades da formação científica destes pesquisadores mencionados. Neste sentido, Arno Alvarez Kern67, ao refletir acerca da produção textual de Annette Laming-Emperaire, especialmente sobre a sua tese de doutorado68, cujo tema é a arte rupestre, considera que a interpretatividade dos documentos arqueológicos se constituía numa demarcação diferenciada de posicionamento teórico-metodológico desta arqueóloga francesa, visto que:
Uma tomada de decisão muito importante e que caracteriza o trabalho de pesquisa realizado, foi a ênfase em um método de interpretação fundamentado em documentos arqueológicos, e não nas comparações etnográficas, até então muito usuais. Esta direção da investigação pareceu abrir algumas vias novas à pesquisa, tendo em vista a busca de uma significação para o objeto de estudo, a arte pré- histórica (KERN, 2007, p. 93).
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Arqueólogo que foi aluno de Annette Laming-Emperaire no curso “Técnicas Arqueológicas Aplicáveis a Sítios Pré-Cerâmicos”, ministrado no Sambaqui do Centenário e no Museu de Arqueologia e Artes Populares de Paranaguá. Posteriormente Arno Alvarez Kern continuou seus estudos de doutorado em Arqueologia na
École de Hautes Études em Sciences Sociales (EHESS, Paris), sob a orientação de Annette Laming-
Emperaire, tendo concluído a tese em 1981, sob a orientação de Paul Courbin (KERN, Arno Alvarez. As práticas e as reflexões arqueológicas de Annette Laming-Emperaire: uma nova “Missão Francesa” no Brasil. Arqueologia, Curitiba: Universidade Federal do Paraná - CEPA, v. 4, p. 87-99, 2007. Revista do Centro de Estudo e Pesquisas Arqueológicas).
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A tese foi defendida em 1957, na Universidade de Paris (Sorbonne), sob a orientação de Leroi-Gourhan que, segundo Prous revolucionou “os estudos sobre arte rupestre no Velho Mundo” (PROUS, André. Arqueologia Brasileira. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1992. p. 13).
O arqueólogo André Prous, que foi aluno e colaborador de Annette Laming- Emperaire, tendo participado da primeira campanha da Missão de Lagoa Santa, em 1971, esclarece que o termo “Escola”, adotado tanto para o grupo de arqueólogos franceses quanto norte-americanos, pode incorrer em generalizações no que diz respeito à formação dos mesmos (orientação teórica e metodológica), na medida em que:
Muitos métodos (ou melhor: preocupações) apresentados no Brasil como característicos “da escola francesa” se manifestaram em outros países e não são obrigatoriamente compartilhadas por todos os arqueólogos da França, (o mesmo podendo ser dito do que se costuma chamar, no Brasil, “escola americana”: com certeza, B. Meggers não representa senão uma das múltiplas tendências da arqueologia americana ...) (PROUS, 1996b, p. 141).
As pesquisas realizadas pela Missão Arqueológica de Lagoa Santa (1971/1977), coordenadas por Annette Laming-Emperaire, também culminaram na expansão de ações institucionais ao ser fundado o Setor de Arqueologia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Em 1975, André Prous que se dedicava ao ensino de Pré-História na USP ministrou um curso de extensão na UFMG e em seguida foi contratado por esta instituição (PROUS, 1996b). Annette Laming-Emperaire e Joseph Emperaire também realizavam pesquisas no estado do Paraná desde os anos 1956 69, contribuindo para a consolidação do CEPA/UFPR (Centro de Ensino e Pesquisas Arqueológicas / Universidade Federal do Paraná), fundado em 1956 por José Loureiro Fernandes (CHMYZ, 2007). Nos anos 1964, neste mesmo centro de pesquisa, a convite do seu fundador, os arqueólogos norte- americanos Betty Meggers e Clifford Evans (1970) conduziram um seminário-treinamento
sobre teoria e método de análise quantitativa da cerâmica70. Segundo as próprias
observações desta arqueóloga, acerca dos temas de interesse no campo científico da arqueologia, desde os anos 1950 as pesquisas estavam centradas nos sambaquis e em abrigos sob rocha (MEGGERS, 2007). Deste modo, eram evidenciadas lacunas, até aquele momento, no que diz respeito a estudos mais especificamente voltados para a cultura material constituída pela indústria lítica e por vestígios cerâmicos. Se por um lado, Betty Meggers e Clifford Evans se concentravam nos estudos sobre cerâmica, por outro, Annette Laming-Emperaire, nos anos 1966, realizou um seminário sobre indústria lítica, que de
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Após a morte de Joseph Emperaire, em 1958, Annette Laming-Emperaire continuou participando de pesquisas e cursos promovidos pelo CEPA/UFPR até os anos 1973.
70
Os recursos para a realização desta atividade foram obtidos com a Universidade Federal do Paraná, com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e através da Fulbright Comission (MEGGERS; EVANS, 1970).
acordo com Prous (1992, p. 13) “fica como referência para o assunto entre os arqueólogos brasileiros”. Os agentes científicos norte-americanos e franceses, a partir de seminários demarcavam os novos objetos de estudos, a saber, os vestígios cerâmicos e os instrumentos líticos e, ainda, contribuíam com a configuração inicial de um espaço de produção autônomo no campo científico da arqueologia brasileira entre os anos 1960 e 1970. É neste contexto institucional acadêmico, que antecede e se prolonga ao período da criação da Tradição Itaparica (final dos anos 1960 ao início dos anos 1980), que vem transcorrer o exercício do ofício de arqueólogos franceses e norte-americanos, responsáveis pela formação de arqueólogos brasileiros quando da instalação de instituições de ensino e incremento de centros de pesquisa.